Amor não era o plano
36 Aniversário
Renesmee
A casa de Billy Black estava muito mais cheia do que eu imaginava quando minha mãe comentou que passaríamos o dia em La Push. A comemoração tinha começado ainda durante a tarde e se espalhado rapidamente entre a sala, a varanda e o quintal, onde algumas mesas haviam sido organizadas para acomodar uma família que parecia crescer a cada carro que estacionava diante da propriedade. Havia música, comida suficiente para alimentar metade da reserva e conversas acontecendo por todos os lados. Billy parecia satisfeito no meio daquela confusão, recebendo cumprimentos e reclamando toda vez que alguém mencionava sua idade, embora o sorriso entregasse que estava gostando de ter a casa cheia. Charlie e Renée estavam ali desde cedo, e meu avô passava boa parte do tempo ao lado do aniversariante, conversando com a intimidade de quem tinha histórias demais acumuladas ao longo dos anos. Minha mãe também estava por perto, assim como Alice, Emmett e meu pai, e foi impossível não pensar que aquela reunião tinha colocado pessoas demais das duas famílias no mesmo lugar justamente quando nossas vidas estavam ligadas da maneira mais complicada possível.
Os amigos mais antigos de Billy ocupavam boa parte da varanda. Sam e Embry conversavam com Solomon perto da churrasqueira, enquanto Paul circulava entre eles e Rachel, aparecendo de tempos em tempos para levar alguma coisa à esposa ou simplesmente interromper a conversa dela. Rebecca ajudava Sarah com os convidados, e Leah Clearwater também tinha vindo. Ela havia chegado com Ephraim e uma explicação cuidadosamente preparada para a ausência de Claire, dizendo que a filha não estava se sentindo bem e preferira ficar em Seattle. Ninguém fez perguntas, mas também ninguém pareceu acreditar. Claire não estava doente. Claire sabia que eu estaria ali. Depois de tudo que tinha acontecido na festa dela, eu não podia culpá-la por não querer dividir o aniversário do avô comigo, principalmente enquanto ainda permanecia ao lado de Ethan. Talvez, para Claire, olhar para mim fosse lembrar de tudo aquilo que ainda tentava negar.
Belinha e Ephraim, por outro lado, pareciam completamente alheios aos problemas dos adultos. Observei os dois brincando perto de uma das árvores no quintal, correndo atrás de uma bola enquanto discutiam alguma regra que mudava a cada dois minutos. Belinha gesticulava com a autoridade de quem tinha certeza de estar certa, e Ephraim aparentemente havia decidido que concordar era mais fácil do que tentar vencê-la. Sorri quando minha filha pegou a bola e saiu correndo, enquanto ele disparava atrás dela reclamando que aquilo não valia.
– Eles se deram muito bem – comentou Leah ao se aproximar de mim com uma taça de suco nas mãos. Ela acompanhou meu olhar até as crianças e deixou escapar um sorriso discreto. – Ephraim não costuma dividir nada com tanta facilidade. Principalmente brinquedos.
– Belinha também não é exatamente conhecida pela generosidade quando existe uma bola envolvida – respondi, vendo os dois voltarem a discutir antes de caírem na risada. – Acho que o sangue falou mais alto. Eles nem entendem direito o que significa serem irmãos e já parecem ter decidido que gostam um do outro.
A expressão de Leah mudou ligeiramente. Ela continuou olhando para o neto por alguns segundos antes de suspirar.
– Talvez seja justamente por serem crianças. Eles ainda não aprenderam a complicar aquilo que é simples.
Entendi imediatamente que ela não estava mais falando apenas de Belinha e Ephraim.
– Claire não veio por minha causa, não foi?
Leah não tentou me oferecer outra versão.
– Você foi parte do motivo. Ethan foi o restante. Ela sabe que ninguém aqui está disposto a fingir que concorda com a decisão dela de continuar com ele e não queria passar o aniversário inteiro ouvindo opiniões que já conhece.
Assenti devagar. Embora uma parte de mim ainda sentisse raiva ao lembrar que Claire tinha escolhido acreditar no homem que havia mentido para nós duas, eu também sabia que julgá-la seria fácil demais.
– Eu prefiro não condená-la por isso. – Cruzei os braços enquanto observava as crianças. – Passei seis anos acreditando em Ethan. Ignorei coisas que hoje parecem óbvias porque confiava nele. Claire acabou de descobrir que o casamento inteiro pode ter sido construído sobre uma mentira. Talvez acreditar nele seja a maneira que encontrou de não admitir que tudo desmoronou.
Leah virou o rosto para mim e me analisou por alguns segundos.
– Você teria bons motivos para estar com raiva dela.
– Tenho raiva da situação. De Claire, não sei se consigo. Ela não sabia da minha existência mais do que eu sabia da dela.
Leah tomou um pequeno gole antes de voltar a olhar para Ephraim.
– Mesmo assim, gostaria que minha filha enxergasse o erro que está cometendo antes que Ethan faça alguma coisa que ela não consiga consertar. Ele já mostrou do que é capaz e Claire continua tratando qualquer tentativa de fazê-la enxergar isso como um ataque ao casamento.
Havia preocupação verdadeira em sua voz, não apenas irritação. Naquele momento, não vi a ex-esposa de Jacob nem a mulher que havia sido enganada pelo próprio genro. Vi apenas uma mãe preocupada com a filha.
– Talvez ela precise chegar a essa conclusão sozinha – respondi com cuidado. – Se todo mundo pressionar ao mesmo tempo, existe a possibilidade de ela se agarrar ainda mais a ele só para provar que não está errada.
Leah soltou uma respiração lenta.
– Jacob diria que isso é estupidez.
Um sorriso escapou de mim.
– Jake tem uma relação complicada com qualquer decisão que não seja a dele.
Leah virou o rosto imediatamente.
– Jake?
A maneira como repetiu o nome me fez perceber tarde demais a intimidade que havia deixado escapar.
– Ele pediu que eu parasse de chamá-lo de senhor Black – expliquei, tentando soar indiferente.
Um pequeno sorriso apareceu nos lábios dela.
– Imagino que tenha pedido.
Antes que eu pudesse descobrir o significado daquela resposta, Rachel surgiu ao nosso lado carregando um prato e uma expressão preocupada.
– Ele não ligou?
Olhei para ela sem entender.
– Quem?
Rachel me lançou um olhar que praticamente dizia que eu sabia perfeitamente de quem estava falando.
– Jacob. Já passou do horário que ele disse que chegaria.
Peguei o celular dentro da bolsa e conferi a tela, embora soubesse que não havia recebido nenhuma ligação.
– Não. Também não mandou mensagem.
Leah franziu a testa e olhou de mim para Rachel.
– Espera. Jacob vem?
– Pelo menos foi o que disse – respondeu Rachel, antes de voltar a atenção para mim. – Você falou com ele depois daquela ligação?
– Não. Ele confirmou que viria e não tocamos mais no assunto.
A surpresa de Leah aumentou.
– Meu ex-marido não coloca os pés nesta casa há quatro anos. Você está dizendo que simplesmente ligou e conseguiu convencê-lo a aparecer no aniversário do Billy?
O modo como ela formulou aquilo me deixou desconfortável.
– Não foi exatamente assim. Rachel me pediu para conversar com ele. Eu falei o que pensava e Jake decidiu vir. Não fiz nada extraordinário.
Rachel soltou uma risada curta.
– Eu passei quase meia hora tentando convencer aquele cabeça-dura e recebi um não antes mesmo de terminar. Você ligou e ele mudou de ideia. Permita que eu considere um pouco extraordinário.
– Talvez ele já estivesse pensando em vir e só precisasse de um empurrão.
– Claro – respondeu Rachel, com uma expressão que demonstrava não acreditar nem um pouco na própria concordância.
Leah ainda me observava de uma maneira que começava a me deixar consciente demais de mim mesma, mas, para minha sorte, Belinha apareceu correndo naquele momento, seguida de Ephraim. Minha filha segurou minha mão e começou a explicar alguma discussão sobre quem tinha vencido a brincadeira, enquanto o menino contestava cada palavra. Aproveitei a distração para guardar o celular novamente e tentei me convencer de que não havia motivo para ficar preocupada.
Jacob era um homem adulto. Se tivesse mudado de ideia, não devia explicações a mim.
Ainda assim, alguns minutos depois, enquanto Rachel voltava para perto de Paul e Leah levava Ephraim para falar com Billy, minha mão encontrou o celular outra vez.
Nenhuma mensagem.
Olhei discretamente para a entrada da propriedade.
Talvez tivesse surgido algum problema na empresa. Talvez ele tivesse recebido uma ligação urgente. Talvez simplesmente tivesse decidido que quatro anos de mágoa não podiam ser resolvidos porque uma mulher que conhecia havia poucas semanas pediu que ele tentasse.
Todas eram possibilidades razoáveis.
O problema era que Jacob tinha me dado sua palavra.
E, pelo pouco que eu já conhecia daquele homem, ele podia ser arrogante, controlador e insuportavelmente convencido, mas não parecia o tipo que dizia que faria alguma coisa sem ter intenção de cumprir.
– Pode ter acontecido alguma coisa – murmurei mais para mim mesma enquanto guardava o celular novamente.
Só não consegui impedir meus olhos de voltarem para a entrada. E percebi, com certo incômodo, que eu realmente queria vê-lo aparecer.
Quando chegou a hora dos parabéns, eu já tinha parado de olhar para a entrada da propriedade. Rachel também parecia ter desistido. Rebecca não comentou mais nada e Leah, depois da surpresa inicial ao descobrir que Jacob havia prometido comparecer, não voltou ao assunto. Talvez todos tivessem chegado à mesma conclusão. Quatro anos eram tempo demais para serem vencidos por uma ligação de poucos minutos. Eu não sabia exatamente o que Billy e Jacob tinham dito um ao outro naquela última discussão, mas, pela maneira como as irmãs falavam, algumas feridas ainda estavam abertas. Comecei a me sentir até um pouco culpada por ter interferido. Quando liguei para Jacob, pensei apenas que ele poderia se arrepender de perder mais um aniversário do pai. Não tinha considerado que talvez voltar àquela casa exigisse dele muito mais do que simplesmente entrar no carro e dirigir até La Push.
Mesmo assim, a ausência dele não diminuiu a alegria da comemoração. Todos se reuniram ao redor de Billy enquanto Sarah trazia o bolo, e meu avô foi um dos primeiros a começar a cantar, completamente desafinado e sem demonstrar a menor vergonha. Billy reclamou da quantidade de velas, disse que estavam tentando incendiar a casa e fez todos rirem quando avisou que quem mencionasse sua idade ficaria sem bolo. Belinha e Ephraim ficaram na frente, disputando o melhor lugar para ajudar o bisavô a apagar as velas, até Rachel precisar explicar aos dois que o aniversariante ainda tinha pulmões suficientes para fazer aquilo sozinho. Quando Billy finalmente soprou as velas sob aplausos, olhei mais uma vez para a entrada. Nada. Jacob não tinha vindo.
Pouco depois, o bolo foi cortado e a festa voltou àquela mistura de conversas e risadas que ocupava todos os cantos da casa. Belinha conseguiu uma fatia generosa demais graças a Charlie, que ignorou completamente meu olhar de reprovação quando entregou o prato à bisneta. Não demorou dez minutos para minha filha aparecer diante de mim com chocolate no canto da boca, nas mãos e, de alguma maneira que preferi não investigar, até perto do nariz.
– Belinha, você comeu o bolo ou resolveu lutar com ele? – perguntei, segurando o riso enquanto me abaixava para olhar melhor o estrago.
Ela passou a língua pelo canto da boca numa tentativa inútil de limpar o chocolate e respondeu com toda a seriedade:
– Eu comi, mamãe. Só caiu um pouquinho.
Olhei para as duas mãos completamente sujas.
– Temos definições muito diferentes de um pouquinho.
– Foi o Ephraim que me deu mais chocolate.
Do outro lado da sala, o pobre Ephraim brincava tranquilamente sem saber que acabava de ser responsabilizado por um crime.
– Claro. Imagino que ele tenha obrigado você a comer também.
Belinha abriu um sorriso culpado e estendeu os braços para mim.
– Mamãe quero lavar as mãos.
– Venha antes que sua avó veja você desse jeito e decida que a culpa é minha.
Peguei-a pela mão e a levei até o banheiro. Belinha passou o caminho inteiro explicando que o bolo de aniversário de Billy era muito melhor com bastante cobertura e que, tecnicamente, ela apenas tinha seguido uma recomendação de Ephraim. Coloquei-a sobre um pequeno banco diante da pia e abri a torneira, ajudando-a a lavar as mãos enquanto ela continuava defendendo sua inocência.
– Esfrega direito entre os dedos – pedi, colocando um pouco mais de sabonete em suas mãos. – E não encosta no vestido enquanto estiver molhada.
– Mamãe, o vovô Charlie disse que criança pode se sujar em festa.
– Seu bisavô Charlie também vai entregar você para mim quando chegar a hora de lavar esse vestido.
Ela pensou por alguns segundos e fez uma careta.
– Então ele mentiu.
Soltei uma risada e molhei uma toalhinha para limpar o rosto dela.
– Não, meu amor. Ele só sabe que não será responsabilidade dele.
Belinha fechou os olhos enquanto eu retirava o chocolate de sua bochecha e do nariz. Quando terminei, examinei seu rosto para ter certeza de que não havia restado nada e beijei sua testa.
– Pronto. Agora você voltou a parecer uma criança e não uma sobremesa.
– Posso comer mais bolo?
– Definitivamente não.
– Mas é aniversário.
– Do Billy. Não seu.
Ela soltou um suspiro exagerado, como se eu tivesse acabado de lhe impor a maior injustiça de sua curta existência. Balancei a cabeça, divertindo-me, e a peguei no colo. Belinha imediatamente passou os braços ao redor do meu pescoço e apoiou a cabeça no meu ombro enquanto saíamos do banheiro.
Ainda conseguia ouvir as conversas antes mesmo de chegarmos novamente à parte principal da casa, mas alguma coisa estava diferente. As vozes pareciam concentradas num mesmo lugar e, quando atravessei o corredor, percebi que várias pessoas tinham se reunido próximas à sala.
Diminuí os passos.
– O que aconteceu? – murmurei, mais para mim mesma do que para Belinha.
Ela levantou a cabeça do meu ombro, curiosa.
Continuei andando e, quando me aproximei, vi Rachel primeiro. Ela estava parada ao lado de Paul, com uma das mãos cobrindo parcialmente a boca e os olhos brilhando. Rebecca estava próxima dela, igualmente emocionada. Sam e Embry permaneciam alguns passos atrás, enquanto Sarah tinha as duas mãos apertadas contra o peito.
Então as pessoas se afastaram um pouco e entao eu vi, Jacob estava no centro da sala, não de pé como eu estava acostumada a vê-lo. Não com aquela postura firme e a expressão fechada que fazia qualquer ambiente parecer pequeno demais para ele.
Estava de joelhos diante da cadeira de rodas de Billy.
Os braços de Jacob envolviam o pai com força, e Billy o abraçava de volta. Por alguns segundos, simplesmente não consegui me mover.
Não sabia o que tinha acontecido antes de eu chegar. Não sabia o que Jacob tinha dito quando entrou naquela casa depois de quatro anos nem se algum dos dois havia tentado fazer um discurso. Talvez nem tivesse existido discurso algum. Olhando para eles, tive a impressão de que nenhuma palavra conseguiria explicar aquele momento melhor do que a maneira como Billy mantinha uma das mãos na nuca do filho.
Jacob tinha o rosto escondido junto ao ombro do pai.
Aquilo me atingiu.
Eu tinha conhecido um homem que parecia ter uma resposta para tudo. Jacob dava ordens como se estivesse acostumado a ser obedecido, enfrentava Ethan sem hesitação e conseguia falar sobre sentimentos com uma franqueza quase desconcertante quando esses sentimentos podiam ser convenientemente chamados de desejo. Até quando me acolheu em sua casa, no pior momento que eu havia vivido desde a descoberta da traição, ele manteve aquela segurança irritante de quem parecia acreditar que qualquer problema poderia ser resolvido se fosse colocado em suas mãos.
O homem diante de mim não parecia interessado em controlar coisa alguma.
Era apenas um filho abraçando o pai depois de quatro anos.
Billy afastou o rosto o suficiente para olhar para ele. Não consegui ouvir tudo que disse por causa das pessoas ao redor, mas vi sua mão tocar a lateral do rosto de Jacob antes de falar alguma coisa que fez meu peito apertar. Jacob respondeu baixo, sem se levantar, e Billy balançou a cabeça antes de puxá-lo novamente para perto.
Rachel enxugou uma lágrima discretamente.
Rebecca nem tentou esconder as próprias.
Senti Belinha se mexer em meus braços.
– Mamãe, é o tio Jake?
Sorri sem tirar os olhos dele.
– É, meu amor. É ele.
– Ele está abraçando o vovô Billy?
– Está.
Belinha observou a cena por alguns segundos com a simplicidade que só uma criança poderia ter.
– Então eles estão felizes.
Olhei para minha filha e depois voltei a olhar para Jacob e Billy.
– Acho que estão.
Meu coração se aqueceu de uma maneira difícil de explicar. Eu não tinha feito aquilo. Sabia disso. Uma ligação não apagava quatro anos de distância e eu não seria arrogante a ponto de acreditar que algumas palavras minhas tinham consertado uma relação que existia muito antes de eu nascer. A decisão tinha sido de Jacob. Ele poderia ter recusado, desligado o telefone e permanecido em Seattle. Em algum momento, porém, tinha escolhido vir.
E eu estava feliz por ele ter escolhido.
Como se percebesse que estava sendo observado, Jacob finalmente levantou o rosto.
Seus olhos passaram pelas pessoas ao redor antes de encontrarem os meus.
Ele parou.
Eu ainda segurava Belinha no colo e não consegui esconder o sorriso que surgiu quando nossos olhares se encontraram. Não falei nada. Nem precisava.
Jacob continuou me encarando por alguns segundos.
Então o canto de sua boca se ergueu discretamente.
Foi um sorriso pequeno, quase imperceptível para quem não estivesse olhando diretamente para ele.
Mas eu estava.
E, naquele instante, alguma coisa dentro de mim se acomodou ao perceber que ele tinha vindo.
Não por Rachel.
Não por Rebecca.
Nem por mim.
Jacob Black tinha vindo porque, apesar de todo o orgulho que carregava, ainda amava o pai.
Talvez ele só precisasse que alguém o lembrasse disso.
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