Jacob


A manhã na Black Enterprises estava tranquila demais para o meu gosto. Normalmente isso significava que alguém ainda não tinha encontrado o problema que acabaria chegando à minha mesa. Eu estava no escritório havia pouco mais de duas horas, com duas planilhas abertas no computador e um relatório financeiro que já deveria ter sido revisado pelo setor responsável antes de chegar até mim. Havia encontrado três inconsistências nos números, duas despesas sem justificativa adequada e uma projeção otimista demais para um trimestre que ainda nem tinha começado. Fiz algumas anotações, recostei-me na cadeira e estava prestes a ligar para Sam quando ouvi a porta abrir sem qualquer aviso. Não precisei levantar os olhos para saber que era alguém da família. Meus funcionários gostavam demais dos próprios empregos para entrarem daquela maneira.

– Bom dia, irmão querido – disse Rebecca enquanto atravessava o escritório.

Continuei olhando para a tela.

– Resolve.

Ela parou.

– Eu disse bom dia.

– E você entrou sem bater às nove e meia da manhã com essa voz simpática demais. Então alguma coisa aconteceu e você veio me dar trabalho. Poupa meu tempo e resolve.

Rebecca soltou uma risada enquanto caminhava até a mesa.

– É impressionante como o amor deixou você mais agradável.

Levantei os olhos.

– Não abusa da sorte.

– Eu sabia que Renesmee estava fazendo milagres, mas esperava pelo menos um bom dia.

– Bom dia. Resolve.

Ela riu novamente e ocupou uma das cadeiras diante da minha mesa sem ser convidada. Rebecca tinha essa irritante liberdade por ser minha irmã e saber que, por mais que eu reclamasse, dificilmente mandaria alguém retirá-la do escritório.

– Na verdade, não vim trazer problema. Vim avisar que mamãe e papai vêm para Seattle.

Meu olhar voltou para a planilha.

– Quando?

– Amanhã. Mamãe me ligou hoje cedo. Eles querem passar alguns dias aqui e, segundo ela, precisam comemorar o noivado do filho antes que ele se arrependa e volte a ser o velho miserável de antes.

Um sorriso tentou aparecer.

Controlei.

Rebecca percebeu mesmo assim.

Claro que percebeu.

– Você sorriu.

– Não.

– Sorriu, sim.

– Rebecca.

Ela apoiou os cotovelos sobre a mesa.

– Meu Deus, você está feliz.

– Vai começar?

– Estou apenas admirando o fenômeno. Meu irmão está apaixonado, vai se casar e ainda está feliz porque os pais vêm comemorar.

Fechei o relatório e encarei minha irmã.

– Você entrou aqui para informar a chegada deles ou para testar até onde vai minha paciência?

– As duas coisas.

– A segunda está perto de acabar.

Rebecca sorriu.

– Eles estão realmente felizes, Jake. Papai tentou disfarçar, mas mamãe disse que ele passou a manhã falando do casamento. Ele quer saber a data, onde vai ser, quem está organizando e perguntou umas cinco vezes se Renesmee está bem depois de tudo que aconteceu.

Dessa vez não tentei esconder completamente minha satisfação.

Billy tinha aceitado Nessie com uma facilidade que eu não esperava. Talvez porque a conhecesse antes de mim. Talvez porque tivesse enxergado alguma coisa entre nós muito antes que eu tivesse coragem de admitir.

– Ela está bem. O médico está acompanhando a gravidez e não encontrou qualquer problema relacionado ao ferimento.

– Eu falei isso para eles. Mamãe também quer ajudar no casamento.

Soltei um suspiro.

– Mais uma.

– Você está cercado de mulheres Black. Aceita que dói menos.

– Renesmee ainda não é Black.

Rebecca abriu um sorriso malicioso. – Ainda.

Olhei para ela. – Cuida de tudo para eles.

– De tudo o quê?

– Carro, hospedagem, o que precisarem.

– Eles vão ficar na sua casa.

– Eu sei.

– Então por que está falando em hospedagem?

– Porque nosso pai pode decidir que não quer ficar comigo depois de dois dias.

– Justo.

Voltei ao computador.

– Manda o avião buscá-los.

Rebecca ficou em silêncio por um momento.

– Você sabe que papai não vai aceitar.

– Não perguntei se ele aceita.

– Jacob, ele vai dizer que consegue pegar um voo comercial perfeitamente.

– E eu vou dizer que tenho um avião disponível perfeitamente.

– Ele odeia quando você faz isso.

– Problema dele.

– Vai dizer que você está exibindo dinheiro.

– O avião já existe. Deixar parado enquanto meu pai enfrenta aeroporto numa cadeira de rodas seria uma estupidez.

Rebecca começou a rir.

– Quero estar presente quando você explicar isso para ele.

– Não tem explicação. Você liga, informa o horário e manda o carro buscá-los em casa.

– E se ele recusar?

Cruzei os braços e olhei para ela.

– A menos que Billy Black esteja planejando vir de La Push até Seattle empurrando a própria cadeira de rodas, ele vai entrar na porra do avião.

Rebecca tentou segurar a risada.

Não conseguiu.

– Isso não teve graça nenhuma – avisei.

Ela imediatamente fechou a boca, embora os ombros ainda balançassem.

– Claro que não.

– Está rindo.

– Estou tossindo.

– Você é uma péssima mentirosa.

– Somos irmãos. Tive um professor ruim.

Peguei uma caneta e apontei para a porta.

– Some daqui.

– Você não quer saber o que mamãe falou sobre o casamento?

Parei.

Rebecca sorriu imediatamente.

– Sabia.

– Fala.

– Ela disse que já esperava.

Franzi o cenho.

– Esperava o quê?

– Você pedir Renesmee em casamento.

– Mentira.

– Segundo ela, você olha para Nessie como papai olhava para ela quando eram jovens.

Fiquei alguns segundos em silêncio.

– Nossa mãe anda assistindo romance demais.

– Ela também disse que você ficaria irritado quando alguém falasse isso.

– Nessa parte acertou.

Rebecca estava prestes a responder quando o interfone sobre a mesa tocou. Pressionei o botão e ouvi a voz da minha secretária.

– Senhor Black, desculpe interromper. A senhora Claire está na recepção e gostaria de falar com o senhor.

Minha mão parou sobre o mouse.

Olhei para Rebecca e encontrei a mesma surpresa que provavelmente aparecera em meu rosto. Claire não precisava anunciar a própria presença naquele prédio. Nunca precisou. Minha filha crescera entrando e saindo da Black Enterprises como se aquele lugar fosse uma extensão da nossa casa. Quando criança, invadia meu escritório durante reuniões, sentava na minha cadeira e mexia em documentos que não entendia. Depois de adulta, continuou entrando sem pedir licença sempre que queria falar comigo.

Nos últimos meses, no entanto, muita coisa havia mudado.

– Por que ela está na recepção? – perguntei.

– Ela pediu que eu verificasse se o senhor poderia recebê-la.

Recostei-me lentamente na cadeira. Aquela formalidade me incomodou mais do que deveria.

– Minha filha não precisa pedir autorização para entrar no meu escritório. Se Claire estiver neste prédio, ela pode entrar. Sempre.

– Sim, senhor.

Desliguei o interfone e vi que Rebecca me observava em silêncio.

– Ela nunca pediu para entrar antes – comentou minha irmã.

– Eu sei.

– Talvez queira conversar.

– Essa brilhante conclusão veio de todos os anos de faculdade?

Rebecca ignorou a provocação. – Não estrague antes de ela abrir a boca.

Olhei para minha irmã. – Eu não estrago tudo.

– Claro que não.

– Está querendo ser demitida?

– Você não pode me demitir da família.

– Posso tentar.

Rebecca sorriu, mas eu já não estava interessado na discussão. Meus olhos voltaram para a porta.

Eu não via Claire havia alguns dias. Desde que tudo começara a desmoronar ao redor de Ethan, nossas conversas tinham se tornado ainda mais difíceis. Minha filha estava no meio de uma situação que nenhum pai gostaria de assistir. Durante meses tentei mostrar a ela quem era o homem com quem havia se casado, e quanto mais eu pressionava, mais ela se afastava. Tinha cometido meus próprios erros. Em alguns momentos, agi como presidente da Black Enterprises quando deveria ter agido apenas como pai. Usei dinheiro, influência e autoridade acreditando que conseguiria arrancá-la de uma situação que eu considerava perigosa.

Não consegui.

Só consegui fazer minha filha acreditar que precisava se defender de mim também.

A porta finalmente se abriu.

Claire entrou e meu primeiro impulso foi procurar Ephraim. Quando percebi que ela estava sozinha, levantei imediatamente da cadeira.

Ela parecia cansada. Não havia nada dramaticamente diferente em sua aparência, mas eu conhecia minha filha. Conhecia cada expressão daquele rosto desde o primeiro dia em que a colocaram nos meus braços. Sabia quando estava irritada, quando mentia, quando escondia medo e quando tentava parecer mais forte do que realmente estava.

Naquela manhã, havia alguma coisa diferente.

– Claire.

Ela fechou a porta atrás de si. – Oi, pai.

A forma como disse aquilo me fez franzir a testa.

Rebecca levantou-se.

– Bom dia, querida.

– Bom dia, tia.

Saí de trás da mesa. – Aconteceu alguma coisa?

Claire balançou a cabeça. – Não.

– Ephraim está bem?

– Está.

– Você está bem?

Ela hesitou. Foi pouco, mas percebi. – Estou.

– Não parece.

– Jacob – Rebecca advertiu.

Olhei para minha irmã. – O quê?

– Deixa a menina entrar no escritório antes do interrogatório.

– Ela já entrou.

Rebecca respirou fundo. – Você é impossível.

Ignorei.

Claire, entretanto, esboçou um pequeno sorriso.

Aquilo me tranquilizou um pouco.

– Quer sentar? – perguntei.

– Ainda não.

– Quer café?

– Não.

– Água?

– Pai.

– Estou perguntando.

– Eu sei.

Ela permaneceu perto da porta por alguns segundos. Eu não gostava daquela distância. Muito menos da maneira como Claire parecia escolher cuidadosamente o que faria ou diria dentro do meu próprio escritório.

Cruzei os braços. – Então me diz o que está acontecendo.

Claire olhou para Rebecca e depois voltou os olhos para mim.

– Eu queria falar com você.

– Estou ouvindo.

Ela respirou fundo.

Esperei, e isso não era uma coisa que eu fazia particularmente bem, mas tentei.

– Eu não sabia se deveria vir – confessou.

Minha expressão se fechou imediatamente.

– Por quê?

– Porque não sabia se você queria me ver.

Aquilo me atingiu de um jeito que nenhuma discussão entre nós havia conseguido.

Descruzei os braços. – Que merda é essa, Claire?

– Pai...

– Você realmente achou que eu não iria querer ver minha própria filha?

– Depois de tudo que aconteceu entre nós...

– Não existe nada que aconteça entre nós que faça você deixar de ser minha filha.

Ela abaixou os olhos e m inha irritação desapareceu tão rapidamente quanto tinha surgido.

Me aproximei um pouco mais . – Olha para mim.

Claire levantou o rosto.

– Você pode ficar com raiva de mim. Pode discordar de mim, mandar eu cuidar da minha vida e passar meses achando que sou o maior filho da puta do planeta. Provavelmente não vai ser a primeira nem a última vez. Mas nunca mais fica parada na recepção da minha empresa perguntando se pode falar comigo.

Os olhos dela ficaram marejados.

– Eu fui injusta com você.

Balancei a cabeça. – Não vou cobrar desculpas.

– Eu sei.

– Então não começa uma conversa que você não está pronta para ter.

Ela respirou profundamente. – Talvez eu esteja.

– Quando estiver, eu escuto.

Claire ficou me olhando.

Eu poderia ter perguntado sobre Ethan. Poderia ter perguntado se alguma coisa havia acontecido em casa, se estava ali por causa do casamento, das ações, de Ephraim ou das coisas que havíamos descoberto sobre os Fitzgerald. Não perguntei.

Minha filha tinha vindo até mim e naquele momento, isso precisava ser suficiente.

– Você está com uma aparência péssima – falei a provocando.

Claire soltou uma risada pequena. – Obrigada.

– Não disse que estava feia.

– Que delicado.

– Não exagera. Tenho uma reputação.

Ela sorriu um pouco mais.

E então começou a caminhar em minha direção.

Pensei que fosse finalmente dizer o motivo de estar ali. Preparei-me para qualquer coisa que viesse. Uma discussão, um problema, uma notícia ruim. Nos últimos meses eu tinha aprendido a esperar isso sempre que o assunto envolvia minha filha.

Claire não disse nada.

Apenas chegou perto e passou os braços ao redor de mim. Fiquei imóvel por um segundo, depois meus braços a envolveram quase por instinto.

Minha mão subiu para seus cabelos e a trouxe para mais perto, sentindo o rosto dela se esconder contra meu peito. Fechei os olhos.

Havia meses que eu não abraçava minha filha daquele jeito.

Meses em que nossas conversas terminavam em discussão, portas fechadas ou telefonemas interrompidos. Meses vendo Claire se afastar e sabendo que, quanto mais eu tentava puxá-la de volta à força, mais distância criava entre nós. Eu tinha sentido raiva dela, de mim, de Ethan e de todo mundo que tivesse contribuído para aquela merda, mas em nenhum momento deixara de sentir falta da minha filha.

E agora ela estava nos meus braços novamente.

Não perguntei o motivo, não fiz nenhuma piada e não disse que tinha razão sobre nada.

Apenas apertei Claire contra mim e beijei seus cabelos como fazia quando ela era menina e ainda acreditava que o pai podia resolver qualquer problema do mundo.

Senti uma felicidade tão simples quanto inesperada se espalhar pelo meu peito.

Minha filha tinha voltado para os meus braços.

Por enquanto, eu não precisava de mais nada.



Jacob

Claire permaneceu nos meus braços por alguns instantes, e eu não fiz qualquer movimento para afastá-la. Havia aprendido da pior maneira que algumas coisas não podiam ser arrancadas das pessoas à força, muito menos dos filhos. Passei meses tentando empurrar Claire para longe de Ethan, convencido de que, se colocasse fatos suficientes diante dela, se apertasse os lugares certos e eliminasse todas as facilidades que ele tinha conquistado através da nossa família, minha filha acabaria enxergando o que eu via. O resultado tinha sido o oposto. Ela se fechara, defendera o marido e transformara cada tentativa minha em mais uma prova de que eu queria controlar sua vida. Por isso, naquele momento, mantive a boca fechada. Se Claire tinha atravessado a cidade e entrado no meu escritório por vontade própria, eu não cometeria o mesmo erro outra vez.

Quando ela finalmente se afastou, mantive as mãos sobre seus braços por alguns segundos e examinei seu rosto. Os olhos ainda estavam úmidos, mas havia uma determinação ali que não existia quando entrara.

– Melhor? – perguntei.

Claire respirou fundo.

– Um pouco.

– Ótimo. Agora podemos começar pela parte em que você me explica por que entrou aqui parecendo que não dorme há três dias.

Rebecca soltou um suspiro atrás de nós.

– Você quase conseguiu ser sensível por cinco minutos inteiros.

Olhei para minha irmã.

– Eu fui sensível.

– Foi. Até abrir a boca novamente.

– Ninguém pediu sua avaliação.

Claire soltou uma risada baixa e limpou discretamente os olhos.

– Eu senti falta disso.

Rebecca sorriu.

– Das grosserias do seu pai?

– De vocês dois discutindo por qualquer coisa.

– Isso não é discussão – respondi enquanto voltava para perto da mesa. – Sua tia tem dificuldade em compreender hierarquia.

Rebecca cruzou os braços.

– Sou vice-presidente.

– E eu sou presidente.

– Também sou sua irmã.

– Esse é justamente o problema.

Claire balançou a cabeça, mas o pequeno sorriso desapareceu poucos segundos depois. Ela respirou profundamente, e a mudança em sua expressão foi suficiente para me fazer abandonar qualquer provocação.

Apoiei uma das mãos na borda da mesa.

– Fala, filha.

Ela olhou para mim.

– Eu vim porque tomei uma decisão.

Esperei.

– Uma decisão que deveria ter tomado antes.

– Claire, se isso é sobre a empresa...

– Não é. Pelo menos não apenas sobre a empresa.

Meu maxilar se contraiu. A possibilidade seguinte surgiu imediatamente na minha cabeça, mas não permiti que aparecesse em meu rosto.

Claire juntou as mãos diante do corpo.

– Eu vou me divorciar do Ethan.

Por alguns segundos, não respondi.

Rebecca também permaneceu completamente em silêncio.

Eu tinha imaginado ouvir aquelas palavras tantas vezes que acreditava saber exatamente como reagiria quando acontecesse. Durante meses quis que Claire abrisse os olhos, colocasse aquele filho da puta para fora da vida dela e percebesse tudo que ele havia feito. Em algumas das nossas piores discussões, cheguei a dizer que um dia ela descobriria quem tinha colocado dentro de casa e que, quando esse dia chegasse, eu esperava que não fosse tarde demais.

Agora o dia tinha chegado.

E não havia satisfação nenhuma.

Só minha filha diante de mim dizendo que o casamento dela tinha acabado.

Endireitei o corpo.

– Tem certeza?

Rebecca me olhou, provavelmente tão surpresa com a pergunta quanto Claire.

– Você está perguntando se tenho certeza?

– Estou.

– Pai, você passou meses querendo que eu deixasse Ethan.

– Querer que você enxergasse quem ele é não significa que vou comemorar o fim do seu casamento na sua frente. São coisas diferentes.

Claire abaixou os olhos por alguns segundos.

– Eu tenho certeza.

Assenti lentamente.

– Então está bem.

– Só isso?

– O que você esperava? Que eu abrisse champanhe?

– Talvez um “eu avisei”.

Minha expressão endureceu.

– Não vou dizer isso.

– Você avisou.

– Não importa.

– Importa para mim.

Afastei-me da mesa e parei diante dela novamente.

– Então escuta uma coisa. Se decidiu se divorciar porque descobriu que não consegue mais viver com aquele homem, eu vou apoiar você. Se tomou essa decisão porque está com vergonha de admitir que se enganou e acha que precisa provar alguma coisa para mim, volta para casa e pensa melhor.

Claire franziu a testa.

– Eu não estou fazendo isso por você.

– Ótimo. Porque vai ser você quem vai lidar com as consequências. Você, Ephraim e, infelizmente, aquele desgraçado. Não eu.

Rebecca aproximou-se um pouco.

– Você já conversou com Ethan?

Claire balançou a cabeça.

– Ainda não sobre o divórcio. Nós praticamente não estamos conversando. Nas últimas semanas ele mudou muito. Ou talvez eu finalmente tenha parado de inventar desculpas para coisas que sempre estiveram diante de mim.

– Onde ele está? – perguntei.

– Não sei.

Meu olhar se estreitou.

– Como assim não sabe?

– Ele saiu ontem e não voltou.

– Tentou ligar?

– Algumas vezes. Depois parei.

Não gostei daquilo.

Ethan estava perdendo espaço rapidamente. As coisas que tínhamos descoberto sobre o passado dele começavam a surgir, Claire estava se afastando e a posição que ele acreditava ter conquistado dentro da Black Enterprises estava cada vez mais ameaçada. Um homem desesperado era muito mais perigoso do que um homem que acreditava estar no controle.

– Não encontra com ele sozinha – determinei.

Claire respirou fundo.

– Pai...

– Não estou negociando isso.

– Você acabou de fazer um discurso inteiro sobre não controlar minha vida.

– E durou bastante. Estou orgulhoso de mim.

Rebecca levou a mão ao rosto.

– Jacob.

– Ethan está instável. Isso não é controle, é bom senso.

Claire me observou por alguns segundos.

– Está bem.

Ergui uma sobrancelha.

– Repete.

– Não força.

– Só queria aproveitar o momento.

– Eu não vou encontrar Ethan sozinha.

– Melhor.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos e então olhou para a bolsa que carregava. Só naquele momento percebi que a segurava com força desde que entrara no escritório.

– Mas o divórcio não é a única razão para eu ter vindo.

Meu olhar desceu para a bolsa.

– Imaginei.

Claire caminhou até uma das cadeiras diante da minha mesa e colocou a bolsa sobre ela. Abriu o fecho e começou a procurar alguma coisa.

Rebecca se aproximou.

– O que foi?

Claire não respondeu imediatamente.

Retirou um envelope grande, pardo, bastante grosso.

Meu instinto profissional assumiu antes mesmo de saber o que havia dentro.

– O que é isso?

Claire segurou o envelope por alguns segundos, estendi a mão e ela finalmente colocou o envelope na minha mão.

– Abre.

Olhei para minha filha e depois para Rebecca, vi que a expressão da minha irmã havia mudado.

Abri o envelope e retirei o primeiro conjunto de documentos e comecei a folhear. Reconheci imediatamente alguns termos, números de registro, assinaturas e referências societárias da Black Enterprises.

Minha mandíbula se contraiu.

– Que porra é essa?

Claire respirou fundo.

– São as ações.

Levantei os olhos.

– Que ações?

Ela sustentou meu olhar.

– As ações da Black Enterprises que Ethan comprou.