Amor não era o plano

68 Revelações ( parte 2)


Narrado por Claire

Ethan me encarou por alguns segundos depois que eu disse que Ephraim era filho de Quil. A incredulidade em seu rosto durou pouco. Primeiro ele franziu a testa, como se estivesse esperando que eu completasse a frase com alguma explicação que a tornasse menos absurda. Depois soltou uma risada. Não foi um sorriso nervoso ou uma tentativa discreta de demonstrar que não acreditava em mim. Ele realmente riu, levando uma das mãos ao rosto e balançando a cabeça enquanto caminhava alguns passos pela sala.

– Essa foi ótima, Claire. Sério. – Ele continuou rindo enquanto me observava. – Você está apelando num nível que eu não esperava. Primeiro descobre que eu comprei ações da empresa do seu pai, depois começa com essa história de divórcio e agora resolveu inventar que Ephraim não é meu filho. O que vem depois? Vai dizer que eu também não sou Ethan?

Não respondi imediatamente. Voltei até a mesa, peguei minha xícara e terminei o café que havia esfriado durante nossa discussão. Ethan continuava me observando com aquele sorriso debochado, absolutamente convencido de que tinha acabado de me encurralar. Deixei a xícara sobre o pires e passei o guardanapo pelos lábios antes de olhar novamente para ele.

– Durante quatro anos eu carreguei uma culpa que quase me destruiu – comecei, e finalmente consegui fazê-lo parar de rir. – Todos os dias em que olhava para você e para Ephraim, eu me lembrava do que tinha feito. Em alguns momentos, cheguei a pensar que tudo que acontecia de errado entre nós era uma espécie de consequência pelo fato de eu ter começado nosso casamento com uma mentira.

Ethan franziu o cenho.

– Do que você está falando?

– Da noite anterior ao nosso casamento.

Ele permaneceu imóvel. – Eu traí você.

A mudança foi imediata.

O sorriso desapareceu. A expressão de divertimento deu lugar a uma incredulidade que rapidamente se transformou em raiva.

– O quê?

– Você ouviu, eu te trai, com o Quil.

Ele ficou alguns segundos sem reação, e então soltou uma risada curta, completamente diferente da anterior.

– Está mentindo.

– Não estou.

– Você quer que eu acredite que transou com aquele filho da puta na véspera do nosso casamento?

– Eu não preciso que você acredite. Não estou confessando para aliviar minha consciência. Essa fase acabou há muito tempo.

– Você transou com ele?

– Sim.

Ethan passou a mão pelos cabelos e começou a andar pela sala. A ironia daquela reação quase me fez rir. O homem que acabara de admitir que nunca me amou, que mantivera Renesmee durante praticamente todo o nosso relacionamento e que tinha uma filha com ela estava indignado porque descobrira que eu havia dormido com outro homem uma única vez.

– Você é uma filha da puta.

Não me alterei. – Cuidado. Você está falando da mãe do seu... – Parei e corrigi com um sorriso. – Desculpa. Força do hábito.

Ele avançou dois passos. – Não brinca comigo agora.

– Eu não estou brincando.

– Você me traiu um dia antes do nosso casamento e teve coragem de entrar naquela igreja e teve a coragen de olhar para minha cara?

– Todos os dias.

– E esconder isso durante quatro anos?

– Exatamente como você olhava para mim depois de sair da cama de Renesmee. A diferença é que eu sentia culpa.

Ele fechou as mãos em punhos. – Não tenta comparar.

– Por que não? Porque sua traição durou anos e a minha uma noite? Realmente não é uma comparação muito favorável para você.

– Você dormiu com Quil!

– Dormi.

– Por quê?

A pergunta me atingiu de uma maneira que eu não esperava. Não porque eu não soubesse a resposta. Sabia perfeitamente. Talvez aquele fosse justamente o problema.

Afastei uma cadeira e me sentei.

– Porque eu ainda o amava.

Ethan ficou em silêncio.

– Eu amava Quil quando comecei a namorar você. Tentei convencer a mim mesma de que não amava, mas amava. Quando nosso casamento se aproximou, comecei a entrar em pânico. Não porque não gostasse de você. Naquela época eu realmente acreditava que gostava. Mas havia uma parte da minha vida que nunca tinha conseguido encerrar.

– Então foi atrás dele.

– Não. Nós nos encontramos por acaso. Conversamos, discutimos e acabamos falando sobre tudo que nunca tínhamos falado. Eu estava magoada, ele também. Uma coisa levou à outra e aconteceu.

– Que conveniente.

– Não estou tentando justificar.

– Passou a noite com ele e no dia seguinte casou comigo, você é pior do que eu imaginava.

Sorri sem humor. – Isso vindo de você chega a ser engraçado.

Ethan me encarou com ódio. – E agora inventou que ele é pai do meu filho porque transaram uma vez?

– Não inventei.

– Ephraim é meu.

– Biologicamente, não.

– Você nem sequer fez um exame?

– Eu fiz.

Ele se calou, nesse momento consegui ver a primeira rachadura real naquela certeza.

– Quando?

– Isso não importa.

– Importa para mim.

– Nada relacionado a Ephraim vai importar para você daqui para frente.

– Eu quero saber quando você fez essa porra desse exame!

– E eu não tenho obrigação nenhuma de satisfazer sua curiosidade.

Ethan respirou fundo, tentando se controlar.

– Então você sempre soube?

Balancei a cabeça. – Não. Durante a gravidez, eu acreditava que Ephraim era seu. Ou talvez tenha escolhido acreditar porque era mais fácil.

– Mais fácil?

– Eu tinha dormido com Quil uma única vez. Depois disso, casei com você. Quando descobri a gravidez, fiz as contas, percebi que existia uma possibilidade e entrei em pânico. Mas eu estava magoada demais com Quil para procurá-lo.

– Por quê?

Olhei para Ethan durante alguns segundos.

– Porque eu acreditava que ele tinha me traído.

A expressão dele mudou de uma maneira quase imperceptível.

Eu percebi.

– Eu vi Quil com outra mulher – continuei. – Entrei naquele apartamento e encontrei os dois. Ele dizia que não lembrava de nada, que não sabia como ela tinha ido parar ali, mas eu não quis ouvir. Para mim, acabou naquele momento. Quando descobri que estava grávida, pensei em procurá-lo mais de uma vez. Não consegui. Eu não queria voltar para o homem que acreditava ter me humilhado daquela maneira.

Ethan começou a sorrir e meu estômago se contraiu. Não gostei daquele sorriso.

– Do que esta rindo?

Ele desviou o rosto, mas continuou sorrindo.

– Nada, Claire. Continua. Está ficando interessante.

Me levantei – O que você está achando tão engraçado?

Ele olhou novamente para mim e alguma coisa em seus olhos fez meu corpo inteiro ficar alerta.

– Você passou quatro anos se sentindo culpada porque traiu o marido com o grande amor da sua vida e, ao mesmo tempo, passou todos esses anos acreditando que Quil tinha traído você.

Ethan começou a rir novamente.

– Meu Deus. Você realmente é mais burra do que eu pensava.

Senti minhas mãos esfriarem. – Do que está falando?

– Quil não traiu você.

Meu coração bateu mais forte, mas mantive o rosto impassível. – Eu vi...

– Você viu exatamente o que precisava ver.

Permaneci imóvel. – O que ?

Ethan me encarou e, pela primeira vez naquela manhã, pareceu realmente satisfeito. – Fui eu.

Não consegui responder imediatamente.

Ele percebeu e gostou. – Eu armei tudo.

Alguma coisa apertou dentro do meu peito, mas não permiti que aparecesse em meu rosto.

Ethan se aproximou devagar, aproveitando cada palavra. – Você estava apaixonada por Quil e eu sabia que, enquanto ele estivesse por perto, nunca conseguiria entrar de verdade nessa família. Você podia namorar comigo, podia dizer que tinha superado, mas bastava aquele filho da puta entrar numa sala e você esquecia que eu existia.

– Então você colocou aquela mulher no apartamento dele.

– Não foi difícil.

– Como?

– Isso importa?

– Quero ouvir.

Ethan sorriu. – Algumas bebidas, algumas pessoas certas e uma mulher que sabia exatamente o que precisava fazer. Quil acordou sem lembrar direito da noite anterior e você apareceu no momento perfeito.

Meu estômago se revirou.

Eu me lembrava daquela manhã.

Lembrava de Quil sentado na cama, desnorteado, tentando cobrir o corpo enquanto a mulher ao lado dele também despertava. Lembrava da maneira como ele veio atrás de mim, ainda tentando vestir a calça, jurando que não sabia o que tinha acontecido. Lembrava de seus telefonemas, das mensagens, das vezes em que apareceu na minha casa e pediu cinco minutos para explicar.

Eu nunca dei.

Porque acreditava no que tinha visto.

Ethan soltou outra risada.

– Você devia ter visto sua cara naquele dia. Foi perfeito.

Aquilo doeu.

Não a provocação. A verdade.

Quil não tinha me traído. Eu tinha passado anos odiando um homem por alguma coisa que ele não fizera. Casei com Ethan acreditando que estava deixando para trás alguém que havia destruído minha confiança, quando o homem que realmente a destruíra estava ao meu lado.

Minha vontade era acertar Ethan.

Não fiz.

Não daria a ele aquela satisfação.

Respirei fundo e sorri.

Foi pequeno, mas suficiente para fazê-lo franzir a testa. – Você está rindo de quê?

– De você.

– Eu acabei de contar que destruí seu relacionamento com Quil e você está rindo?

– Estou.

– Você é mais desequilibrada do que seu pai.

– Talvez.

Ethan se aproximou. – Você foi uma trouxa, Claire. – O sorriso dele aumentou. – Quil implorou para você acreditar nele e você escolheu acreditar no que eu preparei. Depois casou comigo, criou o filho dele comigo e passou quatro anos achando que tinha feito alguma coisa errada. Tudo porque eu sabia exatamente onde apertar.

Cada palavra encontrou um lugar para machucar.

Mesmo assim, continuei sorrindo.

– Aproveita.

Ele franziu a testa. – O quê?

– Esse momento. Aproveita bastante.

– Por quê?

Peguei minha xícara vazia, levei até a pia e a coloquei ali com cuidado. Precisava fazer alguma coisa com as mãos para impedir que tremessem.

– Porque daqui a pouco nós vamos descobrir quem foi o trouxa dessa história.

A segurança no rosto dele diminuiu. – O que você fez?

Virei-me para encará-lo. – Tenha um pouco de paciência.

– Claire.

– Você acabou de dizer que passou anos planejando tudo. Não vai morrer por esperar mais alguns minutos.

– Que porra você fez?

Passei por ele e Ethan segurou meu braço.

Olhei imediatamente para a mão dele. – Solta.

– Primeiro responde.

Levantei os olhos. – Tire sua mão de mim antes que você descubra exatamente quanto de Jacob Black existe na filha dele.

Ele hesitou mas depois soltou.

– Você não me assusta.

– Não estou tentando assustar você. Ainda.

Deixei a sala sem olhar para trás. Subi as escadas mantendo o passo firme, mesmo sentindo as pernas estranhamente pesadas. Ethan ainda disse meu nome duas vezes. Ignorei. Atravessei o corredor, entrei no quarto e tranquei a porta.

Encostei as costas na madeira e fechei os olhos.

Quil não tinha me traído. A frase atravessou minha cabeça com uma clareza brutal.

Levei a mão à boca quando o primeiro soluço escapou. Não consegui impedir as lágrimas. Chorei pelo que tinha acreditado, pelas coisas horríveis que dissera a Quil, por todas as vezes que ele tentou me explicar e eu me recusei a ouvi-lo. Chorei porque, enquanto eu me culpava por aquela única noite antes do casamento, Ethan sabia exatamente por que ela havia acontecido. Ele sabia que tinha destruído nossa relação e assistira a tudo em silêncio.

Mas não fiquei ali por muito tempo, apenas me permiti alguns minutos.

Nada além disso.

Fui até o banheiro, lavei o rosto e fiquei diante do espelho até minha respiração voltar ao normal. Meus olhos estavam vermelhos, mas minhas mãos já não tremiam. Passei os dedos pelos cabelos, ajeitei o robe e encarei meu reflexo.

Ethan ainda estava lá embaixo acreditando que tinha acabado de me destruir.

Deixei que acreditasse.

Eu ainda não tinha terminado com ele.



Desci as escadas alguns minutos depois, já vestida e com um envelope pardo nas mãos. Precisara daquele breve isolamento no quarto não apenas para controlar o choro, mas para me lembrar de que ainda havia coisas que Ethan desconhecia. Ele tinha conseguido me atingir ao confessar o que fizera com Quil, não havia razão para negar isso a mim mesma, porém cometeria um erro se confundisse minha dor com fraqueza. Eu havia passado anos convivendo com Jacob Black. Cresci observando meu pai receber golpes que derrubariam outras pessoas e esperar até que o adversário estivesse convencido da vitória para reagir. Durante muito tempo, eu acreditara que não tinha herdado aquela parte dele. Naquela manhã, descobri que estava enganada.

Ethan estava exatamente onde o deixara. Permanecia no meio da sala, com uma das mãos apoiada na cintura e a outra segurando o celular. Assim que ouviu meus passos, ergueu a cabeça. A satisfação que demonstrara antes tinha desaparecido; agora havia desconfiança em seu rosto. Não lhe dei oportunidade de perguntar onde eu estivera. Alcancei o último degrau, caminhei até ele e joguei o envelope contra seu peito.

– O que é isso? – perguntou, segurando-o antes que caísse no chão.

– Abra.

Ethan olhou primeiro para mim e depois para o envelope. Durante alguns segundos, pareceu considerar a possibilidade de não fazer o que eu mandara apenas para não me dar aquela pequena vitória. A curiosidade, entretanto, falou mais alto. Rasgou a aba e retirou os documentos. Observei em silêncio enquanto seus olhos percorriam a primeira página. A expressão dele não mudou imediatamente. Ethan virou a folha, leu a seguinte e então retornou à primeira, desta vez prestando atenção aos números, às datas e às assinaturas.

Eu não disse nada.

Queria que ele entendesse sozinho. – O que significa isso? – perguntou finalmente, erguendo os olhos para mim.

– Você sabe ler, Ethan.

– Eu sei muito bem o que está escrito. Estou perguntando o que isso significa.

– Significa que você não é tão inteligente quanto pensa.

Ele voltou aos documentos e começou a folheá-los com mais rapidez. – Isso não faz sentido.

– Faz perfeitamente.

– Não. – Ethan puxou uma das folhas e apontou para determinado trecho. – Essa operação foi feita em meu nome. Eu negociei a compra dessas ações.

– E precisou de uma garantia que não tinha.

Ele se calou.

Sorri discretamente. – Finalmente chegamos à parte interessante.

– Do que você está falando?

Aproximei-me alguns passos, mas mantive distância suficiente entre nós. – Você precisava de patrimônio para sustentar a operação. Precisava de uma garantia que convencesse o banco a liberar o financiamento e decidiu que sua esposa seria perfeita para isso. Afinal, Claire Black tinha patrimônio, renda, ativos e, principalmente, um sobrenome que abria portas que continuavam fechadas para Ethan Hale. Ou devo dizer Ethan Fitzgerald?

A mandíbula dele se contraiu. – Não coloca meu pai nessa história.

– Você colocou meu pai desde o momento em que decidiu entrar na Black Enterprises usando nosso casamento.

Ethan tornou a olhar para os documentos.

– Eu sempre estive um passo à sua frente, Ethan. Você apenas estava ocupado demais se achando mais inteligente do que todo mundo para perceber.

Caminhei até a mesa e apoiei a mão no encosto de uma cadeira. Não precisava mais fingir tranquilidade. Eu estava tranquila. A dor causada pela revelação sobre Quil continuava ali, mas aquela conversa pertencia a outra parte da minha vida, uma que eu estava prestes a encerrar.

– Houve um dia em que você saiu de casa dizendo que tinha uma reunião. Eu já sabia que alguma coisa estava errada entre nós, mas ainda não sabia exatamente o quê. Então resolvi seguir você.

Ethan ficou imóvel.

– No dia em que você foi encontrar Renesmee na casa que comprou para ela.

O efeito foi imediato. Ele abaixou lentamente os documentos.

– Você estava lá...

– Não entrei na casa, se é isso que está tentando descobrir. Mas estava perto o suficiente para ver você chegar, para ver Renesmee e, depois, para descobrir por que vocês estavam ali. Ouvi a proposta que fez a ela. Ouvi você oferecendo aquela casa para que ela morasse com Belinha e ouvi o suficiente para entender que aquilo entre vocês não era simplesmente uma disputa de guarda.

Ethan me observava sem dizer nada.

– Foi naquele dia que meus olhos se abriram – continuei. – Até então, eu ainda tentava encontrar justificativas para algumas coisas. Horários estranhos, ligações escondidas, dinheiro que eu não conseguia rastrear, mudanças no seu comportamento. Eu era sua esposa, Ethan. Eu queria acreditar no meu casamento. Naquele dia, parei de querer.

– E não falou nada.

– Não.

– Continuou voltando para casa e fingindo que não sabia.

– Exatamente.

Ele soltou uma risada incrédula.

– Filha da...

– Talvez eu seja mesmo filha do meu pai.

Ethan apertou os papéis entre os dedos.

– Depois daquele dia, comecei a prestar atenção em você de verdade. Não como sua esposa, mas como alguém que sabia que estava dividindo a casa com um homem que mentia. Passei a conferir documentos, movimentações, correspondências, reuniões. E foi assim que encontrei os papéis da operação antes que você os apresentasse ao banco.

A cor desapareceu lentamente do rosto dele.

– Você não tinha acesso.

– Eu sou sua esposa. Você se acostumou tanto a me considerar inútil que começou a cometer erros básicos.

Ele olhou novamente para as folhas.– Você viu os documentos.

– Todos eles.

– E mesmo assim assinou.

– Foi exatamente isso que eu fiz.

Ethan soltou os papéis sobre a mesa e se aproximou. – Então não existe fraude nenhuma.

– Eu nunca disse que pretendia acusá-lo de falsificar minha assinatura.

– Você acabou de dizer que eu tentei usar você como fiadora.

– E tentou. A diferença é que você preparou uma armadilha acreditando que eu entraria nela sem perceber. Quando encontrei os documentos, tive tempo para entender exatamente o que pretendia fazer. Procurei orientação antes de você sequer imaginar que eu sabia da existência da operação.

Ele franziu o cenho.

— Então eu troquei os documentos.

Dessa vez ele não conseguiu esconder o choque.

– Você fez o quê?

– Os documentos que você deixou preparados não foram os mesmos que acabaram assinados. Eu os substituí por uma versão que preservava minha posição na operação. Depois coloquei minha assinatura verdadeira exatamente onde precisava estar e deixei você fazer o resto.

Ethan voltou imediatamente para a mesa e começou a procurar entre as páginas.

– Isso é impossível.

– Não é. Está segurando a prova.

– Você me enganou.

Não consegui evitar o sorriso.

– Essa reclamação vindo de você é quase ofensiva.

Ele começou a ler novamente, agora desesperadamente. Eu conseguia acompanhar o momento exato em que finalmente compreendia o que estava diante dele.

– Não – murmurou. – Não, não, não. Essas ações são minhas.

– Eram.

– Eu comprei vinte e cinco por cento da Black Enterprises.

– Com dinheiro financiado e uma garantia vinculada à operação.

– Você era a fiadora.

– Era justamente nisso que você queria que eu acreditasse.

Ele ergueu os olhos. – O que você fez?

– Cobrei a dívida.

O silêncio tomou a sala. – Você não pode fazer isso.

– Posso. E fiz.

– Não sem me comunicar.

– Você foi comunicado. Talvez devesse começar a ler as correspondências que recebe em vez de passar tanto tempo perseguindo sua ex.

Ethan avançou até a mesa e pegou outra página.

– Isso aqui diz...

– Eu sei exatamente o que diz. – Cruzei os braços. – Você não cumpriu as obrigações previstas na operação dentro das condições estabelecidas. A garantia foi executada, a dívida foi assumida e os direitos vinculados às ações foram transferidos. Tudo legalmente documentado.

Ele me encarou.

– Para quem?

Não respondi.

A compreensão apareceu lentamente em seu rosto.

– Não.

Sorri.

– Sim.

– Sua filha da puta.

– Cuidado com a minha mãe. Leah Clearwater nunca teve nada a ver com sua incompetência.

– As ações não são suas!

– Agora são.

Ethan balançou a cabeça repetidas vezes.

– Não. Eu comprei aquelas ações. Eu negociei cada uma delas. Passei meses montando aquela operação.

– E eu precisei de muito menos tempo para tirá-las de você.

– Vinte e cinco por cento da Black Enterprises pertencem a mim!

– Não mais. – Dei um passo em sua direção e sustentei seu olhar. – Você passou anos tentando entrar na empresa do meu pai. Casou comigo por isso, manipulou pessoas, comprou participação pelas costas da família e ainda tentou colocar a dívida no meu colo caso tudo desse errado. Só esqueceu de uma coisa muito importante: quando decidiu usar Claire Black como garantia para tomar uma parte da empresa de Jacob Black, você colocou dois Black dentro da mesma operação. E eu conheço meu pai o suficiente para saber que ele teria arrancado essas ações de suas mãos. Apenas decidi poupar-lhe o trabalho.

O rosto de Ethan estava vermelho.

– Você planejou isso.

– Planejei.

– Ficou dormindo ao meu lado enquanto fazia isso.

– Dormi.

– Continuou fingindo ser minha esposa.

– Você fez isso durante anos. Considerei que podia aprender alguma coisa com você.

Ethan perdeu o controle.

Eu vi o momento em que aconteceu. Ele jogou os documentos sobre a mesa e avançou antes que eu pudesse me afastar completamente. Sua mão fechou-se em meu braço com força e ele tentou me puxar para perto.

– Você vai desfazer essa merda agora.

Reagi imediatamente. Apoiei as duas mãos contra o peito dele e o empurrei com toda a força que consegui. Ethan deu dois passos para trás, mais surpreendido pela minha reação do que pelo impacto. Meu braço ardia onde seus dedos haviam apertado, e olhei primeiro para a marca que começava a aparecer na minha pele antes de voltar os olhos para ele.

– Você acabou de cometer outro erro.

– Claire, eu...

– Não se aproxime de mim.

Minha voz saiu baixa e firme. Ele tentou avançar novamente. – Eu só segurei seu braço.

– E vai pagar por ter encostado em mim.

– Para com essa merda.

– Experimente tocar em mim outra vez e descubra se estou falando sério.

Peguei minha bolsa sobre o aparador e caminhei para a porta. Ethan veio atrás de mim.

– Você não vai sair daqui desse jeito.

– Observe.

– Nós não terminamos essa conversa.

– Nosso casamento terminou. A conversa é apenas uma formalidade atrasada.

Abri a porta e saí para o corredor. Ethan ainda me seguiu, mas eu já estava diante do elevador. Apertei o botão repetidamente até as portas se abrirem.

– Claire!

Entrei e me virei e vi que ele estava a poucos metros. – Você vai devolver aquelas ações!

Mantive a mão próxima ao painel.

– Peça com educação. Talvez eu pense no assunto.

– Não brinca comigo!

– Adeus, Ethan.

As portas começaram a se fechar. Ele acelerou o passo e tentou alcançá-las, mas foi tarde demais. A última imagem que tive dele foi seu rosto transtornado antes que as portas metálicas se encontrassem.

Somente então permiti que meu corpo reagisse.

Minhas mãos começaram a tremer.

Apertei a bolsa contra mim e respirei fundo várias vezes enquanto observava os números dos andares diminuírem. Não queria chorar outra vez. Não ali. Não depois de ter conseguido sair. Quando o elevador chegou ao térreo, endireitei os ombros, ajeitei os cabelos e conferi rapidamente meu rosto no reflexo das portas.

Assim que elas se abriram, saí.

Havia pessoas no saguão. Um casal conversava próximo à recepção, um funcionário atravessava o espaço carregando algumas caixas e duas mulheres aguardavam outro elevador. Cumprimentei o porteiro quando ele olhou para mim e mantive os passos firmes até a saída, como se aquela fosse apenas mais uma manhã comum.

Ninguém precisava saber que meu marido acabara de descobrir que o filho que criara durante quatro anos não era dele. Ninguém precisava saber que eu acabara de descobrir que o homem que amara antes de Ethan jamais havia me traído. E ninguém precisava saber que Ethan tinha colocado as mãos em mim poucos minutos antes.

Atravessei a entrada do prédio e fui diretamente para meu carro. Destravei as portas, entrei e coloquei a bolsa no banco do passageiro. Somente depois de fechar a porta permiti que minha respiração saísse de maneira irregular.

Então ouvi as portas do prédio se abrirem.

Olhei pelo retrovisor e Ethan apareceu.

Ele parou por um segundo, procurando por mim, até localizar meu carro. Imediatamente começou a correr em minha direção.

– Claire!

Meu coração disparou.

Não esperei para descobrir o que ele pretendia.

Liguei o carro, engatei a marcha e arranquei dali.