Capítulo Especial — Claire

Acordei com o barulho de alguma coisa sendo derrubada no andar de baixo. Abri os olhos e permaneci alguns segundos olhando para o teto, tentando decidir se valia a pena levantar. O relógio sobre o criado-mudo marcava pouco depois das sete da manhã, Ephraim ainda deveria estar dormindo e eu tinha ido para a cama tarde demais na noite anterior. A comemoração pelo aniversário de Edward Cullen tinha se prolongado, principalmente depois que Jacob e Renesmee anunciaram o casamento. Meu pai havia pedido Renesmee em casamento naquela mesma noite e, quando recebi a notícia, não fiquei exatamente surpresa. Quem conhecia Jacob Black sabia que ele não fazia nada pela metade. Meu pai podia passar meses negando um sentimento, mas, depois que aceitava alguma coisa, avançava sobre ela como fazia com uma negociação empresarial: decidido, absoluto e sem espaço para recuo.

Outro barulho veio do andar inferior, dessa vez acompanhado de um palavrão. Fechei os olhos. Ethan. Afastei o cobertor, coloquei um robe sobre a camisola e saí do quarto. Quando alcancei a escada, já conseguia ouvi-lo andando de um lado para o outro na sala. Desci lentamente e o encontrei próximo ao bar, ainda usando a roupa da noite anterior. Havia uma garrafa aberta sobre o móvel, embora, pelo estado dele, aquela definitivamente não tivesse sido a primeira.

Ethan virou-se assim que percebeu minha presença.

– É verdade?

Parei no último degrau. – Bom dia para você também.

– Eu perguntei se é verdade.

– Você terá que ser um pouco mais específico. Ultimamente existem muitas verdades desagradáveis envolvendo você.

Ele ignorou minha provocação e foi diretamente ao assunto. – Seu pai vai casar com ela?

Então era isso. Atravessei a sala sem pressa.

– Vai.

A expressão dele se transformou. – E você está aceitando?

Parei diante da mesa onde a funcionária já havia deixado café e servi uma xícara. – Aceitando o quê?

– Essa porra desse casamento.

Olhei para ele por cima da xícara. – Meu pai tem quarenta e nove anos. Não precisa da minha autorização para casar.

– Com Renesmee?

– Esse costuma ser o propósito de um pedido de casamento. Casar com a pessoa que recebeu o pedido.

– Não brinca comigo, Claire.

– Não estou brincando. Estou tomando café. Você é quem apareceu desesperado às sete da manhã porque descobriu que sua ex vai casar.

O maxilar dele se contraiu. – Ela é mãe da minha filha.

Coloquei a xícara sobre o pires e finalmente o encarei com toda a atenção. – E você é meu marido. Então talvez queira me explicar por que está tão revoltado porque uma mulher com quem você manteve uma segunda família enquanto era casado comigo vai seguir a vida dela.

– Isso não tem nada a ver com nosso casamento.

Sorri diante da tentativa inútil de separar duas coisas que ele próprio havia unido.

– Tem tudo a ver com nosso casamento.

Ethan passou a mão pelos cabelos. – Você não entende.

– Então explique.

– Seu pai está fazendo isso para me atingir.

Soltei uma risada curta.

– Você realmente acredita que Jacob Black vai se casar e ter um filho para atingir você?

– Ele engravidou Renesmee.

Olhei para Ethan por alguns segundos, incrédula.

– Você sabe como gravidez funciona, não sabe? Imagino que sim. Conseguiu engravidar duas mulheres enquanto fingia ser dois homens diferentes.

Ele avançou um passo. – Cuidado.

Não me movi. – Com o quê?

– Com a maneira como fala comigo.

Aquilo quase me fez rir novamente. Talvez tivesse funcionado meses antes. Talvez eu tivesse recuado, tentando evitar outra discussão. Naquela manhã, porém, alguma coisa dentro de mim já havia mudado. – Você está na minha casa, Ethan.

– Nossa casa.

– Continue repetindo isso enquanto pode.

Ele me encarou com desconfiança. – O que isso significa?

Peguei novamente a xícara. – Significa exatamente o que você entendeu.

– Está me ameaçando?

– Não. Quando eu ameaçar você, não haverá dúvida.

Por um instante, alguma coisa mudou na expressão dele. Talvez finalmente estivesse percebendo que a mulher diante dele não era a mesma que passara anos tentando manter aquele casamento funcionando. Ethan riu com desprezo. – Está começando a falar igual ao seu pai.

– Obrigada.

– Não foi elogio.

– Para mim foi.

Ele virou o rosto e caminhou até a janela. – Você deveria estar preocupada.

– Com o casamento do meu pai?

– Com Renesmee entrando nessa família.

– Renesmee já faz parte desta família há algum tempo. A aliança só oficializou.

– Ela vai colocar as mãos em tudo.

Dessa vez ri de verdade. – Agora chegamos ao assunto que realmente preocupa você.

Ethan virou-se. – Do que está falando?

– Dinheiro. Black Enterprises. Herança. A posição que você passou anos tentando conquistar.

– Eu não preciso do dinheiro do seu pai.

– Não?

– Não.

– Então por que comprou vinte e cinco por cento da empresa?

Ele ficou imóvel. Interessante. Eu ainda não tinha mencionado que sabia. Apenas observar aquela fração de segundo em que o rosto dele perdeu a segurança já valeu a manhã inteira. – Não sei do que você está falando.

– Claro que não.

– Claire...

– Continue. Estou curiosa para descobrir até onde você pretende levar essa mentira.

Ele me encarou durante alguns segundos e então seu rosto mudou. A máscara caiu. – Quer saber? Foda-se.

Apoiei-me tranquilamente na cadeira. – Finalmente alguma sinceridade.

– Você acha que eu me importo com esse casamento? Acha que me importo com você, com seu pai ou com essa família?

– Considerando o escândalo que está fazendo desde que descobriu, diria que se importa bastante.

Ele se aproximou. – Eu nunca amei você.

As palavras foram ditas deliberadamente. Ethan esperou, provavelmente aguardando lágrimas, uma expressão de choque ou qualquer sinal de que finalmente tinha encontrado a arma capaz de me atingir.

Não conseguiu.

Inclinei ligeiramente a cabeça. – É isso?

Ele franziu o cenho.

– O quê?

– Era para doer?

– Estou dizendo que nunca amei você.

– Eu ouvi perfeitamente.

– Casei com você por causa da Black Enterprises.

Sorri. Dessa vez, lentamente.

– Eu sei.

O silêncio que se seguiu foi delicioso.

Ethan piscou. – O quê?

– Você realmente me ouviu.

– Não sabe porra nenhuma.

– Sei que entrou na minha vida porque queria chegar ao meu pai. Sei que usou nosso casamento para construir uma posição dentro da empresa. Sei que passou anos se comportando como o genro perfeito enquanto procurava uma maneira de colocar as mãos em alguma coisa que pertencesse aos Black.

A expressão dele ficou cada vez mais dura. – Se sabia, por que ficou comigo?

– Porque eu precisava saber até onde você tinha ido.

– Está mentindo.

– Pense o que quiser.

– Você está tentando parecer esperta agora porque seu pai descobriu tudo.

Deixei a xícara sobre a mesa e me aproximei. – Esse foi seu maior erro comigo, Ethan. Você passou tempo demais olhando para meu sobrenome e acreditando que eu era apenas a filha mimada de Jacob Black.

– É exatamente o que você é.

Sorri. – Então você realmente não aprendeu nada. Parei diante dele. – Eu não sou a Renesmee.

O rosto dele mudou imediatamente quando pronunciei o nome dela. – Não fala dela.

– Por quê? Ainda dói?

– Cala a boca.

– Você enganou Renesmee durante seis anos porque ela acreditava que estava construindo uma família com você. Ela confiava em você. Eu não tenho mais essa limitação.

– Você não sabe de nada sobre nós.

– Sei o suficiente. Sei que ela sobreviveu a você. Reconstruiu a empresa dela, recuperou a própria vida e está criando a filha apesar de todas as tentativas que você fez para destruí-la.

Ethan apertou os punhos. – E agora está se enfiando na cama do seu pai.

A raiva atravessou meu corpo, mas não permiti que chegasse ao rosto.– Cuidado.

Ele riu. – Agora acertei.

– Não. Agora está falando da futura esposa do meu pai dentro da minha casa. Existe uma diferença.

– Ela ainda é minha.

Soltei uma risada. – Isso é patético.

– Você não sabe o que está dizendo.

– Sei exatamente. E quer saber qual será seu pior castigo? Ele me encarou. Aproximei-me mais um passo. – Não vai ser perder dinheiro. Nem sair da Black Enterprises. Nem ver meu pai desmontar tudo que você levou anos tentando construir. Seu pior castigo vai ser assistir Renesmee casar com Jacob Black.

O rosto dele se contraiu. – Ela não vai casar com ele.

– Ha não?

– Não vai!

– Você vai assistir de longe enquanto ela entra naquela igreja, coloca uma aliança no dedo e escolhe outro homem. Depois vai precisar conviver com o fato de que esse homem é justamente Jacob Black.

Ethan derrubou um copo do bar com um golpe da mão. O vidro se partiu no chão. – ELA É MINHA!

Não recuei. – Não. Nunca foi. E é justamente isso que você não suporta.

– Você não sabe o que eu sou capaz de fazer.

– Sei mais do que você imagina.

Passos surgiram no corredor antes que ele pudesse responder. Virei o rosto e encontrei a babá de Ephraim parada na entrada da sala com meu filho pela mão. O menino ainda estava de pijama e carregava um pequeno dinossauro de brinquedo. Seus olhos passaram pelos cacos no chão antes de procurarem os meus. Meu coração apertou. Ethan também percebeu a presença dele.

– Ephraim...

– Não – interrompi imediatamente.

Caminhei até meu filho e me abaixei diante dele.

– Bom dia, meu amor.

– Vocês estão brigando?

– Tivemos uma conversa um pouco alta.

– O papai quebrou o copo.

Olhei rapidamente para Ethan antes de voltar para meu filho. – Foi um acidente.

Não daria a Ethan o direito de transformar aquela cena em uma lembrança pior para Ephraim. Beijei sua testa e me levantei.

– Pode preparar algumas roupas dele, por favor? Leve Ephraim para a casa da minha mãe.

A babá hesitou. – Claro, senhora.

– Não precisa levar muita coisa. Eu envio o restante depois.

Ethan se aproximou. – Ele não vai a lugar nenhum.

Olhei para a babá. – Pode ir.

Ela assentiu e conduziu Ephraim novamente para o corredor.

– Claire.

Esperei até meu filho desaparecer antes de voltar minha atenção para Ethan. – Você não vai tirar meu filho desta casa.

– Acabei de tirar.

– Eu sou pai dele.

– Interessante você lembrar disso agora.

– Não começa.

– Foi você quem começou essa conversa.

Ele apontou para o corredor. – Manda ela trazer Ephraim de volta.

– Não.

– Claire, eu estou avisando.

– E eu estou ignorando.

Ethan deu um passo em minha direção. – Você acha que pode simplesmente pegar meu filho e levar para onde quiser?

Comecei a rir. Aquilo o deixou ainda mais furioso.

– O que tem de engraçado nisso?

– Você.

– Estou falando sério.

– Eu também.

– Ephraim é meu filho.

Meu sorriso desapareceu lentamente. – É impressionante como você gosta de usar crianças quando percebe que está perdendo o controle sobre uma mulher.

Ele franziu a testa. – Do que está falando?

– Você faz isso com a Belinha.

A expressão dele mudou. – Não coloca minha filha nisso.

– Sua filha? A mesma menina que você transformou em instrumento numa disputa contra Renesmee?

– Eu lutei pela guarda porque sou pai dela.

– Não. Você lutou pela guarda porque sabia que Belinha era o único lugar onde conseguiria machucar Renesmee de verdade. Quinze dias com você, quinze dias com ela. Horários, escola, viagens, cada detalhe transformado numa oportunidade de continuar entrando na vida de uma mulher que não queria mais você.

– Isso não é da sua conta.

– Tornou-se quando você resolveu fazer ameaças usando Ephraim.

Ethan balançou a cabeça. – Você não vai fazer comigo o que Renesmee fez.

Dessa vez minha risada foi baixa. – Você ainda não entendeu.

– Entendi perfeitamente.

– Não, Ethan. Não entendeu absolutamente nada.

Aproximei-me dele.

– Você acha que vai fazer comigo o mesmo que faz com Renesmee. Acha que vai usar Ephraim como moeda de troca, me arrastar para tribunal, exigir guarda compartilhada e aparecer sempre que quiser porque existe uma criança ligando nós dois.

Ele abriu os braços. – Existe.

Olhei diretamente em seus olhos. – Não existe.

Ethan ficou imóvel.

– O quê?

Por alguns segundos, apenas o observei. Eu tinha esperado muito tempo para dizer aquilo. Talvez devesse sentir medo. Não senti. Era filha de Jacob Black. E finalmente Ethan estava conhecendo essa parte de mim.

– Você não pode usar Ephraim contra mim – falei calmamente. – Não pode pedir a guarda dele, não pode ameaçar levá-lo e muito menos repetir comigo o que está fazendo com Renesmee.

Ethan riu, mas a insegurança já estava aparecendo.

– Você enlouqueceu.

– Não.

– Eu sou pai dele.

Mantive meus olhos presos aos seus. – Não, Ethan.

O sorriso desapareceu do rosto dele. Sustentei seu olhar e deixei que alguns segundos de silêncio passassem antes de continuar.

– Ephraim não é seu filho.

Ethan não respirou. Não piscou. Nada.

Deixei que o silêncio fizesse o resto antes de finalmente terminar:

– Ephraim é filho do Quil.