Amor não era o plano

47 Reunião de negócios


Renesmee


Jacob Black precisou de menos de uma hora para me transformar de dona de uma doceria em reconstrução numa intérprete executiva improvisada para uma negociação internacional. Eu ainda não tinha decidido se aquilo era consequência da eficiência absurda daquele homem ou da facilidade com que ele reorganizava a vida das pessoas ao redor sem pedir autorização. Provavelmente das duas coisas.

Saímos do restaurante e, em vez de seguirmos para a Black Enterprises, Jacob mandou o motorista parar diante de uma loja de luxo no centro de Seattle. Quando compreendi suas intenções, deixei claro que tinha roupas no hotel e não precisava que ele comprasse nada para mim. Ele olhou para o relógio, informou que não atravessaria a cidade para descobrir se eu possuía alguma coisa adequada para uma reunião daquela importância e entrou na loja como se a discussão estivesse encerrada. Eu o acompanhei reclamando que aquela mania de decidir tudo sozinho ainda lhe causaria problemas, mas ele apenas respondeu que, até aquele momento, tinha lhe causado muito mais resultados do que problemas.

Ao menos Jacob teve a sensatez de não escolher minha roupa. Uma funcionária me mostrou algumas opções depois que ele explicou que eu participaria de uma reunião empresarial, e optei por algo elegante sem parecer fantasiada de executiva. A saia curta de alfaiataria tinha estampa xadrez em tons de marrom e preto e ficava bem com a meia-calça escura. Combinei com uma blusa caramelo de gola alta, ajustada ao corpo, e um sobretudo longo em um tom semelhante, que deixava o conjunto mais sofisticado. Completei com botas pretas de cano curto e mantive minha bolsa de couro escuro. Não havia tempo para fazer muita coisa com meus cabelos, então apenas os penteei e deixei os fios ruivos soltos sobre os ombros. Quando me olhei no espelho, fiquei satisfeita. Não parecia alguém tentando pertencer ao universo de Jacob Black. Ainda parecia eu, apenas numa versão suficientemente elegante para entrar numa reunião milionária sem me perguntar a cada cinco minutos se estava vestida de maneira inadequada.

Quando saí do provador, encontrei Jacob respondendo alguma coisa no celular. Ele ergueu os olhos assim que percebeu minha presença e interrompeu o que estava fazendo. Seu olhar percorreu meu corpo lentamente, das botas até meu rosto, demorando tempo suficiente para que eu me sentisse consciente demais da roupa que vestia. Esperei algum comentário, mas ele simplesmente guardou o aparelho no bolso e disse:

– Serve.

Franzi o cenho e coloquei uma das mãos na cintura. – Serve? Você me trouxe para uma loja em que uma saia custa provavelmente mais do que o aluguel de muita gente e essa é toda a avaliação que consegue fazer?

Jacob se aproximou, e o princípio de sorriso em sua boca deixou claro que ele sabia perfeitamente o efeito que aquele olhar tinha causado.

– Posso dizer o que realmente pensei quando você saiu daquele provador, mas corremos o risco de chegar atrasados à reunião.

Sustentei seu olhar por alguns segundos antes de pegar minha bolsa sobre a poltrona. – Pensando melhor, serve foi uma excelente resposta.

– Foi o que imaginei.

Ele se virou para a funcionária e pediu que colocasse a roupa anterior numa embalagem. Quando percebi que também pretendia pagar o que eu estava usando, coloquei meu cartão sobre o balcão antes dele.

– Nem pense nisso. Você já me arrastou até aqui, mas eu posso pagar minha própria roupa.

Jacob empurrou meu cartão de volta com dois dedos. – A roupa foi necessária por causa da minha reunião. É uma despesa da empresa.

– Não tente transformar isso numa justificativa contábil.

– Não preciso tentar. É exatamente o que é.

– Jacob, eu provavelmente vou usar essa roupa uma única vez para trabalhar para você.

Ele entregou o próprio cartão à funcionária e me lançou um olhar tranquilo. – Então considere um uniforme extremamente caro.

A mulher atrás do balcão tentou esconder o sorriso enquanto eu respirava fundo. – Você tem consciência de como é irritante?

– Tenho. Ninguém chegou à minha idade sem me informar.

Não adiantaria discutir, principalmente porque estávamos com o horário apertado. Saí da loja prometendo que aquela história ainda não tinha terminado, embora Jacob parecesse bastante confortável com a possibilidade de continuar a discussão depois. No carro, percebi que ele também tinha mudado de roupa. Durante o tempo em que eu estava na loja, alguém levara até ele outro conjunto, e o homem que havia almoçado comigo algumas horas antes praticamente desaparecera. Jacob vestia agora um terno escuro perfeitamente ajustado aos ombros largos, camisa branca, gravata e o relógio que eu já o tinha visto consultar inúmeras vezes naquele dia. Os cabelos estavam cuidadosamente arrumados, e até sua postura parecia mais rígida. Ele respondia mensagens no celular enquanto o motorista avançava pelo trânsito de Seattle, completamente concentrado no trabalho.

Observei seu perfil durante alguns segundos antes de perguntar:

– Você costuma trocar de personalidade junto com o terno ou isso acontece apenas em dias de negociação?

Jacob terminou de digitar antes de olhar para mim. – Que personalidade?

– A que estava discutindo sobremesa comigo desapareceu.

– Ela continua aqui. Só tem coisas mais importantes para fazer agora.

– Isso foi quase ofensivo.

– Não foi pessoal. Neste momento, minha sobremesa também deixou de ser importante.

Sorri e voltei a olhar pela janela. Havia uma diferença evidente entre o Jake que eu começava a conhecer e o Jacob Black de quem as pessoas falavam. Não eram exatamente homens diferentes, porque a autoridade, o convencimento e aquela tendência irritante de querer controlar tudo existiam nos dois. O que mudava era a intensidade. Perto de mim, ele provocava, sorria e às vezes permitia que eu enxergasse alguma gentileza escondida sob toda aquela arrogância. Quando o assunto era a empresa, essa parte dele parecia ser guardada em algum lugar ao qual poucas pessoas tinham acesso.

O carro entrou pouco depois na área privativa da Black Enterprises, e minha atenção foi imediatamente para o prédio. Eu já tinha estado em um evento da empresa e sabia que Jacob comandava um império, mas entrar ali ao lado dele era completamente diferente. A fachada de vidro e metal se erguia sobre o centro de Seattle, imponente sem precisar de qualquer exagero, e o nome Black Enterprises aparecia discretamente próximo à entrada principal. Assim que descemos, um funcionário se aproximou para receber a chave do veículo. Jacob a entregou sem interromper a conversa que mantinha pelo telefone e começou a caminhar. Precisei acelerar o passo para acompanhá-lo.

– Você pretende diminuir a velocidade ou isso também faz parte do meu treinamento?

Ele desligou a ligação e guardou o aparelho. – Se pretende trabalhar comigo durante as próximas horas, aprenda a acompanhar.

– Eu tenho pernas menores que as suas.

– Isso parece um problema de planejamento, Cullen.

Olhei para ele com indignação. – Você acabou de culpar minha altura por não conseguir acompanhar suas passadas?

Jacob finalmente diminuiu um pouco o ritmo, embora jamais fosse admitir que tinha feito aquilo por mim. – Acabei de resolver o problema sem precisar convocar uma reunião sobre ele. Tente aprender alguma coisa.

Entramos no saguão, e qualquer resposta que eu estivesse preparando desapareceu quando observei o interior do prédio. O pé-direito alto deixava o ambiente ainda maior, com paredes revestidas em pedra clara, estruturas metálicas escuras e enormes painéis de vidro. Atrás da recepção, o nome da empresa ocupava uma parede inteira de maneira discreta e elegante. Havia pessoas circulando com pastas, tablets e computadores, mas o mais interessante era observar o que acontecia quando Jacob passava. Alguns funcionários o cumprimentavam imediatamente, outros apenas endireitavam a postura e abriam espaço, e conversas que pareciam descontraídas segundos antes ficavam consideravelmente mais profissionais.

Aproximei-me um pouco mais dele e falei baixo:

– Seus funcionários têm medo de você.

Jacob continuou caminhando sem demonstrar preocupação. – Eles me respeitam.

– Tenho quase certeza de que vi um homem guardar o celular quando você apareceu.

– Então minha presença aumentou a produtividade dele.

– Você consegue transformar qualquer coisa em vantagem.

– É uma das razões pelas quais meu nome está no prédio.

A resposta veio com tanta naturalidade que não consegui evitar um sorriso. Seguimos por um corredor reservado até os elevadores privativos. Jacob passou um cartão pelo leitor e, assim que as portas se abriram, entrou comigo. Ficamos sozinhos, e foi somente quando ele apertou o botão do último andar e se virou em minha direção que percebi que a conversa descontraída tinha acabado.

– Quero que preste atenção agora, porque não teremos tempo para repetir instruções quando entrarmos naquela sala. Dois representantes do grupo falam inglês, mas a negociação será conduzida prioritariamente em alemão. Você vai traduzir tudo, mesmo quando perceber que alguém compreendeu sem sua ajuda.

Assenti e ajeitei a alça da bolsa no ombro. – Tradução integral.

– Exatamente. Se conversarem entre eles em alemão durante a reunião, quero saber o que foi dito. Não estou pedindo espionagem. Eles estarão numa mesa de negociação comigo e qualquer comentário relacionado ao contrato faz parte da negociação.

– Entendi. E se começarem uma conversa pessoal?

– Ignore, a menos que interfira no negócio. Quero informação relevante, não fofoca.

A resposta me fez conter um sorriso. Jacob continuou antes que eu pudesse provocá-lo.

– Outra coisa importante. Não interprete intenção. Se alguém disser que determinado valor é elevado, você me diz que consideraram o valor elevado. Não quero ouvir que parecem insatisfeitos ou que provavelmente estão tentando reduzir o preço. Eu decido o que significa. Você me entrega exatamente o que ouviu.

– Tradução fiel, sem acrescentar análise pessoal.

– Isso. E não arredonde valores. Se mencionarem percentuais, prazos, participação acionária ou qualquer número relacionado ao contrato, traduza exatamente como foi dito.

Inclinei a cabeça enquanto o observava. – Você está realmente preocupado com essa negociação.

Jacob ajeitou discretamente o punho da camisa sob o paletó. – Estou atento. Preocupação não fecha contrato.

– Essa frase parece alguma coisa que você mandaria colocar numa parede da empresa.

– Eu demitiria quem sugerisse isso.

Ri baixo, mas ele continuou sério.

– Existe uma última orientação, e provavelmente é a mais importante. Se você não souber traduzir alguma coisa, interrompa a conversa e diga que não sabe.

Aquilo me surpreendeu mais do que todo o restante. – Você não ficaria irritado?

– Ficaria irritado se você inventasse. Uma dúvida leva trinta segundos para ser esclarecida. Um termo mal traduzido pode custar milhões e meses de disputa jurídica. Não preciso que ninguém naquela sala finja ser mais competente do que é. Preciso que faça o trabalho corretamente.

Assenti com mais seriedade. – Certo. Se eu tiver qualquer dúvida, interrompo.

Jacob me observou por alguns segundos antes de perguntar:

– Está nervosa?

– Um pouco. Há algumas horas eu estava numa audiência de guarda e agora estou indo interpretar uma negociação milionária sem nunca ter feito isso profissionalmente. Acho que tenho motivos.

– Tem. E prefiro que esteja um pouco nervosa. Significa que entendeu a responsabilidade.

– Você definitivamente não sabe tranquilizar uma pessoa.

– Não estou tentando tranquilizar você, Nessie. Estou preparando você para não cometer erros.

As portas começaram a se abrir, mas antes que ele saísse segurei discretamente seu braço. Jacob baixou os olhos para minha mão e depois tornou a encarar meu rosto.

– Tem mais uma coisa que preciso saber antes de entrarmos.

– Diga.

Hesitei por um instante, sentindo-me um pouco ridícula pela pergunta. – Como devo chamar você durante a reunião?

O canto de sua boca se ergueu discretamente. – Essa pergunta está lhe causando preocupação?

– Estou tentando evitar chamar o presidente da Black Enterprises de Jake na frente de cinco investidores alemães.

– Seria interessante observar a reação deles.

– Jacob.

– Senhor Black está bom. Desde que consiga dizer sem parecer que está debochando de mim.

– Vou me esforçar.

Ele se aproximou um pouco antes de responder, num tom mais baixo. – E, se esquecer e me chamar de Jake, não vou mandar você embora por isso. Apenas vou cobrar depois.

Ergui as sobrancelhas. – Não quero nem perguntar o que significa cobrar depois.

– Inteligente da sua parte.

Ele saiu do elevador e eu o acompanhei, repetindo mentalmente a orientação mais simples de todas. Senhor Black. Naquela sala, ele seria senhor Black. O homem caminhando diante de mim já não era apenas Jake, o sujeito arrogante que tinha me provocado durante o almoço, me abraçado no corredor do fórum ou prometido que Ethan não tiraria minha filha de mim. Aquele era Jacob Black, o empresário que havia construído uma companhia poderosa, que comandava centenas de pessoas e parecia mudar a atmosfera de um andar inteiro apenas por atravessar um corredor.

O último piso era ainda mais impressionante que o saguão. Havia poucas pessoas circulando, grandes painéis de vidro exibiam Seattle ao redor e obras de arte ocupavam paredes em tons neutros. Uma mulher levantou-se assim que nos aproximamos e informou que todos já estavam na sala, acrescentando que Sam havia deixado o material preparado para mim. Jacob agradeceu e pediu que nenhuma ligação fosse transferida durante a reunião, a menos que houvesse uma emergência real. Ela assentiu imediatamente, e seguimos até duas grandes portas escuras, onde Sam nos aguardava.

Assim que me viu, ele soltou o ar com alívio e olhou para Jacob. – Quando você disse que tinha encontrado uma solução, imaginei que estivesse trazendo um intérprete de alguma agência.

Jacob pegou a pasta que ele carregava e colocou em minhas mãos. – Encontrei coisa melhor. Ela é fluente.

Sam me olhou com curiosidade. – Em alemão?

Jacob lançou a ele um olhar impaciente. – Não, Sam. Em mandarim. Achei que seria interessante confundir nossos convidados antes de discutir alguns milhões de dólares.

Sam respirou fundo e abriu a porta. – É reconfortante perceber que você continua desagradável mesmo quando resolve um problema.

– É uma questão de consistência.

Entrei logo depois de Jacob e senti meu nervosismo aumentar quando vi a sala da presidência. O espaço era amplo, cercado por janelas que ofereciam uma vista impressionante da cidade. Uma longa mesa ocupava o centro, com telas embutidas, documentos cuidadosamente organizados e lugares previamente identificados. Paul, Embry e outros executivos da empresa já estavam presentes de um lado. Do outro, cinco representantes do grupo alemão conversavam discretamente, mas todos se levantaram assim que Jacob entrou.

A maneira como ele assumiu o ambiente foi imediata. Não precisou anunciar sua chegada ou fazer qualquer gesto exagerado. Caminhou até os convidados, cumprimentou o primeiro homem com um aperto de mão firme e esperou enquanto ele falava.

– Herr Black, es freut mich sehr, Sie endlich persönlich kennenzulernen. Vielen Dank, dass Sie dieses Treffen trotz der kurzfristigen Schwierigkeiten möglich gemacht haben.

Jacob virou discretamente o rosto em minha direção.

Respirei fundo antes de traduzir. – Senhor Black, ele diz que é um prazer finalmente conhecê-lo pessoalmente e agradece por ter mantido a reunião apesar dos imprevistos de última hora.

Jacob tornou a olhar para o empresário e respondeu com tranquilidade. – Diga que o prazer é meu e que alguns imprevistos não são suficientes para impedir um negócio importante.

Traduzi sua resposta para o alemão, e o sorriso do homem me mostrou que tinha funcionado. A mulher ao lado dele se apresentou em seguida e comentou que estavam particularmente interessados nas projeções preparadas pela Black Enterprises. Traduzi novamente, já um pouco mais segura, enquanto Jacob cumprimentava cada integrante do grupo e me apresentava apenas como a profissional responsável pela interpretação daquela reunião. Gostei do fato de ele não mencionar que eu tinha aprendido alemão durante um intercâmbio ou que, duas horas antes, eu estava discutindo com ele porque não tinha pedido emprego algum. Naquela sala, ele simplesmente me tratou como alguém que estava ali porque tinha competência para cumprir uma função.

Depois dos cumprimentos, Jacob indicou os lugares e pediu que transmitisse aos convidados que eram bem-vindos à Black Enterprises. Fiz a tradução e todos começaram a se acomodar. Ele caminhou até a cabeceira da mesa e apontou discretamente para a cadeira à sua direita, deixando claro onde eu deveria ficar. Sentei, coloquei a bolsa ao lado da cadeira e abri a pasta que Sam havia preparado. Havia nomes dos participantes, resumo da negociação, valores, projeções, percentuais e uma pequena relação de termos específicos que poderiam surgir durante a conversa. Passei os olhos rapidamente pelo material e senti a responsabilidade pesar de verdade.

Quando levantei o rosto, encontrei Jacob me observando.

Não havia o sorriso provocador do restaurante, nem aquela expressão satisfeita que ele usava quando conseguia me fazer aceitar alguma coisa. Seu olhar era firme e profissional. Ele queria saber se eu estava pronta.

Fiz um pequeno aceno afirmativo.

Jacob ajeitou os punhos da camisa, apoiou os braços sobre a mesa e dirigiu a atenção aos novos sócios. – Agradeço a presença de todos. Temos vários pontos importantes para discutir e acredito que podemos sair desta sala com os termos principais definidos. Se estiverem de acordo, podemos iniciar a reunião.

Traduzi suas palavras para o alemão e ouvi a concordância do outro lado da mesa. Quando terminei, Jacob abriu a pasta diante dele e começou a apresentar o primeiro ponto da negociação.

Foi naquele momento que compreendi a dimensão da situação em que havia me metido.

Naquela manhã eu tinha entrado num tribunal com medo de perder minha filha. Algumas horas depois, estava sentada à direita de Jacob Black, no último andar da Black Enterprises, traduzindo uma negociação internacional enquanto executivos aguardavam minhas palavras antes de continuar uma conversa que envolvia milhões.

E eu só tinha uma regra pessoal para acrescentar às instruções que Jacob havia me dado no elevador.

Enquanto estivéssemos naquela sala, ele era senhor Black.

Porque chamar aquele homem de Jake no meio de uma negociação parecia íntimo demais para um lugar onde todos ao redor claramente o temiam um pouco.



A reunião finalmente terminou, e Seattle já estava coberta pelas luzes da noite. Eu tinha perdido completamente a noção do tempo entre contratos, percentuais, projeções, termos comerciais e conversas que alternavam entre inglês e alemão numa velocidade que, nas primeiras horas, exigiu toda a minha concentração. Depois, alguma coisa simplesmente encaixou. Parei de pensar antes de cada frase e comecei a traduzir naturalmente, acompanhando as mudanças de tom, interrompendo quando precisava confirmar algum termo e tomando o cuidado de reproduzir exatamente o que era dito, como Jacob havia me orientado. No final, os representantes alemães apertaram a mão dele com uma satisfação que não precisava de tradução. O acordo estava praticamente fechado, faltando apenas a revisão de algumas cláusulas pelo jurídico antes das assinaturas definitivas, e a expressão de Sam ao recolher os documentos deixou claro que aquela tarde tinha terminado muito melhor do que começara.

Ainda assim, a única coisa em que consegui pensar quando saí daquela sala foi em Belinha.

Enquanto Jacob permaneceu alguns minutos conversando com Sam, Paul e Embry, procurei um lugar mais reservado próximo às enormes janelas e fiz uma chamada de vídeo para Alice. Ela atendeu no terceiro toque e, antes mesmo que eu conseguisse cumprimentá-la, o rosto da minha filha apareceu ocupando praticamente toda a tela.

– Mamãe!

Sorri imediatamente. A saudade que eu vinha tentando controlar desde cedo apertou meu peito de uma maneira quase dolorosa.

– Oi, meu amor. Você vai entrar dentro do telefone desse jeito.

Belinha afastou um pouco o rosto e abriu um sorriso enorme. Os cabelos estavam presos em dois rabos de cavalo meio tortos, o que denunciava que Alice provavelmente havia deixado que ela participasse da escolha do penteado.

– Tia Alice fez meu cabelo.

– Eu percebi.

A voz indignada da minha irmã veio de algum lugar fora da câmera.

– Eu gostaria de informar que ela se mexeu o tempo inteiro.

Belinha virou o aparelho na direção de Alice. – Ela puxou meu cabelo, mamãe.

– Traidora! – Alice protestou, arrancando uma risada minha. – Passei a tarde inteira sendo uma tia maravilhosa e é assim que você me agradece?

Belinha voltou a câmera para o próprio rosto e cochichou como se Alice não pudesse ouvir:

– Ela também deixou eu comer sorvete.

– Isabella Cullen.

Os olhos dela se arregalaram. – Foi a tia Alice!

– Ah, agora eu sou culpada? – Minha irmã apareceu atrás dela. – Renesmee, antes de julgar, quero deixar registrado que foram apenas duas bolas.

– Duas? – repeti, tentando manter a seriedade.

Belinha levantou três dedinhos.

Alice olhou para a sobrinha. – Você é péssima cúmplice.

Comecei a rir, e Belinha me acompanhou sem entender completamente por quê. Depois de tudo que tinha acontecido naquele dia, ouvir a risada da minha filha foi suficiente para desfazer uma parte da tensão que ainda permanecia presa no meu corpo.

– Você se comportou direitinho com a tia Alice?

– Sim. Eu brinquei, desenhei e ajudei o tio Emmett.

Aquilo imediatamente me deixou desconfiada.

– Ajudou o tio Emmett com o quê?

Alice apareceu novamente atrás dela e balançou a cabeça em advertência.

– Não pergunte.

– Alice.

– Confie em mim. Pela sua saúde mental, não pergunte.

Belinha começou a rir e levou a mão à boca. – É segredo.

– Agora eu definitivamente quero saber.

– Amanhã eu conto – prometeu minha filha, aproximando novamente o rosto da câmera. – Mamãe, você vem amanhã?

A pergunta tirou meu sorriso por um instante. Eu sabia que aquela seria uma das últimas noites antes de nossa rotina mudar de verdade. Em breve teríamos Seattle, os dias com Ethan e uma organização que eu ainda não sabia como explicaria para uma criança de cinco anos sem fazê-la sentir que alguma coisa estava sendo arrancada dela.

Não deixei que Belinha percebesse minha preocupação.

– Amanhã bem cedinho eu vou estar aí. Quando você acordar, sua mãe já vai estar enchendo você de beijo.

Ela sorriu. – Quantos?

– Uns cem para começar.

– Cem é muito.

– Fiquei longe de você. Os juros aumentaram.

Belinha franziu a testa. – O que é juros?

Ouvi uma risada masculina atrás de mim.

Virei discretamente o rosto e vi Jacob alguns metros adiante, conversando com Paul, embora fosse evidente que tinha ouvido minha explicação desastrosa.

– É uma coisa de adulto que você não precisa aprender agora – respondi, voltando a atenção para a tela.

– O vovô Edward fala de coisa de adulto e eu não entendo também.

– Seu avô faz isso até com adultos.

Alice soltou uma gargalhada.

– Vou contar para ele que você disse isso.

– Conte. Depois da audiência de hoje, não tenho mais medo de nada.

Belinha encostou os lábios na câmera. – Beijo, mamãe.

Meu coração se apertou.

– Beijo, meu amor. Durma direitinho e não dê trabalho para sua tia.

– Eu nunca dou.

Alice apareceu atrás dela com uma expressão teatralmente chocada.

– Essa criança mente olhando nos olhos.

– Tia Alice!

Ri enquanto as duas começavam a discutir, e por alguns segundos apenas fiquei observando. Aquilo era minha vida. Minha filha, minha irmã, minha família. Depois de passar a manhã ouvindo outras pessoas discutirem diante de uma juíza onde Belinha deveria morar e com quem deveria passar metade de cada mês, ver minha menina daquele jeito, tranquila e protegida, me devolveu um pouco de paz.

– Amo você, filha.

– Amo você mais, mamãe.

– Impossível.

– Eu amo maior.

– Então amanhã vamos discutir pessoalmente quem ama maior.

Belinha concordou muito séria. – Tá bom.

Mandei outro beijo e encerrei a chamada. Permaneci olhando para a tela apagada por alguns segundos antes de guardar o celular na bolsa.

– Ela está bem?

A voz de Jacob veio perto o suficiente para me fazer levantar o rosto. Ele já havia tirado a gravata e aberto o primeiro botão da camisa, mas continuava com o paletó. Parecia menos presidente da Black Enterprises do que algumas horas antes, embora eu tivesse a impressão de que aquele homem jamais deixava completamente de ser o chefe, nem dentro da própria casa.

– Está. Alice aparentemente comprou a lealdade dela com três bolas de sorvete.

– Estratégia eficiente.

– Não incentive.

– Tenho um neto de três anos. Suborno infantil é uma ferramenta necessária de sobrevivência.

Sorri enquanto me levantava. – Terminou tudo?

– Por hoje. Já podemos ir.

Paul se aproximou enquanto guardava o celular no bolso. – Antes de você desaparecer, Cullen, preciso dizer que foi impressionante. Você entrou naquela sala sem experiência profissional como intérprete e, depois dos primeiros vinte minutos, parecia fazer isso há anos.

– Obrigada. Acho que ainda estou tentando entender metade do que aconteceu.

Embry fechou uma pasta e se juntou a nós. – O mais impressionante foi interromper Black duas vezes para pedir que ele falasse mais devagar. Conheço gente que trabalha aqui há dez anos e ainda não teve coragem.

Olhei para Jacob. – Ele mandou que eu interrompesse.

Sam soltou uma risada. – Isso não significa que esperávamos que alguém realmente fizesse.

Jacob lançou um olhar impaciente aos três. – Acabaram?

– Estamos elogiando sua intérprete – respondeu Paul.

– Eu percebi. Façam isso amanhã. Hoje vocês já ocuparam tempo suficiente dela.

– Você ocupou meu tempo – corrigi.

Jacob voltou o olhar para mim. – Exatamente por isso vou recompensá-la.

A palavra imediatamente despertou minha desconfiança.

– Não gostei da forma como isso soou.

Paul sorriu enquanto se afastava. – Boa sorte, Renesmee.

– Por que ele está me desejando boa sorte?

– Porque Paul gosta de falar demais.

Sam pegou a própria pasta. – Amanhã eu mando os valores referentes ao trabalho de hoje. E, caso Black ainda não tenha dito, obrigado. Você nos tirou de uma situação complicada.

– Foi um prazer. Apesar do meu recrutamento ter sido um pouco questionável.

Embry riu. – Se ele disser que foi contratada, é melhor nem discutir.

– Descobri isso da pior maneira.

Depois que os três se despediram, fiquei sozinha com Jacob. Peguei minha bolsa e olhei para o relógio, surpresa ao perceber o quanto estava tarde.

– Preciso voltar para o hotel. Ainda tenho que organizar minhas coisas e amanhã quero sair cedo para Forks.

– Vai organizar depois.

Parei de ajeitar a bolsa no ombro. – O que significa vai organizar depois?

Jacob colocou uma das mãos no bolso da calça e respondeu com absoluta tranquilidade:

– Significa exatamente o que parece. Você trabalhou para mim a tarde inteira, salvou uma negociação importante e praticamente não saiu daquela cadeira por horas. Vou lhe pagar o jantar.

– Você já me pagou o almoço.

– O almoço aconteceu antes de você trabalhar para mim.

– E você comprou minha roupa.

– Despesa profissional.

– Jacob...

– Nessie, você vai perder mais tempo tentando me convencer a mudar de ideia do que gastaria simplesmente vindo comigo.

Cruzei os braços. – Você usa esse argumento com uma frequência irritante.

– Porque continua sendo verdade.

Eu já deveria ter aprendido. Quando Jacob Black assumia aquele tom calmo, não significava que estava me dando uma ordem propriamente dita. Significava algo ainda mais irritante. Ele já tinha analisado todas as minhas possíveis objeções e estava esperando que eu terminasse de apresentá-las.

– Para onde pretende me levar?

– Kerry Park.

A resposta me surpreendeu.

– Kerry Park?

– Primeiro vamos buscar comida. Depois, Kerry Park.

– Você passou a tarde inteira numa reunião milionária e sua grande recompensa é me levar para comer olhando a cidade?

Ele inclinou levemente a cabeça. – Depois do dia que você teve, imaginei que outro restaurante cheio de gente tentando impressionar você seria a última coisa de que precisa.

Fiquei em silêncio.

Droga.

Ele tinha acertado.

– E de lá dá para ver Seattle inteira – continuou. – Você come, respira um pouco e eu devolvo você ao hotel em horário decente. Amanhã cedo, levo você para Forks.

– Você não precisa me levar.

– Eu sei.

– Posso pegar um carro.

– Também sei.

– Então por que continua dizendo que vai me levar?

Jacob se aproximou e retirou minha bolsa do meu ombro antes que eu pudesse impedir, carregando-a como se aquilo encerrasse definitivamente a discussão.

– Porque quero.

Olhei para ele segurando minha bolsa e quase ri da contradição daquela imagem. O mesmo homem que poucas horas antes comandava uma mesa cheia de executivos e discutia contratos milionários agora estava diante de mim carregando uma bolsa feminina e decidindo onde eu jantaria.

– Você sabe que existe uma diferença entre convite e sequestro, não sabe?

– Sei. No sequestro eu não perguntaria onde você quer comer.

– Você ainda não perguntou.

Ele abriu a porta da sala e fez um gesto para que eu passasse.

– Então escolha o que quiser no caminho.

Caminhei em sua direção, mas parei quando fiquei ao lado dele.

– E se eu disser que quero voltar para o hotel?

Jacob sustentou meu olhar. A resposta veio séria, sem provocação.

– Eu levo você para o hotel.

Aquilo me fez hesitar.

Talvez fosse exatamente essa a diferença que eu começava a compreender nele. Jacob empurrava, provocava, insistia e agia como se o mundo tivesse sido criado para obedecer às suas decisões, mas, quando a escolha realmente importava, ele recuava.

Olhei para o corredor vazio e depois para ele.

– Uma hora.

O sorriso surgiu devagar em seu rosto.

– Uma hora e meia.

– Uma.

– Uma hora e quinze.

Soltei uma risada. – Você negocia até passeio?

– Acabei de fechar um acordo com alemães. Estou aquecido.

– Uma hora e quinze, então.

Jacob estendeu o braço indicando o corredor. – Depois de você.