Amor não era o plano

74 O casamento ( parte final)





Jacob

A localização de Renesmee continuava aberta no painel enquanto eu dirigia, e acompanhei aquele pequeno ponto até perceber que ele havia parado de se mover. Edward estava ao meu lado, com o próprio celular nas mãos, mantendo contato com a polícia e repassando as últimas informações que tínhamos. Nenhum de nós conversava mais do que o necessário. A tensão dentro do carro dispensava qualquer tentativa inútil de tranquilização, porque ambos sabíamos exatamente o que estava em jogo. Renesmee estava presa com Ethan, Belinha estava com ela, e a única vantagem que tínhamos era a localização que Nessie conseguira compartilhar antes de desligar.

Ampliei o mapa rapidamente quando reconheci a região para a qual estávamos seguindo.

– Red Hook – falei, mantendo os olhos na estrada. – Ele levou as duas para as docas, perto do Atlantic Basin.

Edward conferiu a localização no painel e depois olhou pela janela, reconhecendo a mudança da paisagem à medida que nos aproximávamos da região industrial.

– A polícia está a caminho. Passei a última atualização da localização. Eles sabem que existem uma mulher e uma criança envolvidas.

– Quanto tempo?

– Não disseram. Confirmaram apenas que as unidades foram despachadas.

Minha mão apertou o volante.

– Então chegaremos primeiro.

Acelerei assim que tive espaço, ignorando a velocidade indicada no painel. Edward não reclamou. Não naquele momento. Limitou-se a segurar o celular e acompanhar o caminho, porque ele também sabia que cada minuto podia significar alguma coisa. Eu não conseguia afastar da cabeça a última parte da conversa com Renesmee. Quando perguntei se Ethan havia machucado alguma delas, ela respondera que não. Ainda não. Aquelas duas palavras haviam permanecido comigo durante todo o trajeto.

Ethan não havia improvisado aquilo. Ele conseguira acesso ao veículo que deveria buscar Renesmee, aparecera no hotel usando o uniforme de um motorista e soubera exatamente quando ela sairia. Aquilo exigia preparação. Ele tinha desaparecido durante semanas, abandonara até o período de convivência com Belinha e deixara todos acreditarem que estava apenas se escondendo depois de perder o controle. Agora eu começava a compreender que talvez não estivesse escondido. Talvez estivesse planejando.

– Ele preparou isso – falei.

Edward virou o rosto para mim.

– Eu sei.

– Não pegou um carro e decidiu ir ao hotel esta manhã. Ele sabia qual veículo buscaria Nessie, sabia o horário e sabia como entrar sem levantar suspeitas.

– Rachel disse que o carro estava exatamente onde deveria estar.

– É isso que me preocupa.

Edward respirou fundo.

– Primeiro encontramos as duas. Depois descobrimos como ele conseguiu fazer isso.

Assenti.

– Primeiro elas.

A paisagem foi mudando conforme avançávamos por Red Hook. Os prédios deram lugar a armazéns, estruturas metálicas, cercas, caminhões e contêineres. O movimento de pessoas diminuiu consideravelmente, e a localização continuava parada. Quando entramos numa área mais isolada próxima às docas, reduzi apenas o suficiente para procurar o veículo entre os galpões.

Então o vi.

Um SUV escuro estava estacionado de maneira irregular perto da lateral de um armazém.

Reconheci o modelo imediatamente.

– Ali.

Edward acompanhou meu olhar.

– É o carro?

– É um dos meus.

Ele me olhou.

– Da empresa?

– Black Enterprises. Frota executiva.

Aquilo explicava por que ninguém no hotel havia desconfiado. O veículo era legítimo. Provavelmente estava cadastrado para fazer exatamente aquele serviço. Ethan apenas precisava substituir o homem que deveria estar ao volante.

Estacionei alguns metros atrás do SUV e desliguei o motor. Retirei a arma que estava comigo e a coloquei na cintura, escondendo-a sob o paletó antes de abrir a porta.

Edward viu.

Não fez qualquer discurso.

Apenas me olhou e falou:

– Vamos encontrar minha filha.

– Vamos.

Saímos praticamente ao mesmo tempo.

Corri até o SUV e abri a porta lateral.

– Nessie!

Vazio.

O banco onde ela deveria estar não tinha ninguém. Belinha também não estava ali. Examinei rapidamente o interior procurando qualquer sinal de sangue ou violência, mas não encontrei nada evidente.

– Belinha! – Edward chamou enquanto contornava o veículo.

Desci e olhei ao redor.

– RENESMEE!

Nenhuma resposta.

O silêncio daquela área me incomodava. O carro estava ali, a localização terminava naquele ponto e não havia qualquer sinal das duas.

Edward chegou à traseira do SUV e abriu o porta-malas.

– Jacob.

O modo como pronunciou meu nome me fez atravessar a distância imediatamente.

Havia um homem dentro.

Completamente sem roupa, desacordado e abandonado no compartimento.

Reconheci-o assim que vi seu rosto.

– Marcos.

Edward já estava se inclinando para examiná-lo.

– Você conhece?

– Trabalha para mim. É um dos motoristas da empresa.

Minha raiva aumentou mais um pouco.

– Foi assim que Ethan conseguiu entrar no hotel. Pegou o carro, as roupas e se passou por ele.

Edward verificou o pulso de Marcos e depois avaliou sua respiração com rapidez profissional.

– Ele está vivo. O pulso está presente e a respiração está regular.

– Alguma coisa grave?

– Não consigo saber sem examiná-lo adequadamente. Ele está inconsciente, portanto precisa de atendimento imediatamente, mas os sinais vitais estão estáveis.

Olhei para o galpão próximo.

Uma das portas laterais estava parcialmente aberta.

– Elas entraram ali.

Edward também olhou.

– Vamos.

Pegou o celular enquanto caminhávamos e informou que havia outra vítima no local, solicitando atendimento médico para Marcos. Eu retirei a arma da cintura antes de entrarmos no galpão, mantendo-a apontada para baixo. Não sabia onde Renesmee e Belinha estavam e não cometeria a estupidez de avançar com o dedo no gatilho sem saber o que encontraria.

O interior do armazém era muito maior do que parecia do lado de fora. Caixas, pallets, equipamentos antigos e estruturas metálicas criavam corredores irregulares, enquanto a luz que entrava pelas janelas superiores deixava algumas áreas claras e outras mergulhadas em sombras. Ethan escolhera bem o lugar. Havia espaço suficiente para esconder alguém e rotas demais para saber imediatamente em que direção seguir.

– RENESMEE! – gritei. – NESSIE, SOU EU!

Minha voz ecoou pelo galpão.

Edward avançou ao meu lado.

– BELINHA! NESSIE!

Não houve resposta.

Seguimos por um dos corredores, procurando qualquer sinal de passagem. Eu precisava lutar contra o impulso de simplesmente correr. Se Ethan estivesse armado, eu não poderia chegar até Renesmee anunciando minha posição sem saber onde ele estava, mas também precisava que ela soubesse que eu tinha chegado.

– Princesa! – chamei novamente. – Renesmee, responde!

Edward apontou para uma estrutura metálica alguns metros adiante.

– Jacob.

Havia um pedaço de tecido branco preso numa das quinas.

Aproximei-me e o retirei cuidadosamente.

Renda.

Meu estômago se contraiu.

Eu nunca tinha visto Renesmee usando o vestido, mas reconheci o tecido das fotografias e das poucas partes que Alice havia me permitido conhecer durante os preparativos.

– É dela.

Edward ficou alguns segundos olhando para aquilo.

A expressão dele endureceu.

– Então estamos no caminho certo.

Guardei o pedaço de tecido no bolso e seguimos.

– BELINHA! – gritei. – É O TIO JAY! SE ESTIVER OUVINDO, RESPONDE!

Dessa vez, ouvi alguma coisa.

Um ruído pequeno vindo de trás de uma fileira de caixas.

Edward também percebeu.

Nós dois ficamos em silêncio por alguns segundos.

Então ouvi:

– Tio Jay?

Meu peito afrouxou pela primeira vez desde a ligação.

– Belinha!

Uma pequena figura apareceu entre duas pilhas de caixas. Ela ainda estava com a roupa de daminha, mas o rosto estava molhado de lágrimas e os cabelos já não tinham a organização cuidadosa que Alice provavelmente levara horas para conseguir.

Quando me viu, correu.

– TIO JAY!

Guardei imediatamente a arma na cintura antes que ela chegasse e me abaixei para recebê-la. Belinha se jogou nos meus braços com tanta força que quase me desequilibrou. Levantei-a e a apertei contra o peito, sentindo seus braços se fecharem ao redor do meu pescoço.

– Estou aqui, pequena. Estou aqui.

Ela começou a chorar.

– Eu fiquei escondida.

Passei a mão por seus cabelos e beijei sua testa.

– Eu sei. Você fez exatamente o que precisava fazer.

Edward se aproximou imediatamente e tocou o rosto da neta, procurando qualquer ferimento.

– Está machucada, meu amor?

Ela balançou a cabeça.

– Não.

– Tem certeza? Seu pai fez alguma coisa com você?

– Não.

Edward fechou os olhos por um segundo, e eu vi o alívio atravessar seu rosto antes que a preocupação voltasse com força.

Porque faltava uma pessoa.

Segurei delicadamente o rosto de Belinha.

– Onde está sua mãe?

Ela apontou para o fundo do galpão.

– Está brincando de esconde-esconde com o papai.

Olhei para Edward.

Ele já havia entendido.

Mantive minha voz tranquila.

– Explica para o tio Jay como começou essa brincadeira.

– A mamãe me escondeu. Ela falou que eu tinha que ficar bem quietinha e que só podia sair quando você chamasse. – Belinha fungou e enxugou o rosto. – Ela falou que o papai não podia me achar porque, se ele me encontrasse, ele ganhava.

Meu sangue gelou.

Renesmee não estava brincando.

Ela havia escondido Belinha e saído deliberadamente para atrair Ethan para longe da filha.

– E sua mãe foi para onde?

Belinha apontou novamente.

– Para lá. O papai estava chamando a gente e a mamãe saiu.

Edward respirou fundo.

Vi o desespero no rosto dele. Não havia médico, sogro ou homem racional naquele momento. Havia apenas um pai que acabara de entender que a filha estava sozinha com o homem que sequestrara ela e a neta.

Passei Belinha para os braços dele.

– Leva ela para fora.

Edward recebeu a menina e a apertou contra o peito. Seus olhos permaneceram presos aos meus.

– Eu vou levar Belinha para um lugar seguro e esperar a ambulância com Marcos.

Assenti.

Ele continuou:

– Jacob, encontra minha filha.

Não havia advertência em sua voz. Não havia pedido para esperar a polícia. Havia apenas desespero.

– Vou encontrar.

Edward apertou a mandíbula.

– E protege ela.

Sustentei seu olhar.

– Com a minha vida, Cullen.

Ele assentiu.

Era tudo o que precisava ouvir. Belinha, porém, segurou meu braço antes que Edward se afastasse.

– Tio Jay?

Olhei para ela. – O que foi, pequena?

– Você vai buscar a mamãe?

Aproximei-me e beijei sua testa.

– Vou buscar.

– Promete?

– Prometo.

Ela finalmente soltou meu braço.

Edward começou a levá-la pelo caminho por onde havíamos entrado, mantendo-a firmemente junto ao peito. Antes de desaparecer entre as caixas, olhou para mim uma última vez.

Não precisou repetir nada. Eu sabia o que ele estava me entregando naquele olhar.

Sua filha. Minha mulher.

Esperei apenas o suficiente para ter certeza de que Belinha estava seguindo na direção da saída com ele. Então retirei novamente a arma da cintura e voltei-me para o interior do galpão.

– RENESMEE! – gritei enquanto avançava na direção que Belinha havia indicado. – PRINCESA, SOU EU!

Continuei caminhando entre as estruturas, observando cada abertura, cada porta e cada corredor. O pedaço do vestido dela permanecia dentro do meu bolso, e a imagem de Belinha explicando aquela suposta brincadeira repetia-se em minha cabeça.


Avancei para a parte mais profunda do galpão sem fazer qualquer esforço para anunciar minha presença. Depois de encontrar Belinha e entregá-la a Edward, eu já não precisava chamar atenção para mim antes de descobrir onde Renesmee estava. Mantive a arma firme na mão direita, apontada para baixo enquanto percorria os corredores formados por caixas, estruturas metálicas e equipamentos abandonados. A direção indicada por Belinha era a única referência que eu tinha, e me agarrei a ela enquanto observava cada passagem e cada porta. Minha vontade era correr, mas a experiência me dizia que entrar às cegas num lugar onde possivelmente havia um homem armado era a maneira mais rápida de não chegar até Nessie.

A explicação de Belinha continuava repetindo-se na minha cabeça. Sua mãe estava brincando de esconde-esconde com o pai. Era a forma inocente como uma criança de cinco anos havia compreendido a estratégia desesperada de Renesmee para protegê-la. Nessie escondera a própria filha, dissera que Ethan não poderia encontrá-la e depois se afastara para obrigá-lo a segui-la. Quanto mais eu pensava naquilo, mais difícil se tornava controlar a raiva. Ela estava grávida, descalça, usando um vestido que certamente não havia sido feito para correr dentro de um armazém e, ainda assim, escolhera se colocar no caminho de Ethan para que ele não encontrasse Belinha.

Eu conhecia aquela mulher.

Sabia que ela faria exatamente aquilo.

Também sabia que provavelmente não pensara nem por um segundo no risco que corria.

Atravessei outra passagem e encontrei uma sequência de pequenas salas construídas junto à parede do galpão. A primeira estava vazia. Na segunda havia apenas móveis antigos e algumas caixas. Continuei avançando enquanto prestava atenção a qualquer som que pudesse vir das demais.

– Nessie – chamei em voz alta, mas sem gritar. – Princesa, eu estou aqui.

Minha voz desapareceu pelo corredor sem receber resposta.

Apertei a arma e continuei.

– Renesmee, responde para mim.

Ainda nada.

A falta de resposta começou a me assustar mais do que qualquer grito poderia ter feito. Eu sabia que ela estava naquela direção. O tecido arrancado do vestido encontrado no caminho provava que havia passado por ali, e Belinha a vira seguir para aquela parte do galpão. Se não respondia, havia apenas duas possibilidades: não podia me ouvir ou não estava em condições de responder.

Nenhuma das duas me agradava.

Aproximei-me de outra porta e estava prestes a verificar o interior quando ouvi um som mais adiante. Não consegui identificar imediatamente o que era, mas bastou para que toda a minha atenção se voltasse naquela direção. Avancei alguns metros e ouvi novamente.

Dessa vez reconheci a voz.

Renesmee.

– Não!

Meu coração disparou.

A distância até a porta seguinte deixou de importar. Acelerei o passo, mantendo a arma preparada enquanto o grito dela chegava novamente até mim.

– ME SOLTA!

Corri.

– NESSIE!

Ouvi outro grito quando estava a poucos metros da porta.

– NÃO TOCA EM MIM!

Atravessei a abertura como um furacão.

O que encontrei do outro lado eliminou qualquer pensamento racional que eu ainda estivesse tentando preservar.

Renesmee estava encurralada contra a parede. O vestido de noiva estava rasgado, os cabelos parcialmente soltos e o rosto molhado de lágrimas. Ethan estava sobre ela, agarrando-a enquanto Nessie tentava afastá-lo com as mãos e virava o rosto para escapar dele.

Durante uma fração de segundo, tudo o que existiu diante de mim foi aquela imagem.

A mulher que deveria estar entrando numa igreja para se casar comigo estava encostada contra uma parede suja de um galpão, chorando e tentando impedir que outro homem tocasse seu corpo.

Minha visão ficou vermelha.

Ergui a arma.

– Fitzgerald!

Ethan virou-se.

Atirei.

O estampido explodiu dentro da sala.

O corpo dele foi lançado para trás pelo impacto e caiu no chão. A arma que estava em sua mão escapou e bateu no concreto ao lado dele.

Eu não disparei novamente.

Não precisei.

Ethan permaneceu caído.

Minha atenção deixou de existir para qualquer coisa que não fosse Renesmee.

– Nessie.

Ela ainda estava encostada à parede, olhando para a frente como se não compreendesse o que acabara de acontecer. Seus braços permaneciam junto ao corpo, tentando cobrir o vestido destruído, enquanto as pernas começaram lentamente a perder a força. Eu a vi escorregar pela parede até alcançar o chão, sem sequer tentar se apoiar.

Coloquei minha arma no chão, afastada de Ethan e da arma dele, e fui imediatamente até ela.

– Princesa.

Ajoelhei-me à sua frente.

Renesmee olhou para mim.

Os olhos estavam abertos, mas havia alguma coisa diferente neles. Ela parecia me enxergar sem conseguir realmente compreender que eu estava ali.

– Nessie, sou eu.

A boca dela tremeu.

Nenhuma palavra saiu.

Então começou a chorar.

Não era o choro que eu conhecia. Não havia tentativa de falar entre as lágrimas, reclamação, raiva ou qualquer uma das respostas que eu esperaria dela. Renesmee simplesmente chorava enquanto tremia inteira, como se o corpo tivesse finalmente entendido que podia desmoronar.

Não fiz perguntas.

Não queria saber naquele momento o que Ethan havia dito, até onde havia ido ou o que acontecera antes de eu chegar. Tudo aquilo poderia esperar.

A única coisa que não podia esperar era ela.

Aproximei-me devagar e passei os braços ao redor de seu corpo.

– Está tudo bem, princesa. Eu estou aqui.

Renesmee agarrou minha camisa e se encolheu contra mim. Enterrou o rosto no meu peito e continuou chorando, sem conseguir responder.

Beijei seus cabelos.

– Acabou. Eu encontrei você.

Ela tremia tanto que senti o movimento atravessar meu próprio corpo. Passei uma das mãos por seus cabelos enquanto a outra permanecia firme em suas costas.

– Belinha está segura – murmurei perto de seu ouvido. – Eu encontrei nossa menina. Ela está com Edward. Está segura, Nessie.

Renesmee soltou um soluço ao ouvir o nome da filha e apertou ainda mais minha camisa, mas não disse nada.

– Está tudo bem. Você não precisa falar comigo agora. Não precisa me explicar nada. Só fica comigo.

Beijei novamente o alto de sua cabeça.

– Eu estou aqui.

Afastei-me apenas o necessário para tirar meu paletó. O estado do vestido me fez cerrar os dentes, mas não permiti que minha reação chegasse até ela. Cobri seus ombros e puxei o tecido ao redor de seu corpo, fechando-o cuidadosamente sobre o que restava do vestido.

– Pronto, princesa. Eu vou tirar você daqui.

Ela continuava chorando.

Passei um braço por trás de suas costas e o outro sob suas pernas. Antes de levantá-la, aproximei o rosto dos cabelos dela.

– Vou pegar você no colo. Está tudo bem.

Não houve resposta.

Renesmee apenas segurou minha camisa.

Ergui-a com cuidado.

Assim que saiu do chão, ela se encolheu contra meu peito e passou os braços ao redor do meu pescoço. Mantive o paletó fechado ao redor dela, protegendo seu corpo enquanto ajustava seu peso nos meus braços.

– Isso. Fica comigo.

Beijei sua testa.

– Não precisa fazer mais nada. Eu cuido de você agora.

Foi quando meus olhos se desviaram para o chão.

Ethan estava caído a poucos metros de nós.

A arma dele permanecia próxima ao corpo.

A minha estava mais distante, onde eu a havia deixado.

Fiquei olhando para aquela cena por alguns segundos e compreendi perfeitamente o que significava.

Eu havia entrado armado naquele galpão.

Havia encontrado Ethan com Renesmee.

Havia disparado contra ele.

A polícia estava vindo.

Existiriam perguntas. Haveria depoimentos, perícia, investigação, advogados e consequências que eu ainda não tinha condições de calcular. Talvez Solomon passasse as próximas semanas querendo me estrangular. Talvez aquele disparo mudasse minha vida de uma maneira que eu ainda nem conseguia prever.

Naquele momento, eu não me importava.

Olhei para Renesmee nos meus braços.

Ela continuava tremendo e chorando silenciosamente contra meu pescoço.

Se alguém esperava que eu olhasse para Ethan e me arrependesse de ter interrompido o que ele estava fazendo, esperaria por muito tempo.

Minha única preocupação estava nos meus braços.

– Vamos sair daqui, princesa.

Comecei a caminhar.

Não voltei para pegar minha arma. Não toquei na arma de Ethan e não me aproximei do corpo dele. Deixei tudo exatamente onde estava para que a polícia encontrasse a cena como havia ficado.

Renesmee soltou outro soluço e escondeu ainda mais o rosto contra meu pescoço.

– Eu sei – murmurei, beijando seus cabelos enquanto continuava andando. – Pode chorar. Eu estou segurando você.

Atravessei a porta e voltei ao corredor principal.

– Belinha está bem – repeti, porque sabia que, mesmo em choque, ela precisava ouvir aquilo quantas vezes fossem necessárias. – Seu pai está com ela. Ninguém vai tirar ela de você. Você conseguiu proteger sua filha.

A mão de Renesmee se fechou na parte de trás da minha camisa.

Foi a única reação.

– Eu encontrei vocês duas, princesa. Acabou.

Continuei caminhando pelo galpão, seguindo o caminho de volta. Não era fácil carregar Renesmee entre as caixas e estruturas, mas eu não permitiria que ela colocasse os pés naquele chão novamente. Ela havia corrido o suficiente. Lutado o suficiente. Sentido medo suficiente por um dia.

Por muitos anos, se dependesse de mim.

À medida que me aproximava da área principal, comecei a ouvir sons vindos do lado de fora.

Primeiro, sirenes.

Depois, mais de uma.

Ambulância.

Polícia.

As vozes começaram a se misturar ao eco do galpão, e percebi movimento próximo à entrada. Renesmee se assustou com o barulho e apertou os braços ao redor do meu pescoço.

– Está tudo bem – falei imediatamente. – São a polícia e os paramédicos. Eles vieram ajudar.

Ela continuou agarrada a mim.

– Ninguém vai separar você de mim agora.

Aquela era uma promessa que talvez eu precisasse negociar com algum médico em poucos minutos, mas resolveria isso quando acontecesse.

As vozes ficaram mais próximas.

– POLÍCIA!

Vi lanternas atravessarem a escuridão do galpão.

– TEM ALGUÉM AÍ?

Continuei caminhando.

– AQUI! – respondi. – TENHO UMA VÍTIMA COMIGO!

O movimento aumentou imediatamente.

Homens surgiram entre as estruturas alguns segundos depois. Os primeiros estavam uniformizados e avançavam com cautela, enquanto outros vinham logo atrás. Quando me viram carregando Renesmee, diminuíram a aproximação.

– Senhor, permaneça onde está!

Obedeci.

Não porque estivesse particularmente interessado em receber ordens naquele momento, mas porque tinha Renesmee nos braços e não faria nenhum movimento que pudesse criar mais tensão ao redor dela.

– Ela precisa de atendimento médico – falei. – Está grávida.

Um dos homens olhou para Renesmee e imediatamente falou alguma coisa pelo rádio.

Outro policial perguntou:

– Existe mais alguém lá dentro?

Olhei na direção de onde tinha vindo.

– Sim.

Minha voz saiu mais fria.

– Ethan Fitzgerald. Está numa sala no fundo do corredor.

– Ele está armado?

– Há uma arma no chão ao lado dele.

O policial continuou me observando.

– E o estado dele?

Olhei para Renesmee antes de responder.

– Foi baleado.

Houve uma mudança imediata na postura dos homens.

– Quem efetuou o disparo?

Não hesitei.

– Eu.

Renesmee apertou meus ombros e baixei o rosto e beijei seus cabelos.

– Está tudo bem, princesa.

O policial começou a dizer alguma coisa, mas outro homem surgiu logo atrás dele acompanhado por dois paramédicos.

Minha atenção foi imediatamente para eles.

– Ela está grávida – repeti. – Foi sequestrada, está em choque e sofreu agressões. A filha dela já foi retirada daqui pelo avô.

Os paramédicos se aproximaram e Renesmee se agarrou ainda mais a mim.

– Tudo bem – murmurei para ela. – Eu não vou embora.

Continuei segurando-a enquanto os profissionais se aproximavam, sem prestar atenção aos policiais que começavam a seguir para o fundo do galpão.

Eles poderiam cuidar de Ethan.

Poderiam recolher as armas, fotografar aquela sala, fazer perguntas e decidir o tamanho do problema em que eu acabara de me meter.

Eu cuidaria de Renesmee.

Porque, naquele momento, não existia absolutamente nada mais importante.