Amor não era o plano
73 O casamento ( parte 3)
Notas iniciais
Jacob
Eu já havia participado de reuniões com conselhos inteiros esperando que eu cometesse um erro, sentado diante de investidores dispostos a colocar centenas de milhões de dólares sobre uma mesa sem alterar minha frequência cardíaca. Já enfrentara processos, crises, ameaças, negociações internacionais e gente suficientemente poderosa para acreditar que dinheiro comprava o direito de intimidar qualquer um. Nada daquilo havia conseguido produzir em mim o nível de inquietação que eu estava sentindo parado no salão de entrada de uma igreja, usando um terno escolhido com uma quantidade absurda de antecedência, enquanto esperava uma mulher de vinte e seis anos chegar para se casar comigo. Evidentemente, eu não permitiria que ninguém percebesse. Aos quarenta e nove anos, eu ainda conservava dignidade suficiente para não ficar andando de um lado para o outro perguntando a cada dois minutos se a noiva já havia chegado. Por isso mantinha uma mão no bolso, a outra livre para cumprimentar os convidados e a expressão de quem estava perfeitamente confortável com a situação, embora já tivesse olhado discretamente para o relógio vezes suficientes para saber que aquela tranquilidade era uma fraude.
A igreja estava quase cheia. Alice e Rachel tinham transformado o que deveria ser, segundo Renesmee, uma cerimônia elegante e relativamente íntima em um evento para quase duzentas pessoas, e eu contribuí para piorar a situação acrescentando nomes que não podia simplesmente ignorar. Sócios, parceiros antigos, algumas pessoas ligadas aos negócios da família e dois sujeitos que eu conhecia havia mais de quinze anos e que certamente ficariam ofendidos se descobrissem por terceiros que Jacob Black havia se casado. Eu ainda considerava ridículo o fato de alguém se sentir pessoalmente ofendido por não receber convite para um casamento, mas aprendera que homens capazes de negociar empresas inteiras podiam ser surpreendentemente sensíveis quando o assunto era lista de convidados.
– Black, meus parabéns. – Um dos sócios alemães aproximou-se acompanhado da esposa e estendeu a mão. Apertei-a, recebendo o cumprimento com um sorriso discreto. – Confesso que não imaginava vê-lo casando novamente.
– Nem eu – respondi. – Isso provavelmente explica por que demorou tanto.
A esposa dele riu e perguntou sobre Renesmee, lembrando-se de tê-la conhecido no evento em que ela havia trabalhado como intérprete. Respondi que estava bem, agradeci os votos e aceitei tirar uma fotografia com os dois quando alguém apareceu com uma câmera. Mal terminamos, outro conhecido se aproximou, dessa vez um homem com quem eu estava negociando havia alguns meses. Ele me cumprimentou pelo casamento e, inevitavelmente, aproveitou os segundos seguintes para mencionar uma proposta que havia enviado à Black Enterprises na semana anterior.
– Recebi os documentos – respondi automaticamente. – A equipe jurídica está revisando a cláusula de participação. Existe um problema no prazo de...
Uma mão agarrou meu braço, olhei para o lado.
Sarah Black me lançou aquele olhar que funcionava desde que eu tinha cinco anos e que, irritantemente, continuava funcionando aos quarenta e nove.
– Não.
Franzi o cenho.
– Não o quê?
– Você sabe muito bem o quê. – Ela sorriu educadamente para o homem diante de mim. – Perdoe meu filho. Ele tem uma doença séria que o faz acreditar que qualquer lugar é uma sala de reuniões.
– Mãe.
O homem riu. – A senhora tem toda razão. Podemos falar depois da lua de mel, Black.
– Podemos falar segunda-feira.
Minha mãe apertou meu braço. – Depois da lua de mel.
Olhei para ela. – Uma semana é um tempo excessivamente longo para ignorar uma negociação.
– Jacob.
– Está bem.
O homem voltou a rir, despediu-se e seguiu em direção ao salão principal. Eu me virei para minha mãe.
– Está satisfeita?
– Muito. – Sarah ajeitou a lapela do meu paletó, embora ela estivesse perfeitamente no lugar. – Você vai se casar dentro de alguns minutos. Pare de falar de contratos.
– Ele começou.
– E você poderia ter dito “obrigado, conversamos depois”.
– Eu disse praticamente isso.
– Você começou a discutir uma cláusula.
– Era uma cláusula ruim.
Minha mãe soltou um suspiro.
– Meu filho vai estar no altar pensando em contrato enquanto a mulher da vida dele caminha em sua direção.
Olhei para ela. – Não exagera.
Sarah sorriu daquele jeito irritantemente satisfeito que significava que eu acabara de confirmar exatamente o que ela queria.
– Eu não disse qual parte era exagero.
– Mãe.
– Está nervoso?
– Não.
– Jacob.
– Tenho quarenta e nove anos.
– Eu sei a idade do filho que pari.
– Então deveria saber que já passei da fase de ficar nervoso diante de uma igreja.
Ela me observou durante alguns segundos.
– Você olhou para o relógio quatro vezes desde que comecei a falar com você.
– Estou verificando o horário.
– Isso é literalmente ficar nervoso esperando alguém chegar.
– Não vou discutir semântica no meu casamento.
– Finalmente alguma evolução.
Minha mãe passou a mão pelo meu rosto e sorriu, agora sem provocação.
– Estou feliz por você, filho.
Aquilo me fez ficar quieto.
Sarah não precisava explicar. Eu sabia exatamente o que aquela frase carregava. Ela conhecia tudo o que havia acontecido comigo, conhecia os anos em que eu transformara trabalho em uma justificativa perfeitamente funcional para não precisar construir outra vida com ninguém, conhecia minhas relações fracassadas e sabia que eu havia me convencido de que já tinha vivido a parte da existência destinada a casamento e família. Claire estava criada, eu tinha um neto, uma empresa para administrar e uma rotina organizada o suficiente para não deixar espaço para grandes surpresas.
Então Renesmee apareceu.
– Eu também estou – respondi.
Minha mãe arqueou uma sobrancelha.
– Só isso?
– O que você quer? Um discurso?
– Seria interessante.
– Vai continuar querendo.
Ela riu e me abraçou. Passei um braço ao redor dela e beijei sua testa.
– Obrigado por estar aqui.
– Onde mais eu estaria?
– Considerando a quantidade de vezes que me chamou de cabeça-dura durante os preparativos, pensei que pudesse desistir.
– Eu ainda acho você cabeça-dura. Só gosto muito da minha futura nora.
– Isso eu já percebi. Começo a suspeitar que, se o casamento der errado, você fica com ela.
– Sem dúvida.
– Excelente. Minha própria mãe já decidiu o lado do divórcio antes do casamento.
– Então se comporte e não haverá divórcio.
Uma risada veio atrás de nós.
Rebecca estava parada a poucos metros, segurando uma taça de água e me olhando como se tivesse acabado de testemunhar um fenômeno astronômico.
– Eu preciso registrar esse momento.
– Qual?
– Mamãe mandou você parar de trabalhar e você obedeceu.
– Não abuse.
– Você disse “está bem”.
– Rebecca.
– Sem discutir durante vinte minutos.
– Ainda dá tempo de retirar seu nome do testamento.
Minha irmã sorriu.
– A ameaça perdeu o impacto. Você usa demais.
– Posso substituir por demissão.
– Também perdeu. Sou acionista.
– Posso tornar sua vida profissional desagradável.
– Isso soa mais como você. Já estava preocupada.
Sarah balançou a cabeça e se afastou para cumprimentar alguns parentes. Eu estava prestes a dizer alguma coisa para Rebecca quando vi Claire entrando.
Minha atenção foi imediatamente para ela.
E depois para o homem ao lado dela Quil.
Os dois caminhavam juntos, e havia alguma coisa diferente ali. Não era apenas o fato de terem chegado ao mesmo tempo. Claire parecia tranquila demais ao lado dele, enquanto Quil tinha a expressão de um homem tentando desesperadamente parecer normal sob os olhos de alguém que o conhecia havia tempo suficiente para saber quando ele estava representando.
Cruzei os braços e Rebecca acompanhou meu olhar.
– Não começa.
– Não falei nada.
– Seu rosto falou.
– Meu rosto não fala.
– O seu fala muito.
– Você está particularmente irritante hoje.
– É seu casamento. Estou aproveitando enquanto você tem testemunhas demais para me estrangular.
Claire percebeu que eu a observava e veio em nossa direção. Quil acompanhou.
– Pai.
Ela me beijou no rosto.
– Filha.
Olhei para Quil.
– Ateara.
– Black.
Olhei novamente para Claire. Depois para Quil. Depois para Claire.
Ela estreitou os olhos. – O quê?
– Nada.
– Pai.
– Eu disse nada.
Quil enfiou as mãos nos bolsos.
– Você está olhando para mim como se eu tivesse acabado de cometer algum crime.
– Ainda estou avaliando.
Claire soltou um suspiro.
– Nós apenas viemos juntos.
– Eu não perguntei.
– Não precisava.
Rebecca tentou esconder uma risada.
Olhei para ela.
– Você não tem outra coisa para fazer?
– Neste momento, absolutamente nenhuma.
Voltei a atenção para minha filha.
– Onde está Ephraim?
– Queria ficar com Belinha. – Claire ajeitou discretamente uma mecha do cabelo. – Então deixei que viesse com Rachel. Ele estava animado desde cedo dizendo que precisava chegar com ela.
Assenti.
– Certo.
Meu olhar retornou para Quil.
Ele percebeu.
– Vai continuar fazendo isso a noite inteira?
– Provavelmente.
– Pai – Claire advertiu.
– Estou olhando para um funcionário.
Quil riu. – Claro.
– Um funcionário que chegou ao casamento com minha filha.
– Nós nos encontramos antes de vir.
– Que coincidência conveniente.
Claire cruzou os braços. – Tenho vinte e cinco anos, pai.
– Eu sei. Estava presente quando nasceu.
– Então não precisa interrogar o Quil.
– Isso não é interrogatório.
Quil finalmente sorriu. – Eu conheço seus interrogatórios. Ela tem razão, isso ainda está leve.
– Posso corrigir.
– Não hoje – Claire respondeu imediatamente. – Hoje você vai casar. Concentre sua necessidade patológica de controlar tudo na própria cerimônia.
Olhei para ela durante alguns segundos.
Havia algo acontecendo.
Eu ainda não sabia exatamente o quê, mas conhecia Claire. E conhecia Quil. A conversa particular dos dois no escritório, o modo como ele saíra mais cedo naquele dia, a mudança sutil entre eles agora... não precisava ser um gênio para perceber que havia informações que ainda não tinham chegado até mim.
Mas aquele não era o momento.
Meu celular tocou, t irei-o do bolso. EraRachel.
Atendi imediatamente.
– Fala.
– Que jeito romântico de atender o telefone no próprio casamento.
– Rachel.
– Calma. Estou ligando para avisar que estamos saindo.
Meu olhar foi automaticamente para o relógio.
– Onde está Renesmee?
– A caminho.
– Com quem?
– Ela está no outro carro com Belinha e o motorista. Alice e eu vamos juntas, Bella já saiu com Ephraim. Todo mundo está indo para a igreja, então não inventa de aparecer na porta.
Soltei lentamente o ar.
– Quanto tempo?
– Poucos minutos.
– Certo.
– Jake?
– O quê?
– Ela está linda.
Fiquei em silêncio e Rachel riu do outro lado.
– Ah, meu Deus. Você está nervoso.
– Vai se foder.
– Agora reconheci meu irmão.
– Dirige com cuidado.
– Eu não estou dirigindo.
– Então manda quem estiver dirigindo fazer isso.
– Sim, senhor. Até daqui a pouco.
– Rachel.
– O quê?
– Cuida delas.
Minha irmã ficou em silêncio por um instante.
– Sempre.
A ligação terminou e guardei o telefone no bolso, percebi que Rebecca estava me encarando.
– Não.
Ela abriu um sorriso. – Eu nem falei.
– Ia falar.
– Você está nervoso.
– Não estou.
Claire sorriu. – Está, sim.
– Vocês três combinaram isso?
Quil teve a péssima ideia de participar.
– Para ser justo, Black, está bastante evidente.
Virei lentamente o rosto para ele.
– Você quer continuar empregado depois do casamento?
Ele levantou as mãos. – Retiro o comentário.
– Covarde – Claire murmurou.
– Inteligente – Quil corrigiu.
Rebecca segurou meu braço e começou a me conduzir em direção ao interior da igreja.
– Vamos.
– Para onde?
– Para o altar.
– Ainda faltam alguns minutos.
– Exatamente. Você precisa estar lá antes que a noiva chegue.
– Eu sei como funciona um casamento.
– Tenho minhas dúvidas. Além disso, você não pode ficar aqui. Se Renesmee chegar e você estiver na entrada, vai vê-la antes da hora.
– E o que exatamente acontece se eu vir?
Rebecca me olhou incrédula.
– Você não vai ver a noiva antes da cerimônia.
– Essa superstição não faz sentido.
– Você passou a noite inteira reclamando disso ontem. Não vamos começar novamente.
– Tenho quarenta e nove anos, Rebecca. Não acredito que olhar para minha própria noiva cinco minutos antes de uma cerimônia provoque uma maldição matrimonial.
– Ótimo. Então trate como uma ordem logística.
– Você está me dando uma ordem?
– Hoje, sim.
Parei e olhei para ela.
Rebecca sustentou meu olhar por dois segundos antes de apontar para o altar.
– Anda, Jake.
Claire começou a rir. – Eu gostaria de registrar que essa é a segunda mulher que manda nele hoje e sobrevive.
– Terceira – Quil corrigiu. – Renesmee provavelmente já mandou alguma mensagem.
– Vocês estão abusando da minha boa vontade.
– Você está se casando – Rebecca respondeu. – Tecnicamente está feliz demais para matar alguém.
– Não apostaria nisso.
Ainda assim, cedi.
Caminhei pelo corredor central sob os olhares dos convidados, cumprimentando algumas pessoas com um gesto discreto enquanto seguia para a frente da igreja. Quando cheguei ao altar, ajeitei os punhos da camisa e olhei para a entrada por puro reflexo.
Rebecca apareceu ao meu lado.
– Nem pense nisso.
– Eu só olhei.
– Você vai ficar virado para frente quando avisarem que ela chegou.
– Isso está ficando ridículo.
– E você vai obedecer.
Olhei para minha irmã. – Aproveite esse poder temporário.
– Estou aproveitando muito.
Ela se afastou sorrindo.
Fiquei sozinho por alguns segundos, observando a movimentação diminuir conforme os convidados ocupavam seus lugares. Meu pai estava mais à frente, minha mãe conversava com ele, Claire havia seguido com Quil e Edward já estava na igreja, tão inquieto quanto qualquer pai prestes a entregar a filha no altar teria o direito de estar.
Passei a língua pelos dentes e respirei fundo.
Renesmee estava a caminho.
Minha futura esposa estava dentro de um carro, vestida de noiva, provavelmente reclamando de alguma coisa que Alice havia feito com seu cabelo, enquanto Belinha falava sem parar ao lado dela.
E eu estava nervoso.
Não havia mais motivo para mentir para mim mesmo.
Era um tipo de nervosismo diferente de qualquer coisa que eu conhecesse, porque não vinha do medo de ela dizer não. Renesmee já havia respondido quando eu me ajoelhara diante dela. Vinha da consciência de que, dentro de poucos minutos, aquela mulher entraria pela porta da igreja, caminharia até mim e me entregaria voluntariamente uma coisa que dinheiro, influência e poder nunca tinham conseguido comprar.
Confiança.
Passei a mão pela mandíbula e olhei para o relógio mais uma vez.
Poucos minutos.
Eu só precisava esperar.
Jacob
Os poucos minutos prometidos por Rachel começaram a se transformar em tempo demais. No início, eu me obriguei a não olhar para o relógio. Depois olhei uma vez, esperei o que considerei um intervalo razoável e olhei novamente. A música ambiente continuava baixa, os convidados já estavam praticamente todos acomodados e o padre permanecia próximo ao altar com a serenidade irritante de alguém que não tinha qualquer motivo pessoal para se preocupar com o horário. Eu tinha. Renesmee não era exatamente conhecida por chegar cedo quando Alice estava envolvida em prepará-la para alguma coisa, mas Rachel havia dito que elas estavam saindo e que o trajeto levaria poucos minutos. Eu conhecia Seattle, conhecia aquela região e sabia calcular quanto tempo um carro deveria levar do hotel até a igreja. Mesmo considerando trânsito, semáforos e alguma pequena retenção, ela já deveria estar ali.
Mantive as mãos diante do corpo e olhei discretamente para a entrada. Rebecca, que continuava perto das primeiras fileiras, percebeu e ergueu uma sobrancelha, provavelmente pronta para fazer outra piada sobre meu nervosismo. Não dei oportunidade. Meu incômodo já havia deixado de ser apenas ansiedade de noivo. Havia alguma coisa errada naquele atraso, ainda que eu não conseguisse apontar exatamente o quê. Talvez fosse apenas a experiência de uma vida inteira acostumado a esperar problemas antes que eles se apresentassem. Talvez fosse porque, nos últimos meses, sempre que eu havia me permitido acreditar que Renesmee estava segura, algum filho da puta aparecia disposto a provar o contrário.
Ouvi movimentação na entrada e imediatamente virei o rosto.
Bella entrou primeiro.
Meu corpo relaxou por uma fração de segundo.
Depois vi Alice.
Rachel apareceu logo atrás.
Ephraim vinha com elas.
Renesmee não.
Belinha também não.
O alívio desapareceu tão depressa quanto havia surgido.
Edward já estava caminhando na direção delas antes que eu deixasse o altar. Fiz o mesmo, ignorando completamente o olhar do padre e qualquer regra absurda sobre onde o noivo deveria permanecer antes da cerimônia. Quando me aproximei, Bella estava olhando para trás como se esperasse que outro veículo aparecesse diante da igreja a qualquer momento.
– Onde está Nessie? – Edward perguntou.
Bella franziu o cenho.
– Ela ainda não chegou?
– Não.
Rachel parou imediatamente.
– Como assim não?
Olhei para ela.
– Você disse que ela estava vindo.
– E estava. – Rachel pegou o celular. – O carro dela saiu antes do nosso.
Minha mandíbula se contraiu.
– Antes?
Alice confirmou com um movimento de cabeça.
– Alguns minutos antes. Ela entrou com Belinha. Nós ficamos um pouco mais porque Rachel estava resolvendo uma coisa com o hotel.
– Quem estava dirigindo?
Rachel olhou para mim.
– O motorista.
– Eu sei que havia um motorista, Rachel. Estou perguntando quem era.
– Não sei. Era do serviço executivo. O carro estava onde deveria estar, na hora combinada.
Bella levou a mão ao peito.
– Talvez tenham pegado trânsito.
– Não – respondi.
Edward me olhou.
– Jacob...
– Se o carro saiu antes de vocês, deveria ter chegado antes de vocês.
Peguei o celular do bolso.
Minha mãe se aproximou ao perceber a mudança no clima, e Claire veio logo atrás. Eu não expliquei nada. Procurei o contato de Renesmee e liguei.
O telefone indicou ocupado.
Desliguei.
Liguei novamente.
Ocupado.
– Porra.
O padre virou o rosto na minha direção.
Olhei para ele.
– Desculpe, padre.
– O que aconteceu? – Sarah perguntou.
– Ainda não sei.
Tentei uma terceira vez.
Nada.
A inquietação que eu sentira minutos antes se transformou em alguma coisa muito mais concreta. Não era possível que Renesmee estivesse simplesmente atrasada e falando tranquilamente ao telefone com alguém sem avisar Rachel, Alice ou a própria mãe. Ela sabia que havia quase duzentas pessoas esperando. Sabia que Edward estava ali. Sabia, principalmente, que eu estava esperando por ela.
– Liga para o motorista – ordenei a Rachel.
– Vou ligar para o hotel.
– Descobre quem pegou aquele carro e liga para ele agora.
Rachel já estava mexendo no aparelho.
Edward pegou o próprio celular.
– Vou tentar Nessie.
– Eu já tentei.
– Eu também vou tentar.
– Faça isso.
Alice parecia ter perdido toda a animação que carregava minutos antes.
– Jake, pode ter acontecido alguma coisa com o carro.
– Pode.
Eu não disse que esperava que fosse exatamente isso.
Uma pane.
Um pneu.
Um acidente pequeno o suficiente para impedir que chegassem, mas não para machucar ninguém.
Qualquer coisa que pudesse ser resolvida.
Então meu telefone tocou.
Olhei para a tela.
Nessie.
Atendi antes do segundo toque.
– Princesa?
Do outro lado, houve um pequeno silêncio. Quando a voz dela finalmente chegou, baixa demais e carregada de alguma coisa que reconheci imediatamente como medo, todo o resto ao meu redor deixou de importar.
– Jacob.
Meu tom mudou.
– Onde você está?
– Eu não sei.
Senti alguma coisa fria percorrer minha nuca.
– Renesmee, onde você está?
– Ethan está dirigindo.
Houve um silêncio curtíssimo.
– O quê?
– É o Ethan. Ele estava vestido como motorista. Eu entrei no carro com Belinha e ele trancou as portas. Ele mudou o caminho. Eu não sei para onde está levando a gente.
Não gritei.
Eu queria.
Queria quebrar alguma coisa, encontrar Ethan naquele mesmo segundo e arrancá-lo daquele carro com minhas próprias mãos. Mas Renesmee não precisava ouvir minha raiva. Precisava ouvir alguém que soubesse o que estava fazendo.
Minha voz baixou.
– Belinha está com você?
– Está.
– Ele machucou alguma de vocês?
– Não. Ainda não.
Aquelas duas últimas palavras fizeram minha mão apertar o telefone com tanta força que os dedos doeram.
Claire percebeu minha expressão.
– Pai?
Levantei a mão, mandando todos ficarem em silêncio.
– Escuta o que vou dizer. Não confronta ele enquanto o carro estiver em movimento. Não tenta sair. Não faz nada que coloque você ou Belinha em risco. Fica na linha comigo.
– Ele fechou a divisória e colocou a música alta. Acho que não consegue me ouvir.
– Ótimo. Continua assim. Você consegue compartilhar sua localização?
Houve alguns segundos de silêncio.
– Consigo.
– Faz isso agora.
Afastei o telefone apenas o suficiente para observar a tela. A mensagem chegou.
– Estou mandando.
Abri imediatamente.
Localização compartilhada.
– Recebi.
Aquele pequeno ponto no mapa se tornou a coisa mais importante que eu já tinha visto em uma tela.
– Eu estou indo atrás de você. Não desliga.
– Se ele abrir o vidro e perceber...
– Então esconde o telefone, mas não desliga se conseguir evitar. Eu quero ouvir o que estiver acontecendo.
Ouvi algum ruído do outro lado. O som abafado de música, o movimento do veículo e depois a voz de Belinha.
– Mamãe...
Fechei os olhos por um segundo.
Minha menina estava naquele carro.
Ethan tinha colocado Belinha dentro daquela merda.
– Jacob, eu preciso desligar.
– Nessie...
– Você tem a localização.
Olhei novamente para o mapa.
– Tenho.
– Então vem buscar a gente.
Minha respiração ficou pesada.
– Eu vou encontrar vocês.
A ligação terminou.
Fiquei olhando para a tela por menos de um segundo. Voltei-me para Sam, ainda com o telefone na mão e a localização de Renesmee aberta na tela.
– Chama a polícia. Passa a localização em tempo real, a descrição do veículo e tudo o que temos sobre Ethan. Diz que existem duas vítimas dentro do carro, uma delas é uma criança. Quero viaturas procurando esse filho da puta agora.
Sam pegou o telefone imediatamente.
– Vou avisar Paul e Embry também.
– Faz isso.
Não esperei mais nada. Guardei o celular e comecei a andar rapidamente pelo corredor central, mas depois dos primeiros passos simplesmente parei de me preocupar com qualquer aparência de controle e corri. Ouvi minha mãe chamar meu nome, ouvi Bella perguntar alguma coisa a Edward e percebi a movimentação dos convidados quando atravessei a igreja, mas não parei. A única coisa que conseguia enxergar era aquele pequeno ponto se deslocando no mapa e a única coisa que conseguia ouvir era a voz de Renesmee dizendo que Ethan estava dirigindo, que Belinha estava com ela e, principalmente, aquelas duas palavras que continuavam repetindo dentro da minha cabeça.
Ainda não.
Ele não havia machucado nenhuma delas. Ainda não.
Empurrei as portas da igreja e atravessei os degraus praticamente correndo. Ouvi passos atrás de mim e reconheci a voz de Edward antes mesmo de olhar.
– Jacob!
Não parei.
– Cullen, volta para dentro.
– Nem fodendo.
Olhei por cima do ombro e o vi vindo atrás de mim. Quil e Sam também haviam saído da igreja, Sam ainda ao telefone enquanto passava informações para a polícia. Eu não tinha tempo para discutir com nenhum deles.
– Meu carro – falei para Quil. – Você e Sam vêm atrás. Não percam minha posição.
– Certo – Quil respondeu.
Cheguei ao estacionamento, destravei o carro à distância e abri a porta do motorista. Edward alcançou o lado do passageiro.
– Eu disse para voltar.
Ele abriu a porta.
– E eu ignorei.
– Sua mulher está lá dentro precisando de você.
– E minha filha está dentro de um carro com um homem que acabou de sequestrá-la. Bella tem Alice, Sarah, Rachel, Claire e metade da sua família dentro daquela igreja. Eu vou com você.
Olhei para ele durante um segundo.
Não havia tempo para aquela discussão.
– Entra.
Edward entrou e bateu a porta. Fiz o mesmo, coloquei o telefone no suporte diante do painel e mantive a localização de Renesmee aberta. O ponto continuava avançando. Liguei o carro, mas antes de sair puxei o compartimento diante de mim e retirei a arma que mantinha guardada ali.
Edward ficou imediatamente tenso.
– O que é isso, Black?
Olhei para ele.
– Parece o quê?
– Eu sei muito bem o que parece. Estou perguntando o que pretende fazer com isso.
Verifiquei a arma e a mantive baixa, longe dele, enquanto fechava o compartimento.
– Se Ethan estiver armado, eu não vou chegar lá sem estar preparado.
– Jacob.
– Não começa.
– Você acabou de me dizer lá dentro que Nessie e Belinha eram a prioridade.
– E são.
– Então pensa antes de fazer alguma coisa que deixe minha filha assistindo você ser preso no dia do casamento dela.
Minha mão apertou o volante.
– Cullen, se Ethan estiver apenas fugindo, eu tiro Nessie e Belinha daquele carro e deixo a polícia cuidar dele. Se estiver desarmado, não preciso disso. Se ele se entregar, melhor para todo mundo.
Edward continuou me observando.
Olhei novamente para o ponto no mapa e senti toda a raiva que eu vinha mantendo sob controle desde aquela ligação subir de uma vez.
– Mas se aquele desgraçado tiver encostado um dedo na Nessie...
Minha mandíbula se contraiu.
– Eu vou matar esse filho da puta.
– Black...
– Não me pede calma agora.
– Não estou pedindo calma. Estou pedindo que você lembre quem está esperando por você quando isso acabar.
Encarei Edward por um instante.
Então coloquei o carro em movimento.
– Eu sei exatamente quem está esperando por mim.
Pisei no acelerador e saí do estacionamento, enquanto o veículo de Quil e Sam aparecia logo atrás. Mantive os olhos na rua e depois no pequeno ponto que continuava se deslocando pelo mapa.
Eu havia prometido a Renesmee que a encontraria.
Primeiro, eu cumpriria aquela promessa.
O que aconteceria com Ethan depois dependeria inteiramente do que eu encontrasse quando chegasse.
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