Amor não era o plano

72 O casamento ( parte 2)


Renesmee

– Ethan, pare o carro.

Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia. Eu continuava segurando a mão de Belinha enquanto observava o reflexo de Ethan pelo retrovisor, esperando qualquer sinal de que ainda existisse alguma possibilidade de fazê-lo pensar. Não havia. Ele manteve os olhos na rua e as duas mãos no volante, como se estivesse apenas cumprindo um trajeto normal, como se não tivesse acabado de me tirar do hotel no dia do meu casamento com nossa filha presa no banco ao meu lado.

– Você está me ouvindo? – insisti, inclinando-me para a divisória aberta. – Pare o carro, Ethan. Seja lá o que você acha que está fazendo, não envolva Belinha nisso. Ela é sua filha. Olhe para ela e pense por cinco segundos antes de continuar.

Ele não respondeu.

– Papai? – Belinha chamou, e alguma coisa dentro de mim apertou quando percebi o medo em sua voz. – Para onde a gente está indo?

Ethan continuou em silêncio.

Perdi a paciência.

– ETHAN, PARE O CARRO!

Ele finalmente olhou pelo retrovisor.

– Senta e fica quieta, Renesmee.

– Eu não vou ficar quieta! – Virei-me para a janela e comecei a bater no vidro com a palma da mão ao perceber outros veículos passando. – Socorro! Alguém ajude! SOCORRO!

Ethan soltou um palavrão.

A divisória começou a subir.

– Não! Ethan!

Bati contra o vidro antes que ele se fechasse completamente, mas não adiantou. Em poucos segundos, a película escura novamente separava a cabine do espaço onde estávamos. Logo depois, a música começou.

Alta.

Alta demais.

O volume tomou o interior do veículo, abafando minha voz e fazendo Belinha levar as mãos aos ouvidos.

– Mamãe!

Parei imediatamente.

Gritar não estava funcionando. Bater na janela não estava funcionando. Tudo o que eu estava conseguindo era assustar ainda mais minha filha.

Belinha olhou para mim com os olhos cheios de lágrimas.

– Mamãe, eu estou com medo.

Aquela frase me obrigou a controlar o pânico.

Abaixei-me diante dela como consegui, apesar do vestido, e segurei seu rosto entre as mãos.

– Olha para mim, meu amor. Não olha para frente. Olha só para a mamãe.

– Por que o papai está fazendo isso?

Eu não sabia como responder. Não havia resposta que uma criança de cinco anos devesse ouvir.

– Seu pai está muito nervoso e não está pensando direito. Mas eu estou aqui com você, está bem?

Ela assentiu, chorando. – Ele vai levar a gente embora?

– Não.

Respondi antes mesmo de saber como impediria.

– Não vai.

Passei os polegares pelo rosto dela e enxuguei suas lágrimas. – Eu preciso que você seja muito corajosa agora. Consegue fazer isso para mim?

– Consigo.

– Eu sei que consegue.

Foi então que me lembrei do meu celular e meu coração disparou.

Levei a mão cuidadosamente até a pequena bolsa que estava comigo e encontrei o aparelho. Olhei para a divisória. O vidro permanecia completamente fechado e, com a película escura, Ethan não conseguia enxergar o que eu fazia atrás dele.

Diminuí o brilho da tela. Minhas mãos tremiam tanto que errei a senha na primeira tentativa.

– Merda.

Respirei profundamente- Pensa, Renesmee.

Desbloqueei o aparelho e procurei o contato de Jacob e liguei – Atende – murmurei – Atende, Jacob.

Quatro chamadas. Meu peito parecia apertado demais para respirar. Então a ligação conectou.

– Princesa?

Fechei os olhos por um segundo.

A voz dele quase desmontou todo o controle que eu estava tentando manter. – Jacob.

O tom dele mudou imediatamente. – Onde você está?

– Eu não sei.

– Renesmee, onde você está?

– Ethan está dirigindo.

Houve um silêncio curtíssimo. – O quê?

– É o Ethan. Ele estava vestido como motorista. Eu entrei no carro com Belinha e ele trancou as portas. Ele mudou o caminho. Eu não sei para onde está levando a gente.

A resposta de Jacob veio diferente. Mais baixa, controlada e muito mais assustadora do que se ele tivesse gritado.

– Belinha está com você?

– Está.

– Ele machucou alguma de vocês?

– Não. Ainda não.

– Escuta o que vou dizer. Não confronta ele enquanto o carro estiver em movimento. Não tenta sair. Não faz nada que coloque você ou Belinha em risco. Fica na linha comigo.

– Ele fechou a divisória e colocou a música alta. Acho que não consegue me ouvir.

– Ótimo. Continua assim. Você consegue compartilhar sua localização?

Olhei para a tela.

– Consigo.

– Faz isso agora.

Mantive o telefone próximo ao corpo e abri rapidamente a conversa com ele.

– Estou mandando.

– Recebi.

Ouvir aquilo me deu uma pequena sensação de alívio.

Jacob sabia onde estávamos. – Eu estou indo atrás de você. Não desliga.

Olhei para a divisória. – Se ele abrir o vidro e perceber...

– Então esconde o telefone, mas não desliga se conseguir evitar. Eu quero ouvir o que estiver acontecendo.

O veículo fez uma curva mais fechada.

Belinha segurou meu braço. – Mamãe...

Olhei pela janela. Os prédios haviam diminuído e a região ao redor começava a parecer diferente.

– Jacob, eu preciso desligar.

– Nessie...

– Você tem a localização.

– Tenho.

– Então vem buscar a gente.

A respiração dele ficou pesada do outro lado. – Eu vou encontrar vocês.

Desliguei.

Precisava esconder o aparelho em algum lugar onde Ethan não o encontrasse imediatamente caso revistasse minha bolsa.

Olhei para Belinha.

A pequena cesta de daminha estava aos seus pés, cheia de pétalas artificiais e pequenos enfeites.

– Meu amor, me dá sua cestinha.

Ela entregou.

Afastei discretamente parte das pétalas, coloquei o celular no fundo e cobri novamente.

– Não tira isso daqui, está bem?

– Está.

Beijei sua testa. – Muito bem.

O veículo continuou avançando.

– Pensa, Renesmee, pensa – murmurei para mim mesma.

Olhei ao redor procurando qualquer coisa que pudesse usar. Não havia quase nada. Eu estava dentro de um veículo executivo, usando um vestido de noiva que dificultava meus movimentos, acompanhada por uma criança que precisava proteger acima de qualquer outra coisa.

Belinha segurou minha mão. – O tio Jay vai vir?

Olhei para ela. – Vai.

– Ele sabe onde a gente está?

– Sabe.

Ela pareceu respirar melhor. – Então ele vai achar a gente.

Sorri apesar do medo. – Vai. Mas até ele chegar, nós duas vamos cuidar uma da outra.

Belinha assentiu. – Eu consigo.

– Eu sei que consegue. Você é muito esperta.

Passei a mão por seus cabelos e a trouxe para perto. – Tudo vai ficar bem.

Eu precisava acreditar naquilo tanto quanto ela.

Alguns minutos depois, senti o veículo reduzir a velocidade.

Meu corpo ficou imediatamente tenso.

Olhei pela janela e vi muitos contêineres.

Estruturas industriais. Galpões e água mais adiante. Deduzi que estavamos nas docas.

O carro fez mais uma curva e começou a entrar numa área quase vazia.

Meu coração disparou.

Ethan estava estacionando. Olhei para meus pés e para meus saltos, não eram uma arma. Mas eram a única coisa que eu tinha.

Tirei os sapatos rapidamente. – Mamãe?

– Fica atrás de mim.

Segurei um dos saltos com força e empurrei parte da saia para o lado para conseguir me movimentar.

O veículo parou e o som foi desligado, houve um breve silêncio. Olhei para Belinha. – Não sai até eu mandar.

Ela assentiu.

Ouvi a porta do motorista abrir, depois fechar e em seguida os passos.

Meu coração batia tão forte que eu conseguia ouvi-lo. A maçaneta externa se moveu e a porta lateral começou a abrir automaticamente e Ethan apareceu.

– Sai do...

Não deixei que terminasse e acertei seu rosto com o salto.

– PORRA!

Ethan cambaleou para trás, levando imediatamente uma das mãos ao olho. Perdeu o equilíbrio e caiu, gritando.

– SUA FILHA DA PUTA!

Não esperei.

Joguei o sapato no chão, virei-me e peguei Belinha no colo – Vem meu amor!

Ela passou os braços ao redor do meu pescoço e eu a tirei do veículo. Segurei minha filha contra o corpo e comecei a correr. Descalça. Vestida de noiva. Com metros de tecido dificultando cada passo.

Não importava.

– RENESMEE!

Ouvi Ethan gritar atrás de mim mas continuei.

O lugar parecia uma área industrial parcialmente abandonada. Havia grandes galpões, contêineres empilhados, equipamentos e corredores estreitos entre estruturas. Não sabia para onde estava indo. Só sabia que precisava colocar distância entre Ethan e Belinha.

– RENESMEE, VOLTA AQUI!

Encontrei uma abertura lateral em um dos galpões e entrei.

O interior era amplo e escuro em algumas áreas. Havia caixas, estruturas metálicas, pallets e equipamentos espalhados. Minha respiração estava descontrolada, Belinha chorava silenciosamente contra meu ombro e eu conseguia ouvir Ethan gritando do lado de fora.

Precisava esconder minha filha.

Olhei desesperadamente ao redor e encontrei um espaço estreito entre algumas caixas grandes e uma estrutura encostada na parede. Era pequeno demais para um adulto entrar confortavelmente, mas suficiente para Belinha.

Me abaixei – Meu amor, olha para mim.

Ela estava chorando. – Mamãe...

– Eu sei. Eu sei que está com medo. Mas lembra quando a gente brinca de esconde-esconde?

Ela assentiu. – Nós vamos brincar agora.

– Aqui?

– Aqui.

Passei as mãos pelo rosto dela. – E você vai ganhar.

Ela tentou controlar o choro. – Como?

– Você vai ficar escondida aqui. Bem quietinha. Não importa o que escutar, não sai.

– E você?

Meu coração apertou. – Eu vou ficar por perto.

– Eu quero ficar com você.

– Eu sei, meu amor.

Beijei sua testa demoradamente. – Mas eu preciso que você faça isso para mim. Você é a melhor no esconde-esconde, lembra?

Ela assentiu. – Lembro.

– Então vai mostrar.

Ajudei-a a entrar no espaço. – Você só vai sair quando o tio Jay chamar você. Entendeu?

– Só o tio Jay?

– Só ele.

– E você?

Hesitei. – Se eu vier buscar você, também pode sair. Mas se ouvir qualquer outra pessoa, fica escondida.

Belinha assentiu. – Tá bom.

Ouvi a voz de Ethan mais próxima.

– RENESMEE!

Meu corpo inteiro ficou tenso. Voltei a olhar para minha filha.

– E tem mais uma regra.

– Qual?

Segurei suas pequenas mãos.

– O papai não pode encontrar você. Se ele encontrar, ele vence a brincadeira.

Os olhos dela ficaram sérios. – Então eu não vou deixar.

Sorri e beijei sua testa mais uma vez. – Essa é a minha menina.

Arrumei cuidadosamente as caixas de modo que escondessem melhor o espaço sem bloqueá-la completamente. Antes de me afastar, olhei para ela uma última vez.

Belinha levou um dedo aos lábios. – Eu vou ficar quietinha.

Engoli o choro. – Muito quietinha.

Agora eu precisava fazer com que ele procurasse por mim.



Renesmee

Afastei-me do esconderijo de Belinha sem correr nos primeiros metros, embora cada parte do meu corpo gritasse para que eu fizesse exatamente isso. O chão do galpão era frio e áspero sob meus pés descalços, e a saia do vestido prendia em caixas, quinas e pedaços de metal conforme eu avançava. Segurei parte do tecido com uma das mãos para conseguir caminhar mais depressa, tomando cuidado para não derrubar nada que denunciasse minha posição. Eu precisava colocar distância entre mim e minha filha. Se Ethan me encontrasse, queria que estivesse o mais longe possível daquele canto. Não sabia quanto tempo Jacob levaria para chegar, não sabia se a localização que enviara continuava sendo suficiente depois que saímos do veículo e, acima de tudo, não sabia o que Ethan pretendia fazer.

Escondi-me atrás de uma fileira de caixas empilhadas quando ouvi os passos dele entrando no galpão. Parei imediatamente, prendendo a respiração. O espaço era grande o bastante para fazer sua voz reverberar, dificultando saber exatamente de onde vinha. Mantive as costas contra uma estrutura metálica e tentei controlar minha respiração, mas meu peito subia e descia rápido demais.

– Renesmee! – Ethan chamou, e a maneira como pronunciou meu nome me causou arrepios. Houve alguns segundos de silêncio antes que ele continuasse, agora com uma voz estranhamente mais calma. – Meu amor, para com isso. Você não precisa ficar fugindo de mim. Nós só precisamos conversar.

Fechei os olhos.

Meu amor.

Depois de tudo, ele ainda conseguia dizer aquilo.

– Eu sei que você está aqui – continuou. – Sei que está com medo, mas não precisa. Eu não trouxe você para machucar ninguém. Eu só precisava tirar você de perto dele. Você não estava me ouvindo. Ninguém estava me ouvindo.

Aproximei-me cuidadosamente de uma pequena abertura entre duas caixas e olhei através dela.

Vi Ethan.

Ele estava a vários metros de distância, caminhando devagar pelo corredor central. A roupa de motorista que usara para entrar no hotel estava desalinhada, e o boné havia desaparecido. Um dos lados de seu rosto estava marcado pelo golpe que eu dera. Ele mantinha uma mão próxima ao olho machucado.

Mas foi a outra mão que fez meu estômago se contrair.

Havia uma arma nela.

Afastei-me imediatamente da abertura.

Meu Deus.

Levei a mão à boca para conter qualquer som.

Ethan estava armado e Belinha estava escondida naquele galpão.

Meu primeiro impulso foi voltar correndo para minha filha, pegá-la e procurar outra saída. Obriguei-me a não fazer isso. Se Ethan estivesse perto o suficiente para me ver, eu o levaria diretamente até ela.

Precisava afastá-lo.

Ergui a saia e comecei a caminhar na direção contrária, procurando outra fileira de equipamentos que me permitisse atravessar o galpão sem passar pelo corredor principal. A cauda do vestido já estava suja e rasgada em alguns pontos. Uma parte da renda prendeu numa quina metálica e precisei puxá-la com força, ouvindo o tecido se romper.

Não importava.

Continuei.

– Nessie!

A voz dele pareceu mais próxima.

– Você sempre fazia isso – Ethan falou. – Ficava quieta quando estava com raiva. Lembra? Eu perguntava o que tinha acontecido e você dizia que não era nada. Depois eu precisava passar horas tentando fazer você falar comigo.

As palavras pareciam pertencer a outro tempo. Havia lembranças verdadeiras misturadas àquela loucura, e talvez isso fosse o mais assustador. Ethan falava sobre nossa antiga vida como se os últimos meses não tivessem acontecido, como se ainda fôssemos o casal que dividia uma casa em Forks e discutia sobre contas, trabalho e quem buscaria Belinha.

– Eu conheço você melhor do que ele, Renesmee. Seis anos. Black não sabe nem metade das coisas que eu sei. Ele não sabe como você dorme quando está preocupada, não sabe o que você faz quando está com medo, não sabe quando está mentindo dizendo que está tudo bem. Eu sei.

As lágrimas começaram a arder em meus olhos.

Continuei andando.

– Você acha mesmo que vai casar com aquele velho e tudo vai desaparecer? – A voz dele mudou novamente, a irritação surgindo por baixo da falsa calma. – Acha que vai vestir esse vestido, colocar uma aliança e fingir que eu nunca existi? Eu existo, Renesmee. Eu estava lá antes dele. Eu fiz uma família com você.

Mordi o interior da boca para permanecer quieta.

Os passos pararam.

Eu também parei.

Durante alguns segundos, não ouvi nada.

Então Ethan riu. – Está bonita, sabia?

Meu coração disparou.

Ele tinha me visto?

Olhei rapidamente ao redor mas não havia ninguém.

– Eu vi você entrando no carro – continuou. – Ficou linda de noiva. Durante alguns segundos eu fiquei pensando que deveria ter sido assim comigo. Você devia ter usado esse vestido para mim.

Continuei imóvel. – Mas você preferiu ele.

– Eu vou encontrar você – falou. – E quando encontrar, nós vamos resolver isso. Você vai parar de agir como se eu fosse um estranho. Vai parar de fugir de mim e de se esconder atrás daquele filho da puta.

Ele ficou alguns segundos em silêncio, e quando voltou a falar, sua voz estava mais baixa, carregada de uma ameaça que fez meu corpo inteiro gelar.

– E quando eu encontrar você, vou comer você até você gritar chega. Talvez assim lembre de quem você era antes de Jacob Black colocar as mãos em você.

As lágrimas finalmente escorreram.

Levei a mão à boca e apertei com força para não deixar nenhum som escapar. Meu estômago revirou, e instintivamente a outra mão foi até meu ventre. Pela primeira vez desde que descobrira a gravidez, senti um medo tão grande que quase me impediu de pensar.

Não.

Eu precisava pensar.

Jacob estava vindo e eu só precisava ganhar tempo.

– Belinha! – Ethan gritou de repente.

Meu sangue gelou.

Virei imediatamente a cabeça na direção de onde havia deixado minha filha.

– Filha! – chamou novamente, e sua voz mudou completamente, tornando-se quase carinhosa. – Cadê você, princesa? É o papai.

- Por favor, meu amor. Fica quieta.- Sussurrei.

– Belinha, pode sair. O papai não está bravo com você. Eu só quero levar você para casa.

Meu coração parecia bater na garganta.

Ela tinha cinco anos. Era inteligente, havia entendido a brincadeira e prometido ficar escondida, mas Ethan era seu pai. Ela o amava. Aquela era justamente a crueldade de tudo aquilo: eu estava pedindo a uma criança que ignorasse a voz de uma pessoa que, durante toda a sua vida, aprendera a reconhecer como segurança. – Filha, eu sei que você está aqui. Vem com o papai.

Não ouve resposta. – Isabella!

A voz dele ficou mais alta.

Eu não podia correr o risco. Olhei para o corredor à minha frente e tomei a decisão antes que o medo pudesse me impedir saí do esconderijo. – ETHAN!

Ele se virou imediatamente.

Parei a vários metros dele e pela primeira vez consegui vê-lo completamente. O golpe do salto havia aberto um ferimento próximo ao olho, e havia sangue descendo por parte de seu rosto. A região ao redor já começava a inchar. A arma continuava em sua mão, apontada para baixo naquele momento, mas apenas vê-la foi suficiente para fazer minhas pernas ameaçarem falhar.

Os olhos dele se fixaram em mim.

– Aí está você.

– Deixa Belinha fora disso.

Ele sorriu. – Onde ela está?

– Longe de você.

– Ela é minha filha.

– Então se comporte como pai dela.

O sorriso desapareceu. – Não me dá lição de moral.

– Você sequestrou sua própria filha no dia do casamento da mãe dela e trouxe uma arma. Quer que eu chame isso de quê?

– Cala a boca.

– Deixa Belinha sair daqui. – Minha voz tremeu, mas continuei. – Você quer conversar comigo? Então conversa comigo. Quer me culpar pelo que aconteceu? Culpa. Quer gritar? Grita. Mas ela não tem nada a ver com isso.

Ethan começou a caminhar em minha direção.

Meu instinto mandou que eu recuasse, mas me obriguei a permanecer onde estava.

Quanto mais perto de mim, mais longe de Belinha.

– Você continua fazendo isso – ele disse.

– Isso o quê?

– Agindo como se fosse melhor do que eu.

– Não estou fazendo comparação nenhuma.

– Está, sim. Desde que começou a andar com Black, você olha para mim como se eu fosse lixo.

– Ethan, você precisa parar.

– Não manda em mim!

A voz dele explodiu pelo galpão, mesmo assim, continuei encarando-o.

– Então pensa na sua filha. Ela está assustada. Você quer que Belinha se lembre de você assim?

Ele parou a poucos passos. – Você colocou minha filha contra mim.

– Não. Você está fazendo isso sozinho.

– Sua puta.

Engoli em seco. – Pode me chamar do que quiser. Só deixa Belinha fora disso.

Ele olhou para meu vestido e soltou uma risada amarga.

– Toda arrumada para casar com ele. Grávida dele. Como se os seis anos comigo não significassem porra nenhuma.

– Significaram. Eu nunca disse que não significaram.

– Então tira essa merda.

Franzi o cenho. – O quê?

Ele apontou para meu vestido com a arma.

– Esse vestido.

Meu coração disparou. – Não.

– Você não vai casar com ele.

– Isso não é uma decisão sua.

– Eu disse para tirar essa merda!

– Não.

Vi a raiva atravessar seu rosto e ainda assim, mantive a voz firme.

– Você quer falar comigo, Ethan? Fala. Mas não vai mandar em mim. Não mais.

Ele se aproximou tão rápido que não tive tempo de recuar. – Eu falei para você calar a boca!

A mão dele atingiu meu rosto e o impacto virou minha cabeça e me fez perder completamente o equilíbrio. Caí no chão, apoiando instintivamente uma das mãos para proteger o corpo enquanto a outra foi direto ao meu ventre. A lateral do meu rosto ardia, e por alguns segundos fiquei desorientada, tentando compreender o que acabara de acontecer.

Ethan estava diante de mim.

Olhei para cima, respirando com dificuldade, e naquele momento deixei de enxergar qualquer vestígio do homem com quem havia dividido seis anos da minha vida.

O ar no galpão era frio e cheirava a mofo e metal oxidado, um contraste cruel com o pânico que incendiava meu peito. Antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo, senti a mão de Ethan agarrar meu braço com uma violência brutal. Ele me levantou do chão com um solavanco, jogando-me contra a parede áspera. O impacto me deixou sem fôlego, mas o terror real veio quando senti o cano gelado de uma arma pressionado contra a minha têmpora.

— Você é minha, Renesmee. Nunca se esqueça disso — ele sibilou, os olhos brilhando com uma loucura possessiva que me fez tremer. — Agora, me diga... onde está a Belinha? Onde você escondeu a criança?

Lágrimas desesperadas inundaram minha visão. O medo por mim era nada comparado ao pavor de que ele chegasse perto dela. Eu solucei, sentindo o metal da arma me marcar, e implorei com a voz embargada: — Por favor... por favor, Ethan! Deixe ela fora disso! Ela é inocente, ela não tem nada a ver com isso! Eu faço qualquer coisa, mas não envolva a Belinha!

Ethan soltou um riso seco, desprovido de qualquer humanidade. Ele me agarrou pelo pulso e começou a me arrastar violentamente em direção a uma sala nos fundos do galpão. Eu lutava, meus pés tropeçando no chão sujo, mas a força dele era esmagadora. Ao chegarmos à porta, ele parou e me olhou com um sorriso sádico.

— Sabe, pensando bem... é melhor que você não veja o que vou fazer com a mãe dela, depois eu vou encontra-la — ele murmurou, a voz gélida. — Mas antes, vamos cuidar de você. Tire esse vestido. Agora.

Eu congelei. O choro tornou-se um soluço convulsivo enquanto eu olhava para ele, implorando com os olhos. Eu não conseguia me mexer; o terror me paralisava. Vendo minha hesitação, Ethan perdeu a paciência. Com um movimento brusco e violento, ele agarrou o tecido do meu vestido e o rasgou de cima a baixo. O som do tecido se partindo ecoou no silêncio da sala como se fosse a minha própria pele sendo rasgada.

Senti o frio repentino do ambiente tocar minha pele nua. Num reflexo de puro desespero, cruzei os braços sobre o peito e tentei cobrir as coxas com as mãos, encolhendo-me, chorando compulsivamente. — Por favor... eu te imploro... não faça isso... — sussurrei, a voz quase sumindo.

Para minha surpresa, a violência cessou por um momento. Ethan se aproximou e, com uma delicadeza perturbadora que era pior do que a agressão, beijou minha testa e depois meus cabelos ruivos. — Eu senti tanto a sua falta, Nessie — ele sussurrou, a respiração quente contra minha pele.

Ele começou a tentar me beijar, forçando seus lábios contra os meus. Eu fechei os olhos com força, sentindo o nojo e o medo se misturarem. Quando senti que ele estava prestes a me dominar completamente e que eu não teria escapatória, soltei um grito desesperado, um clamor por socorro que rasgou a garganta.

Foi nesse instante que o som mais alto e violento do mundo ecoou pelo galpão: um disparo seco e ensurdecedor.

Abri os olhos abruptamente. Ethan não estava mais me beijando. Ele estava estático. Seus olhos se arregalaram em choque e horror, a pupila dilatada enquanto ele olhava para algo atrás de mim. Ele deu alguns passos para trás, cambaleando, a expressão de predador transformando-se instantaneamente em medo. A arma, que até segundos atrás era o instrumento de tortura, escorregou de seus dedos e caiu no chão com um baque metálico, abandonada.