Amor não era o plano
71 O casamento ( parte 1)
Renesmee
As últimas semanas tinham passado depressa demais. Em alguns momentos, eu tinha a impressão de que estava vivendo vários acontecimentos ao mesmo tempo e que meu cérebro simplesmente escolhera aceitar aquilo como normal. Depois da noite em que Ethan apareceu bêbado na porta da Doce Encanto, gritando que eu era dele e provocando Jacob até conseguir fazê-lo perder parte da paciência, ele desapareceu. Não houve nova visita, ligação, mensagem ou tentativa de me procurar por intermédio de outra pessoa. No início, aquela ausência me deixou mais inquieta do que aliviada. Eu conhecia Ethan havia tempo suficiente para saber que o silêncio dele nem sempre significava desistência, e a maneira como saíra dali, completamente fora de controle, ainda me fazia pensar no que poderia acontecer quando estivesse sóbrio. Porém, os dias passaram, depois uma semana inteira, e Ethan continuou sem aparecer.
Nem Belinha ele foi buscar.
Pelo acordo estabelecido judicialmente, aquela deveria ter sido a semana em que ela ficaria com o pai. Eu preparei as roupas, organizei os materiais da escola e deixei a mochila pronta porque, independentemente do que estivesse acontecendo entre mim e Ethan, eu não usaria nossa filha para puni-lo. Jenks havia sido muito claro desde o início: eu deveria cumprir rigorosamente tudo o que fora determinado, e eu pretendia fazer isso não apenas pelo processo, mas por Belinha. Na tarde em que Ethan deveria buscá-la, ela ficou pronta e esperou. O horário passou. Depois passou mais uma hora. Nenhuma mensagem chegou. Tentei entrar em contato e não obtive resposta. No fim daquela noite, guardei novamente as roupas no armário e precisei explicar para minha filha, sem falar mal do pai dela, que alguma coisa provavelmente tinha acontecido e que ele entraria em contato quando pudesse.
Ele não entrou.
Eu sabia que a situação de Ethan estava longe de ser boa. Claire havia decidido se divorciar, e embora eu não conhecesse todos os detalhes do que estava acontecendo entre os dois, sabia que o casamento deles praticamente terminara. A tentativa dele de adquirir parte da Black Enterprises também havia tomado um rumo que aparentemente não esperava. Além disso, Rosalie e Miguel tinham levado adiante tudo o que haviam contado sobre a casa da mãe. Os dois denunciaram formalmente Ethan pela venda ilegal do imóvel, entregaram documentos e se dispuseram a prestar depoimento. O jurídico de Jacob explicou que o histórico poderia ser importante para demonstrar um padrão de manipulação patrimonial e documental, algo que ajudaria bastante na ação para recuperar minha antiga casa e o prédio onde funcionava a Doce Encanto em Forks.
Quando ouvi aquilo, senti uma esperança que meses antes teria parecido impossível. Durante muito tempo, pensar naquela casa e na antiga doceria significava lembrar tudo que eu perdera. Não era apenas dinheiro. Era o lugar onde Belinha tinha crescido, o espaço onde construí meu negócio e a vida que eu acreditava possuir antes de descobrir quantas coisas haviam sido sustentadas por mentiras. Agora existia uma possibilidade concreta de recuperar pelo menos parte daquilo. Os advogados estavam trabalhando, documentos eram analisados e, pela primeira vez, eu podia permitir que outras pessoas cuidassem daquele problema sem sentir necessidade de controlar cada etapa.
Porque, naquele momento, eu estava diante de um espelho usando um vestido de noiva.
E era surpreendentemente difícil pensar em qualquer outra coisa.
Observei meu reflexo e inspirei lentamente. O quarto do hotel era enorme, luxuoso e silencioso demais para a quantidade de pessoas que havia entrado e saído dali desde cedo. Rachel escolhera o lugar pessoalmente e, segundo ela, a principal vantagem não era a suíte, a vista de Seattle ou a proximidade da igreja. Era o sistema de segurança.
“Jacob não entra aqui.”
Ela repetira aquilo tantas vezes que parecia ter escolhido um hotel para proteger uma testemunha, não uma noiva.
Eu tinha perguntado por que Jacob tentaria entrar.
Rachel apenas rira da minha ingenuidade.
Agora, sozinha diante do espelho por alguns minutos, comecei a compreender por que ela levara a tarefa tão a sério. Jacob e eu havíamos passado a noite anterior separados por insistência de Alice, Bella e das irmãs dele. Meu noivo reclamara durante aproximadamente vinte minutos, informara a todos que tinha quarenta e nove anos e não precisava seguir uma superstição ridícula e, por fim, cedera apenas depois que eu prometi que sobreviveríamos algumas horas separados. Ainda assim, Rachel fizera questão de não informar a ele o número da minha suíte.
Passei as mãos cuidadosamente pela saia do vestido.
Alice havia participado de praticamente cada decisão, embora eu tivesse imposto limites antes que ela transformasse meu casamento em uma produção que exigisse autorização da prefeitura de Seattle. No vestido, entretanto, eu tinha permitido que ela interferisse um pouco mais, e precisava admitir que acertara.
Era exatamente o que eu queria.
O tecido claro acompanhava meu corpo na parte superior sem me apertar, principalmente porque minha gravidez ainda era recente, mas já suficiente para tornar conforto uma prioridade. O corpete tinha um decote delicado, elegante sem ser excessivo, e mangas finas de renda trabalhada cobriam parcialmente meus braços. Pequenas aplicações continuavam pela cintura e desapareciam gradualmente na saia. A partir dos quadris, o vestido ganhava mais movimento e descia em camadas suaves até o chão, terminando numa cauda longa o bastante para parecer uma noiva de verdade, como Alice dizia, mas não tão longa a ponto de eu precisar de uma equipe para caminhar.
O véu estava preso aos meus cabelos ruivos, que tinham sido arrumados em um penteado baixo, deixando algumas mechas cuidadosamente soltas próximas ao rosto. A maquiagem era discreta. Eu tinha recusado qualquer coisa que me fizesse olhar para as fotografias depois e não me reconhecer. Quando abaixei os olhos, encontrei o anel de noivado em minha mão e passei o polegar sobre ele.
Eu realmente ia me casar com Jacob Black.
A ideia ainda conseguia me deixar nervosa.
Não porque duvidasse da decisão. Se havia alguma coisa da qual eu tinha certeza naquele momento, era que queria estar com ele. O nervosismo vinha justamente da dimensão daquela certeza. Alguns meses antes, Jacob era o homem arrogante que aparecera em minha vida no pior momento possível, convencido de que conseguia resolver qualquer problema com dinheiro, influência ou uma ligação para algum advogado. Eu o achava insuportável. Ainda achava, em muitos momentos. A diferença era que agora conhecia o homem por trás da arrogância. Conhecia o pai que podia discutir durante horas com Claire e ainda deixar claro que nenhuma briga faria a filha precisar pedir permissão para entrar em seu escritório. Conhecia o avô que mudava completamente quando Ephraim corria para seus braços. Conhecia o homem que se sentava à mesa com Belinha, negociava legumes como se estivesse fechando um contrato milionário e tomava cuidado para jamais tentar ocupar o lugar de Ethan na vida dela.
E conhecia o homem que me amava.
Do jeito difícil, grosseiro, controlador e absolutamente Jacob Black de amar.
Minha mão desceu instintivamente até meu ventre.
Havia também nosso filho.
Ou filha.
Ainda não sabíamos.
– Meu Deus.
A voz de Alice me fez virar.
Ela estava parada na entrada do quarto com uma das mãos sobre o peito. Bella surgiu logo atrás dela e, no instante em que minha mãe me viu, seus olhos se encheram de lágrimas.
Alice entrou primeiro.
– Você está perfeita.
Sorri.
– Você disse isso durante a última prova.
– Porque estava perfeita durante a última prova. Agora está pior.
Franzi o cenho.
– Pior?
– Pior para a minha estabilidade emocional. – Ela se aproximou, segurou minhas mãos e me fez dar uma volta muito cuidadosa. – Olha isso. Eu sabia que esse vestido era o certo. A cintura ficou exatamente como deveria, a renda não está exagerada, o véu está perfeito e, antes que você pergunte, não, não precisa mexer em absolutamente nada.
– Isso vindo de você é quase uma declaração histórica.
– Aproveite. Provavelmente nunca mais vai acontecer.
Bella ainda permanecia alguns passos atrás.
Olhei para minha mãe.
O sorriso dela tremia.
– Mãe...
– Não fala nada ainda – pediu, levando os dedos rapidamente aos olhos. – Alice ameaçou minha vida se eu estragar a maquiagem antes das fotos.
Alice suspirou.
– Eu não ameacei sua vida.
– Você disse que me expulsaria do quarto.
– É diferente.
Comecei a rir, mas a emoção venceu no instante em que Bella se aproximou. Abri os braços e minha mãe me abraçou imediatamente, com cuidado para não amassar o vestido. Fechei os olhos e apertei meus braços ao redor dela.
– Minha menina vai se casar – Bella murmurou perto do meu ouvido.
– Mãe, não começa, porque eu demorei quase uma hora para ficar com essa maquiagem.
Ela riu entre as lágrimas e se afastou apenas o suficiente para olhar meu rosto.
– Você está linda, Nessie. Linda de verdade.
– Obrigada.
– E está feliz?
A pergunta foi simples, mas eu sabia que ela não se referia ao vestido.
Olhei para minha mãe e assenti.
– Estou.
Bella acariciou meu rosto.
– Então é só isso que eu precisava ouvir.
– Vocês duas vão acabar chorando – Alice reclamou, aproximando-se com um lenço. – E depois eu vou precisar consertar tudo. Nós temos horário.
– Alice, é meu casamento – falei.
– Exatamente. Portanto, coopere.
Uma pequena movimentação no corredor interrompeu nossa conversa, seguida por uma voz infantil que eu reconheceria em qualquer lugar.
– Mamãe?
Virei imediatamente.
Belinha apareceu na porta e meu sorriso surgiu antes mesmo que eu pudesse controlar. Minha filha usava um vestido de daminha delicado, com saia rodada e pequenos detalhes que combinavam com os do meu vestido. Os cabelos estavam presos parcialmente para trás e ela segurava uma pequena cesta decorada nas mãos. Ao lado dela estava Ephraim, usando um pequeno terno escuro, camisa clara e uma gravata que já parecia ter sido ajustada mais vezes do que ele considerava aceitável.
– Olha vocês dois!
Belinha abriu um sorriso enorme e correu em minha direção.
– Não corre! – Alice e Bella disseram ao mesmo tempo.
Minha filha diminuiu imediatamente o passo, fazendo uma expressão ofendida.
– Eu não ia derrubar a mamãe.
– Eu sei que não ia, meu amor.
Abaixei-me o quanto o vestido permitia e a recebi em meus braços. Belinha passou os braços pelo meu pescoço, tomando cuidado com meu cabelo porque Alice provavelmente já havia feito algum discurso sobre isso.
– Você está linda, mamãe.
Beijei sua bochecha.
– E você está maravilhosa. Deixa eu ver.
Ela se afastou e girou devagar para mostrar o vestido.
– A tia Alice escolheu.
– Claro que escolheu.
Alice ergueu o queixo.
– E mais uma vez acertei.
Ephraim permanecia próximo à porta, mexendo na gravata com uma expressão incomodada. Estendi a mão para ele.
– Vem aqui, meu amor.
Ele se aproximou.
– Essa gravata está apertando?
– Um pouco.
– Eu falei que ele não parava de mexer – Belinha informou.
– Porque aperta – Ephraim respondeu.
– Então vamos resolver.
Passei os dedos cuidadosamente pelo nó e afrouxei um pouco.
– Melhor?
Ele assentiu.
– Melhor.
– Está muito bonito.
Ephraim sorriu.
– O vovô também está de roupa de casamento.
Eu ri.
– Imagino que esteja.
– Ele disse que gravata é uma invenção idiota.
Rachel ou Rebecca. Uma das duas certamente havia obrigado Jacob a usar gravata.
– Isso parece exatamente uma coisa que seu avô diria.
Belinha segurou minha mão.
– O tio Jay está esperando você?
Aquela pergunta fez meu estômago se contrair novamente.
– Está.
– Ele está nervoso?
– Espero que sim. Seria injusto só eu estar.
Bella riu.
Olhei para ela.
– Onde está meu pai?
– Já foi para a igreja. – Minha mãe ajeitou delicadamente uma parte do meu véu. – Ele está esperando por você lá.
– Ele foi cedo?
– Muito cedo.
Alice se intrometeu:
– Porque Edward estava impossível aqui. Conferiu o horário três vezes, perguntou sobre o motorista, quis saber a rota até a igreja e depois começou a perguntar se você tinha comido.
Sorri.
– Parece meu pai.
– Eu mandei que ele fosse embora – Bella confessou. – Disse que seria mais útil esperando você na igreja do que andando de um lado para outro aqui.
– Ele está nervoso?
Bella me olhou como se a resposta fosse óbvia.
– A filha dele vai se casar.
Meu peito apertou novamente. Pensei em Edward esperando por mim, provavelmente tentando esconder a emoção com a mesma competência questionável que demonstrara no aniversário. Depois de tudo que acontecera entre ele e Jacob, saber que meu pai estaria ali para me levar até o altar significava mais do que eu conseguiria explicar.
– Não chora – Alice advertiu imediatamente.
– Eu nem comecei.
– Seus olhos começaram.
– Alice!
Bella riu.
– Deixa sua irmã em paz.
– Estou protegendo meu trabalho.
A porta se abriu novamente e Rachel entrou sem cerimônia. Ela estava elegantemente vestida, os cabelos impecáveis e o celular em uma das mãos. Parou assim que me viu e abriu um sorriso.
– Caramba.
Alice colocou as mãos na cintura.
– Eu prefiro "perfeita".
– Perfeita também. – Rachel se aproximou e me observou dos pés à cabeça. – Jake vai ter um infarto.
– Não fala isso para uma mulher grávida no dia do casamento – Bella repreendeu.
Rachel riu.
– Foi modo de dizer. Meu irmão está saudável o suficiente para sobreviver. Embora eu queira muito ver a cara dele quando ela entrar.
– Você vai estar olhando para frente – Alice lembrou.
– Eu consigo olhar para dois lugares.
– Não consegue.
– Alice, não começa.
Eu ri enquanto Rachel se aproximava e segurava minhas mãos.
– Você está realmente linda, Nessie.
– Obrigada.
Ela olhou para o vestido outra vez.
– Valeu cada discussão com Alice.
– Eu ouvi – Alice avisou.
– Era para ouvir.
Rachel voltou a atenção para mim.
– E antes que alguém invente mais alguma coisa para fazer, o motorista já está esperando lá embaixo. Temos tempo, mas não muito.
Meu coração acelerou. Olhei para o espelho novamente.
De repente, aquilo deixou de parecer uma preparação.
Eu estava pronta.
Bella percebeu minha mudança de expressão e segurou minha mão. – Nervosa?
Soltei o ar devagar. – Muito.
Rachel sorriu. – Ótimo.
Olhei para ela. – Ótimo?
– Se você estivesse prestes a casar com Jacob Black e não sentisse pelo menos um pouco de nervosismo, eu ficaria preocupada com você.
Comecei a rir. – Isso deveria me tranquilizar?
– Não. Mas é verdade.
Belinha aproximou-se e segurou minha outra mão. – Eu vou com você, mamãe.
Olhei para minha filha, depois para minha mãe, Alice, Rachel e Ephraim. Havia passado tanto tempo acreditando que precisava reconstruir a vida que Ethan destruíra que não percebi exatamente quando deixei de tentar recuperar o que existia antes e comecei a construir alguma coisa completamente nova.
Apertei a mão de Belinha e respirei fundo.
– Então vamos. Antes que Jacob resolva vir me buscar.
Rachel arregalou os olhos.
– Nem brinca com isso. Eu passei semanas organizando tudo justamente para impedir aquele homem de aparecer antes da hora.
Alice pegou meu buquê e o colocou cuidadosamente em minhas mãos.
– Agora você está pronta.
Olhei uma última vez para meu reflexo. O nervosismo continuava ali, meu coração batia rápido e minhas mãos provavelmente começariam a tremer no instante em que eu visse meu pai esperando por mim. Ainda assim, sorri.
– Agora estou.
Rachel abriu a porta e apontou para o corredor.
– Então vamos logo. Seu noivo já esperou quarenta e nove anos. Acho que é crueldade fazer o homem esperar mais.
O elevador pareceu descer mais rápido do que eu gostaria. Até poucos minutos antes, eu estava diante do espelho tentando me acostumar com a imagem de mim mesma vestida de noiva; agora atravessava o saguão de um hotel em Seattle cercada por Alice, Rachel, Bella, Belinha e Ephraim, enquanto algumas pessoas interrompiam discretamente o que estavam fazendo para olhar em nossa direção. Eu tinha consciência de que chamávamos atenção, principalmente porque Alice organizara aquela saída como se estivéssemos deixando um evento oficial. Dois funcionários do hotel mantinham as portas abertas, havia carros esperando diante da entrada e Rachel conferia o celular pela terceira vez desde que saíramos da suíte.
Minha mãe e Ephraim seguiram primeiro. Bella me abraçou novamente antes de entrar em um dos veículos, prometendo que estaria na igreja quando eu chegasse, enquanto Ephraim acenou para Belinha através da janela. Eu continuei andando com cuidado, segurando parte da saia para evitar pisar nela, enquanto Alice se ocupava da cauda e Rachel verificava se o véu não ficaria preso em lugar algum.
– Eu nunca imaginei que caminhar até um carro exigisse uma equipe inteira – comentei.
– Quando você usa vários metros de tecido branco que custaram mais do que deveria, exige – Alice respondeu, concentrada na cauda. – Devagar. Não pisa aí.
– Eu não estava pisando.
– Estava quase.
Rachel olhou para nós.
– Não discutam agora. Guardem energia para quando Jake começar a reclamar das fotografias.
– Ele já começou ontem – falei.
– Claro que começou. É meu irmão.
Chegamos ao estacionamento reservado diante do hotel, e eu finalmente vi o veículo que me aguardava. Era grande, escuro, com os vidros completamente fechados e espaço suficiente para que eu não precisasse me preocupar tanto com o vestido. Fiquei olhando para ele durante alguns segundos, sentindo novamente aquele frio no estômago que vinha aparecendo desde que acordara.
A igreja.
Jacob.
Meu pai esperando para me levar até o altar.
Meu casamento estava a poucos minutos de distância.
Rachel apontou para o veículo.
– Você vai nesse sozinha. É melhor. Assim ninguém senta em cima do vestido, não amassa a saia e Alice não tem um colapso nervoso antes de chegar à igreja.
– Excelente plano – Alice concordou. – Finalmente alguém respeitando minhas prioridades.
– Eu vou com a mamãe – Belinha protestou imediatamente.
Nós três olhamos para ela.
Minha filha estava com as mãos na cintura e uma expressão tão séria que comecei a sorrir.
Rachel levou a mão ao peito.
– Perdão, senhorita Isabella. Evidentemente eu cometi um erro gravíssimo.
– Cometeu.
– Então corrigindo: sua mãe e você vão nesse carro. Melhor?
Belinha assentiu. – Melhor.
– Ainda bem. Eu estava preocupada em ser demitida do casamento.
– Você não trabalha para a mamãe.
Rachel olhou para mim. – Sua filha é muito literal.
– E está certa.
– Ninguém nesta família respeita autoridade.
Alice soltou uma risada. – Você está descobrindo isso agora?
A porta lateral do veículo abriu automaticamente. Olhei para o espaço interno e depois para a quantidade de tecido ao meu redor.
– Certo. Como eu entro nisso sem destruir o vestido?
Alice imediatamente assumiu o comando.
– Você entra. Nós cuidamos do vestido.
– Isso não respondeu absolutamente nada.
– Confia em mim.
– Essa frase vinda de você no dia do meu casamento me preocupa.
Rachel riu e segurou minha mão.
– Vamos, Nessie. Um pé de cada vez.
Com a ajuda das duas, consegui entrar. Rachel segurou meu braço enquanto Alice praticamente organizava a saia dentro do veículo centímetro por centímetro, puxando cuidadosamente a cauda para que nenhuma parte ficasse presa. Quando finalmente me sentei, olhei para elas.
– Sobrevivi.
– O vestido também – Alice respondeu. – O que era minha maior preocupação.
– Obrigada, irmã.
– De nada.
Belinha entrou logo depois com muito menos dificuldade e sentou-se ao meu lado. Arrumei sua saia e coloquei sua pequena cesta perto de nossos pés.
Rachel se inclinou para dentro.
– Nos encontramos na igreja.
– Certo.
– E respira.
– Estou respirando.
– Você sabe o que quero dizer.
Sorri.
– Eu sei.
Alice apontou para meu rosto.
– Não chora no carro.
– Alice!
– Estou avisando.
– Sai daqui.
Ela riu e beijou minha bochecha com cuidado.
– Amo você.
– Também amo você.
Rachel fez o mesmo. – Até daqui a pouco, cunhada oficialmente insuportável.
– Você ainda tem tempo de fugir.
– E perder a oportunidade de ver meu irmão casado? Nunca.
A porta começou a fechar automaticamente.
Belinha acenou.
– Tchau, tia Rachel! Tchau, tia Alice!
As duas responderam do lado de fora, e segundos depois a porta estava completamente fechada.
O silêncio dentro do veículo pareceu estranho depois de toda a agitação. Soltei um longo suspiro e encostei a cabeça por alguns segundos no banco.
– Finalmente.
Belinha olhou para mim. – Você está cansada Mamãe?
– Um pouquinho.
– Mas o casamento nem começou.
Comecei a rir.
– Obrigada por me lembrar.
Olhei para a frente. Uma divisória de vidro escuro separava a parte dos passageiros da cabine do motorista. A película era tão fechada que eu não conseguia distinguir sequer o contorno de quem estava dirigindo. Achei um pouco estranho, mas Rachel provavelmente escolhera algum serviço executivo do hotel justamente para que tivéssemos privacidade.
Ajeitei o vestido ao redor das pernas.
Belinha continuava me observando.
– Mamãe?
– Hum?
– Depois que você casar com o tio Jay, ele ainda vai ser tio Jay?
Virei o rosto para ela.
– Para você?
Ela assentiu.
– Se você quiser.
– Eu quero.
Sorri e passei a mão por seus cabelos.
– Então ele continua sendo tio Jay.
– Porque ele falou que eu já tenho pai.
Meu sorriso diminuiu um pouco, mas mantive a voz tranquila.
– E ele está certo.
Belinha pensou.
– Mas ele vai ser marido da minha mãe.
– Vai.
– E pai do bebê.
– Também.
Ela ficou alguns segundos refletindo seriamente sobre aquela complicada organização familiar.
– Então ele vai ser meu tio Jay que é marido da minha mãe e pai do meu irmão.
Eu não consegui evitar a risada.
– Parece uma explicação bem grande.
– Eu consigo decorar.
Inclinei-me e beijei sua testa.
– Tenho certeza de que consegue.
O veículo começou a se movimentar. Pela janela, vi o hotel ficando para trás e tentei relaxar no banco. Belinha começou a falar sobre as flores que carregaria, sobre como Ephraim tinha reclamado da gravata e sobre a quantidade de doces que Alice havia proibido os dois de comer antes da cerimônia. Eu respondia, ria de algumas observações e concordava quando ela afirmava que três brigadeiros não eram suficientes para estragar o jantar.
– A tia Alice disse que eu só posso comer depois das fotos – reclamou.
– Ela provavelmente está com medo de você sujar o vestido.
– Eu não vou sujar.
– Eu sei.
– Posso comer quatro?
– Depois da cerimônia.
– Cinco?
Olhei para ela.
– Você está negociando comigo?
– O tio Jay falou que tudo pode ser negociado.
Fechei os olhos.
– Claro que falou.
– Então cinco?
– Quatro.
– Quatro e meio.
Comecei a rir.
– Como você pretende comer meio brigadeiro?
– Eu mordo e dou a outra metade para o Ephraim.
– Fechado.
Ela abriu um sorriso satisfeito.
Voltei a olhar pela janela. Foi alguns minutos depois que alguma coisa começou a me incomodar.
A princípio, não consegui identificar exatamente o quê. Talvez fosse apenas nervosismo. Eu não fazia aquele trajeto diariamente, mas conhecia Seattle o suficiente para saber aproximadamente em que direção deveríamos seguir. Observei duas ruas passarem e tentei lembrar a rota que Rachel havia mencionado. O veículo fez outra conversão.
Franzi o cenho.
Aquilo estava errado.
Inclinei-me ligeiramente para frente e prestei mais atenção. Passamos por um cruzamento que definitivamente nos afastava da direção da igreja.
– Estranho.
Belinha parou de falar.
– O quê?
– Nada, meu amor.
Peguei o celular e olhei rapidamente o horário. Ainda tínhamos tempo. Talvez houvesse trânsito. Talvez o motorista tivesse recebido uma rota alternativa.
Olhei novamente pela janela.
Mais uma conversão.
Não.
Estávamos indo para o lado errado.
Meu corpo ficou tenso.
Procurei o comando da divisória e encontrei um pequeno botão próximo ao apoio lateral. Pressionei.
Nada aconteceu.
Pressionei novamente.
– Com licença – chamei.
Nenhuma resposta.
Meu coração acelerou. – Senhor?
Belinha me olhou.
– Mamãe?
– Está tudo bem.
Pressionei o botão outra vez, desta vez mantendo-o apertado.
– O senhor poderia me explicar por que mudou o trajeto? A igreja fica na direção contrária.
Por alguns segundos, houve apenas o som do veículo.
Então a divisória começou a baixar. Lentamente.
Primeiro enxerguei a parte superior da cabine. Depois o retrovisor.
Então vi os olhos do motorista refletidos nele.
Meu sangue gelou.
Ethan.
Ele usava o uniforme escuro do serviço de motorista, completo o suficiente para que ninguém tivesse desconfiado quando o veículo parara diante do hotel. O boné estava baixo sobre a testa e, quando nossos olhos se encontraram pelo retrovisor, um sorriso surgiu em seu rosto.
Não consegui falar imediatamente.
– Ethan?
Ele voltou os olhos para a rua.
– Eu sei.
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