Amor não era o plano
62 O anúncio
Renesmee
Durante os primeiros minutos depois da apresentação de Rosie, fiquei esperando que Jacob fizesse alguma pergunta inconveniente. Conhecia aquele homem o suficiente para saber que o sobrenome Fitzgerald não tinha passado despercebido. A mudança em sua expressão tinha durado pouco, mas eu estava ao lado dele e percebera imediatamente. Para minha surpresa, porém, Jacob apenas voltou a cumprimentá-la, perguntou havia quanto tempo ela e Emmett estavam juntos e deixou o assunto morrer ali. Agradeci mentalmente por ele ter conseguido controlar a curiosidade, principalmente porque aquele era o aniversário do meu pai e Rosie acabara de entrar em nossa casa como namorada do meu irmão. A última coisa de que precisávamos era transformar um jantar de família num interrogatório sobre Ethan. Eu também estava curiosa, talvez até mais do que deveria, mas poderia conversar com Jacob depois. Naquele momento, Bella apareceu avisando que o jantar estava pronto e salvou todos de qualquer possibilidade de a conversa seguir por um caminho estranho.
Minha mãe tinha exagerado, como eu sabia que faria. A mesa parecia preparada para receber o dobro de pessoas que realmente estavam ali, e Belinha foi a primeira a ocupar seu lugar, olhando para as travessas como se não tivesse comido um doce escondido menos de uma hora antes. Meu pai sentou-se na cabeceira, Bella ao lado dele, enquanto Alice e Antony começaram uma discussão sobre quem ficaria mais perto das batatas assadas. Emmett puxou a cadeira para Rosie e recebeu dela um agradecimento acompanhado de um beijo no rosto, o que imediatamente virou motivo para Antony provocá-lo. Jacob esperou que eu me sentasse para ocupar a cadeira ao meu lado, um gesto pequeno que provavelmente passaria despercebido para qualquer pessoa que não conhecesse a diferença entre o homem que ele mostrava ao mundo e aquele que começava a existir quando estava comigo.
– Então, Jacob – minha mãe começou depois que todos começaram a se servir. Ela colocou um pouco do prato principal no próprio prato e tentou parecer casual demais. – Quero uma opinião sincera.
Olhei imediatamente para ela.
– Mãe, não.
Jacob também me olhou.
– Por quê? Ela pediu.
– Porque eu conheço você.
– Sua confiança em mim é emocionante, princesa.
Edward ergueu os olhos.
– Princesa?
Fechei os olhos por um segundo.
Jacob percebeu tarde demais.
– É um apelido.
– Eu percebi.
– Pai, coma.
Alice começou a rir.
– Eu gostei. Combina com ela.
– Não incentive – resmunguei.
Bella apontou discretamente para o prato de Jacob.
– Experimente.
Ele cortou um pedaço, levou à boca e mastigou sob a observação descarada da mesa inteira. Depois assentiu.
– Está muito bom.
Minha mãe estreitou os olhos.
– Está falando a verdade?
– Bella, eu aprendi há muito tempo que existem situações em que um homem precisa escolher entre sinceridade e sobrevivência.
Minha mãe ficou indignada.
– Jacob!
Ele finalmente riu.
– Estou brincando. Está excelente.
– Eu avisei que ele faria isso – falei.
– Você disse que ele falaria se não gostasse – Bella corrigiu.
– E eu não disse – argumentou Jacob. – Tecnicamente, sua filha estava errada. Acho importante registrar isso.
– Você está se esforçando muito para ser convidado novamente – comentou Edward.
Jacob tomou um gole de água antes de responder.
– Cullen, estou me esforçando para chegar vivo à sobremesa. Ser convidado outra vez é uma preocupação futura.
Emmett apontou o garfo para ele.
– Você está muito comportado hoje, Black. Estou até preocupado.
– Estou na casa dos pais da minha namorada.
– E daí?
Jacob olhou para meu irmão como se a resposta fosse evidente.
– Tenho educação.
Quase engasguei.
– Você?
Ele virou lentamente o rosto para mim.
– Quer voltar para Seattle andando?
– Está vendo, mãe? A educação durou aproximadamente quinze minutos.
– Eu disse andando. Não mandei ela para... – Jacob parou no meio da frase, olhou para Belinha e reformulou. – Para um lugar desagradável.
Antony começou a rir.
– Você acabou de se censurar por causa da Belinha?
– Tenho responsabilidade com crianças.
Meu pai soltou uma risada curta.
– Essa foi provavelmente a maior surpresa da noite.
Jacob apontou o garfo para ele.
– Eu estou fazendo um esforço considerável nesta mesa, Cullen. Colabore.
A conversa seguiu daquele jeito, leve e muito mais divertida do que eu esperava. Rosie contou como conhecera Emmett, embora os dois discordassem sobre quem tinha demonstrado interesse primeiro. Segundo Emmett, Rosie não parava de olhar para ele. Segundo Rosie, ela apenas tentava entender por que um homem adulto estava discutindo com uma máquina de estacionamento. Antony acreditou imediatamente na versão dela, e Alice declarou que aquela parecia uma maneira perfeitamente plausível de Emmett conhecer o amor da vida dele.
– A máquina ficou com meu dinheiro – Emmett argumentou.
Rosie apoiou o cotovelo na mesa.
– Foram dois dólares.
– Não era pelo dinheiro. Era uma questão de princípio.
Jacob assentiu.
– Nisso eu concordo com ele.
Olhei para Jacob.
– Claro que concorda.
– Se uma máquina fica com meu dinheiro, temos um problema.
– O que você faria? Compraria a empresa que fabrica a máquina?
Ele pensou por um instante.
– Dependendo do meu humor.
Rosie riu.
– Emmett me contou algumas histórias sobre você, mas achei que estava exagerando.
– Provavelmente estava minimizando – respondi.
– Muito engraçado – murmurou Jacob.
No meio daquela conversa, percebi Belinha estranhamente quieta ao meu lado. Minha filha normalmente participava de qualquer assunto mesmo sem entender metade dele, mas naquele momento estava olhando para o próprio prato com uma concentração suspeita. Havia colocado alguns pedaços de carne em um canto e agora tentava escondê-los debaixo das batatas.
– Isabella.
Ela levantou os olhos imediatamente.
– Oi, mamãe.
– O que você está fazendo?
– Comendo.
– Você está enterrando a carne.
Belinha olhou para o prato como se tivesse acabado de descobrir aquilo.
– Caiu.
– Três pedaços caíram exatamente embaixo das batatas?
– Caiu tudo junto.
Antony mordeu os lábios para não rir.
– Ninguém ajuda – avisei.
Belinha pegou uma batata.
– Eu comi bastante.
– Comeu duas garfadas.
– Três.
Jacob, que estava acompanhando a conversa em silêncio, olhou para o prato dela.
– Pequena, você pediu comida para sua avó umas cinco vezes antes do jantar.
Belinha virou-se para ele.
– Eu tava com fome.
– E agora?
– Passou.
– Impressionante.
Ela sorriu, achando que tinha conquistado um aliado.
Não tinha.
Jacob puxou discretamente o prato dela um pouco mais para perto e separou um dos pedaços que ela havia escondido.
– Mais três pedaços de carne.
Belinha arregalou os olhos.
– Três?
– Três.
– Dois.
– Não estou negociando.
– Tio Jay...
– Essa voz não funciona comigo.
Olhei para ele.
Funcionava. Eu já tinha visto Belinha conseguir sorvete, brinquedo e até adiar o horário de dormir usando exatamente aquela voz com Jacob.
Ela fez um bico.
– Dois e meio.
Jacob estreitou os olhos.
– Você tem seis anos e já está negociando comigo?
– Dois e meio – repetiu ela, muito séria.
Ele ficou olhando para minha filha por alguns segundos antes de cortar um dos pedaços ao meio.
– Dois e meio. Mas come os legumes também.
– Jake, você acabou de perder uma negociação para uma criança de seis anos.
Ele me lançou um olhar.
– Eu fiz uma concessão estratégica.
– Você perdeu.
– Cala a boca, Nessie.
Meu pai imediatamente olhou para ele.
Jacob respirou fundo.
– Por favor.
A mesa inteira caiu na gargalhada.
Belinha comeu o primeiro pedaço enquanto Jacob permanecia atento. Quando tentou pegar apenas as batatas novamente, ele tocou discretamente no garfo dela.
– Carne.
– Eu já comi.
– Vi. Ainda faltam um e meio.
– Você conta?
– Eu administro uma empresa, pequena. Sei contar até três.
Ela bufou dramaticamente, mas obedeceu. Pouco depois, pediu água e Jacob pegou o copo antes de mim, serviu uma quantidade menor para que ela não derramasse e colocou diante dela. Belinha agradeceu e continuou comendo enquanto ele limpava com o guardanapo um pouco de molho que tinha ficado próximo à boca dela.
Observei em silêncio.
Não havia qualquer esforço no gesto. Jacob simplesmente tinha feito.
Talvez por isso meu peito tenha apertado.
Minha mão desceu instintivamente até minha barriga por baixo da mesa.
Jacob percebeu o movimento e seus olhos encontraram os meus. Por um instante, toda a conversa ao nosso redor deixou de importar. Ele olhou para minha mão e depois para mim, e um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
Eu sabia exatamente o que ele estava pensando.
Logo haveria outra criança naquela mesa dependendo de nós dois.
Depois do jantar, minha mãe apareceu com o bolo e todos cantamos parabéns para meu pai. Belinha cantou mais alto do que todo mundo, Emmett tentou colocar uma quantidade absurda de velas e Edward ameaçou usar o bolo inteiro na cara dele caso insistisse na brincadeira sobre idade. Jacob, obviamente, apoiou Emmett até ser lembrado de que faria cinquenta anos em poucos meses. A partir daí, decidiu que brincadeiras sobre idade eram infantis e deveriam ser proibidas.
Quando terminamos a sobremesa, seguimos para a sala. Bella e Rosie levaram algumas coisas para a cozinha apesar dos protestos de minha mãe, e pouco depois todos estavam espalhados pelos sofás e poltronas. Belinha sentou no tapete com Alice, brincando com a boneca, enquanto Antony e Emmett discutiam alguma coisa perto da janela. Jacob estava sentado ao meu lado e mantinha uma das mãos apoiada sobre minha coxa.
Olhei para ele e ele percebeu.
– Agora?
Minha barriga imediatamente pareceu se encher de borboletas.
– Acho que sim.
Jacob apertou minha perna suavemente.
– Quer que eu fale?
– Não sei.
– Ótimo começo.
– Estou nervosa.
– Eu percebi.
– Principalmente por causa do meu pai.
Jacob olhou para Edward, que conversava com Charlie do outro lado da sala.
– Se ele tentar me matar, lembre que você está grávida e precisa de mim.
– Isso é seu argumento?
– Tenho outros. Esse é emocionalmente eficiente.
Sorri e respirei fundo.
Somente Quil e Rachel sabiam. Quil porque estava com Jacob no hospital quando o médico dera a notícia. Rachel porque tinha levado roupas para ele naquela noite e, segundo Jacob, precisou de aproximadamente quatro segundos olhando para a cara do irmão para perceber que alguma coisa tinha acontecido. Desde então, tínhamos guardado a notícia porque eu queria primeiro ter certeza de que estava tudo bem com o bebê.
Agora estava.
Segurei a mão de Jacob.
– Pai, mãe, Jacob e eu precisamos falar uma coisa.
Aos poucos, as conversas diminuíram. Bella sentou ao lado de Edward. Alice levantou os olhos do tapete, Emmett parou de discutir com Antony e Rosie olhou curiosamente para mim.
– Claro – respondeu minha mãe.
Olhei para Jacob mais uma vez.
Ele assentiu.
– É sobre o que aconteceu há quinze dias.
O rosto de Bella imediatamente ficou preocupado.
– O médico encontrou alguma coisa?
– Encontrou.
Minha mãe empalideceu.
– Nessie...
– Calma. Não é ruim.
Jacob apertou minha mão.
– Pelo menos nós decidimos que não é – acrescentou ele.
Olhei para ele. – Você poderia tentar não assustar minha mãe?
– Estou ajudando.
– Não está.
– Então fala logo antes que sua mãe tenha um ataque e seu pai me culpe.
Edward já estava olhando para nós com a testa franzida.
Respirei fundo.
– Quando eu fui levada para o hospital, fizeram vários exames por causa do ferimento e da perda de sangue. Um desses exames mostrou uma coisa que nenhum de nós estava esperando.
Alice se levantou devagar.
– Você está grávida.
Meu queixo caiu.
– Alice!
Ela levou as duas mãos à boca.
– Você está!
Emmett arregalou os olhos.
– Espera. O quê?
Antony olhou para mim, depois para Jacob.
– Nessie?
Bella permaneceu imóvel.
Assenti e não consegui conter o sorriso.
– Estou grávida.
Minha mãe levou imediatamente a mão à boca.
– Meu Deus.
– Quase cinco semanas agora – expliquei. – Eu não sabia. Descobrimos no hospital.
Bella levantou do sofá e veio diretamente até mim. Seus olhos já estavam cheios de lágrimas quando segurou meu rosto entre as mãos.
– E está tudo bem?
– Está. O tiro não atingiu o bebê. Fiz novos exames e está tudo normal.
Minha mãe soltou o ar como se somente então tivesse se permitido respirar e me abraçou.
– Minha menina...
Retribuí o abraço, rindo quando Alice praticamente se jogou sobre nós duas.
– Eu sabia!
– Você não sabia de nada.
– Eu senti alguma coisa.
– Você acabou de descobrir três segundos antes de todo mundo.
– Continua contando.
Emmett aproximou-se de Jacob e estendeu a mão.
– Parabéns, vovô.
Jacob olhou para ele.
– Pensa muito bem na próxima frase.
– Você já é avô.
– E você pode virar paciente do Edward no aniversário dele.
Rosie começou a rir e Antony veio me abraçar. No meio da confusão, ouvi Belinha perguntar a Alice o que estava acontecendo.
Minha filha se levantou do tapete.
– Mamãe tem um bebê?
O ambiente ficou mais quieto.
Olhei para Jacob.
Ainda não tínhamos contado a ela.
Estendi os braços.
– Vem aqui, meu amor.
Belinha correu e subiu no sofá ao meu lado. Coloquei-a no colo com cuidado.
– Tem um bebê na barriga da mamãe.
Ela olhou imediatamente para minha barriga.
– Agora?
– Agora.
– Ele tá aí dentro?
– Está.
Belinha tocou minha barriga com uma delicadeza que me fez sorrir.
– Ele é pequenininho?
– Muito.
Ela pensou um pouco.
– É menino ou menina?
– Ainda não sabemos.
– Eu quero menina.
Jacob se inclinou.
– Eu não fui consultado nessa decisão.
Belinha olhou para ele.
– Você quer menino?
– Quero que venha saudável.
Minha filha pareceu considerar a resposta e então franziu a testa.
– Mas o bebê é seu também?
O silêncio que veio depois foi seguido por algumas risadas abafadas.
Jacob olhou para mim.
– Essa conversa é sua.
– Covarde.
– Inteligente.
Voltei para Belinha.
– É. O bebê é do tio Jay e da mamãe.
Ela abriu um sorriso enorme.
– Então você vai ser meu pai também?
Jacob perdeu qualquer resposta.
Foi tão raro que quase teria sido engraçado se meus olhos não tivessem enchido de lágrimas.
Ele se inclinou na direção dela e passou a mão pelos cabelos da menina.
– Eu vou ser o pai do bebê. Mas isso não muda nada entre nós, pequena. Você já tem seu pai.
Belinha abraçou o pescoço dele.
– Mas você pode continuar sendo meu tio Jay.
Jacob fechou os olhos por um instante e a abraçou.
– Isso eu consigo.
A sala voltou a se encher de comentários e risadas. Minha mãe queria saber quando seria o próximo exame. Alice já falava em comprar roupas. Emmett declarou que exigia ser padrinho e Antony respondeu que precisaria entrar numa fila. Rosie me deu os parabéns, Charlie parecia emocionado e Bella já discutia com Alice para que ninguém comprasse nada antes de sabermos mais sobre a gravidez.
No meio de tudo aquilo, percebi uma ausência.
Meu pai.
Edward continuava exatamente onde estava.
Sentado.
Em silêncio.
Olhei para ele.
Ele não estava sorrindo.
Também não parecia bravo.
Apenas olhava para mim, depois para Jacob, como se estivesse tentando processar uma informação para a qual não havia se preparado.
Jacob percebeu meu desconforto.
Sua mão encontrou a minha novamente.
– Pai? – chamei.
Edward levantou os olhos.
Todos começaram a perceber o silêncio dele, e a sala foi ficando quieta outra vez.
– Você não vai dizer nada?
Meu pai passou a mão lentamente pelo rosto e respirou fundo.
Jacob se ajeitou ao meu lado.
– Cullen, antes que você fale qualquer coisa, lembra que é seu aniversário. Ser preso hoje vai estragar as fotos.
– Jake – murmurei.
– Estou tentando aliviar.
Edward continuou em silêncio.
E, naquele momento, eu já não sabia se deveria estar preocupada com a reação do meu pai ou com o fato de Jacob Black estar sentado ao meu lado, esperando por ela com a expressão de um homem que definitivamente não tinha medo nenhum de descobrir.
O silêncio do meu pai começou a me incomodar mais do que qualquer reação explosiva teria incomodado. Edward não desviava os olhos de mim, mas também não dizia nada, e quanto mais os segundos passavam, mais o sorriso que eu ainda mantinha desaparecia. Minha mãe percebeu antes de todos. Bella se aproximou dele e pousou uma das mãos em seu ombro, numa tentativa discreta de fazê-lo reagir de uma maneira que não estragasse completamente aquele momento. Eu conhecia meu pai, conhecia aquele olhar e sabia que dentro da cabeça dele já existiam dezenas de preocupações sendo organizadas, analisadas e provavelmente transformadas em argumentos. O problema era que eu não precisava de argumentos. Não naquele momento. Eu tinha acabado de contar à minha família que estava grávida. Talvez tivesse sido ingênua ao esperar que ele simplesmente me abraçasse e dissesse que ficaria tudo bem.
– Edward – minha mãe chamou baixinho, apertando seu ombro. – Fala alguma coisa.
Meu pai respirou fundo e passou a mão pelo rosto antes de finalmente se levantar.
– Eu estou tentando entender.
Aquela resposta fez alguma coisa apertar dentro do meu peito.
– Entender o quê, pai?
– Tudo, Renesmee. – Ele olhou rapidamente para Jacob antes de voltar a atenção para mim. – Há poucos meses você estava vivendo com Ethan. Você acreditava que tinha uma família, uma casa, uma vida organizada. Então descobriu que aquele homem tinha outra mulher, outro filho, perdeu sua casa, perdeu sua loja, entrou numa disputa judicial pela guarda da Belinha, mudou para Seattle e agora...
Ele parou.
– Agora o quê? – perguntei.
Bella imediatamente se colocou um pouco mais perto dele.
– Edward, cuidado.
– Eu estou tomando cuidado, Bella.
– Não parece – Emmett comentou do outro lado da sala.
Meu pai ignorou.
– Agora você está grávida de um homem com quem se relaciona há quanto tempo, Nessie? Três meses?
– O tempo não muda o que aconteceu.
– Não estou dizendo que muda. Estou dizendo que você acabou de sair de uma situação que quase destruiu sua vida e entrou em outra relação antes mesmo de ter tempo para entender tudo que aconteceu.
Senti minha garganta apertar.
– Outra relação? É assim que você está colocando?
– Eu não quis dizer dessa forma.
– Parece que quis.
Minha mãe segurou o braço dele.
– Edward, ela acabou de nos dar uma notícia importante. Talvez essa conversa possa esperar.
– Não, Bella. Porque todo mundo está comemorando como se eu fosse obrigado a esquecer o contexto.
Jacob continuava sentado ao meu lado.
Aquilo talvez fosse o que mais me surpreendia. Eu esperava que ele reagisse na primeira menção ao nosso relacionamento. Esperava uma resposta ríspida, alguma provocação ou pelo menos aquele olhar que normalmente antecedia uma frase capaz de iniciar uma guerra. Mas Jacob permanecia quieto. A mão dele continuava envolvendo a minha, firme, enquanto seus olhos estavam presos no meu pai.
Edward apontou discretamente para nós.
– Vocês mal tiveram tempo de construir um relacionamento.
– Nós não planejamos a gravidez – respondi.
– Esse é justamente um dos meus problemas.
A frase me atingiu. Minha mão saiu da de Jacob.
– Um dos seus problemas?
Edward percebeu imediatamente.
– Não com a criança.
– Foi exatamente o que pareceu.
– Nessie, não coloque palavras na minha boca.
– Eu não preciso. Você está colocando sozinho.
– Edward – Bella repreendeu, agora sem qualquer suavidade. – Chega.
Meu pai passou a mão pelos cabelos, claramente frustrado. – Eu amo minha filha. É exatamente por isso que estou preocupado.
– Então demonstre isso sem fazer parecer que ela acabou de cometer um erro – Alice falou, levantando-se do tapete.
Edward olhou para ela. – Alice, isso não é assunto seu.
– É minha irmã. Claro que é assunto meu.
– E meu também – Emmett acrescentou. Ele já não estava sorrindo. – Pai, você está errado.
– Eu não pedi uma votação.
– Ainda bem, porque você perderia – Antony respondeu.
– Antony.
– O quê? Nessie acabou de dizer que está grávida. Está feliz, o bebê está bem depois de tudo que aconteceu e a primeira coisa que você faz é listar os problemas da vida dela.
Olhei para Antony e senti meus olhos arderem.
Meu pai também percebeu.
– Renesmee, eu não estou dizendo que não quero essa criança.
– Então o que você está dizendo?
– Que estou preocupado com você.
– Eu tenho vinte e seis anos.
– E continua sendo minha filha.
– Isso não significa que pode olhar para minhas decisões como se eu ainda tivesse quinze.
Edward respirou fundo.
– Você não tomou essa decisão, Nessie. A gravidez aconteceu.
– E eu decidi ter meu filho.
Ele ficou em silêncio.
– Eu decidi – repeti, sentindo minha voz falhar apesar do esforço para me controlar. – Assim como decidi ficar com Jacob. Eu não estou confundindo as coisas por causa do que Ethan fez comigo. Não estou procurando alguém para me salvar e muito menos tentando substituir uma relação por outra.
– Eu não disse isso.
– Não precisou.
Bella veio até mim.
– Filha, seu pai está assustado. Ele está falando da pior maneira possível, mas está assustado.
– Bella...
Minha mãe virou-se imediatamente.
– Não, Edward. Agora você vai me ouvir. Você pode estar preocupado. Eu também estou. Ela passou por coisas demais em pouco tempo, foi baleada há quinze dias e descobriu uma gravidez no hospital. É claro que estou preocupada. Mas existe uma diferença enorme entre estar preocupada e transformar o filho dela em mais um item de uma lista de problemas.
Meu pai ficou quieto.
Alice se aproximou de mim e tocou meu braço.
– E ninguém aqui está fingindo que vai ser fácil. Só não significa que seja ruim.
Emmett assentiu.
– O Black pode ser um sujeito assustador, mandão, insuportável e...
Jacob finalmente ergueu os olhos.
– Escolhe com cuidado onde essa lista termina.
Apesar de tudo, uma risada escapou de mim.
Emmett apontou para ele.
– Está vendo? Exatamente isso. Mas até eu consigo enxergar que ele gosta dela.
– Gosto é uma palavra meio fraca – Jacob respondeu.
Emmett fez uma careta.
– Não estraga meu momento.
Antony soltou uma risada curta, mas meu pai não acompanhou. Ele olhou para Jacob.
– E você? O que pensa disso tudo?
O ambiente ficou quieto. Jacob apoiou os antebraços sobre as pernas e sustentou o olhar dele.
– De qual parte?
– De todas.
– Pai, não faça isso – pedi.
Edward continuou olhando para Jacob.
– Você tem quarenta e nove anos, uma filha adulta, um neto e uma vida completamente diferente da dela. Há poucos meses você nem conhecia minha filha.
– Eu sei fazer conta, Cullen.
– Jacob – murmurei.
Ele apertou minha mão novamente.
– Estou me comportando.
Edward soltou uma risada sem humor.
– É exatamente isso. Tudo parece uma brincadeira para você.
Senti Jacob ficar imóvel.
A mudança foi pequena, mas eu a conhecia.
– Edward – Bella advertiu.
– Não, Bella. Eu quero entender. Porque minha filha já acreditou em um homem que dizia amá-la. Ela construiu uma vida com ele e descobriu da pior maneira que não o conhecia. Agora, poucos meses depois, está grávida novamente, dessa vez de um homem quase vinte e quatro anos mais velho, com uma história complicada, uma filha envolvida diretamente no problema com Ethan e uma vida que...
– Pai, chega.
Minha voz saiu mais baixa do que eu gostaria.
Edward parou.
– Você está me machucando.
A expressão dele mudou imediatamente.
– Nessie...
– Eu sei que você está preocupado. Sei que Ethan fez você desconfiar de tudo e provavelmente de todo homem que chegar perto de mim pelo resto da vida. Mas você não pode usar o que Ethan fez para diminuir tudo que eu sinto depois dele.
– Não estou diminuindo.
– Está, sim.
Meus olhos se encheram de lágrimas e aquilo me irritou ainda mais. – Você está falando como se eu tivesse perdido completamente a capacidade de escolher porque fui enganada uma vez. Como se estar com Jacob fosse consequência de eu estar fragilizada. Não é.
– Filha...
– Eu amo ele.
Meu pai fechou os olhos por um instante.
– Eu sei.
– Então por que está tornando isso tão difícil?
Ele não respondeu. Olhei para Jacob.
Esperava encontrar irritação. Encontrei algo pior.
Ele estava sério demais.
O humor havia desaparecido completamente. Jacob passou a língua lentamente pelo interior da bochecha e então se levantou. Meu primeiro impulso foi segurar sua mão, com medo de que finalmente tivesse chegado ao limite.
– Jake...
Ele olhou para mim.
– Eu preciso de alguns minutos com seu pai.
Meu estômago afundou.
– Não.
– Nessie.
– Não vou deixar vocês dois sozinhos depois dessa conversa.
Emmett deu um passo à frente. – Eu também acho arriscado.
Jacob virou o rosto. – Ninguém pediu sua opinião.
– Essa frase está popular hoje.
– Emmett – Bella pediu.
Segurei a mão de Jacob.– Jake, por favor. Não precisa fazer isso.
Ele olhou para nossos dedos unidos e depois para mim. Toda a dureza que havia em sua expressão diminuiu quando seus olhos encontraram os meus.
– Preciso.
– Você está com raiva.
– Estou.
– Esse é exatamente o problema.
– Não vou bater no seu pai.
Edward soltou uma risada seca. – Que reconfortante.
Jacob olhou para ele.– Não dificulta, Cullen. Estou fazendo um esforço do caralho aqui.
Belinha, ainda perto de Alice, arregalou os olhos.
Jacob fechou os olhos. – Droga.
Alice começou a rir. – Melhorou bastante.
– Estou nervoso.
– Percebemos – Antony comentou.
Voltei a segurar o braço de Jacob. – Eu fico.
– Não.
– Jake.
Ele se virou completamente para mim. A mão dele tocou meu rosto com cuidado e o polegar passou abaixo do meu olho antes que uma lágrima pudesse descer.
– Princesa, olha para mim.
Obedeci.
– Eu não vou transformar o aniversário do seu pai numa briga. Não vou ameaçar ele, não vou quebrar nada e vou tentar diminuir os palavrões para uma quantidade socialmente aceitável.
– Isso não me tranquiliza.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto dele.
– Foi o melhor que consegui.
– Eu não quero que vocês discutam por minha causa.
– Não é uma discussão por sua causa.
– Então é o quê?
Jacob ficou sério novamente.
– Uma conversa que eu deveria ter tido com ele antes.
Franzi a testa. – Sobre o quê?
– Sobre você. Sobre mim. Sobre essa criança. Sobre o fato de que seu pai tem todo direito de não gostar de mim, mas precisa entender algumas coisas antes de decidir o que eu represento na sua vida.
– Jake...
Ele se inclinou e beijou minha testa. Depois deslizou os lábios até meus cabelos e deixou outro beijo ali, demorando um pouco mais.
– Vai com sua mãe.
– Não quero.
– Eu sei.
– Então não peça.
– Preciso pedir.
Olhei para meu pai. Edward continuava parado perto do sofá, sério, mas não parecia disposto a fugir daquela conversa.
Bella tocou meu braço. – Vamos, filha.
– Mãe...
– Seu pai também precisa ouvir algumas coisas sem você aqui.
Edward olhou para ela. – Bella.
– Você falou bastante. Agora talvez seja sua vez de escutar.
Emmett soltou um assobio baixo. – Essa casa está perigosa hoje.
– Você também vai – Bella ordenou.
– Eu nem fiz nada.
– Sala de jantar. Agora.
Rosie segurou a mão dele e tentou esconder o sorriso. – Acho melhor obedecer.
Antony começou a seguir os outros, mas parou diante de Jacob.
– Se matar meu pai, minha mãe vai ficar chateada.
Jacob encarou meu irmão. – Obrigado pela informação.
– E provavelmente a Nessie também.
– Antony! – reclamei.
Ele sorriu e saiu.
Alice pegou Belinha pela mão. Minha filha olhou para Jacob e depois para meu pai, tentando entender por que todos estavam deixando a sala.
– Tio Jay vem também?
Jacob se abaixou um pouco.
– Daqui a pouco, pequena. Vou conversar com seu avô.
– Ele tá de castigo?
Dessa vez até Edward riu.
Jacob sorriu. – Ainda estamos decidindo.
– Jacob – meu pai resmungou.
– Ela perguntou.
Belinha pareceu satisfeita e seguiu com Alice.
Eu continuei parada. Jacob percebeu que eu não tinha intenção de obedecer e voltou a se aproximar.
– Nessie.
– Não gosto disso.
– Eu sei.
– Meu pai está magoado e você está com raiva. É uma combinação péssima.
– Já participei de reuniões com combinações piores.
– Isso não é uma reunião da Black Enterprises.
– Eu sei exatamente onde estou.
Ele colocou as mãos em meus braços e abaixou um pouco o rosto para ficar mais próximo de mim.
– Seu pai ama você. Eu também. O problema é que nenhum de nós sabe falar sobre isso sem parecer que está declarando guerra. Então talvez esteja na hora de dois homens adultos tentarem fazer essa merda direito.
Apesar da mágoa, acabei sorrindo. – Essa é sua versão de tranquilizar uma mulher grávida?
– Estou aprendendo.
– Devagar.
– Tenho quase cinquenta. Precisa respeitar meu ritmo.
Soltei uma risada curta e encostei a testa em seu peito por alguns segundos. Jacob passou a mão pelos meus cabelos e os beijou novamente.
– Vai, princesa. Eu prometo que volto inteiro.
Afastei o rosto.
– E meu pai?
Jacob olhou por cima do meu ombro para Edward. – Vou tentar devolver nas mesmas condições.
– Jake.
Ele voltou os olhos para mim. – Os dois inteiros. Prometo.
Apontei o dedo para seu peito. – Sem ameaças.
– Vou me esforçar.
– Sem tentar intimidar meu pai.
– Essa vai ser mais difícil.
– Jacob.
– Certo.
– E sem falar com ele como fala com seus funcionários.
– Agora você está colocando regras demais.
Olhei séria para ele.
Jacob suspirou.
– Está bem. Vai.
Dei um beijo rápido em seus lábios e ainda permaneci alguns segundos olhando para ele antes de finalmente acompanhar minha mãe. Quando cheguei à porta, não resisti e olhei para trás. Edward continuava de pé de um lado da sala.
Jacob estava do outro.
Os dois se encaravam em silêncio.
Meu pai, o homem que passara a vida inteira tentando me proteger. Jacob, o homem que provavelmente quebraria o mundo inteiro antes de admitir que tinha medo de me perder.
Bella tocou minhas costas.
– Vem, Nessie.
Saí finalmente da sala.
E a última coisa que vi antes de minha mãe fechar a porta foi Jacob passar a mão pelo rosto, respirar fundo e olhar diretamente para Edward.
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