Jacob


Cheguei à Black Enterprises pouco depois das seis da manhã, cedo o suficiente para encontrar o andar executivo praticamente vazio e evitar qualquer tentativa de conversa que não estivesse relacionada ao trabalho. Era exatamente o que eu precisava. Depois de tudo que tinha acontecido no aniversário de Claire, minha paciência para lidar com problemas pessoais estava no limite, e eu conhecia apenas uma maneira realmente eficiente de colocar a cabeça em ordem. Trabalhar. Passei pela recepção sem diminuir o passo, entrei no meu escritório e fechei a porta, decidido a passar algumas horas olhando para números, contratos e relatórios que não tinham filhos escondidos, casamentos duvidosos ou mulheres aparecendo no meio de festas para descobrir que o homem com quem viviam era casado com outra. Pelo menos uma planilha não mentia se você soubesse onde procurar os números.


Sentei diante do notebook e tentei me concentrar nos relatórios que tinham sido enviados na noite anterior, mas a tentativa durou menos do que eu gostaria de admitir. Ethan continuava aparecendo nos meus pensamentos, acompanhado da imagem de Claire chorando e da voz de Renesmee descrevendo um homem completamente diferente daquele que eu conhecia. Ainda não sabia exatamente qual era a verdade, mas sabia o suficiente para tomar duas decisões. A primeira tinha sido expulsar Ethan da minha casa. A segunda, tirá-lo da minha empresa.

Eu não precisava de uma investigação para decidir que um homem capaz de esconder uma filha da própria esposa durante cinco anos não continuaria ocupando uma posição de confiança dentro da Black Enterprises. Se Claire quisesse ouvir explicações e decidir o que faria com o casamento, era escolha dela. A empresa era minha responsabilidade.

Peguei o telefone interno e liguei para minha secretária.

– Bom dia, senhor Black.

– Bom dia. Quero a sala do senhor Hale desocupada ainda hoje.

Houve alguns segundos de silêncio.

– Desculpe, senhor?

– Os pertences pessoais dele devem ser separados e enviados para o endereço que estiver registrado. Documentos da empresa ficam. Notebook, cartões de acesso e qualquer equipamento também. Quero a sala disponível o mais depressa possível.

– Sim, senhor, mas...

A porta do meu escritório se abriu.

Levantei os olhos.

Ethan entrou como se estivesse chegando para uma reunião comum.

O hematoma no nariz ainda estava visível, embora ele tivesse feito um trabalho razoável tentando disfarçar os sinais do soco. Usava terno, carregava uma pasta e teve a audácia de fechar a porta atrás de si antes de caminhar alguns passos para dentro do escritório.

– Bom dia.

Fiquei olhando para ele.

Do outro lado da linha, minha secretária ainda tentava dizer alguma coisa.

– Senhor Black, eu estava tentando explicar que...

Desliguei.

Ethan colocou a pasta sobre uma das cadeiras.

– Você continua com o péssimo hábito de entrar aqui sem bater.

– Você nunca se importou antes.

– Antes eu não sabia que você era um filho da puta.

Ele soltou um suspiro, mas não recuou.

– Podemos conversar como dois adultos?

– Não.

– Jacob...

– Senhor Black.

A correção saiu automaticamente.

Ethan apertou o maxilar.

– Certo. Senhor Black.

Recostei na cadeira e o encarei.

– O que você está fazendo aqui?

Ele pareceu genuinamente surpreso.

– Vim trabalhar.

Demorei alguns segundos para responder porque estava tentando decidir se ele tinha perdido completamente a noção da realidade.

– Isso é uma piada?

– Não.

– Você está demitido.

– Não estou.

Fechei lentamente o notebook.

– Repete.

Ethan puxou a cadeira diante da minha mesa e sentou sem que eu tivesse oferecido.

– Você me ouviu.

– Eu ouvi. Só quero ter certeza de que você realmente entrou no meu escritório, sentou na minha frente e disse que não está demitido depois de eu ter demitido você.

– Você estava alterado ontem.

– Eu estava perfeitamente lúcido quando mandei você sair da minha casa e mais lúcido ainda quando decidi que não pisaria novamente na minha empresa.

– Esse é justamente o problema, Jacob. Você está misturando questões pessoais com decisões empresariais.

Soltei uma risada curta.

– Não venha me ensinar a administrar minha empresa.

– Não estou ensinando. Estou lembrando que a Black Enterprises não é exclusivamente sua.

Minha expressão mudou.

Ethan percebeu.

– Cuidado – avisei.

– Claire possui dez por cento das ações.

– Eu sei exatamente quantas ações minha filha possui. Fui eu que dei a ela.

– E eu sou o representante legal dela dentro da empresa.

Fiquei em silêncio.

Ele continuou, agora muito mais seguro.

– Claire me concedeu poderes para representá-la em assuntos ligados à participação dela. Isso foi formalizado legalmente e você sabe disso. Eu não estou aqui apenas como funcionário contratado por você. Estou aqui representando uma acionista.

Levantei da cadeira.

– Não confunda uma procuração com imunidade.

Ethan também se levantou.

– Não estou confundindo nada. Você pode me afastar das funções executivas que dependem diretamente da sua nomeação, pode retirar meu acesso a determinados projetos e pode até tentar convencer o conselho de que minha permanência prejudica a empresa. O que você não pode fazer é fingir que eu deixei de existir dentro da Black Enterprises porque me odeia.

– Eu não odeio você.

Ele arqueou uma sobrancelha.

– Seu punho discorda.

Apoiei as mãos sobre a mesa e me inclinei ligeiramente.

– Ódio exige esforço. Você não vale o meu.

Ethan sustentou meu olhar.

– Claire confia em mim.

– Esse é o maior problema que minha filha tem neste momento.

– Ela é adulta.

– Eu sei.

– E decidiu continuar ao meu lado.

Aquilo me irritou mais do que deveria.

– Não use minha filha como escudo.

– Não estou usando. Estou dizendo um fato. Você pode estar furioso comigo, mas Claire não pediu o divórcio, não revogou meus poderes e não retirou a confiança que depositou em mim dentro desta empresa.

Caminhei ao redor da mesa.

Ethan permaneceu parado.

– Você planejou isso?

– O quê?

– Essa posição. Claire. A procuração. Os dez por cento. Quero saber se tudo isso fazia parte do plano quando você resolveu casar com a filha do dono da Black Enterprises.

A expressão dele endureceu.

– Eu amo Claire.

– Você ama o que ela proporciona.

– Isso é ofensivo.

– Ótimo. Era para ser.

– Eu construí minha carreira aqui.

– Depois que minha filha abriu a porta.

– E provei minha competência depois de entrar. Você mesmo me elogiou ontem pela reunião com os investidores.

– Antes de descobrir que você mantinha uma segunda vida em Forks.

– Minha vida pessoal não apaga meu trabalho.

– Não. Mas diz muito sobre seu caráter, e eu não entrego milhões de dólares e informações confidenciais a um homem cujo caráter acabou de se revelar uma merda.

Ethan respirou fundo.

– Renesmee está mentindo.

O nome dela foi suficiente para aumentar minha irritação.

– Não fala dela.

– Por quê?

– Porque estou mandando.

Ele soltou uma pequena risada.

– Você a conheceu ontem e já está defendendo aquela mulher como se...

Dei mais um passo e parei perto demais.

– Termina.

Ethan me encarou.

– Vai me bater de novo?

– Se continuar se esforçando desse jeito, talvez.

Ele pegou a pasta sobre a cadeira.

– Eu vim apenas deixar claro que continuo representando os interesses de Claire. Se você quiser discutir isso, faça através dos advogados.

– Pode ter certeza de que vou.

– Ótimo.

Ethan virou para sair, mas minha voz o fez parar.

– E não pense que acabou.

Ele olhou por cima do ombro.

– O quê?

– Você mentiu para minha filha durante anos. Entrou na minha família escondendo uma criança, e agora existe uma mulher em Forks dizendo que você vivia com ela enquanto era casado com Claire. Eu vou descobrir exatamente quem você é, Ethan. Vou descobrir onde esteve, onde gastou dinheiro, quais viagens eram verdadeiras e quais eram desculpas para atravessar o estado e brincar de família com outra mulher. Se houver uma única mentira a mais nessa história, eu vou encontrar.

O sorriso dele desapareceu.

– Está me ameaçando?

– Estou avisando.

Antes que Ethan pudesse responder, meu celular começou a tocar sobre a mesa.

Olhei para o aparelho com irritação, disposto a ignorá-lo, mas alguma coisa me fez verificar a tela. O nome que apareceu ali foi suficiente para interromper a discussão.

Ethan também olhou para o telefone, tentando descobrir quem tinha conseguido minha atenção naquele momento.

Peguei o aparelho sem desviar os olhos dele, o nome de Rachel na tela me fez atender imediatamente. Minha irmã raramente me ligava durante o horário de trabalho sem antes mandar uma mensagem, e menos ainda tão cedo, mas foi a respiração acelerada do outro lado da linha que realmente chamou minha atenção. Ethan continuava diante de mim, segurando a pasta contra o corpo com aquela expressão arrogante que eu estava começando a desejar apagar com outro soco, porém deixei a discussão de lado e me afastei alguns passos.

– Rachel?

– Jacob, você precisa se acalmar antes de eu falar.

Fechei os olhos por um instante.

– Quando alguém começa uma conversa me mandando ficar calmo, normalmente significa que eu tenho um bom motivo para não ficar. O que aconteceu?

– É a Claire.

Meu olhar foi imediatamente para Ethan.

– O que tem a Claire?

Rachel hesitou, e minha paciência desapareceu.

– Fala.

– Ela saiu de casa.

Franzi o cenho.

– Como assim saiu de casa?

– Eu vim cedo porque queria conversar com ela depois de tudo que aconteceu ontem. A casa estava praticamente vazia. Claire levou roupas, algumas coisas pessoais e...

Rachel parou novamente.

– E o quê?

– Ephraim foi com ela.

Meu corpo inteiro ficou tenso.

– Ela levou meu neto?

– Jacob, ele é filho dela.

– Eu sei perfeitamente de quem ele é filho, Rachel. Estou perguntando para onde minha filha foi com ele.

– Eu não sei. Tentei ligar, mas ela não atende. Falei com a babá e Claire dispensou ela por alguns dias. Disse que precisava ficar sozinha com a família.

Família.

Olhei para Ethan.

Ele estava sorrindo.

Não era um sorriso aberto. Era pequeno, quase imperceptível, mas estava ali. E foi o suficiente para que as palavras que ele acabara de dizer sobre Claire, a procuração e os dez por cento das ações finalmente se encaixassem com aquela ligação.

– Filho da puta – murmurei.

– O quê? – Rachel perguntou.

– Nada. Eu já imagino o que aconteceu.

Ethan inclinou a cabeça, sem qualquer esforço para esconder a satisfação.

– Jacob, você sabe onde ela está? – Rachel perguntou.

– Ainda não. Mas vou descobrir.

– Você quer que eu...

– Fica aí por enquanto. Se Claire ligar, não discute com ela. Só descobre onde ela está e me avisa.

– E você vai fazer o quê?

Olhei diretamente para Ethan.

– Resolver um problema.

Desliguei antes que Rachel pudesse perguntar mais alguma coisa e deixei o celular sobre a mesa. Durante alguns segundos, nenhum de nós falou. Ethan parecia muito mais confortável agora do que quando entrara no meu escritório, e aquilo me dizia que a ligação não tinha sido uma surpresa para ele.

– Você sabia.

Ele deu de ombros.

– Sabia o quê?

– Para onde Claire foi.

– Talvez você devesse perguntar para sua filha.

– Onde ela está?

– Claire é uma mulher adulta. Não precisa me informar cada decisão que toma e certamente não precisa informar você.

Aproximei-me devagar.

– Não brinca comigo usando meu neto.

– Eu não estou brincando com ninguém.

– Então me diz onde eles estão.

Ethan colocou a pasta sobre a mesa novamente e ajeitou tranquilamente o paletó. A mudança na postura dele era evidente. Minutos antes tentava justificar a própria presença na empresa. Agora parecia acreditar que finalmente tinha encontrado alguma coisa capaz de me controlar.

– Você realmente achou que se livraria de mim tão facilmente?

Meu maxilar se contraiu.

– Cuidado.

– Não. Acho que está na hora de você começar a ter cuidado, Jacob.

Fiquei imóvel.

Ethan se aproximou o suficiente para falar mais baixo.

– Você me expulsou da sua casa, tentou me expulsar da empresa e deixou bem claro que pretende destruir meu casamento. Só esqueceu de uma coisa importante no meio disso tudo. Claire é minha esposa. Ephraim é meu filho.

– E meu neto.

– Exatamente.

O sorriso dele voltou.

– Talvez seja melhor começar a me tratar um pouco melhor se ainda deseja ver seu neto crescer.

Por um instante, não senti raiva.

Senti algo muito pior.

Ethan conhecia minha relação com Ephraim. Todo mundo conhecia. Eu nunca tinha escondido que aquele menino era minha fraqueza, e agora o homem diante de mim estava deixando claro que pretendia usar isso contra mim.

– Está me ameaçando com meu neto?

– Estou apenas lembrando que você não controla tudo.

– Repete o que acabou de dizer.

– Não preciso.

– Repete.

Ele sustentou meu olhar, mas não repetiu. Talvez ainda tivesse inteligência suficiente para perceber que havia uma diferença entre provocar e colocar uma ameaça de forma explícita diante de mim.

– Pense no que eu disse.

Ethan pegou a pasta.

Dessa vez não o impedi.

Ele caminhou até a porta e, antes de sair, olhou por cima do ombro.

– Nos vemos na próxima reunião, sogro.

A porta se fechou.

Continuei parado no meio do escritório, olhando para ela.

Minha primeira vontade foi ir atrás dele, agarrá-lo pelo colarinho e descobrir onde Claire estava da maneira menos civilizada possível. Não fiz isso. Ethan esperava raiva. Esperava que eu perdesse o controle novamente, cometesse algum erro e entregasse a ele mais alguma coisa que pudesse usar.

Então respirei fundo e voltei para minha mesa.

Sentei.

Abri o notebook.

Peguei o celular.

Se Ethan acreditava que tinha acabado de encontrar minha fraqueza, tinha cometido o primeiro erro daquela manhã. Ephraim era minha fraqueza, sim. Eu seria capaz de fazer coisas que não faria por ninguém para proteger aquele menino.

Mas isso não significava que eu ficaria de joelhos diante de quem tentasse usá-lo contra mim.

Procurei um nome na agenda e fiz a ligação.

Paul atendeu no terceiro toque.

– Jacob? Você sabe que horas são?

– Sei.

– Então isso deve ser sério.

– É.

Minha voz já estava completamente diferente. A raiva continuava ali, mas não comandava mais nada.

– Preciso de você na presidência com urgência.

Houve um breve silêncio.

– Aconteceu alguma coisa com a empresa?

Olhei para a porta por onde Ethan acabara de sair.

– Ainda não.

– Isso não respondeu minha pergunta.

– Vem para cá, Paul. Eu explico pessoalmente.

Ele percebeu pelo meu tom que não adiantaria insistir.

– Me dá quarenta minutos.

– Trinta.

– Você continua um inferno.

– Trinta, Paul.

Desliguei e coloquei o celular sobre a mesa.

Ethan tinha saído daquele escritório acreditando que havia vencido. Tinha Claire ao lado dele, uma procuração nas mãos, dez por cento da Black Enterprises atrás do próprio nome e, pior, tinha acabado de descobrir que poderia usar Ephraim para me atingir.

Ele só havia esquecido de descobrir uma coisa sobre mim antes de declarar guerra.

Eu não costumava perder.