Amor não era o plano
34 Ligação
Jacob
A reunião com Paul, Sam e Embry já durava quase uma hora quando fechei o relatório que estava aberto diante de mim e recostei na cadeira. A sala da presidência costumava ser o único lugar onde eu conseguia manter os problemas pessoais do lado de fora. Nas últimas semanas, isso tinha se tornado praticamente impossível. Ethan continuava circulando pela empresa por causa da procuração que Claire lhe dera sobre as ações dela, minha filha mal atendia minhas ligações e agora havia a audiência de guarda de Belinha. Oficialmente, aquilo não tinha absolutamente nada a ver comigo. Renesmee poderia ter recusado minha ajuda e seguido com o advogado que já havia contratado. Não recusou. Depois de muita resistência, concordou que meu jurídico trabalhasse em conjunto com o dela, e a partir daquele momento o problema passou a ter alguma coisa a ver comigo. Eu não entrava em uma disputa para assistir de longe.
Paul fechou a pasta que tinha diante de si e me encarou com a seriedade que assumia sempre que deixava de ser meu cunhado e falava como responsável pelo meu departamento jurídico.
– Não vou vender segurança onde ela não existe, Jacob. Ethan vai usar tudo o que tiver. A situação financeira atual da Renesmee, o fato de ela estar morando com os pais, a perda do imóvel comercial e da residência. Alec vai apresentar o cliente como o pai que possui estabilidade financeira e condições de oferecer uma estrutura que, neste momento, ela supostamente não tem.
A palavra supostamente foi suficiente para me irritar.
– Estrutura que ele mesmo tirou dela.
– E é exatamente aí que temos nossa vantagem – respondeu Paul, mantendo a calma. – Os imóveis não desapareceram por incompetência financeira da Renesmee. Foram transferidos para Ethan em circunstâncias que precisam ser esclarecidas. Se conseguirmos demonstrar que ele usou a confiança dela para tomar os bens e depois utilizou a vulnerabilidade que ele próprio criou como argumento para pedir a guarda da filha, a narrativa muda completamente.
Sam, sentado ao lado dele, fechou algumas anotações e entrou na conversa.
– Existe outro ponto favorável. Alec Volturi é agressivo em tribunal, mas é um advogado sério. A reputação dele foi construída ganhando causas difíceis, não apresentando informações que sabe serem falsas. Aposto que Ethan contou apenas a versão conveniente da história.
– Também acho – concordou Paul. – Se Alec não sabe como os imóveis foram parar no nome do cliente e descobrir isso diante do juiz, terá duas opções. Insistir numa estratégia que pode comprometer a própria credibilidade ou mudar a abordagem.
Passei o polegar pelo maxilar enquanto pensava.
– E vocês acreditam que ele vai mudar.
Sam assentiu.
– Conheço o suficiente da reputação dele para apostar nisso. Alec pode defender Ethan até o limite permitido pela lei, mas não vai colocar o próprio nome em risco para sustentar uma mentira do cliente. Principalmente se houver documentos contradizendo a versão apresentada.
Aquilo era útil.
Muito mais útil do que tentar transformar Alec em inimigo.
– Então não ataquem o advogado – determinei, olhando primeiro para Paul e depois para Sam. – Ataquem a história de Ethan. Quero cada transferência, cada assinatura, cada movimentação relacionada à casa e ao prédio da doceria organizada numa linha do tempo que até um idiota consiga entender. Se ele criou a instabilidade financeira que pretende usar contra Renesmee, o juiz precisa enxergar isso antes que Alec tenha oportunidade de maquiar a situação.
Paul assentiu.
– Já estamos fazendo isso.
Embry, que até então analisava uma cópia dos documentos, levantou os olhos.
– E a vida dupla?
– Entra como contexto – respondeu Sam antes que eu precisasse perguntar. – Não podemos transformar a audiência numa vingança pela traição. O foco precisa continuar sendo Belinha. Mas seis anos mantendo duas famílias demonstram um padrão de mentira que pode ser relevante quando ele tentar se apresentar como exemplo de estabilidade.
– Principalmente porque escondeu a existência da própria filha da esposa – acrescentou Paul. – Isso não combina muito bem com a imagem de pai preocupado que ele pretende vender.
Um sorriso sem humor apareceu em meu rosto.
– Finalmente alguma coisa em Ethan não combina com a versão que ele inventou de si mesmo.
Paul juntou os documentos e continuou:
– Também tivemos uma reunião com o advogado da Renesmee. Ele permanece à frente da representação dela, como ela queria, e nossa equipe entra dando suporte. Dividimos as frentes e alinhamos o que será apresentado. Não haverá disputa de ego entre escritórios, se é isso que está preocupado.
– Não estava até você mencionar.
Embry soltou uma risada baixa, enquanto Paul balançou a cabeça.
– Está alinhado, Jacob. É isso que importa.
Olhei para os três homens. Confiava neles porque nenhum tinha o hábito irritante de me dizer aquilo que eu queria ouvir. Se a situação estivesse perdida, Paul teria colocado isso sobre minha mesa sem tentar amenizar.
– Meu jurídico nunca perdeu uma causa importante para esta empresa. – Fechei a pasta e a empurrei sobre a mesa. – Espero que essa tradição continue justamente agora.
Paul ergueu uma sobrancelha.
– Nenhuma pressão.
– Se precisasse trabalhar sem pressão, teria escolhido outra empresa.
Sam riu enquanto se levantava.
– Pronto. Voltamos ao Jacob que conhecemos.
– A reunião acabou antes que eu encontre trabalho para você também.
Embry fechou a própria pasta, mas antes que qualquer um alcançasse a porta, ela foi aberta.
Rachel entrou.
Olhei para minha irmã e soube imediatamente que não gostaria do que estava prestes a ouvir. Não pela expressão dela. Rachel tinha aquela calma específica que usava quando já tinha decidido interferir na minha vida e só faltava me comunicar.
– Não.
Ela parou no meio do caminho.
– Eu ainda nem disse nada.
– Não precisa. Conheço essa cara desde criança.
Embry soltou uma risada e Sam olhou para Paul, claramente satisfeito por a reunião ter terminado a tempo de o problema deixar de ser deles.
Rachel ignorou todos.
– Amanhã é aniversário do papai.
Meu humor piorou imediatamente.
Paul se levantou e foi até ela, beijando a esposa antes de pegar a pasta que Rachel carregava sem sequer perguntar se ela precisava de ajuda.
– Agora entendi o não – comentou ele.
Lancei um olhar em sua direção.
– Você quer continuar empregado?
– Sou seu cunhado.
– Uma coisa não impede a outra.
Rachel soltou um suspiro impaciente.
– Vocês dois podem medir forças depois. Estou falando sério, Jacob. Amanhã é aniversário do papai. Jared e Brad vão para La Push só para passar o dia com o avô. Rebecca também vai. Sarah está organizando tudo desde a semana passada e seria importante ter a família reunida.
Olhei para os documentos sobre minha mesa, embora já não estivesse lendo coisa alguma.
– Então aproveitem.
Rachel cruzou os braços.
– Claire também deveria ir.
– Tente a sorte. Ela não atende minhas ligações.
A expressão de minha irmã suavizou um pouco.
– Talvez atenda as minhas. Ephraim adora ir para La Push e papai ficaria feliz em ver os dois. Depois de tudo que aconteceu, Claire também precisa lembrar que ainda tem uma família inteira ao lado dela.
Não respondi.
Rachel esperou alguns segundos antes de fazer a pergunta que eu sabia que viria desde o momento em que entrou naquela sala.
– E você vai?
O silêncio respondeu por mim.
Quatro anos.
Fazia quatro anos desde a última vez que eu tinha ficado diante de Billy Black como filho, e não como um homem passando rapidamente por La Push e evitando a própria casa. Eu estivera ali poucos dias antes. Tinha dirigido pelas mesmas estradas, visto os lugares onde cresci e chegado perto o suficiente para procurar meu pai. No fim, não tive coragem de atravessar aquela distância ridícula entre nós. E ainda proibi Rachel de contar a ele que eu estivera na cidade.
A última conversa com Billy continuava guardada na minha memória com uma precisão irritante. Talvez porque algumas palavras tivessem o péssimo hábito de permanecer muito depois de a raiva passar.
Eu me lembrava dele me encarando sem medo algum, como fazia desde que eu era garoto, enquanto eu dizia que estava cansado de ouvir opiniões sobre a maneira como conduzia minha vida. Billy tinha respondido que meu problema não era conduzir a própria vida. Era acreditar que podia conduzir a de todos ao meu redor. Falou sobre Leah, sobre Claire, sobre a empresa, sobre minha necessidade de controlar qualquer coisa que escapasse das minhas mãos. Eu tinha devolvido cada acusação com outra pior.
Até que ele disse aquilo.
"Você passa tanto tempo tentando ser o homem que não precisa de ninguém que um dia vai conseguir. Vai olhar ao redor e descobrir que não sobrou ninguém disposto a precisar de você. Talvez aí perceba que dinheiro, poder e orgulho não substituem um coração."
Eu tinha perguntado se ele estava dizendo que eu não tinha um.
Billy não hesitou.
"Do jeito que você vive, às vezes acho que não."
Eu fui embora.
E não voltei.
– Jacob? – A voz de Rachel me trouxe de volta.
Levantei os olhos.
Paul, Sam e Embry já estavam próximos à porta. Nenhum deles fez comentário. Conheciam a história o suficiente para saber que aquele era um dos poucos assuntos sobre os quais eu não aceitava piadas.
– Tenho coisas para resolver amanhã – respondi, fechando o notebook.
Rachel soltou o ar lentamente.
– Você tem coisas para resolver todos os dias há quatro anos.
– Então já sabe que minha agenda é complicada.
– Não faça isso.
Minha mandíbula se contraiu.
– Fazer o quê?
– Transformar orgulho em compromisso profissional. – Rachel se aproximou da mesa e apoiou uma das mãos sobre ela. – Você esteve em La Push há poucos dias e não entrou na casa dele. Depois ainda me proibiu de contar que estava lá. Se realmente não se importasse, teria ido embora sem precisar esconder.
Olhei para minha irmã.
– Cuidado, Rachel.
Ela sustentou meu olhar.
– Você pode intimidar metade de Seattle com essa cara. Comigo não funciona.
Paul tocou discretamente o braço da esposa.
– Amor...
– Está tudo bem – interrompeu Rachel sem tirar os olhos de mim. – Eu já terminei.
Sam e Embry se despediram rapidamente, provavelmente reconhecendo o momento perfeito para desaparecer. Paul ainda hesitou antes de acompanhar os dois, mas Rachel fez um gesto discreto indicando que iria depois. A porta se fechou e ficamos apenas nós dois.
Minha irmã permaneceu alguns segundos em silêncio.
– Vá amanhã, Jake. Você não precisa chegar lá com um discurso preparado nem fingir que quatro anos não aconteceram. Só apareça. É aniversário do nosso pai.
Voltei a olhar para o notebook.
– Terminou?
Rachel respirou fundo.
– Quase. Você passa a vida inteira resolvendo problemas com dinheiro, advogados, contratos e ordens. Nem tudo funciona assim. Algumas coisas exigem que você pare de pensar no que vai perder e admita o que ainda importa.
Ergui os olhos lentamente.
– Está sugerindo que eu ouça mais meu coração?
– Estou.
Soltei uma risada curta, sem qualquer humor.
– Sabe o que o velho Billy me disse na última vez em que conversamos?
Rachel não respondeu.
Eu me recostei na cadeira.
– Disse que às vezes achava que eu não tinha um.
Vi a tristeza aparecer no rosto dela.
– Ele estava com raiva, Jacob.
– Eu também estava.
– Isso não significa que nenhum dos dois acreditasse em tudo que disse.
Desviei os olhos.
Rachel permaneceu parada por mais alguns segundos antes de pegar a bolsa.
– Amanhã, no almoço. Se mudar de ideia, você sabe onde encontrar sua família.
Ela caminhou até a porta e parou antes de sair.
– E, pelo que vi de você nas últimas semanas, talvez papai estivesse errado sobre essa história de coração. Talvez você só tenha passado tempo demais fingindo que ele não existe.
Não respondi.
Rachel saiu e a porta se fechou atrás dela.
Fiquei sozinho na sala, encarando a tela do notebook sem enxergar um único número. Minha cabeça voltou para La Push, para a casa onde cresci e para um velho teimoso que eu não via havia quatro anos porque nenhum de nós tinha sido capaz de ceder primeiro.
Depois pensei em Renesmee.
Na mulher que tinha aparecido no meu jardim no meio da noite e, de alguma forma, conseguido me fazer largar tudo para segurá-la enquanto chorava. Na manhã seguinte, eu havia oferecido meus advogados, meu dinheiro e minha influência para proteger uma criança que não tinha qualquer ligação comigo. E fizera aquilo sem precisar pensar duas vezes.
Passei a mão pelo rosto e olhei para a porta por onde Rachel havia saído.
Talvez Billy estivesse certo naquela época.
Talvez eu realmente tivesse aprendido a viver como se não tivesse coração.
O problema era que, ultimamente, algumas pessoas estavam tornando essa mentira difícil demais de sustentar.
Levei trabalho para casa naquela noite, o que não era novidade. Havia anos eu tinha adquirido o hábito de transformar qualquer lugar onde estivesse em uma extensão da empresa, e minha sala particular acabava servindo mais como escritório do que como espaço para descanso. O notebook estava aberto sobre a mesa, cercado por relatórios que deveriam ter toda a minha atenção, mas eu já havia lido a mesma sequência de números três vezes sem absorver porra nenhuma. A culpa era de Rachel. Desde que minha irmã saíra da empresa naquela tarde, suas palavras continuavam voltando à minha cabeça com uma insistência irritante. Ouça mais o seu coração. Era exatamente o tipo de conselho que eu esperaria dela e exatamente o tipo de coisa que normalmente ignoraria sem dificuldade.
Fechei um dos relatórios e me recostei na cadeira, passando a mão pelo rosto. Quatro anos sem ver Billy e agora todos pareciam ter decidido que um aniversário era motivo suficiente para apagar uma briga que nenhum de nós tinha tentado resolver. Meu pai não tinha me procurado. Eu também não tinha procurado por ele. Éramos dois homens adultos e igualmente teimosos, embora eu jamais fosse admitir a segunda parte em voz alta. Tinha estado em La Push recentemente e sequer entrara na casa dele. Isso deveria encerrar qualquer dúvida sobre minha vontade de reencontrá-lo, mas Rachel havia acertado em uma coisa que me incomodava admitir. Se eu realmente não me importasse, não teria proibido que contassem a Billy que eu estivera lá.
Peguei o copo de uísque e tomei um gole enquanto voltava os olhos para o notebook. Trabalho era mais simples. Números não esperavam demonstrações de afeto, contratos não guardavam rancor durante quatro anos e uma empresa não queria saber se eu tinha coração ou não. Talvez fosse por isso que eu me desse tão bem com negócios.
O problema foi que, ao pensar naquela maldita palavra, outra pessoa apareceu na minha cabeça.
Renesmee.
A lembrança veio acompanhada da imagem dela sentada à minha frente na varanda naquela manhã, usando as roupas de Rachel, os cabelos ainda um pouco bagunçados e a xícara de café entre as mãos enquanto me olhava como se tentasse decidir se eu era completamente arrogante ou apenas parcialmente insuportável. Depois veio a lembrança da noite anterior. O corpo dela contra o meu, os braços envolvendo minha cintura e a voz embriagada informando, com uma sinceridade quase infantil, que eu era forte e bonito.
Soltei um palavrão e coloquei o copo sobre a mesa com força maior do que o necessário.
– Que porra está acontecendo com você, Black?
Quarenta e nove anos nas costas e eu estava sentado sozinho em casa pensando numa mulher como um adolescente idiota.
Não.
Eu sabia exatamente o que era aquilo.
Desejo.
Renesmee era bonita, inteligente, tinha uma personalidade que me enfrentava em vez de tentar me agradar e despertava meu interesse desde a primeira vez que a vi naquela cozinha. Não precisava transformar uma atração perfeitamente compreensível em alguma merda sentimental só porque ultimamente eu estava pensando nela com uma frequência maior do que considerava conveniente.
Era desejo.
E continuaria sendo até que eu decidisse o contrário.
Peguei novamente o relatório e mal tive tempo de encontrar a linha onde havia parado quando meu celular começou a tocar sobre a mesa. Estendi a mão sem muita pressa, mas meu movimento mudou no instante em que vi o nome na tela.
Renesmee Cullen.
Atendi antes do terceiro toque.
A coincidência me arrancou um sorriso que tratei de eliminar antes de falar. Ela tinha escolhido exatamente o momento em que ocupava meus pensamentos para me ligar, mas eu preferia perder dinheiro a dar essa informação a Renesmee.
– Boa noite, Renesmee. – Mantive a voz neutra enquanto me recostava na cadeira. – Aconteceu alguma coisa?
– Boa noite, Jake. Desculpa ligar a essa hora.
Olhei para o relógio.
– Não está tarde. Belinha está bem?
A pergunta saiu antes de qualquer outra. Depois da audiência marcada, uma ligação inesperada de Renesmee era suficiente para me fazer imaginar problemas.
– Está tudo bem com ela. Belinha está com a minha mãe e provavelmente já esqueceu que eu existo porque minha mãe permite coisas que eu não permito.
A tranquilidade em sua voz diminuiu imediatamente minha preocupação.
– Isso faz parte do contrato dos avós. Estragar a educação dos netos e devolver o problema para os pais.
Ouvi sua risada do outro lado.
– Você fala por experiência?
– Ephraim sabe que comigo consegue quase tudo. Não tenho autoridade moral para criticar sua mãe.
– Pelo menos admite.
– Não se acostume.
Ela riu novamente, mas depois ficou em silêncio. Esperei alguns segundos. Conhecia Renesmee o suficiente para perceber quando estava tentando encontrar coragem para dizer alguma coisa.
– Você não ligou para conversar sobre privilégios de avós – falei, poupando-a do esforço. – O que aconteceu?
Ela soltou o ar devagar.
– Na verdade, eu preciso pedir uma coisa. Só que agora que você atendeu estou achando uma péssima ideia.
– Isso torna a conversa mais interessante. Continue.
– Eu não consigo fazer isso.
Franzi o cenho.
– Fazer o quê?
Houve outra pausa.
– Mentir para você. – A voz dela voltou mais decidida. – Rachel pediu para eu ligar.
Fechei os olhos por um instante.
Claro.
Eu deveria ter imaginado.
– Continue.
– Amanhã é aniversário do seu pai e...
– Já sei onde isso vai terminar.
Renesmee respirou fundo do outro lado.
– Rachel queria que eu pedisse para você ir.
Minha mandíbula se contraiu. Não estava irritado com Renesmee. Estava irritado com Rachel por ter decidido contornar minha recusa usando justamente a única pessoa que provavelmente me faria pensar duas vezes antes de desligar o telefone.
Levantei da cadeira e caminhei até a janela.
– Então minha irmã não conseguiu me convencer e concluiu que você teria mais sorte.
– Foi mais ou menos isso.
– Mais ou menos?
– Ela acredita que você me escutaria.
Um sorriso sem humor apareceu em meu rosto.
– Rachel está ficando perigosamente criativa.
– Não fique bravo com ela.
– Não estou bravo.
– Sua voz acabou de mudar.
Olhei para o jardim escuro do lado de fora.
– Minha voz continua exatamente igual.
– Claro.
Quase sorri.
– Entretanto, você começou essa conversa dizendo que não queria mentir. Então seja honesta até o fim. Está me ligando apenas porque Rachel pediu?
O silêncio que veio do outro lado foi diferente.
Renesmee demorou alguns segundos para responder.
– Não. Ela pediu, mas eu concordei em ligar porque também acho que você deveria ir.
Aquilo me fez ficar quieto.
– Por quê?
– Porque quatro anos é muito tempo, Jake. E amanhã é aniversário dele. Eu sei que não tenho qualquer direito de me meter na relação entre vocês, muito menos depois de conhecer você há tão pouco tempo. Só acho que algumas oportunidades não ficam esperando até a gente estar pronto.
A resposta foi mais madura do que qualquer discurso emocional que Rachel pudesse ter preparado.
Passei a mão pelo maxilar.
– Você e minha irmã combinaram esse argumento?
– Não. Rachel provavelmente teria feito um discurso muito melhor.
– Duvido.
Ela soltou uma risada baixa.
Foi então que outra coisa me ocorreu.
– Eu tinha esquecido que Billy conhece os Cullen.
– Conhece minha família há anos. Na verdade, ele é amigo do meu avô.
Franzi o cenho.
– Charlie Swan?
– Você conhece meu avô?
A memória surgiu quase imediatamente.
– Chefe Swan. Claro que conheço. – Voltei para perto da mesa. – Faz muitos anos que não o vejo, mas em La Push praticamente todo mundo conhecia Charlie.
– Ele vai estar amanhã. Minha mãe também. Billy convidou os dois.
Aquilo começava a parecer uma armadilha familiar muito bem organizada.
– Então além de Rachel agora tenho você, Charlie Swan e provavelmente metade de La Push participando dessa conspiração.
– Meu avô nem sabe que estou falando com você.
– Ainda.
Ouvi outra risada.
Sentei novamente e fiquei alguns segundos olhando para o relatório abandonado sobre a mesa. Poderia dizer não. Era o que pretendia fazer desde que Rachel aparecera na empresa. Ninguém me obrigaria a entrar naquela casa depois de quatro anos apenas porque resolveram reunir a família em torno de um bolo.
Mas agora havia Renesmee do outro lado da linha.
Talvez eu realmente estivesse ficando idiota.
– Tudo bem. Eu vou.
O silêncio dela durou um segundo.
– Você vai mesmo?
– Não me faça repetir antes que eu mude de ideia.
A satisfação na voz dela apareceu imediatamente.
– Billy vai ficar feliz.
– Não exagere. O velho provavelmente vai me olhar por cinco minutos e encontrar alguma coisa para criticar.
– Pelo pouco que ouvi sobre vocês dois, parece uma relação bastante equilibrada.
Sorri.
– Está ficando atrevida.
– Estou apenas começando a conhecer você melhor.
Essa frase despertou uma ideia muito melhor do que qualquer conversa sobre Billy.
Girei lentamente o copo entre os dedos.
– Já que tocou no assunto, existe uma condição.
Renesmee ficou desconfiada imediatamente.
– Eu sabia que estava fácil demais. Qual é?
– Jante comigo.
O silêncio que veio depois me divertiu.
– Como é?
– Você ouviu perfeitamente.
– Jake, eu liguei para convencer você a ir ao aniversário do seu pai.
– E conseguiu. Agora estou propondo um jantar.
– Isso não parece uma condição. Parece chantagem.
– Chantagem seria eu ameaçar não ir se você recusasse. Eu já disse que vou.
Ela ficou alguns segundos sem responder.
– Então por que chamou de condição?
– Porque queria sua atenção.
Renesmee soltou uma pequena risada incrédula.
– Você é impossível.
– Isso não é uma resposta.
Ouvi-a respirar fundo e imaginei exatamente a expressão que estaria fazendo.
– Que tipo de jantar?
– O tipo comum. Duas pessoas, uma mesa, comida e uma conversa. Posso pedir uma autorização por escrito deixando claro que não haverá quatro taças de vinho se isso tranquilizar você.
– Não precisava lembrar disso.
– Eu pretendo usar essa história por bastante tempo.
– Eu já estava imaginando.
Apoiei o cotovelo no braço da cadeira.
– Então?
Ela demorou.
– Eu vou pensar.
Sorri.
Não era um sim. Mas também não era o não que Renesmee teria me dado algumas semanas antes.
– Pense.
– E você vai a La Push independentemente da minha resposta?
– Eu dei minha palavra.
– Certo. Então boa noite, Jake.
– Boa noite, Nessie.
Ela desligou.
Mantive o celular na mão durante alguns segundos antes de colocá-lo sobre a mesabw olhei novamente para o relatório.
Renesmee tinha conseguido em poucos minutos aquilo que Rachel não conseguira durante uma discussão inteira.
E ainda tinha me deixado esperando uma resposta para um jantar.
Balancei a cabeça e peguei o copo. – Está ficando mole, Black.
Tomei um gole.
Mole, uma porra. Eu só queria aquela mulher.
Era a explicação que eu continuaria usando.
Pelo menos por enquanto.
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