Amor não era o plano
33 Intenções
Renesmee
O café da manhã havia sido servido na varanda dos fundos da mansão, em uma área aberta que dava para a piscina e para um jardim tão grande que, por alguns minutos, fiquei tentando descobrir onde terminava a propriedade. A manhã estava agradável, com o sol atravessando as árvores e refletindo sobre a água, enquanto uma brisa leve amenizava o calor. A mesa redonda de vidro tinha sido preparada apenas para duas pessoas, com duas xícaras, pratos e talheres dispostos diante de uma quantidade generosa de comida. Havia pães, frutas, geleias, bolo, manteiga e uma jarra de café que exalava um cheiro maravilhoso. No centro da mesa, entre as travessas, um pequeno arranjo de rosas vermelhas chamava atenção em meio aos tons claros da varanda.
Meus olhos demoraram alguns segundos nas flores antes de encontrar Jacob sentado à minha frente. Ele já tinha tirado o paletó que usava quando desci e agora estava apenas com a camisa social, as mangas dobradas até os antebraços. Parecia muito mais relaxado do que o homem que eu vira dando ordens a um funcionário poucos minutos antes, embora eu começasse a suspeitar que relaxado fosse uma palavra bastante relativa quando se tratava de Jacob Black.
Ele percebeu minha atenção nas rosas e pousou a xícara no pires.
– Antes que tire alguma conclusão precipitada, as flores não foram colocadas aqui por mim. A funcionária que organiza a mesa faz isso todas as manhãs.
Sorri enquanto servia café na minha xícara.
– Eu só estava olhando. Não sabia que precisava de uma explicação preventiva.
– Depois da noite que você teve, achei prudente esclarecer qualquer coisa que pudesse parecer suspeita.
A resposta me fez olhar para ele por cima da xícara. Jacob não sorriu daquela vez e percebi que havia algo sério por trás da provocação.
– Nesse caso, agradeço a preocupação. Minha capacidade de interpretar intenções masculinas não anda exatamente no melhor momento.
– Não use Ethan como parâmetro para todos os homens, Nessie. – Jacob se recostou na cadeira e sustentou meu olhar. – Você acabaria estabelecendo um padrão baixo demais.
Apesar do assunto, uma risada escapou. Tomei um pouco do café e senti meu corpo agradecer quase imediatamente. A dor de cabeça ainda estava presente, mas começava a diminuir, principalmente depois que aceitei a insistência de Jacob e comi alguma coisa. Ele não voltou a me pressionar sobre a noite anterior. Conversamos durante algum tempo sobre assuntos mais simples, e em determinado momento contei que minha mãe tinha passado a madrugada enviando mensagens e que provavelmente teria de enfrentar uma reunião familiar quando chegasse a Forks.
– Imagino que sua família esteja preocupada – comentou Jacob enquanto colocava algumas frutas no próprio prato.
– Preocupada é uma maneira gentil de definir. Minha mãe já estava praticamente organizando uma busca, Alice enviou mensagens suficientes para travar meu celular e Emmett queria saber onde Ethan estava. Meu pai foi mais econômico. Disse que viria pessoalmente para Seattle caso eu não respondesse.
Jacob ergueu uma sobrancelha.
– Seu pai parece objetivo.
– Você não conhece Edward.
– Ainda não.
– Quando conhecer, talvez descubra que objetivo não é exatamente a palavra. Principalmente quando o assunto envolve as filhas dele.
Jacob tomou um gole de café e pareceu considerar a informação.
– Então vou me lembrar de causar uma boa primeira impressão.
Olhei para ele com certo divertimento.
– Depois de eu passar a noite na sua casa sem avisar ninguém, acho que você já começa em desvantagem.
– Nesse caso, vou deixar você explicar primeiro. Tenho apreço pela minha integridade física.
Ri e balancei a cabeça. A conversa tinha uma naturalidade inesperada e, por alguns minutos, consegui esquecer que estava ali porque minha vida havia se tornado uma sucessão de problemas. Jacob não me tratava como alguém que poderia quebrar a qualquer momento e tampouco demonstrava pena. Ele simplesmente conversava comigo, provocava quando tinha oportunidade e mudava de assunto quando percebia que alguma coisa me deixava desconfortável. Talvez por isso eu tivesse começado a relaxar.
Foi ele quem trouxe a realidade de volta.
– Quero conversar com você sobre a audiência da Belinha. – Jacob apoiou os antebraços sobre a mesa e sua postura mudou, assumindo a seriedade que eu já começava a associar aos negócios. – Você precisa estar preparada para o que Ethan pretende fazer.
Minha mão parou ao redor da xícara.
– Meu advogado já está cuidando disso. Tivemos uma reunião depois que recebi a intimação e ele explicou como será o processo.
– E também explicou que Ethan vai usar sua atual situação financeira contra você?
Baixei os olhos por um instante.
– Explicou.
Aquela ainda era a parte que mais me assustava. Em poucas semanas, Ethan havia conseguido transformar minha vida em exatamente aquilo que precisava para construir uma narrativa contra mim. Eu tinha perdido a casa, a doceria e boa parte da estabilidade que construíra durante anos. Sabia que aquilo havia sido provocado por ele, mas provar tudo levaria tempo.
Jacob permaneceu alguns segundos em silêncio antes de falar.
– Quero colocar minha equipe jurídica à sua disposição.
Levantei o rosto imediatamente.
– Jake, eu agradeço, mas não posso aceitar uma coisa dessas.
– Pode, só está escolhendo recusar antes de pensar direito. – Ele percebeu minha expressão e acrescentou em um tom menos duro: – Não estou dizendo para dispensar seu advogado. Meus advogados podem trabalhar com ele. Tenho profissionais que conhecem Alec Volturi, já estiveram do outro lado de processos contra ele e sabem como impedir que Ethan transforme dinheiro em vantagem antes mesmo de vocês entrarem naquela sala.
A proposta me atingiu exatamente onde eu estava mais vulnerável. Meu advogado havia sido cuidadoso, mas eu ouvira perfeitamente a preocupação em sua voz quando mencionou Alec. Ter uma equipe como a de Jacob ao meu lado poderia mudar muita coisa.
Ainda assim, balancei a cabeça.
– Você já fez mais do que deveria por mim. Ontem apareceu quando Ethan estava me pressionando, depois me recebeu aqui sem sequer saber por que eu tinha vindo, me aguentou chorando, bêbada e aparentemente sem condições nem de chegar sozinha ao quarto. Sua irmã precisou vir no meio da noite por minha causa. Aceitar agora que você pague uma equipe de advogados para resolver outro problema meu começaria a parecer abuso da minha parte.
Jacob apoiou as costas na cadeira e me observou com uma expressão quase incrédula.
– Você realmente acha que algumas horas na minha casa e quatro taças de vinho representam um problema para mim?
– Não reduza desse jeito. Você entende o que estou dizendo.
– Entendo. Só não concordo. – Ele pegou a xícara e tomou um gole antes de continuar. – Rachel perdeu algumas horas de sono, você ocupou um quarto que estava vazio e eu tive uma noite mais movimentada do que esperava. Minha vida não entrou em colapso por causa disso.
– Não é apenas sobre ontem. – Apoiei a xícara sobre o pires e encarei-o. – Eu ainda não entendo por que está fazendo tudo isso.
Jacob não respondeu imediatamente.
Aproveitei o silêncio para dizer o que vinha pensando desde que ele oferecera ajuda pela primeira vez.
– Eu sou a mulher com quem o marido da sua filha manteve outra família durante seis anos. Sei que não conhecia Claire e que também fui enganada, mas toda vez que você olha para mim existe uma ligação direta com o que Ethan fez com ela. Mesmo assim, você está oferecendo dinheiro, advogados e proteção para mim e para minha filha. Não consigo entender por quê.
A expressão dele endureceu, embora não parecesse irritado comigo.
– Então comece corrigindo a maneira como você está contando essa história. – Jacob apoiou os braços sobre a mesa e falou sem desviar os olhos dos meus. – Você não é a mulher com quem o marido da minha filha decidiu ter outra família. Essa descrição faria sentido se você soubesse que Claire existia. Você não sabia. Minha filha foi enganada durante anos e você também. Ethan construiu duas vidas porque sabia exatamente como manipular as duas mulheres. Claire ainda não consegue admitir isso, mas a responsabilidade continua sendo dele, não sua.
A firmeza daquelas palavras me deixou em silêncio por alguns segundos. Jacob não parecia estar tentando me consolar. Era justamente isso que tornava tudo mais convincente. Ele simplesmente acreditava no que estava dizendo.
– Isso explica por que você não me culpa – respondi depois de algum tempo. – Ainda não explica por que decidiu se envolver tanto.
Jacob se recostou novamente na cadeira. Seus dedos tocaram a alça da xícara, mas ele não a levantou.
– Quer mesmo saber?
– Se eu vou aceitar qualquer coisa sua, preciso saber.
Ele me observou por um momento, e alguma coisa em seu olhar mudou.
– Então não vou insultar sua inteligência inventando uma justificativa conveniente. Você me interessa, Renesmee.
Demorei alguns segundos para ter certeza de que havia entendido corretamente.
– Eu interesso a você?
– Desde antes de toda essa confusão. – Jacob falou com uma tranquilidade desconcertante. – Você chamou minha atenção quando a vi naquela cozinha do hotel. Naquele momento eu não sabia quem você era, não sabia que Belinha era filha de Ethan e muito menos imaginava que algumas horas depois descobriria que meu genro mantinha outra família. Meu interesse começou antes de qualquer uma dessas informações.
A lembrança daquele primeiro encontro voltou imediatamente. Jacob aparecendo na cozinha com Quil, os olhares demorados, as provocações que eu tinha considerado apenas parte da personalidade dele. De repente, algumas coisas ganharam outro significado.
– Nesse caso, acabou de me dar um excelente motivo para recusar sua ajuda.
Uma leve ruga surgiu entre as sobrancelhas dele.
– Não. Acabei de ser honesto com você. São coisas diferentes.
– Não para mim. – Mantive a voz calma, embora sentisse meu rosto começar a esquentar. – Se existe esse tipo de interesse e você assume minha defesa, paga advogados e começa a resolver meus problemas, a situação deixa de ser simples.
Jacob colocou a xícara sobre a mesa com cuidado.
– Só deixa de ser simples se você transformar ajuda em dívida. Eu não estou fazendo isso.
– Talvez você não esteja, mas eu poderia me sentir assim.
Ele assentiu lentamente, como se aquela fosse a primeira objeção minha que realmente considerava válida.
– Então vou deixar isso claro agora para que não exista dúvida depois. – Jacob se inclinou ligeiramente na minha direção. – Eu desejo você. Não vou fingir que é amizade, compaixão ou qualquer outra coisa mais confortável para você ouvir. Tenho quarenta e nove anos e nenhuma paciência para fingir desinteresse quando ele não existe. Mas uma coisa não tem relação com a outra.
Minha respiração ficou um pouco mais curta.
Jacob continuou antes que eu encontrasse uma resposta.
– Se meus advogados entrarem nesse processo, será para impedir que Ethan use Belinha como instrumento para controlar você. Você não vai me dever absolutamente nada por isso. Nem um jantar, nem um beijo e muito menos qualquer tipo de intimidade. Se algum dia você entrar no meu quarto, quero que seja porque decidiu que quer estar lá. Não aceitaria gratidão disfarçada de desejo e não tenho interesse em uma mulher que acredita estar pagando uma dívida comigo.
Fiquei encarando-o, surpresa não apenas pela confissão, mas pela facilidade com que dizia aquilo. Não havia hesitação, constrangimento ou tentativa de suavizar as palavras. Jacob simplesmente colocava as próprias intenções diante de mim e deixava que eu decidisse o que fazer com elas.
– Você costuma ser tão direto com todas as mulheres?
Um pequeno sorriso apareceu no canto de sua boca.
– Com mulheres adultas, prefiro não perder tempo com jogos que ninguém acredita.
– Existe uma diferença considerável entre não fazer jogos e anunciar durante o café da manhã que deseja levar alguém para a cama.
– Você queria entender minhas intenções. Agora entende.
Baixei os olhos por um instante e mexi desnecessariamente a colher dentro da xícara.
– Entendo até mais do que pretendia.
– Isso costuma ser consequência de fazer perguntas para as quais talvez não queira respostas.
Ergui os olhos novamente e encontrei diversão discreta na expressão dele.
– E se isso nunca acontecer?
Jacob arqueou levemente uma sobrancelha.
– Está falando de nós dois?
– Estou falando exatamente daquilo que você acabou de deixar tão claro. – Cruzei os braços sobre a mesa. – Suponha que eu aceite sua ajuda, minha vida volte ao normal e eu jamais tenha qualquer interesse em dividir uma cama com você. O que acontece?
Dessa vez Jacob não respondeu imediatamente. Pegou a xícara e tomou um gole de café com uma calma que me pareceu proposital antes de voltar a colocá-la sobre o pires.
– Minha ajuda continuará tendo sido ajuda. Você não terá dívida alguma comigo e seguirá sua vida como quiser.
A resposta deveria ter encerrado o assunto.
Mas o sorriso que apareceu logo depois me fez desconfiar.
– Entretanto – continuou ele, mantendo os olhos nos meus –, nunca é uma palavra muito forte, Nessie. Não vejo motivo para aceitar uma derrota antes mesmo de tentar.
Meu coração acelerou de uma maneira inconveniente.
– Você está muito confiante para um homem que acabou de dizer que respeitaria um não.
– Eu respeito um não. Isso não me impede de ser interessante o suficiente para você querer dizer sim algum dia.
Não consegui evitar um sorriso diante da arrogância tranquila daquela resposta.
– E como exatamente pretende fazer isso?
Jacob apoiou-se confortavelmente na cadeira, como se a pergunta fosse muito mais simples do que parecia para mim.
– Sem pressa, sem cobrança e sem misturar isso com a sua filha ou com seus problemas. Só me permita dar a você motivos suficientes para desejar estar na minha cama tanto quanto eu desejo ter você nela.
Por alguns segundos, simplesmente o encarei.
Jacob tomou outro gole de café com a mesma tranquilidade de quem acabara de comentar sobre o tempo, enquanto eu tentava decidir se ficava indignada, constrangida ou impressionada com a capacidade daquele homem de dizer uma coisa dessas sem sequer alterar o tom de voz.
Acabei desviando os olhos para as rosas vermelhas no centro da mesa.
Talvez fosse melhor mesmo acreditar que ele não tinha escolhido aquelas flores.
Porque eu já tinha coisas suficientes para tentar entender naquela manhã.
Na noite anterior, eu havia chegado àquela casa sem saber para onde ir, desesperada e com medo do que Ethan ainda poderia fazer comigo. Jacob tinha me acolhido sem cobrar explicações, respeitado meus limites quando eu sequer estava sóbria o suficiente para estabelecê-los e, naquela manhã, oferecia a ajuda que poderia ser decisiva para eu não perder minha filha.
Agora também sabia que ele me desejava.
E o mais perturbador não era a confissão.
Era perceber que, depois de ouvi-la, olhar para Jacob Black já não parecia exatamente a mesma coisa.
Fale com o autor