Jacob

Eu nunca tinha entendido por que salas de espera de hospital eram projetadas para tornar o tempo ainda mais insuportável. Talvez fossem as paredes claras demais, o cheiro de desinfetante ou aquele silêncio interrompido por passos apressados e vozes baixas. Naquela noite, cada minuto parecia durar uma hora. Eu estava sentado havia pouco mais de dez minutos, mas já tinha levantado tantas vezes que Quil desistira de pedir que eu parasse de andar. Minha camisa continuava manchada com o sangue de Renesmee, minhas mãos tinham sido lavadas por uma enfermeira que praticamente me obrigara a entrar num banheiro, mas ainda conseguia sentir o sangue entre meus dedos. Era irracional. Eu sabia disso. Mesmo assim, olhava para minhas mãos e enxergava Nessie perdendo a consciência nos meus braços.

Quil estava sentado a alguns metros de mim, falando ao telefone. Eu mal prestava atenção. Tinha ouvido pedaços da conversa, o nome de Alice, alguma coisa sobre Belinha e a família Cullen, mas minha cabeça estava presa atrás das portas por onde tinham levado Renesmee. Quando Quil finalmente encerrou a ligação, guardou o aparelho no bolso e se levantou.

– Alice está em casa com Belinha. A menina está bem e não viu nada do que aconteceu. Ela também já avisou Bella e Edward, então eles devem chegar a qualquer momento.

Assenti sem olhar para ele.

– Certo.

Quil me observou por alguns segundos. – Jacob, você ouviu o que eu disse?

Virei lentamente o rosto em sua direção.

– Minha capacidade de ouvir não foi afetada, Quil. Alice está com Belinha, os Cullen estão vindo e minha mulher continua atrás daquela porta. Ouvi cada palavra.

Ele percebeu o detalhe, mas teve inteligência suficiente para não comentar.

Minha mulher.

Eu nem sabia quando aquela definição tinha começado a fazer sentido dentro da minha cabeça.

Voltei a andar.

– E Bree? – perguntei, mantendo os olhos nas portas.

– A polícia chegou poucos minutos depois que saímos. Blanca também foi para lá. Bree foi detida e a arma apreendida. Os seguranças deram depoimento e as câmeras registraram praticamente tudo. Não existe muito espaço para ela inventar outra versão.

Parei.

– Quero segurança na porta de Nessie assim que soubermos em qual quarto ela ficará.

– Já providenciei.

– Dois homens.

– Jacob...

Olhei para ele.

– Dois.

Quil assentiu. – Dois.

– E ninguém entra sem autorização. Não me interessa se Bree está presa. Depois do que descobrimos sobre Ethan e do que aconteceu hoje, eu não vou depender da boa vontade de ninguém para manter Renesmee segura.

– Entendido.

Continuei andando, mas a raiva não conseguia ocupar o espaço que normalmente ocupava. Eu preferia estar furioso. Sabia lidar com raiva. Podia direcioná-la, transformar em ação, descobrir quem tinha falhado, quem permitira que Bree entrasse naquela loja armada e por que os homens responsáveis pela segurança demoraram tanto para chegar até Renesmee.

Medo era diferente.

Eu não controlava medo.

E nunca tinha sentido tanto.

Passei a mão pela nuca e fechei os olhos por um instante. Imediatamente ouvi a voz dela novamente.

Eu amo você.

Porra.

Nessie tinha dito aquilo enquanto sangrava nos meus braços.

Eu podia sentir outra vez seus dedos tocando meu rosto, fracos demais. Podia ver os olhos dela lutando para permanecer abertos enquanto me dizia aquilo com uma tranquilidade absurda. E eu, que nunca tinha encontrado dificuldade para dizer exatamente o que pensava, tinha congelado.

Não porque não sentisse.

Porque finalmente entendi o que sentia.

Eu passei meses reduzindo Renesmee a desejo porque desejo era fácil. Eu conhecia desejo. Sabia lidar com uma mulher na minha cama, sabia separar sexo do resto e sabia ir embora quando perdia o interesse. Nunca precisei de ninguém para dormir, respirar ou administrar a porra da minha vida.

Renesmee tinha destruído aquela lógica sem sequer tentar.

Eu queria aquela mulher quando ela estava na minha cama, mas também quando estava sentada diante de mim tomando café e discutindo cada ordem que eu dava. Queria quando estava irritada, quando ria das minhas provocações, quando falava da filha durante vinte minutos sem perceber que eu apenas a observava. Queria a confusão que ela carregava junto. Belinha correndo pela minha casa, os Cullen me olhando como se tentassem decidir se eu era velho demais ou perigoso demais para ela, a doceria cheirando a açúcar e até aquela mania irritante de Nessie de acreditar que podia resolver tudo sozinha.

Aquilo não era apenas amor.

Amor parecia uma palavra pequena demais naquele momento.

Era necessidade. Era posse. Era medo. Era a certeza brutal de que, se aquela porta se abrisse e alguém me dissesse que Renesmee Cullen não voltaria para mim, alguma coisa dentro de mim iria junto com ela.

– Filho da puta – murmurei, passando as mãos pelo rosto.

Quil ergueu os olhos.

– Quem?

– Eu.

Ele ficou em silêncio.

– Passei meses dizendo a mim mesmo que só queria aquela mulher na minha cama.

– Eu poderia ter avisado que ninguém mobiliza metade do departamento jurídico de uma empresa porque quer transar.

Lancei um olhar mortal para ele e Quil levantou as mãos.

– Momento ruim. Entendi.

– Péssimo.

Voltei a me sentar, inclinei o corpo para frente e apoiei os antebraços sobre os joelhos. – Ela disse que me ama.

Quil demorou alguns segundos para responder. – Eu ouvi no carro.

Fechei os olhos. – Eu não respondi.

– Você estava tentando impedir que ela apagasse depois de levar um tiro. Acho que ela pode perdoar a falta de romantismo.

– Não é isso. Olhei para ele. – Eu queria dizer.

Quil permaneceu quieto, provavelmente percebendo que aquela era uma das raríssimas ocasiões em que seria melhor não me provocar.

– Só não consegui – continuei. – Porque quando ela disse aquilo, eu percebi que amor já não explica a merda que essa mulher fez comigo.

Um pequeno sorriso apareceu no rosto dele.

– Isso foi provavelmente a coisa mais próxima de uma declaração romântica que já ouvi de Jacob Black.

– Se repetir para alguém, eu demito você.

– Sou seu amigo.

– Posso acabar com amizade também.

– Aí está você de volta.

Antes que eu respondesse, as portas se abriram.

Levantei imediatamente.

Um médico saiu pelo corredor consultando alguma coisa num prontuário. Meu corpo inteiro ficou tenso quando ele olhou ao redor da sala.

– Familiares de Renesmee Cullen?

Não pensei em mais nada e respondj– Eu.

O médico se aproximou.

– O senhor é parente?

– Namorado.

Quil virou o rosto lentamente para mim, vi pelo canto dos olhos a expressão delebe nem precisei olhar.

Meu único pensamento foi: Deus, se esse filho da puta fizer uma piada agora, eu vou matá-lo dentro de um hospital.

Para sua própria sobrevivência, Quil permaneceu calado.

O médico assentiu. – Senhor...

– Black. Jacob Black. Como ela está?

– A senhorita Cullen está estável. O projétil atingiu lateralmente a região abdominal, mas felizmente o ferimento foi superficial. O tiro passou de raspão e não atingiu nenhum órgão vital.

O ar finalmente voltou aos meus pulmões.

Passei a mão pela boca. – Então ela está bem?

– Neste momento, sim. Fizemos a limpeza do ferimento, controlamos o sangramento e realizamos os exames necessários. Ela perdeu uma quantidade significativa de sangue, principalmente antes de chegar ao hospital, e isso explica a perda de consciência. Estamos fazendo reposição de volume e vamos mantê-la em observação.

Assenti, tentando absorver cada palavra. – Quando posso vê-la?

O médico hesitou em responder e eu não gostei daquilo – O que foi?

– Existe outro ponto que precisamos acompanhar.

Toda a tensão voltou imediatamente. – Que ponto?

O médico consultou rapidamente o prontuário. – Embora o ferimento não tenha atingido órgãos importantes, houve perda de sangue e um trauma considerável. Por isso, nossa preocupação agora é observar as próximas horas e garantir que não exista nenhuma complicação secundária. Também precisamos acompanhar se o sangramento e o estresse causado pelo ferimento terão alguma repercussão sobre a gestação.

Meu cérebro parou naquela palavra. Gestação.

Ao meu lado, Quil engasgou.

Eu não me movi.

O médico continuou falando por um segundo antes de perceber que alguma coisa estava errada.

– Senhor Black?

Olhei para ele. – Repita.

– Como?

Minha voz ficou mais baixa. – A última parte. Repita exatamente o que acabou de dizer.

O médico alternou o olhar entre mim e Quil.

– Eu disse que precisamos observar se o trauma e a perda sanguínea terão alguma repercussão sobre a gestação.

Quil tossiu atrás de mim mas eu não tirei os olhos do médico. – Que gestação?

Agora foi ele quem pareceu confuso.

– A da senhorita Cullen.

Fiquei encarando aquele homem como se ele tivesse começado a falar outro idioma. – Renesmee não está grávida.

Ele baixou os olhos para o prontuário e tornou a me encarar. –Os exames realizados na admissão indicaram gravidez.

Senti meu corpo inteiro ficar imóvel. – Está errado.

– Fizemos exame sanguíneo, senhor Black.

– Faça outro.

– Podemos repetir, mas o resultado é bastante claro.

Dei um passo em sua direção. – De quanto tempo?

O médico consultou novamente os dados.

– Pela estimativa inicial, aproximadamente quatro semanas. É uma gestação muito recente. Uma avaliação obstétrica mais detalhada poderá determinar melhor a idade gestacional e acompanhar a evolução, principalmente considerando o trauma que ela sofreu hoje.

Quatro semanas.

Olhei para Quil e ele parecia tão chocado quanto eu.

– Não olha para mim – falei irritado.

– Eu não disse nada.

– Mas está pensando.

– Pela primeira vez na vida, eu não faço ideia do que pensar.

Voltei minha atenção para o médico. – Ela sabe?

– Acredito que não. Pelo que consta na admissão, a gravidez foi identificada nos exames feitos aqui.

Passei a mão pelo rosto.

Quatro semanas.

Sentei na cadeira mais próxima porque, pela primeira vez em muitos anos, minhas pernas pareceram concordar que ficar de pé não era prioridade.

Nessie estava grávida, esperando um filho meu, minha mulher que tinha acabado de levar um tiro, que estava inconsciente atrás de uma porta e que, menos de uma hora antes, tinha dito que me amava enquanto eu não conseguira responder...

Estava carregando meu filho.

Quil sentou ao meu lado. – Jacob...

Levantei uma mão sem olhar para ele.

– Não.

– Eu só ia...

– Seja lá o que você ia dizer, não diga.

Ele fechou a boca.

O médico continuou diante de nós e tentei obrigar meu cérebro a voltar ao que realmente importava.

– O bebê corre risco?

– Neste momento é cedo para afirmar qualquer coisa com certeza. O ferimento não atingiu o útero, e isso é positivo. O que nos preocupa é o trauma associado à perda sanguínea. Vamos acompanhar os exames e mantê-la em observação. Não quero que o senhor interprete isso como indicação de que existe uma complicação, apenas como uma situação que exige cuidado.

Assenti lentamente.

– Faça tudo que precisar.

– É o que estamos fazendo.

– Não estou falando de dinheiro.

O médico sustentou meu olhar.

– Eu entendi.

Respirei fundo.

– Posso vê-la?

– Assim que ela estiver instalada no quarto, uma enfermeira virá chamá-lo.

O médico se afastou.

Fiquei sentado e Quil permaneceu ao meu lado e, surpreendentemente, teve bom senso suficiente para me deixar em silêncio.

Olhei para minhas mãos outra vez.

Algumas horas antes eu tinha entrado naquela loja acreditando que o pior medo que poderia sentir era perder Renesmee.

Agora havia outra vida envolvida.

Uma vida que eu nem sabia que existia.

Meu filho.

A expressão me atingiu com uma violência quase ridícula. Passei as duas mãos pelo rosto e soltei uma respiração pesada.

– Quatro semanas.

Quil finalmente falou, com cuidado.

– É.

Olhei para ele. – Eu vou ser pai, depois de tanto tempo...

Dessa vez ele não sorriu. – Vai.

Minha garganta apertou de um jeito que me irritou imediatamente.

Eu tinha idade suficiente para ser avô. Já era avô. Tinha uma filha adulta, um neto que me chamava de vovô enquanto pulava no meu colo e uma vida que eu considerava completamente definida.

Então Renesmee Cullen apareceu.

Em poucos meses, aquela mulher tinha desmontado cada certeza que eu carregava havia décadas.

– Acorda, Nessie – murmurei, sem me importar se Quil estava ouvindo. – Só acorda e eu digo a porra toda para você.


O médico me liberou para vê-la pouco depois de confirmarem que Renesmee seria mantida em observação durante a noite. Até aquele momento, eu tinha permanecido na sala de espera com a sensação irritante de que estava preso dentro do único lugar onde dinheiro, influência e uma ordem dada no tom certo não conseguiam acelerar absolutamente nada. Rachel apareceu acompanhada de Paul pouco depois de receber a notícia. Trouxe roupas limpas para mim e, pela expressão que fez ao ver minha camisa coberta pelo sangue de Nessie, entendeu por que eu não estava disposto a conversar. Quil já tinha contado o que acontecera, inclusive a parte que eu ainda não tinha conseguido organizar direito na cabeça.

Renesmee estava grávida.

Eu tinha repetido aquelas duas palavras tantas vezes que elas já deveriam ter começado a fazer algum sentido. Não fizeram. Talvez porque eu ainda estivesse tentando aceitar que, enquanto segurava Nessie nos braços e exigia que ela permanecesse acordada, havia duas vidas que eu estava apavorado demais para perder. Talvez porque eu tivesse descoberto que seria pai novamente poucos minutos depois de finalmente admitir para mim mesmo que aquela mulher tinha atravessado todas as barreiras que passei uma vida inteira construindo.

Rachel não perguntou nada quando me entregou a bolsa com as roupas. Apenas tocou meu braço e indicou o banheiro no final do corredor.

Tomei banho no próprio hospital. Fiquei tempo demais debaixo da água porque, mesmo depois que o sangue desapareceu da minha pele, eu ainda conseguia senti-lo nas mãos. Quando finalmente saí, vesti uma calça escura e uma camisa preta que Rachel trouxera. Passei os dedos pelos cabelos molhados e encarei meu reflexo no espelho por alguns segundos.

Eu parecia cansado, o que me irritou profundamente. Jacob Black não ficava cansado depois de algumas horas ruins. Pelo menos era essa a mentira que eu tinha contado para mim mesmo durante anos.

Quando voltei para a recepção, Rachel estava sentada ao lado de Paul enquanto Quil permanecia de pé próximo à janela. Minha irmã levantou assim que me viu.

– O médico veio procurar você. Renesmee já está no quarto e ele autorizou sua entrada.

Parei diante dela. – Ela acordou?

Rachel balançou a cabeça e sua expressão suavizou. – Ainda não, mas disseram que isso é esperado. Ela está medicada e os sinais estão estáveis.

Assenti.

Paul se levantou e colocou uma das mãos no ombro de Rachel.

– Nós ficamos por aqui. Vai.

Olhei para Quil. – Alguma notícia da polícia?

– Bree continua detida. Blanca está com os advogados e os dois seguranças já prestaram depoimento. As gravações da loja foram entregues. Cuida da Renesmee agora. Eu resolvo o restante.

– Não deixa ninguém transformar o que aconteceu numa merda de acidente.

Quil sustentou meu olhar. – Não vou deixar.

Rachel tocou meu braço quando passei por ela.

– Jake.

Olhei para minha irmã.

– Ela está bem.

Eu sabia que Rachel estava tentando me tranquilizar. Mesmo assim, respondi como conseguia.

– Vou acreditar nisso quando ela abrir os olhos e começar a discutir comigo.

Rachel quase sorriu. – Conhecendo Renesmee, não deve demorar muito.

Deixei os três para trás e segui pelo corredor indicado pelo médico.

Nunca gostei de hospitais, havia alguma coisa naquele cheiro de álcool, desinfetante e medicamentos que me lembrava o quanto o corpo humano era uma coisa frágil. As paredes eram claras, as luzes brancas demais e, de tempos em tempos, algum profissional passava por mim empurrando equipamentos ou falando baixo. Eu ouvia o som distante de monitores, rodas deslizando pelo piso e portas abrindo e fechando. Tudo limpo, controlado, organizado.

Eu odiava. Porque nada daquilo estava sob meu controle.

Caminhei devagar, olhando os números nas portas. Eu tinha entrado em salas com homens capazes de destruir empresas inteiras e nunca senti a menor hesitação. Já sentei diante de investidores que controlavam bilhões, enfrentei ameaças, perdi dinheiro suficiente para deixar muita gente sem dormir e construí um império aprendendo que medo era apenas uma fraqueza que outra pessoa poderia usar contra você.

Naquela noite, eu estava nervoso para abrir uma porta.

Aquilo era quase ofensivo.

– Que merda você fez comigo, Cullen? – murmurei para mim mesmo.

Parei diante do quarto e minha mão ficou alguns segundos sobre a maçaneta. Eu não estava com medo de encontrá-la machucada. Já tinha visto o sangue. Já tinha sentido o corpo dela ficando pesado nos meus braços.

Estava com medo porque sabia que, quando entrasse naquele quarto, nada seria igual.

Nessie tinha me dito que me amava, e agora estava grávida.

Minha filha tinha vinte e tantos anos quando eu conheci Renesmee. Eu já era avô. Tinha passado da idade em que um homem esperava descobrir uma gravidez inesperada e começar outra vez com fraldas, noites sem dormir, primeiros passos e uma criança chamando por ele no meio da madrugada.

A ideia deveria me apavorar.

Estranhamente, não apavorava.

O que me apavorava era a possibilidade de perder aquilo antes mesmo de ter a oportunidade de querer.

Abri a porta e entrei, o quarto estava parcialmente iluminado por uma luz suave próxima à cama. As cortinas permaneciam fechadas e o som regular do monitor preenchia o silêncio. Uma enfermeira terminava de verificar alguma coisa no acesso preso ao braço de Renesmee e levantou os olhos quando entrei.

– Senhor Black?

Assenti.

– Ela continua dormindo. Os medicamentos podem deixá-la um pouco desorientada quando acordar, então tente não fazer muitas perguntas de uma vez.

– Eu não vim interrogá-la.

A enfermeira pareceu conter um sorriso.

– Ótimo. Então estamos entendidos.

Ela verificou o monitor mais uma vez antes de caminhar em direção à porta.

– Se ela sentir muita dor, náusea ou qualquer desconforto diferente, aperte o botão ao lado da cama.

– Certo.

– E não tente fazê-la levantar.

Olhei para ela.

– Eu entendi na primeira instrução.

A mulher finalmente sorriu. – Imaginei.

Ela saiu e fechou a porta.

Fiquei sozinho com Renesmee.

Toda a minha postura mudou no instante em que olhei para a cama. Nessie parecia pequena demais deitada ali e eu odiava aquela imagem.

Os cabelos ruivos estavam espalhados sobre o travesseiro, o rosto ainda estava pálido e havia um acesso preso ao braço. O lençol cobria seu corpo até pouco acima da cintura e, por baixo da roupa hospitalar, eu sabia que havia um curativo no lugar onde a bala passara.

Caminhei até ela com uma cautela que ninguém que me conhecesse acreditaria ser possível.

Puxei a cadeira para perto da cama e me sentei.

Durante alguns segundos, apenas observei.

A respiração estava tranquila, o monitor continuava marcando o ritmo que eu tinha aprendido a respeitar mais do que qualquer número que já aparecera num relatório da Black Enterprises.

Estendi a mão e toquei os dedos dela, estavan quentes, o que me trouxe um alívio ridículo.

Passei minha mão por baixo da sua e a segurei suavemente, tomando cuidado com o acesso. Meus dedos eram grandes demais ao redor dos dela. Nessie tinha mãos delicadas, mas eu já sabia que aquela aparência enganava. Era a mesma mão que apontava para mim quando estava irritada, que me empurrava quando eu passava dos limites e que algumas horas antes tinha tocado meu rosto enquanto dizia as três palavras que ainda estavam presas na minha cabeça.

Levei seus dedos aos meus lábios e deixei um beijo sobre eles.

– Você escolheu uma maneira de merda de me assustar, princesa.

Ela não reagiu.

Apertei suavemente sua mão. – E eu ainda vou cobrar por isso.

Fiquei alguns minutos em silêncio, meu olhar acabou descendo para sua barriga. Não havia absolutamente nada diferente.

Nenhum volume, nem sinal de que existia uma vida começando ali.

Mesmo assim, eu sabia que meu filho estava ali.

Ou minha filha.

Aquela possibilidade quase me fez rir de nervoso, coisa que eu jamais admitiria.

Soltei a mão de Renesmee apenas o suficiente para afastar cuidadosamente o lençol alguns centímetros. Não havia nada para ver além da roupa hospitalar cobrindo sua barriga ainda completamente plana.

Hesitei antes de tocar, justo eu que nunca hesitava coloquei a palma da mão sobre ela com uma delicadeza quase absurda. – Então você está aí – murmurei.

Meu polegar fez um movimento lento sobre o tecido. Era cedo demais. Eu sabia. O médico tinha sido cuidadoso para não me dar garantias e aquilo me irritava profundamente. Eu queria números, certezas, alguma coisa que pudesse controlar.

Só que não havia, havia apenas espera e fé, provavelmente. Eu nunca tinha sido particularmente bom nisso.

Inclinei-me um pouco mais e mantive a mão sobre a barriga dela.

– Escuta aqui, seja lá quem você for. – Minha voz saiu baixa. – Sua mãe já me dá trabalho suficiente, então faça o favor de colaborar comigo e fique exatamente onde está.

Quase consegui imaginar Renesmee me chamando de maluco por conversar com uma gravidez de quatro semanas.

Meu olhar voltou para o rosto dela.

– Eu ainda preciso contar para ela que você existe. Então não começa a me dar problema antes mesmo de eu ter essa conversa.

Passei a mão lentamente sobre sua barriga outra vez e respirei fundo.

– E você também – murmurei, olhando para Nessie. – Vai acordar e me explicar como conseguiu bagunçar a minha vida inteira em poucos meses.

Seus dedos se moveram, parei imediatamente acreditando que tivesse imaginado, mas logo senti um movimento pequeno contra minha mão.

Retirei a mão de sua barriga e segurei a dela.

– Nessie?

Suas sobrancelhas se contraíram levemente e aproximei a cadeira ainda mais.

– Renesmee.

Ela respirou fundo e mexeu a cabeça sobre o travesseiro. Seus olhos começaram a se abrir lentamente, primeiro apenas uma fresta, incomodados com a luz. Levou alguns segundos para conseguir focalizar alguma coisa.

Então me encontrou.

Fiquei imóvel.

Nunca pensei que ver alguém abrir os olhos pudesse provocar um alívio tão violento.

Renesmee piscou algumas vezes. Ainda parecia confusa, provavelmente tentando entender onde estava. Quando finalmente me reconheceu, seus lábios formaram um sorriso fraco.

E foi o suficiente para destruir o resto da tensão que eu carregava.

Sorri para ela, e foi um sorriso de verdade.

Levei a mão até seu rosto e passei o polegar cuidadosamente por sua bochecha.

– Bem-vinda de volta, princesa.