Amor não era o plano

65 Doces de casamento


Renesmee

O silêncio que se instalou à mesa depois da frase de Jacob foi suficiente para apagar qualquer vestígio da leveza que existira durante o café da manhã. Rosie permaneceu com a xícara entre as mãos, olhando primeiro para Jacob e depois para Emmett, como se tentasse compreender o motivo de todos nós conhecermos seu irmão e, principalmente, por que nenhum de nós parecia guardar uma lembrança agradável dele. Meu irmão foi o primeiro a reagir. Emmett colocou a mão sobre a dela e se inclinou um pouco em sua direção, demonstrando uma preocupação que imediatamente chamou a atenção da namorada.

– Rosie, antes de qualquer coisa, acho melhor você saber que o Ethan que conhecemos talvez seja muito diferente daquele de quem você se lembra – disse Emmett, mantendo a voz baixa. – E algumas coisas que vamos contar não são fáceis de ouvir.

Rosie franziu o cenho e pousou definitivamente a xícara sobre a mesa. – Depois do que meu irmão fez com nossa família, eu duvido muito que ainda exista alguma coisa sobre ele capaz de me surpreender. Só não estou entendendo como vocês o conhecem.

Foi então que contamos.

Não havia necessidade de esconder qualquer coisa dela, especialmente depois de sabermos quem era. Emmett começou, mas em determinado momento fui obrigada a continuar porque aquela história era minha. Contei sobre os seis anos em que conheci Ethan como Ethan Hale. Falei sobre nossa relação, sobre Belinha e sobre a vida que eu acreditava ter construído ao lado dele. Jacob completou algumas partes relacionadas a Claire, e Emmett explicou a descoberta das duas famílias. Contamos sobre o golpe financeiro, sobre a perda da minha antiga doceria, a disputa pela guarda de Belinha e tudo que descobríramos nas últimas semanas. Jacob não mencionou todas as suspeitas que ainda não podíamos provar, especialmente a possibilidade de Ethan ter preparado deliberadamente o fim do relacionamento entre Claire e Quil, mas deixou claro que havia uma investigação em andamento e que o homem que Rosie conhecia como irmão estava muito mais envolvido em nossas vidas do que qualquer um de nós gostaria.

Quando terminamos, o café já havia esfriado.

Rosie não chorou. Sua reação foi muito diferente. Ela permaneceu imóvel durante alguns segundos, respirou profundamente e afastou a xícara como se tivesse perdido completamente o apetite. Emmett continuava segurando sua mão, mas ela parecia distante, assimilando cada informação que acabara de receber.

– Então ele fez novamente – murmurou.

Jacob estreitou os olhos.

– Novamente o quê?

Rosie ergueu o rosto. Havia raiva em seus olhos, não tristeza. – Destruiu a vida de alguém para conseguir aquilo que queria.

Emmett apertou os dedos dela.

– O que aconteceu na sua família?

Rosie respirou fundo antes de responder. – Ethan desapareceu depois da morte da nossa mãe. Na verdade, para mim, ele desapareceu um pouco antes. Foi quando deixou de ser meu irmão.

Ninguém a interrompeu.

– Minha mãe tinha uma casa que pertencia à família havia muitos anos. Depois que meu pai morreu, aquela casa se tornou praticamente tudo que restou para ela. Ethan começou a cuidar de algumas questões financeiras porque minha mãe confiava nele. Nós também confiávamos. – Um sorriso amargo surgiu em seus lábios. – Parece absurdo dizer isso agora.

– Confiança não torna você responsável pelo que outra pessoa faz com ela – falei, reconhecendo naquela expressão algo que eu mesma havia sentido durante meses.

Rosie olhou para mim e assentiu discretamente antes de continuar.

– Ethan vendeu a casa.

Bella, que até então permanecia em silêncio, franziu a testa.

– Sem autorização da sua mãe?

– Sem que ela soubesse. Ele preparou documentos, movimentou dinheiro e fez tudo pelas costas dela. Quando minha mãe descobriu, a casa já não pertencia mais à família. Ela confrontou Ethan e houve uma discussão terrível. Eu não estava presente, mas Miguel estava.

Jacob imediatamente se interessou pelo nome.

– Miguel é outro irmão?

– Sim. Somos três. Miguel é o mais velho, eu sou a do meio e Ethan é o caçula. – Rosie respirou profundamente. – Minha mãe já tinha problemas cardíacos. Durante a discussão, ela passou mal. Teve uma parada cardíaca e não resistiu.

Minha mãe levou a mão à boca.

– Rosie, sinto muito.

– Obrigada, Bella.

Emmett aproximou a cadeira e passou um braço pelos ombros dela. Rosie aceitou o abraço por alguns segundos antes de continuar.

– Ethan apareceu no funeral. Miguel quase o matou naquele dia. Se algumas pessoas da família não tivessem interferido, eu realmente não sei o que teria acontecido. Depois disso, Ethan simplesmente desapareceu. Trocou de telefone, abandonou os contatos e nunca mais tivemos notícias dele.

– Mudou de sobrenome – Jacob acrescentou.

Rosie olhou para ele.

– Hale.

– Exatamente.

Ela balançou lentamente a cabeça.

– Então era assim que estava vivendo.

Havia tanto desprezo em sua voz que até Emmett pareceu surpreso.

– Rosie...

– Não precisa tentar me proteger, Emmett. – Ela se virou para ele e pousou a mão sobre seu braço. – O Ethan que eu conheci como irmão morreu no dia em que minha mãe descobriu que ele havia vendido aquela casa. O homem que saiu daquele funeral não era mais alguém que eu reconhecia.

Meu peito apertou ao ouvi-la. Por mais que eu odiasse Ethan, nunca tinha parado para pensar que existiam outras pessoas que haviam sido vítimas dele muito antes de mim e Claire.

– Miguel prometeu naquele dia que Ethan pagaria – continuou Rosie. – Eu achei que ele estivesse falando apenas daquilo que fez com nossa mãe. Agora descubro que, enquanto nós tentávamos reconstruir nossa vida, Ethan estava usando outro nome e fazendo isso com outras pessoas.

Ela olhou para mim.

Dessa vez havia algo diferente em sua expressão.

Culpa.

– Renesmee, eu não sei nem o que dizer.

– Você não precisa dizer nada.

– Preciso, sim. Ele é meu irmão.

– Isso não torna você responsável por ele.

– Talvez não, mas ouvir tudo que ele fez com você, sabendo que nós já conhecíamos a capacidade dele de manipular documentos e dinheiro, me faz pensar que poderíamos ter feito alguma coisa.

Balancei a cabeça.

– Como? Vocês nem sabiam onde ele estava.

– Poderíamos ter denunciado formalmente tudo.

Jacob finalmente se manifestou. Até então, ele havia escutado boa parte da conversa com uma seriedade incomum, mas quando falou sua voz assumiu aquele tom firme que eu conhecia.

– Vocês ainda podem.

Rosie voltou-se para ele.

– Como?

Jacob apoiou os antebraços sobre a mesa. – Ethan construiu a vida inteira em cima da certeza de que consegue escapar das consequências. Mudou de sobrenome, escondeu o passado, entrou na minha empresa, casou com minha filha e manteve outra família durante anos. Depois aplicou um golpe financeiro em Renesmee e ainda teve a audácia de usar o resultado desse golpe numa disputa pela guarda da filha dela.

Os olhos dele endureceram.

– Esse filho da... – Jacob olhou rapidamente para Belinha, que estava entretida com Alice do outro lado da mesa, e respirou fundo. – Esse homem precisa pagar pelos crimes que cometeu.

Apesar da tensão, Emmett soltou uma risada.

– Está ficando bom nisso.

Jacob lançou um olhar irritado para meu irmão.

– Estou fazendo um esforço enorme desde ontem.

Rosie quase sorriu, mas a expressão séria voltou rapidamente.

– Miguel sabe de tudo que aconteceu com a casa. Ele tem documentos. Guardou praticamente tudo porque passou anos tentando localizar Ethan.

Jacob se endireitou.

– Que tipo de documentos?

– Documentos da venda, movimentações bancárias, cópias de assinaturas, procurações. Não sei exatamente o que ele ainda tem, mas conheço meu irmão. Miguel guarda até recibo de estacionamento quando acha que pode precisar.

– Já gosto dele – comentou Jacob.

– Você gosta de qualquer pessoa que arquive documentos comprometedores – falei.

Ele olhou para mim.

– Organização é uma virtude, princesa.

Rosie continuou, agora muito mais determinada. – Vou ligar para Miguel hoje. Ele precisa saber que encontramos Ethan.

Emmett franziu o cenho.

– Tem certeza? Você acabou de dizer que ele quase matou seu irmão no funeral.

– Miguel não é irresponsável. Estava destruído naquele dia. Nossa mãe tinha acabado de morrer e Ethan apareceu como se não tivesse feito nada. Anos se passaram desde então.

Jacob inclinou a cabeça.

– Mesmo assim, antes de contar onde Fitzgerald está, explica toda a situação. Principalmente que existe uma investigação. Não precisamos de seu irmão atravessando o país para acertar contas pessoalmente e dando a Ethan a oportunidade de se fazer de vítima.

Rosie assentiu.

– Vou explicar.

– E se ele tiver esses documentos, quero que fale com Solomon antes de entregar qualquer coisa para outra pessoa. Ele é meu advogado e vai saber exatamente o que pode ser utilizado.

– Jacob – interferi, olhando para ele. – Não transforme o café da manhã do meu pai numa reunião jurídica.

Ele recostou-se.

– Seu pai já foi trabalhar. Tecnicamente, o café agora é da sua mãe.

Bella ergueu as mãos.

– Não me envolvam.

Emmett riu, mas Rosie continuava pensativa.

– Eu e Miguel podemos depor.

Voltei minha atenção para ela.

– Rosie...

– Estou falando sério. – Ela se inclinou em minha direção. – Se houver outro processo relacionado à guarda da Belinha ou ao golpe que Ethan aplicou em você, podemos contar o que ele fez antes. Podemos explicar que esse comportamento não começou com você. Ele já manipulou documentos, patrimônio e pessoas da própria família.

Jacob assentiu.

– Isso pode ser importante. Não significa que tudo será aceito automaticamente em qualquer processo, mas ajuda nossos advogados a estabelecerem o histórico e investigarem fatos que até agora desconheciam.

– Então façam isso – respondeu Rosie sem hesitação. – Eu deporei. Miguel também vai.

Emmett passou a mão pelas costas dela.

– Você não precisa decidir tudo agora.

Rosie virou-se para meu irmão.

– Preciso, sim. Durante anos pensei que o pior que Ethan tinha feito havia sido destruir nossa mãe. Agora descubro que ele teve uma filha, construiu duas famílias ao mesmo tempo, enganou duas mulheres e ainda tentou usar a própria filha como instrumento para atingir uma delas. Eu não vou proteger esse homem por carregar o mesmo sangue que ele.

– Ninguém está pedindo que proteja – disse Emmett.

– Eu sei. – Ela segurou a mão dele. – Mas quero que você saiba que não vou recuar quando isso ficar desagradável.

Emmett aproximou-se e beijou sua testa.

– Então eu fico do seu lado enquanto fica desagradável.

Rosie finalmente sorriu para ele.

– Isso foi surpreendentemente bonito para alguém que ontem discutiu durante vinte minutos porque perdeu dois dólares numa máquina.

– Eu sou um homem de princípios.

– Você é teimoso.

– Também.

A pequena troca entre os dois diminuiu um pouco o peso que havia se instalado sobre a mesa. Observei Rosie por alguns segundos e senti uma estranha compaixão por ela. Nós duas tínhamos histórias muito diferentes, mas o mesmo homem havia deixado estragos em nossas vidas.

Ela soltou a mão de Emmett e se levantou.

Antes que eu entendesse sua intenção, Rosie veio até mim.

– Renesmee, eu sei que você disse que não tenho culpa, mas preciso falar isso mesmo assim.

Levantei-me também.

Ela segurou minhas mãos.

– Me perdoa.

Franzi a testa.

– Rosie, não.

– Por tudo que meu irmão fez com você.

– Você não precisa pedir perdão por Ethan.

– Talvez eu precise por mim. Por saber agora que ele fez tudo isso e sentir vergonha de pertencer à mesma família.

Apertei suas mãos.

– Olha para mim.

Rosie levantou os olhos.

– Ethan passou anos me fazendo acreditar numa pessoa que nunca existiu. Durante muito tempo eu me perguntei como não percebi, como pude ser enganada e o que deveria ter feito diferente. Não vou permitir que você faça a mesma coisa consigo por crimes que não cometeu.

Os olhos dela ficaram marejados.

– Ele quase tirou sua filha de você.

– Ele tentou.

– E tirou sua casa, sua loja...

– E eu reconstruí.

Rosie ficou quieta.

– Minha filha está comigo, minha loja está funcionando e minha vida continua. – Apertei um pouco mais as mãos dela. – Então não me peça perdão pelo que Ethan fez. Se quer fazer alguma coisa por mim, liga para Miguel. Conta tudo. E quando chegar a hora, nos ajuda a fazer seu irmão responder pelo que realmente fez.

Rosie assentiu lentamente.

– Eu vou ajudar.

– Então está resolvido.

Ela me abraçou.

Retribuí sem hesitar.

Quando nos afastamos, percebi Emmett nos observando com uma expressão orgulhosa, enquanto Jacob permanecia sério. Ele olhava para Rosie como se aquela conversa tivesse acabado de entregar uma peça importante de um quebra-cabeça que vinha montando havia meses.

Então os olhos dele encontraram os meus. Não precisei perguntar o que estava pensando.

Ethan havia passado tempo demais acreditando que podia apagar o próprio passado.

Agora o passado acabara de sentar à nossa mesa para tomar café.


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Os dias que se seguiram à descoberta de que Rosalie era irmã de Ethan foram muito mais agitados do que eu gostaria. Miguel Fitzgerald entrara em contato com Solomon e, pelo pouco que Jacob me contava, os documentos guardados por ele haviam aberto novas possibilidades para a investigação. Preferi não me envolver diretamente enquanto os advogados analisavam tudo. Já tinha aprendido que, quando se tratava de Ethan, permitir que minha vida girasse ao redor dos problemas que ele criava era exatamente o que me impedia de seguir adiante. Pela primeira vez em muito tempo, eu tinha coisas boas demais ocupando minha cabeça. A Doce Encanto estava indo melhor do que Rachel, Rebecca e eu havíamos previsto, Belinha estava adaptada à nova rotina e, como se administrar uma doceria e criar uma filha não fossem suficientes, agora eu também estava grávida e organizando um casamento com Jacob Black. A última parte, por si só, já poderia ser considerada um emprego em período integral.

Naquela tarde eu estava sentada diante de uma das mesas da Doce Encanto com o notebook aberto, algumas folhas espalhadas e uma lista de doces que parecia crescer cada vez que eu tentava diminuí-la. Alice ocupava a cadeira à minha frente e Rachel estava ao meu lado. Rebecca havia conseguido escapar da reunião sob a justificativa de que tinha compromissos, embora eu suspeitasse que simplesmente tivesse percebido antes de mim que discutir detalhes de casamento com Alice era uma atividade sem previsão de encerramento.

– Trezentos brigadeiros tradicionais, duzentos de pistache, duzentos de chocolate belga, cento e cinquenta de caramelo e mais os doces decorados – li, olhando para a tela. – Isso é um casamento ou uma tentativa de provocar diabetes coletiva?

Alice fez uma expressão ofendida.

– Você tem quase duzentos convidados.

– Eu queria cinquenta.

Rachel começou a rir.

– E ficou noiva de Jacob Black. O primeiro erro foi acreditar que cinquenta continuaria significando cinquenta depois que ele pegasse a lista.

– Seu irmão transformou meu casamento numa assembleia de acionistas.

– Não exagera.

Olhei para ela.

– Tem um senador na lista.

Rachel tentou conter o sorriso.

– Jacob conhece muita gente.

– Tem um empresário alemão que eu vi uma única vez na vida.

– Ele gosta de você – explicou Rachel.

– Ele nem fala português.

Alice deu de ombros.

– Melhor. Não vai reclamar da comida.

Ri e voltei a olhar para a lista. Apesar das reclamações, eu estava gostando daquilo muito mais do que admitia. Jacob havia levado a sério a frase de que eu teria tudo a que tinha direito. Quando tentei argumentar que não precisava de uma festa enorme, ele respondeu que eu podia não precisar, mas merecia. Depois disso, discutir tinha se tornado praticamente inútil.

O verdadeiro problema surgira quando meu pai descobriu os planos.

– Eu ainda queria ter visto a conversa inteira entre Edward e Jacob – comentou Alice enquanto pegava uma das amostras de doce que eu havia colocado sobre a mesa.

– Não queria, não.

Rachel riu.

– Eu queria.

– Vocês duas são péssimas.

Alice mordeu o doce.

– O papai disse que pagaria o casamento da filha. Jacob disse que não precisava. Papai disse que não perguntou se precisava. Jacob disse que também não tinha perguntado se ele queria pagar. Foi maravilhoso.

– Não foi maravilhoso. – Balancei a cabeça, lembrando. – Foram quarenta minutos de dois homens ricos discutindo sobre quem tinha mais direito de gastar dinheiro.

Rachel apoiou o queixo na mão.

– Meu irmão odeia que paguem qualquer coisa para ele.

– Meu pai odeia que tirem dele o direito de fazer alguma coisa pelos filhos.

– Resultado?

– Dividiram.

Alice levantou um dedo.

– Depois de Bella ameaçar expulsar os dois da sala.

– Esse detalhe foi importante.

Rachel gargalhou.

– Eu gostaria de ter visto Jacob sendo colocado no lugar pela sogra.

– Ele obedeceu na mesma hora.

– Mentira.

– Bella apontou para ele e disse que, se continuasse discutindo, ela mesma cancelaria a festa.

Rachel arregalou os olhos.

– E ele?

– Disse: tudo bem, Bella.

Ela começou a rir tão alto que algumas funcionárias olharam na nossa direção.

– Eu preciso contar isso para Rebecca.

– Não ouse.

– O grande Jacob Black domesticado pela sogra.

– Ele vai demitir você da própria família.

– Sou irmã dele. Tenho estabilidade.

Alice já ria junto, e eu acabei acompanhando as duas. Talvez aquela fosse a parte de que eu mais gostava. Depois de tantos meses em que nossas conversas tinham sido dominadas por advogado, guarda, dinheiro, Ethan e medo, poder sentar numa mesa e discutir sabores de doces parecia um luxo.

Alice puxou minha mão de repente e analisou novamente a aliança.

– Ainda não acredito que ele se ajoelhou.

Rachel imediatamente se aproximou.

– Eu também quero detalhes.

– Já contei.

– Contou a versão resumida.

– Não existe outra.

– Existe, sim. Quero saber o que ele falou.

– Isso é meu.

Alice fez uma careta.

– Egoísta.

– Exatamente.

Rachel sorriu.

– Aposto que xingou durante o pedido.

Olhei para ela.

– Mais de uma vez.

– Sabia.

– E reclamou que estava de joelhos.

Alice colocou a mão sobre o peito.

– Que romântico.

– Para os padrões do Jake, foi praticamente Shakespeare.

Rachel começou a rir novamente, mas o som de uma discussão do lado de fora interrompeu nossa conversa. No primeiro momento não dei importância. A Doce Encanto ficava numa área movimentada e ouvir vozes na rua não era incomum. Porém, poucos segundos depois, um grito atravessou a entrada e meu corpo reconheceu aquela voz antes que minha mente conseguisse processá-la.

– RENESMEE!

Meu sorriso desapareceu e Alice imediatamente se levantou.

– É o Ethan?

Rachel já estava de pé quando outro grito veio do lado de fora.

– RENESMEE, SAI AQUI!

Meu coração acelerou.

Desde o ataque de Bree, Jacob havia aumentado a segurança da doceria. Dois homens permaneciam no estabelecimento durante todo o horário de funcionamento e havia outros circulando pela área externa. Eu tinha discutido bastante quando descobri. Jacob ignorara todos os meus argumentos e simplesmente informara que segurança não estava aberta a negociação.

Naquele momento, agradeci por ele não ter me ouvido.

– Fica aqui – Alice pediu, segurando meu braço.

– Ele está na porta da minha loja.

– Exatamente por isso você fica aqui.

– Alice, eu não vou me esconder dentro da minha própria loja por causa dele.

Rachel pegou o celular.

– Vou ligar para Jacob.

– Não.

Ela me olhou como se eu tivesse enlouquecido.

– Nessie, meu irmão vai arrancar minha cabeça se descobrir que Ethan apareceu aqui e eu não avisei.

– Então espera eu entender o que está acontecendo antes de transformar isso numa guerra.

– RENESMEE!

Fechei os olhos por um instante.

– E ele continua ajudando bastante.

Saí de trás da mesa e atravessei a doceria acompanhada pelas duas. Uma funcionária estava próxima ao caixa, assustada, e pedi que permanecesse dentro do estabelecimento. Assim que alcancei a entrada, encontrei a origem de toda aquela confusão.

Ethan estava completamente bêbado.

Dois seguranças o mantinham afastado da porta. A camisa estava parcialmente para fora da calça, os cabelos desalinhados e seu rosto apresentava aquela vermelhidão característica de quem havia bebido muito mais do que deveria. Um dos homens segurava seu braço enquanto o outro permanecia entre ele e a entrada.

Por alguns segundos fiquei apenas olhando.

Era difícil relacionar aquele homem descontrolado ao Ethan que conhecera durante seis anos. Ele tinha sido cuidadoso com a aparência, educado quando precisava ser, preocupado em controlar cada detalhe da imagem que apresentava aos outros. O homem diante de mim não tinha nada daquela máscara.

Quando me viu, parou de lutar contra os seguranças.

– Finalmente.

O cheiro de álcool chegou até mim mesmo à distância.

– Ethan, vá embora.

Ele riu.

– É isso que você tem para me dizer?

– É a única coisa que tenho para dizer.

– Depois de seis anos?

– Principalmente depois deles.

Ele tentou avançar e foi imediatamente contido.

– Senhor, não se aproxime – advertiu um dos seguranças.

Ethan puxou o braço com violência.

– Tira a mão de mim! Eu estou falando com a mãe da minha filha.

– E ela pediu que o senhor fosse embora.

– Você não manda em mim!

Rachel parou ao meu lado.

– Não, mas a polícia pode ajudar bastante nisso.

Ethan virou-se para ela.

– Claro. Mais uma Black.

– Escolha muito bem suas próximas palavras – Rachel respondeu com frieza.

– Rachel – pedi.

Ela recuou apenas meio passo, mas não guardou o celular.

Voltei minha atenção para Ethan.

– Você está bêbado. Não deveria nem estar aqui, muito menos fazer esse escândalo na porta do meu trabalho.

Ele riu novamente.

– Seu trabalho. Sua loja. Sua vida perfeita.

– Não tenho interesse nessa conversa.

– Não? – Ethan inclinou o corpo para a frente, obrigando os seguranças a segurá-lo com mais força. – Está ocupada demais organizando seu casamento?

Meu estômago se contraiu.

Alice tocou minhas costas.

– Nessie, entra.

Não me movi.

Ethan olhou para minha mão.

Mais precisamente para a aliança.

A expressão dele mudou.

– Você realmente vai fazer isso.

– Minha vida não diz respeito a você.

– Diz, sim.

– Não diz há muito tempo.

– Seis anos, Renesmee. – Ele bateu a mão contra o próprio peito. – Foram seis anos comigo.

– Seis anos em que você mentiu para mim.

– Eu dei tudo para você.

– Você tirou muito mais.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Seus olhos estavam estranhos, perdidos entre a raiva e o efeito da bebida.

– Ele acha que ganhou.

Franzi a testa.

– Quem?

Ethan soltou uma risada amarga.

– Black.

Rachel imediatamente começou a mexer no celular.

– Agora eu vou ligar.

Segurei seu braço.

– Ainda não.

– Nessie...

– Espera.

Ethan apontou para mim.

– Você acha que vai se casar com ele e pronto? Acha que pode colocar aquela aliança no dedo e fingir que eu nunca existi?

– Eu não preciso fingir que você nunca existiu. Preciso apenas aceitar que terminou.

– Não terminou!

O grito foi tão alto que algumas pessoas na calçada pararam para olhar.

Um dos seguranças apertou a contenção.

– Senhor, acalme-se.

– Solta a porra do meu braço!

– Ethan, chega – falei com firmeza. – Você está se humilhando.

Ele me encarou.

– Humilhando?

– Olha para você.

Por alguns segundos, pareceu realmente olhar.

Não adiantou.

– Você é minha.

Meu corpo ficou rígido.

Alice segurou meu braço com mais força.

– Não – respondi. – Nunca fui.

– Você é minha mulher.

– Eu nunca fui sua mulher. Eu fui uma pessoa que acreditou nas suas mentiras.

– Cala a boca!

Os seguranças imediatamente se posicionaram de maneira mais firme, e Rachel deu um passo à frente.

– Não fala assim com ela.

Ethan nem sequer olhou para Rachel.

Seus olhos continuavam presos aos meus.

– Você não vai casar com ele.

– Vou.

– Não vai.

– Vou, Ethan.

Ele balançou a cabeça várias vezes.

– Não. Não com ele.

– Você não tem qualquer direito de decidir isso.

– Você é minha!

Dessa vez sua voz falhou no final.

Não parecia apenas raiva.

Parecia desespero.

– Eu não sou de ninguém.

– Você era minha antes daquele filho da puta aparecer.

Rachel respirou fundo.

– Pronto. Acabou minha paciência.

Ela levou o telefone ao ouvido.

Olhei rapidamente para ela.

– Quem você está chamando?

Rachel nem tentou esconder.

– Meu irmão.

– Rachel...

– Não vou esperar esse bêbado tentar alguma coisa.

Ethan ouviu.

E começou a rir.

– Liga. Liga para ele. Quero que Black venha.

Aquilo me causou um desconforto imediato.

– Ethan, vá para casa.

– Eu não tenho casa!

Sua resposta saiu tão abruptamente que todos ficamos em silêncio.

Ele puxou os braços novamente, mas os seguranças não cederam.

– Tiraram tudo de mim. A empresa, o dinheiro, minha família. Claire não olha na minha cara. Meu filho mal fala comigo. Agora você vai casar com ele.

– Nada disso foi feito por mim.

– Foi por causa de você!

– Não. Foi por causa das suas escolhas.

Ethan riu, mas havia lágrimas em seus olhos.

– Minhas escolhas?

– Sim.

– E você acha que fez escolhas melhores?

Olhei para ele.

– Hoje, sim.

Seu rosto se contraiu.

– Ele não ama você.

– Isso não é assunto seu.

– Black não ama ninguém.

– Você não conhece Jacob.

– Conheço homens como ele.

– Não. Você conhece homens como você.

Ethan tentou avançar outra vez mas seguranças o seguraram.

Alice puxou meu braço. – Chega, Nessie. Entra.

Dessa vez concordei. Não havia mais nada que eu pudesse dizer.

– RENESMEE!

Continuei andando.

– OLHA PARA MIM!

Parei por um instante, mas não me virei.

A voz dele veio novamente, embriagada, desesperada e alta o bastante para alcançar todo mundo ao redor.

– VOCÊ É MINHA! ESTÁ OUVINDO? MINHA! VOCÊ NÃO VAI SE CASAR COM O BLACK!

Fechei os olhos enquanto Rachel já falava ao telefone atrás de mim.

– Jake, é a Rachel. Vem para a Doce Encanto.