Narrado por Renesmee


O celular voltou a tocar antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa, e dessa vez meus olhos desceram automaticamente para a tela iluminada. Por alguns segundos fiquei apenas encarando a palavra que aparecia no visor, tentando entender se estava realmente lendo aquilo direito. Amor. Não havia sobrenome, fotografia ou qualquer outra informação, apenas aquela palavra acompanhada do número que continuava chamando. Senti uma sensação estranha no estômago e levantei os olhos para Ethan, que permanecia parado na porta do quarto com uma expressão que eu não conseguia identificar. Ele parecia surpreso, talvez incomodado por eu ter mexido em sua bolsa, mas havia alguma coisa além disso, alguma tensão em seus ombros que não combinava com uma situação tão simples. Olhei novamente para o aparelho e depois para ele.

– Que celular é esse, Ethan?

Ele demorou um instante para responder, e eu ergui o aparelho um pouco mais.

– E quem está ligando? Está escrito "amor".

– Não faço ideia de quem está ligando, porque esse celular não é meu – ele respondeu finalmente, aproximando-se de mim.

Franzi o cenho.

– Como assim não é seu? Ele estava dentro da sua bolsa.

– É da minha secretária.

Pisquei algumas vezes, esperando que ele continuasse, porque aquela explicação sozinha não fazia muito sentido. Ethan percebeu minha expressão e passou a mão pelos cabelos antes de apontar para o aparelho.

– Ela esqueceu no escritório antes de eu viajar. Eu encontrei quando estava saindo e avisei. Como já estava atrasado para o aeroporto, ela pediu que eu guardasse e levasse comigo. Vou devolver quando voltar. Foi só isso.

Olhei novamente para a tela. O telefone continuava tocando e a palavra "amor" piscava diante dos meus olhos. Talvez fosse realmente da secretária. Pessoas esqueciam celulares o tempo todo, e Ethan trabalhava cercado de gente. Não havia nada absurdo na história que ele acabara de contar, mas alguma coisa dentro de mim continuava incomodada. Talvez fosse a forma como ele tinha congelado ao entrar no quarto. Talvez fosse simplesmente porque eu estava cansada depois de passar a noite praticamente sem dormir, preocupada com Belinha e tentando falar com ele sem sucesso. Ainda segurando o aparelho, deslizei o dedo na direção do ícone verde.

– Então vou atender e avisar que ela esqueceu o celular com você.

Ethan segurou minha mão antes que eu completasse o movimento.

– Não, Nessie.

Olhei imediatamente para os dedos dele sobre os meus e depois para seu rosto.

– Por quê?

– Porque não é nosso telefone.

– Eu só vou avisar que...

– Amor, pensa um pouco – ele interrompeu, falando baixo para não acordar Belinha no quarto ao lado. – Essa ligação não é para mim e muito menos para você. Pode ser o namorado dela, o marido, qualquer pessoa. Não temos o direito de atender o telefone de outra pessoa e começar a explicar onde ele está.

– Mas ela sabe que o aparelho está com você.

– Exatamente. Então, quando conseguir falar com quem está ligando, ela mesma explica.

Ele tirou o celular das minhas mãos com delicadeza, mas o gesto me incomodou mais do que deveria. Ethan pressionou o botão lateral até a tela apagar e, poucos segundos depois, desligou completamente o aparelho. A música cessou e o quarto voltou ao silêncio. Observei enquanto ele abriu novamente a bolsa, colocou o telefone em um compartimento interno e fechou o zíper. Não havia nada naquela atitude que provasse qualquer coisa, eu sabia disso, mas também não consegui ignorar a sensação desagradável que havia surgido quando vi aquele "amor" na tela. Ethan se virou para mim e ficou me observando por alguns segundos, provavelmente esperando que eu dissesse alguma coisa, mas permaneci quieta enquanto retirava os sapatos e os colocava ao lado da cama.

– Por que você está assim? – ele perguntou.

– Assim como?

– Estranha.

Soltei uma pequena risada sem humor e comecei a tirar os acessórios que ainda usava.

– Encontrei um celular que nunca vi dentro da bolsa do homem com quem moro e alguém salvo como "amor" estava ligando. Acho que tenho direito de estranhar.

Ethan suspirou e se aproximou novamente.

– Nessie, você ouviu o que eu expliquei. O aparelho não é meu.

– Eu ouvi.

– Mas não acreditou.

Parei por um instante antes de responder.

– Eu não disse isso.

– Não precisa dizer. Estou olhando para você.

Ele tocou minha cintura e tentou me puxar para perto, mas meu corpo não reagiu como normalmente reagiria. Ethan percebeu. Seu olhar se tornou mais sério enquanto a mão continuava apoiada na minha cintura.

– Você não tem motivo nenhum para sentir ciúmes de mim.

– Eu não estou com ciúmes.

– Então o que é?

Respirei fundo, cansada demais para começar uma discussão que provavelmente não levaria a lugar nenhum.

– Eu liguei para você várias vezes porque nossa filha estava com febre e você não atendeu. Passei a noite inteira sem saber onde você estava, minhas mensagens nem chegavam, e hoje encontro outro celular na sua bolsa. Talvez eu só esteja cansada, Ethan.

Ele passou o polegar lentamente pela minha cintura.

– Eu já expliquei o que aconteceu com meu telefone. Assim que consegui resolver o problema e vi suas mensagens, vim para cá. Você acha mesmo que eu não teria vindo se soubesse que Belinha estava doente?

Olhei para ele.

– Não sei.

A resposta escapou antes que eu pudesse pensar, e vi a expressão dele mudar.

– Você sabe que eu amo aquela menina mais do que qualquer coisa.

– Eu sei que ama.

– E amo você também.

Ethan inclinou o rosto para me beijar, mas virei a cabeça antes que seus lábios encontrassem os meus. Não fiz aquilo para puni-lo, nem sequer sabia explicar direito por que me esquivei. Só não queria ser beijada naquele momento. Precisava dormir, precisava organizar a cabeça e, principalmente, precisava parar de olhar para a bolsa no chão e imaginar quem estava do outro lado daquela ligação. Afastei-me dele e puxei as cobertas.

– Estou exausta. Preciso dormir.

Ethan permaneceu parado por alguns segundos, mas não insistiu. Apaguei o abajur e me deitei, puxando o lençol até a altura do peito antes de virar para o outro lado. Ouvi seus passos pelo quarto, o som discreto de suas roupas sendo deixadas sobre a cadeira e, pouco depois, o colchão afundou atrás de mim. Ethan se aproximou devagar e senti seus lábios tocarem meu ombro descoberto.

– Boa noite, amor.

Fechei os olhos.

– Boa noite.

Ele se afastou e, alguns minutos depois, sua respiração começou a ficar mais tranquila. Eu, porém, continuei acordada, olhando para a escuridão do quarto enquanto tentava me convencer de que estava exagerando. Ethan tinha uma explicação para o celular, tinha uma explicação para não ter atendido minhas ligações e tinha voltado para Forks assim que soubera que Belinha estava doente. Eu deveria estar satisfeita com aquilo. Queria estar. Só não conseguia afastar da cabeça a imagem dele parado na porta quando me viu com aquele aparelho nas mãos e, principalmente, a expressão que atravessou seu rosto antes que ele tivesse tempo de escondê-la.


Na manhã seguinte, a casa parecia ter recuperado o barulho que normalmente fazia parte da nossa rotina. Belinha estava muito melhor e fazia questão de demonstrar isso falando sem parar desde o momento em que saiu do quarto. A febre havia desaparecido, as bochechas tinham voltado à cor normal e, se eu não soubesse do susto do dia anterior, jamais imaginaria que aquela mesma menina tinha passado horas abatida na cama. Ela estava sentada à mesa entre mim e Ethan, comendo panquecas enquanto contava ao pai cada detalhe dos últimos dias na escola, inclusive aqueles que provavelmente não faziam sentido algum para quem não conhecesse seus colegas. Ethan a ouvia com atenção, sorrindo enquanto passava geleia sobre uma torrada, e eu me mantinha mais quieta, segurando minha caneca de café e observando os dois enquanto tentava deixar para trás o desconforto da noite anterior.

– E aí o Noah disse que meu desenho parecia um brócolis de novo, mas dessa vez nem era uma árvore, papai. Era uma nuvem – Belinha explicou indignada, gesticulando com o garfo e quase derrubando um pedaço de panqueca no chão. – Ele não sabe desenhar nada, então não pode falar dos meus desenhos.

Ethan segurou a risada enquanto pegava o garfo da mão dela antes que acontecesse algum acidente.

– Concordo. Se o Noah não entende de arte, a opinião dele não conta.

– Isso! – ela respondeu animada. – A tia Alice falou a mesma coisa.

– Sua tia Alice não é exatamente uma referência confiável.

– Ei – interrompi, apesar de estar rindo. – Não fala assim da minha irmã na frente dela. Daqui a pouco Belinha repete e eu que vou ouvir reclamação.

Belinha olhou para mim, depois para o pai, claramente tentando guardar aquela informação para usar quando encontrasse Alice novamente. Antes que eu pudesse avisá-la para esquecer o que tinha acabado de ouvir, ela voltou sua atenção para Ethan e se inclinou sobre a mesa.

– Papai, você vai me levar pra escola?

– Vou.

O sorriso que surgiu no rosto dela fez Ethan sorrir também.

– Sério?

– Sério. Hoje você vai chegar com motorista particular.

– Você não é motorista.

– Hoje sou.

– Mas você não tem uniforme.

Ethan olhou para mim como se esperasse alguma ajuda, mas eu apenas escondi o sorriso atrás da caneca.

– Ela tem um argumento forte.

– Estou percebendo.

Belinha voltou a comer satisfeita, e aproveitei aquele momento para falar sobre a proposta que havia recebido. Desde que Quil aparecera na minha porta, eu queria contar a Ethan. Além da animação, havia a parte prática. Um evento daquele tamanho exigiria mais do que trabalho, exigiria organização, transporte e provavelmente alguns dias corridos demais para que eu conseguisse cuidar de tudo sozinha. Ethan poderia me ajudar com Belinha, principalmente nos dias anteriores à festa, e eu queria que ele entendesse o quanto aquilo era importante para mim.

– Aliás, vou precisar bastante da sua ajuda nas próximas semanas.

Ethan levantou os olhos do prato e tomou um gole de café antes de perguntar:

– Com o quê?

Não consegui esconder o sorriso.– Recebi uma proposta de trabalho ontem.

– Outra encomenda?

– Bem maior do que as que costumo pegar. Na verdade, acho que é a maior oportunidade que apareceu desde que abri a loja.

Ethan pareceu interessado e apoiou os braços sobre a mesa.– Agora fiquei curioso.

– É uma festa para aproximadamente cem pessoas. Querem que eu fique responsável pelos aperitivos e por toda a mesa de sobremesas. A Jessica e eu já começamos a calcular os ingredientes e vamos precisar contratar algumas pessoas para ajudar, porque provavelmente serão quase mil doces, sem contar os salgados. Eu sei que parece muita coisa, mas, Ethan, se tudo der certo, isso pode colocar a loja em outro nível. É um evento em...

O celular dele tocou antes que eu terminasse Ethan olhou para a tela e sua expressão mudou discretamente. – Desculpa. Preciso atender.

– Claro.

Ethan pegou o aparelho, levantou-se da mesa e, em vez de atender ali, caminhou até a sala. Ainda assim não parou. Continuou até chegar próximo à porta dos fundos, onde finalmente deslizou o dedo sobre a tela e levou o celular ao ouvido. Tentei voltar minha atenção para o café da manhã, mas meus olhos insistiam em acompanhá-lo. Ele falava baixo demais para que eu entendesse qualquer coisa, mantendo o corpo parcialmente virado para nós. Em determinado momento, chegou ainda mais perto da janela e diminuiu a voz, e foi aí que aquela sensação desagradável da noite anterior voltou com força.

Por que precisava se afastar?

Eu já tinha ouvido Ethan conversar sobre trabalho centenas de vezes. Reuniões, contratos, clientes, viagens, problemas com funcionários, nada daquilo costumava ser segredo. Ele atendia ligações na sala enquanto eu cozinhava, falava ao telefone no carro comigo ao lado e, algumas vezes, passava quase uma hora resolvendo problemas sentado na nossa cama. Então por que justamente naquela manhã ele precisava ir para o outro lado da casa?

– Mamãe, posso levar meu desenho hoje?

A voz de Belinha me trouxe de volta. Olhei para ela e forcei um sorriso.

– Pode, meu amor. Está dentro da sua mochila.

– Vou mostrar pra tia Sandra porque terminei ontem.

– Ela vai gostar.

Belinha voltou a comer enquanto eu olhava novamente para Ethan. Poucos segundos depois, ele encerrou a chamada e retornou à cozinha como se nada tivesse acontecido. Sentou-se no mesmo lugar, pegou a caneca e bebeu um pouco de café.

Esperei mas ele não disse nada. – Quem era?

Ethan ergueu os olhos. – Trabalho.

– E precisava falar lá longe?

A pergunta saiu mais seca do que eu pretendia.

Ele colocou a caneca sobre a mesa. – Como?

– Você ouviu. Por que precisou sair daqui para atender?

A expressão dele mudou imediatamente. – Nessie, sério?

– Eu só fiz uma pergunta.

– Não pareceu só uma pergunta.

Belinha continuava concentrada no próprio prato, mas percebi que Ethan olhou rapidamente para ela antes de baixar a voz.

– Desde ontem você está desse jeito.

– Desse jeito como?

– Desconfiando de tudo o que eu faço.

Cruzei os braços. – Talvez porque algumas coisas estejam estranhas.

– Algumas coisas? Você encontrou o celular da minha secretária e eu expliquei. Meu telefone deu problema e eu expliquei. Agora recebo uma ligação de trabalho e você quer saber por que me afastei para atender. O que está acontecendo com você?

Aquela última pergunta me irritou. – Comigo?

– Sim, com você.

– Talvez esteja acontecendo que meu namorado passa mais tempo fora de casa do que dentro, não atende quando a própria filha está doente, aparece com um celular desconhecido dentro da bolsa e, na manhã seguinte, precisa atravessar a casa para atender uma ligação que supostamente é só de trabalho.

Ethan apertou os lábios. – Então você não confia mais em mim.

– Não coloca palavras na minha boca.

– É exatamente o que você está dizendo.

– Não. Estou dizendo que você tem dado motivos para eu fazer perguntas.

– E eu respondi todas elas.

– Então não deveria ficar tão incomodado quando faço outra.

Vi a mandíbula dele endurecer e, por alguns segundos, tive certeza de que responderia. Antes que pudesse fazê-lo, ouvimos o barulho do garfo de Belinha sendo colocado sobre o prato. Nós dois olhamos para ela ao mesmo tempo.

Minha filha estava quieta e aquilo, vindo de Belinha, dizia muito.

Seus olhos passavam de mim para Ethan, e imediatamente me arrependi de ter permitido que aquela conversa chegasse àquele ponto na frente dela. Ethan pareceu pensar o mesmo, porque respirou fundo e afastou a cadeira.

Olhei para o relógio na parede. – Está na hora de ir para a escola, meu amor.

Belinha ainda nos observou por um momento antes de assentir. – Tá.

Ethan levantou-se.– Vamos pegar sua mochila.

– E minha garrafinha.

– E sua garrafinha.

– E o desenho.

– Também o desenho.

Belinha desceu da cadeira e segurou a mão dele. Antes de sair da cozinha, Ethan olhou para mim, mas nenhum de nós disse nada. Alguns minutos depois ouvi a porta da frente abrir, a voz de Belinha reclamando que ele tinha esquecido de fechar seu casaco e a resposta paciente de Ethan dizendo que faria aquilo no carro. Então a porta se fechou e a casa ficou em silêncio.

Permaneci sentada à mesa por alguns segundos, encarando o café que já havia esfriado. Minha fome tinha desaparecido, mas peguei uma maçã da fruteira e dei uma mordida enquanto repassava a discussão inteira na cabeça. Talvez Ethan tivesse razão e eu estivesse mais sensível depois do que acontecera com Belinha. Talvez a falta de sono estivesse me fazendo enxergar problemas onde não existiam. Ainda assim, quanto mais tentava encontrar uma explicação simples para o comportamento dele, mais uma pergunta insistia em permanecer.

Se aquela ligação era apenas de trabalho, por que eu não podia ouvir?

Mastiguei devagar, olhando para a cadeira vazia onde Ethan estivera poucos minutos antes, e percebi que o celular desconhecido já não era a única coisa que estava me incomodando.