Amor não era o plano
78 Amor não era o plano
Jacob
Voltar à presidência da Black Enterprises tinha sido consideravelmente mais simples do que voltar a ser pai em tempo integral, embora eu jamais admitisse isso diante de Claire. Empresas eram previsíveis quando comparadas a crianças. Um conselho administrativo podia ser pressionado, um contrato ruim podia ser renegociado, um executivo incompetente podia ser demitido e um acionista insatisfeito normalmente se acalmava quando alguém colocava números suficientemente convincentes diante dele. Nenhuma dessas estratégias funcionava com dois meninos de dois anos que haviam descoberto recentemente que correr em direções opostas era uma excelente maneira de enlouquecer os adultos, muito menos com uma menina de sete anos que tinha herdado da mãe a capacidade de transformar qualquer ordem simples numa negociação de vinte minutos. Depois de dois anos privado daquilo, entretanto, eu não reclamava de verdade. Podia ameaçar vender os brinquedos dos gêmeos, dizer que Belinha acabaria me levando à falência com a quantidade de coisas que queria comprar ou anunciar que estava considerando seriamente voltar voluntariamente para a penitenciária quando os três começavam a gritar ao mesmo tempo, mas a verdade era muito menos dramática: eu gostava daquela confusão.
Claire havia mantido a Black Enterprises funcionando de maneira que superara minhas expectativas, e admitir aquilo não me custava absolutamente nada. Minha filha tinha feito um excelente trabalho. Quando eu saí, encontrei uma empresa saudável, contratos importantes preservados, investimentos novos e uma administração que aprendera rapidamente que Claire Black podia ser tão desagradável numa mesa de negociações quanto o pai. Talvez até mais, porque as pessoas ainda cometiam o erro de subestimá-la durante os primeiros minutos. Eu tinha assistido a uma reunião dela antes de reassumir oficialmente e me divertido vendo um diretor veterano tentar explicar para minha filha algo que ela claramente conhecia melhor do que ele. Claire o deixou falar durante quase dez minutos antes de desmontar cada argumento com três perguntas. Naquele momento, percebi que os vinte e cinco por cento que ela conquistara anos antes não eram apenas patrimônio. Ela tinha capacidade para sentar naquela cadeira sempre que quisesse.
Mesmo assim, foi ela quem me devolveu a presidência.
Tentei discutir.
Claire não permitiu.
Estava grávida, tinha Ephraim e deixara bastante claro que não pretendia administrar uma corporação daquele tamanho enquanto criava dois filhos pequenos. Continuaria no conselho, manteria suas ações e participaria das decisões importantes, mas queria tempo para a própria família. Considerando tudo o que eu havia feito anos antes tentando controlar cada escolha daquela mulher, tive inteligência suficiente para respeitar uma decisão que ela tomara sozinha.
Quil, por outro lado, tinha sido informado de que casar com minha filha não lhe dava qualquer direito adicional de se tornar insuportável.
Ele disse que já era insuportável antes.
Infelizmente, era verdade.
O casamento dos dois seria realizado na mansão Black. Minha mãe, minhas irmãs, Alice e Renesmee tinham formado uma organização que, pelo volume de ordens, listas, fornecedores e discussões, parecia estar planejando a invasão de um país de médio porte. Eu havia tentado participar durante aproximadamente dois dias e fui gentilmente informado por Rachel de que minha principal função era pagar quando necessário e não atrapalhar.
Discordei da parte do pagamento.
Minha filha tinha dinheiro.
Rachel respondeu que eu era o pai da noiva e deveria parar de ser miserável.
Foi assim que perdi aquela discussão.
Também havia alguma justiça na situação. Claire não tivera exatamente a história que eu gostaria que tivesse. Seu primeiro casamento fora construído sobre manipulação e mentiras de Ethan, e eu sabia que parte dos meus próprios erros como pai contribuíra para que ela demorasse a me procurar quando tudo começou a desmoronar. Com Quil era diferente. Eu conhecia aquele homem havia anos, conhecia suas qualidades, seus defeitos e, principalmente, sabia como ele olhava para minha filha. Ainda não gostava da ideia de qualquer homem dormindo com Claire, mas aos cinquenta e um anos eu finalmente começava a aceitar que determinados pensamentos deveriam permanecer dentro da cabeça de um pai se ele quisesse continuar sendo convidado para eventos familiares.
Minha vida, entretanto, havia adquirido uma logística que nem mesmo a Black Enterprises conseguia competir.
Eu precisava dividir o tempo entre a presidência, Renesmee, William, Edward e Belinha, além de tentar compensar dois anos que racionalmente sabia serem impossíveis de recuperar. Nos primeiros meses depois de sair, cometi o erro de tentar estar presente em absolutamente tudo. Saía cedo de uma reunião para buscar Belinha, voltava para uma videoconferência, interrompia outra porque um dos gêmeos estava com febre, recusava viagens longas, reorganizava compromissos para jantar em casa e descobri que minha capacidade de funcionar com poucas horas de sono não era mais a mesma dos trinta anos.
Renesmee dizia que eu estava tentando viver dois anos atrasados.
Talvez estivesse.
A diferença era que agora eu tinha escolha.
Naquela tarde, consegui encerrar o trabalho antes do horário habitual e caminhei pelo jardim da mansão enquanto uma parte da estrutura do casamento era montada mais adiante. Mesas ainda embaladas estavam sendo organizadas próximo à área onde aconteceria a recepção, funcionários instalavam iluminação e uma mulher que eu não conhecia discutia a posição de flores com Rebecca. Decidi não perguntar nada. Experiência me ensinara que qualquer pergunta poderia ser interpretada como disponibilidade para participar.
Foi então que ouvi uma gritaria.
– DEVOLVE!
Belinha atravessou o jardim correndo.
Ephraim vinha logo atrás.
– É meu!
– Você pegou primeiro!
– Porque você deixou!
Belinha segurava alguma coisa que não consegui identificar, enquanto Ephraim tentava alcançá-la. Os dois passaram por mim sem perceber minha presença.
– Ei.
Nenhum deles parou.
Elevei a voz.
– Belinha. Ephraim.
Os dois frearam.
Belinha virou primeiro, imediatamente assumindo aquela expressão inocente que já não funcionava comigo havia bastante tempo.
– Oi, Tio Jay.
– Interessante. Há cinco segundos vocês pareciam estar disputando a sobrevivência.
Ephraim apontou para ela.
– Ela pegou meu controle.
– Ele pegou meu tablet primeiro!
Olhei para Belinha.
– Você pegou o controle dele?
– Peguei.
– E você pegou o tablet dela?
Ephraim hesitou.
– Só um pouquinho.
– Quanto é um pouquinho?
– Até ela perceber.
Segurei o riso.
– Isso não é uma unidade de tempo.
Belinha estendeu a mão.
– Então manda ele devolver.
– E você devolve o controle.
– Mas ele começou.
– Pequena, eu passei dois anos ouvindo homens adultos usarem exatamente esse argumento para justificar decisões ruins. Não funcionava lá e não vai funcionar no meu jardim.
Ela fez uma careta.
– Isso não é justo.
– Excelente. Você está aprendendo cedo como funciona o mundo.
Ephraim começou a rir.
Olhei para ele.
– Não comemora. Você também está errado.
O sorriso desapareceu.
– Ah.
– Cada um devolve o que pegou e vocês encontram alguma coisa para fazer que não envolva roubo, chantagem ou destruição de propriedade.
Belinha entregou o controle para Ephraim com evidente má vontade.
Ele devolveu o tablet.
– Resolvido – falei. – Agora podem voltar a correr antes que eu descubra por que vocês estavam com esses aparelhos no jardim.
Os dois trocaram um olhar e saíram imediatamente.
– Sem correr perto da piscina! – gritei.
– Tá! – Belinha respondeu à distância.
Balancei a cabeça.
Sete anos.
E já sabia exatamente quando desaparecer antes que eu fizesse uma segunda pergunta.
– Belinha!
Ela olhou para trás.
– O quê?
– Onde está sua mãe?
– Na cozinha!
Naturalmente.
Eu deveria ter imaginado.
– Obrigado.
– De nada!
Ephraim já a chamava novamente, e os dois desapareceram por trás de uma parte da decoração montada para o casamento.
Segui em direção à casa.
A cozinha principal da mansão não era pequena, mas durante aquela semana tinha se tornado território de Renesmee. Ela havia recusado contratar alguém para preparar os doces do casamento de Claire. Segundo minha mulher, podia aceitar que outra equipe cuidasse do jantar, do serviço e do bolo principal, mas os doces seriam dela. Claire concordara imediatamente, e desde então a cozinha parecia uma extensão da Doce Encanto.
Cheguei à porta e não entrei.
Fiquei ali.
Renesmee estava de costas para mim, inclinada sobre uma das bancadas, concentrada no que fazia. Os cabelos ruivos estavam presos de maneira prática, embora algumas mechas tivessem escapado e caíssem próximas ao rosto. Usava avental, havia utensílios espalhados sobre a bancada e bandejas organizadas ao redor. Ela se movimentava entre os ingredientes com aquela segurança que eu conhecia muito bem, verificando textura, separando porções e corrigindo alguma coisa que provavelmente ninguém além dela perceberia.
Por alguns segundos, a cozinha da minha casa desapareceu.
Eu estava novamente naquele hotel.
Três anos antes.
Aniversário de Claire.
Eu tinha entrado numa cozinha porque Quil queria me apresentar à responsável pelos doces e encontrei uma ruiva trabalhando, ocupada demais para demonstrar qualquer interesse no homem que tinha acabado de entrar. Naquela época, eu não sabia quase nada sobre Renesmee Cullen. Não sabia que tinha uma filha. Não sabia que Ethan era o homem com quem ela dividia a vida. Não sabia que, poucas horas depois, aquela festa destruiria tudo em que ela acreditava. Muito menos imaginava que aquela mulher acabaria entrando na minha vida de uma maneira que nenhuma das minhas decisões anteriores tinha previsto.
Eu só tinha olhado para ela.
E comido um dos doces.
Depois flertado porque era incapaz de ver uma mulher bonita sem provocar.
Três anos.
Parecia uma vida inteira.
A mulher diante de mim agora era minha esposa. Mãe dos meus filhos. A mesma mulher que tinha discutido comigo, enfrentado minha arrogância, entrado na minha cama, quase morrido, carregado meus filhos, esperado por mim durante dois anos e mantido nossa família inteira enquanto eu cumpria uma sentença que mudara a vida de todos nós.
E ainda franzia a testa exatamente da mesma maneira quando alguma coisa na bancada não saía como queria.
Um sorriso apareceu no meu rosto.
Renesmee continuou trabalhando durante alguns segundos antes de perceber minha presença. Não sei se foi pelo silêncio ou simplesmente porque, depois de tudo o que vivemos, ela desenvolvera alguma espécie de capacidade irritante para saber quando eu estava olhando.
Virou o rosto.
Nossos olhos se encontraram.
Ela sorriu.
– É proibida a presença de outras pessoas na cozinha.
Apoiei o ombro no batente.
– Outras pessoas?
– Você entendeu.
– Esta cozinha fica dentro da minha casa.
– E hoje está sob minha autoridade.
– Minha cozinha foi ocupada?
– Temporariamente.
– Preciso chamar Solomon?
Ela voltou a mexer o que estava preparando.
– Pode chamar quem quiser. Ninguém entra.
– Eu passei dois anos preso e volto para descobrir que perdi direitos dentro da própria casa.
– Você não perdeu direitos. Só não pode entrar na minha cozinha enquanto estou trabalhando.
Observei-a por mais um instante.
– Engraçado.
– O quê?
– Você disse praticamente a mesma coisa quando nos conhecemos.
Ela interrompeu o movimento das mãos.
Olhou para mim novamente.
Eu sorri.
– Hotel. Aniversário da Claire. Você estava preparando os doces e me olhou como se eu fosse um idiota inconveniente invadindo seu território.
Renesmee arqueou uma sobrancelha.
– Você era um idiota inconveniente invadindo meu território.
– Eu era presidente da empresa responsável pelo evento.
– E isso deveria me impressionar?
– Normalmente impressionava.
– Esse foi seu primeiro erro comigo.
– Não. Meu primeiro erro foi comer um doce sem pedir.
Ela apontou a colher na minha direção.
– Exatamente.
– Meu segundo foi flertar com você.
– Também.
– E o terceiro provavelmente foi continuar voltando.
Nessie sorriu.
– Esse foi o pior.
Empurrei o corpo para longe do batente.
– Curioso.
– O quê?
– Três anos depois, continuo cometendo o mesmo erro.
Ela percebeu minha intenção imediatamente.
– Jacob, eu falei que não pode entrar.
Atravessei a porta.
– E eu ouvi.
– Então saia.
– Não.
– Estou trabalhando.
– Eu também estava até meia hora atrás. Ninguém respeitou meu sofrimento.
– Jacob.
Aproximei-me da bancada.
Ela tentou manter a expressão séria, mas eu já conhecia aquele sorriso escondido.
– Você realmente não aprendeu a obedecer.
– Passei dois anos obedecendo horários, portas, agentes e regulamentos, princesa. Minha cota acabou.
– Isso não funciona comigo.
– Nunca funcionou.
Fiquei diante dela e olhei rapidamente para a bandeja.
– Posso pegar um?
Nessie estreitou os olhos.
– Não.
Peguei.
– Jacob!
Coloquei o doce inteiro na boca.
Ela ficou me encarando.
Mastiguei tranquilamente.
– Continua bom.
– Você é impossível.
– Foi exatamente isso que você pensou de mim naquele hotel.
– Eu pensei coisas muito piores.
– E acabou casando comigo. Seu julgamento sempre foi questionável.
Ela tentou afastar minha mão quando alcancei outro doce.
Segurei seu pulso delicadamente antes que conseguisse.
– Nem pense nisso.
– Estou avaliando a qualidade.
– Eu não preciso de controle de qualidade.
– Toda empresa séria precisa.
– Isto não é a Black Enterprises.
– Graças a Deus. Na Black Enterprises ninguém ameaça bater na mão do presidente com uma colher.
Ela levantou a colher.
– Quer testar?
Olhei para ela, para a colher e novamente para seu rosto.
– Foi isso.
– O quê?
Sorri.
– Essa cara.
Renesmee franziu a testa.
– Que cara?
– A mesma que você fez três anos atrás quando percebeu que eu não ia sair da cozinha só porque mandou.
Ela ficou me observando.
A brincadeira diminuiu um pouco em sua expressão.
– Você lembra?
– Princesa, eu lembro exatamente de como você estava quando vi você pela primeira vez.
Os olhos dela suavizaram.
Eu ainda conseguia enxergar aquela mulher do hotel.
Mas agora conhecia tudo o que existia depois daquela primeira impressão.
Conhecia sua teimosia, seus medos, sua força, sua boca afiada, sua maneira de dormir, o jeito como verificava os filhos antes de se deitar, a mania de roubar meu lado da cama e depois negar, a forma como ficava em silêncio quando estava preocupada e como tentava resolver problemas sozinha antes de admitir que precisava de alguém.
Conhecia Renesmee.
E depois de três anos, ainda gostava de observá-la trabalhar.
Ela cruzou os braços.
– Vai continuar me olhando daí?
Inclinei a cabeça.
– Provavelmente.
– Tenho centenas de doces para terminar.
– Continue.
– Com você me encarando?
– Você conseguiu trabalhar quando eu era praticamente um estranho. Agora deveria estar acostumada.
Ela soltou uma pequena risada.
– Você era menos irritante quando era um estranho.
– Mentira.
– Um pouco.
– Também mentira.
Renesmee balançou a cabeça e voltou para a bancada.
Eu permaneci onde estava.
Talvez aquela fosse uma das poucas coisas que realmente não tinham mudado.
Três anos antes, eu havia parado na entrada de uma cozinha para observar Renesmee Cullen sem fazer a menor ideia do que aquela mulher faria com a minha vida.
Agora eu sabia.
E ainda não conseguia ir embora.
Renesmee
A mansão Black nunca me parecera tão cheia.
Claire e Quil haviam decidido realizar a cerimônia no jardim, e a recepção se espalhava entre a área externa e os grandes salões da casa, transformando um lugar que normalmente já era movimentado em uma confusão organizada de música, flores, garçons, crianças correndo e pessoas que pareciam surgir de todos os lados. Durante semanas, Rachel, Rebecca, Alice e eu havíamos discutido cada detalhe daquela festa, enquanto Jacob se limitava a reclamar dos gastos sempre que alguém cometia o erro de mostrar alguma nota diante dele. Ninguém levava suas reclamações muito a sério. Muito menos eu. O mesmo homem que questionava o preço dos arranjos tinha autorizado, sem pestanejar, uma reforma inteira em uma das áreas do jardim porque Claire comentara que gostaria que a cerimônia fosse realizada ali. Quando apontei a contradição, ele respondeu que uma coisa era gastar dinheiro com a filha e outra completamente diferente era permitir que floristas praticassem assalto à mão armada usando rosas como arma.
No fim, tudo havia ficado lindo.
Minha família também estava presente. Meus pais tinham chegado cedo, Alice naturalmente se comportava como se aquele casamento também fosse responsabilidade dela, Emmett havia assumido a missão autoproclamada de manter as crianças entretidas e Rosalie circulava entre os convidados conversando com minha mãe. Sarah parecia incapaz de permanecer sentada durante mais de cinco minutos, Billy assistia à movimentação do jardim com uma expressão satisfeita e Rachel e Rebecca ainda encontravam pequenas coisas para resolver mesmo depois de a cerimônia ter terminado. Claire estava maravilhosa, grávida e feliz ao lado de Quil, e havia alguma coisa especialmente bonita em vê-la começando aquela nova etapa da vida cercada por pessoas que realmente a amavam. Depois de tudo o que aquela família havia atravessado, eu sabia que ninguém ali considerava aquela felicidade garantida.
Eu tinha acabado de verificar uma das mesas de doces quando ouvi meu nome.
– Nessie.
Virei-me e encontrei Antony vindo em minha direção com William no colo.
Demorei aproximadamente dois segundos para perceber que alguma coisa estava muito errada.
– Meu Deus.
Meu irmão parou.
– Antes de você falar qualquer coisa...
– Antony, o que aconteceu com meu filho?
William parecia ter acabado de participar de uma escavação arqueológica. A camisa clara que eu escolhera cuidadosamente naquela manhã tinha manchas de terra no peito e nas mangas, o cabelo estava completamente desarrumado e havia sujeira até numa das bochechas. Um dos sapatos parecia ter sido mergulhado em lama, e eu sinceramente não queria descobrir por que havia uma pequena folha presa na parte de trás de sua calça.
Meu filho, entretanto, estava radiante.
– Mamãe!
– Eu estou vendo você, meu amor. O que eu ainda não consegui entender é por que você parece ter cavado um buraco até a China.
Antony imediatamente ergueu uma mão.
– Tecnicamente, ele cavou um buraco.
Fechei os olhos por um instante.
– Eu estava brincando.
– Eu não.
Olhei para meu irmão.
– Antony.
– Não faz essa cara. Eu estava olhando.
– Evidentemente não estava olhando o suficiente.
– Nessie, você precisa considerar que crianças brincam.
– Crianças brincam. Meu filho parece ter sido enterrado e desenterrado.
William riu, absolutamente satisfeito com a descrição.
– Buraco grande!
– Eu percebi que era grande.
Antony ajeitou o menino no colo.
– Se serve de consolo, Wil está em um estado muito melhor do que Ed.
Fiquei em silêncio.
– O quê?
Meu irmão apontou discretamente para algum lugar atrás de mim.
– Edward está com o Emmett.
Aquela informação não me tranquilizou.
Na verdade, piorou consideravelmente a situação.
– Antony, onde está meu outro filho?
– Eu acabei de dizer. Com o Emmett.
– Essa é exatamente a parte que está me preocupando.
Uma das babás apareceu quase correndo, visivelmente constrangida.
– Senhora Black, eu tentei controlar os dois.
Olhei para ela.
– Os gêmeos?
Ela hesitou.
– O senhor Emmett e o senhor Antony.
Meu irmão pareceu ofendido.
– Ei.
A babá respirou fundo.
– As crianças também.
Precisei morder o interior da bochecha para não rir.
– O que aconteceu?
– O senhor Emmett mostrou aos meninos uma parte do jardim onde estavam mexendo na terra por causa da decoração e...
Antony interrompeu:
– Não coloca tudo nas costas do Emmett.
– Você acabou de colocar tudo nas costas dele há trinta segundos – lembrei.
– Eu estava me defendendo.
– Muito mal.
A babá continuou:
– O Edward entrou primeiro, o William foi atrás e, quando eu consegui tirar um, o outro voltou.
Olhei para meu filho.
– William Black.
Ele abriu um sorriso.
– Mamãe.
Era impossível manter qualquer autoridade quando aquele menino sorria daquele jeito.
Suspirei.
– Onde está Edward agora?
– A outra babá está tentando encontrá-lo com o senhor Emmett.
– Tentando?
Antony teve a sensatez de não responder.
– Certo. – Passei a mão pela testa. – Levem os dois para dentro e troquem a roupa deles, por favor. Existe outra roupa no quarto.
– Sim, senhora.
A babá estendeu os braços para William, mas ele se agarrou ao pescoço do tio.
– Não!
Antony sorriu.
– Ele me ama.
– Ele acha que você é cúmplice.
– Também.
– Entrega meu filho.
– Nessie, eu posso levar.
– Você vai entregar William para a babá e depois vai ajudar a encontrar Emmett antes que descubram petróleo no jardim do Jacob. Se ele perceber que destruíram o gramado durante o casamento da filha, eu me recuso a defender qualquer um de vocês.
Antony finalmente colocou William nos braços da babá.
– Seu marido ficou dois anos preso e você continua usando ameaça de morte com muita naturalidade.
– Exatamente por isso você deveria levar a ameaça a sério.
Ele riu e beijou minha testa antes de se afastar.
– Vou atrás do Ed.
– E do Emmett.
– Principalmente do Emmett.
A babá saiu com William, enquanto outra apareceu alguns segundos depois atravessando o corredor na direção em que Antony tinha ido. Observei aquela pequena operação de resgate desaparecer e soltei um longo suspiro.
Então sorri.
Minha vida tinha se tornado aquilo.
Três anos antes, eu estava preocupada com uma confeitaria pequena em Forks, uma filha, um relacionamento que acreditava ser sólido e uma encomenda de doces para o aniversário de uma mulher que sequer conhecia. Agora eu estava na mansão Black, casada com o pai daquela mulher, tentando impedir meus gêmeos de destruírem o jardim durante o casamento dela.
Se alguém tivesse me contado isso naquela época, eu teria recomendado ajuda psiquiátrica.
Olhei ao redor procurando Jacob.
Não foi difícil encontrá-lo.
Meu marido estava próximo a uma das grandes portas que davam acesso ao jardim, conversando com três homens que eu reconhecia vagamente de eventos da Black Enterprises. A postura dele denunciava imediatamente que aquilo não era uma conversa casual. Um dos homens falava enquanto Jacob escutava com atenção, outro segurava uma taça e o terceiro gesticulava discretamente enquanto explicava alguma coisa.
Balancei a cabeça.
Era inacreditável.
O homem tinha passado dois anos longe da empresa, reassumira a presidência havia poucos meses e já tinha recuperado completamente o péssimo hábito de transformar qualquer lugar numa extensão do escritório.
Caminhei até eles.
Jacob me viu antes que eu chegasse. Seu olhar acompanhou minha aproximação, mas ele continuou ouvindo o homem à sua frente até eu parar ao seu lado.
– Com licença.
Os três se viraram.
– Senhora Black – um deles me cumprimentou com um sorriso.
– Boa noite.
– A festa está maravilhosa – disse outro.
– Obrigada.
Passei a mão pelo braço de Jacob.
– Espero não estar interrompendo nada urgente.
Jacob arqueou discretamente uma sobrancelha.
Eu conhecia aquela expressão.
– Estamos conversando sobre...
– Tenho certeza de que é fascinante – interrompi, sorrindo para os homens. – Mas preciso roubar meu marido por alguns minutos.
Um deles riu.
– Evidentemente.
Jacob olhou para mim.
– Roubar?
– Sim.
– Eu tenho cinquenta e um anos e quase cem quilos, princesa. Tecnicamente, isso é sequestro com dificuldade elevada.
– Eu assumo o risco.
Segurei sua mão.
– Cavalheiros – Jacob disse antes de permitir que eu o puxasse –, continuamos depois.
– Não, não continuam – murmurei enquanto nos afastávamos.
– Eu ouvi.
– Era para ouvir.
Ele caminhou ao meu lado.
– Qual é o problema?
– O problema é que estamos na festa de casamento da sua filha e você está fazendo reunião.
– Não era uma reunião.
– Havia três empresários discutindo negócios com você.
– Isso se chama conversa.
– Na sua linguagem, isso se chama reunião sem mesa.
Jacob soltou um pequeno sorriso.
– Eu estava apenas ouvindo uma proposta.
– Claro.
– Era uma boa proposta.
– Jacob.
– Está bem. Era mediana.
Olhei para ele.
– Você é impossível.
– Ainda assim, veio me buscar.
– Porque Claire vai perceber que o pai dela está negociando no casamento.
– Claire conhece o pai que tem.
– E eu conheço o marido que tenho.
– Então deveria saber que me colocar numa festa com duzentas pessoas, metade delas ligadas ao mundo empresarial, e esperar que eu não fale de negócios é uma expectativa pouco realista.
– Você consegue ficar algumas horas sem trabalhar.
– Posso.
– Ótimo.
– Não disse que quero.
Revirei os olhos.
– Venha comigo.
Seguimos para uma área mais tranquila do jardim. A cerimônia tinha acontecido ali algumas horas antes, e parte das flores ainda permanecia organizada ao redor do caminho. As luzes instaladas entre as árvores deixavam o lugar acolhedor, enquanto a música e as conversas chegavam mais baixas naquela parte da propriedade.
Jacob soltou minha mão por um instante e se aproximou de um dos arranjos.
– Não mexa nisso.
Ele olhou para mim.
– Por quê?
– Porque provavelmente custou uma fortuna, segundo você mesmo.
– Exatamente. Já que paguei, tenho direito a uma amostra.
Antes que eu pudesse impedir, ele retirou uma rosa.
– Jacob!
– Rachel comprou flores suficientes para decorar metade de Seattle. Uma não fará diferença.
Ele se virou e me entregou.
Aceitei a rosa tentando esconder o sorriso.
– Você acabou de roubar uma flor do casamento da própria filha.
– Eu paguei pela flor. Isso se chama recuperação de investimento.
– Você é inacreditável.
Jacob se aproximou.
– Lembra da primeira vez que esteve aqui?
Olhei ao redor.
Claro que lembrava.
– Lembro.
– Mesmo?
– Como esquecer?
Ele esperou.
Sorri.
– Principalmente do vexame do vinho.
Jacob começou a rir.
– Vexame?
– Você sabe exatamente do que estou falando.
– Eu me lembro de um excelente vinho.
– Eu me lembro de você agindo como se o preço da garrafa fosse uma informação completamente normal para jogar numa conversa.
– Era um bom vinho.
– Jacob, você fez questão de mencionar quanto custava.
– Eu estava tentando impressionar você.
Olhei para ele.
– Então admite?
– Depois de três anos, acho que o crime prescreveu.
Ri.
– Não funcionou.
– Funcionou o suficiente. Você está usando meu sobrenome.
– Isso aconteceu por muitos outros motivos.
– Inclusive porque sou extremamente charmoso.
– Eu ia dizer insistente.
– Também.
Passei os dedos pela haste da rosa.
– Naquela noite, eu achei você insuportável.
– Eu achei você bonita.
– Só?
Jacob inclinou ligeiramente a cabeça.
– Bonita, irritada, comprometida e completamente desinteressada em mim. Era uma combinação inconveniente.
– E mesmo assim você flertou.
– Eu nunca aleguei bom senso.
Fiquei sorrindo para ele.
O humor desapareceu lentamente de sua expressão.
Jacob levou a mão ao meu rosto.
– Sabe o que é pior?
– O quê?
Seu polegar passou devagar pela minha bochecha.
– Você nunca fez parte dos meus planos.
A frase poderia parecer cruel vinda de qualquer outra pessoa. Vinda de Jacob, eu sabia exatamente o que significava.
– Que romântico.
– Não começa com essa merda outra vez.
Comecei a rir.
– Você facilitou.
– Estou tentando falar sério.
– Então continue.
Ele aproximou-se mais.
– Quando encontrei você naquele hotel, não estava procurando mulher, casamento, filhos ou qualquer uma dessas coisas. Eu já tinha vivido o suficiente para achar que sabia exatamente como seria o resto da minha vida. Tinha minha empresa, minha filha, meu neto, meus problemas e nenhuma intenção de complicar isso.
– E eu compliquei?
– Você destruiu o planejamento inteiro.
– Parece grave.
– Foi uma catástrofe.
Bati de leve em seu peito.
– Idiota.
Jacob segurou minha mão antes que eu a afastasse.
– Nunca fez parte dos meus planos amar você do jeito que amo.
Dessa vez eu não consegui brincar.
Olhei para aquele homem e pensei em tudo o que havia acontecido desde a primeira vez em que nos encontramos. Ethan. Claire. Belinha. A Doce Encanto. Bree. Minha gravidez. Nosso casamento interrompido. O galpão. A prisão. Dois anos separados. William e Edward crescendo enquanto o pai os conhecia por fotografias. A volta de Jacob para casa. E agora estávamos no mesmo jardim em que tudo começara, assistindo Claire finalmente se casar com o homem que amava.
Apertei os dedos dele.
– Realmente, amor não era o plano.
Jacob sorriu discretamente.
– Não.
– Mas planos mudam.
– Os meus mudaram bastante.
– Arrependeu-se?
Ele me lançou aquele olhar que eu conhecia tão bem.
– De você?
Assenti.
Jacob colocou a mão em minha cintura e me trouxe para perto.
– Nem nos meus piores dias.
Meu peito apertou.
– Eu amo você.
Ele ficou me observando por alguns segundos antes de tocar minha nuca.
– Eu sei.
Arqueei uma sobrancelha.
– Jacob.
O canto de sua boca subiu.
– Eu também amo você, princesa. Mais do que era conveniente, sensato ou minimamente planejado.
Sorri.
– Assim está melhor.
– Exigente.
– Você escolheu.
– Escolhi.
Ele me beijou.
Passei os braços ao redor de seu pescoço enquanto a mão dele apertava minha cintura, e por alguns segundos deixamos a festa, os convidados, a empresa, os gêmeos provavelmente cavando outro buraco sob a supervisão criminosa de Emmett e todos os problemas que nos esperariam no dia seguinte desaparecerem.
Quando nos afastamos, Jacob ainda manteve a testa encostada à minha.
– Se contar para alguém que eu disse essas coisas, nego tudo.
Ri.
– Vou contar para Rachel.
– Eu me divorcio.
– Mentira.
– Provavelmente.
Beijei seus lábios novamente.
Três anos antes, eu entrara naquela mansão para trabalhar na festa de aniversário de Claire sem imaginar que minha vida estava prestes a mudar completamente. O homem que me irritara naquela noite acabaria se tornando meu amante, meu porto seguro, meu marido e pai dos meus filhos. Nós dois havíamos tentado controlar nossas vidas à nossa maneira e descoberto, talvez da forma mais difícil possível, que algumas coisas simplesmente não obedeciam aos planos.
O amor tinha sido uma delas.
Amor não era o plano.
Mas os planos mudaram.
Fim.
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