Narrado por Jacob


Fiquei alguns segundos olhando para Claire depois que ela terminou de contar como havia recuperado os vinte e cinco por cento da Black Enterprises. O envelope permanecia aberto sobre minha mesa, com os documentos espalhados diante de mim, e Rebecca estava sentada em uma das poltronas do outro lado da sala, estranhamente calada. Minha irmã não costumava permanecer tanto tempo sem fazer algum comentário, mas até ela parecia estar processando a história.

Eu também estava.

Não porque duvidasse da capacidade da minha filha. Nunca duvidei. Claire havia crescido cercada por reuniões, contratos, advogados e executivos. Ainda criança, entrava no meu escritório sem bater, sentava no sofá e fazia os deveres da escola enquanto eu discutia aquisições milionárias do outro lado da sala. Ela conhecia aquele mundo muito melhor do que Ethan imaginava. O que me surpreendia era outra coisa: ela tinha descoberto o golpe, procurado orientação, alterado o curso da operação sem alertá-lo e esperado pacientemente até que ele próprio fizesse todo o trabalho necessário para perder aquilo que acreditava ter conquistado.

Peguei novamente a primeira página e percorri as cláusulas que Solomon já teria enorme prazer em analisar. Eu ainda precisava verificar cada detalhe antes de considerar aquela guerra encerrada, porque Ethan Fitzgerald já havia demonstrado que não sabia perder sem tentar arrastar alguém com ele. Mas, naquele momento, uma coisa estava clara.

Minha filha tinha acabado de arrancar vinte e cinco por cento da minha empresa das mãos do homem que tentou usá-la para chegar até mim.

E fizera isso sozinha.

Levantei os olhos.

– Então deixe-me ver se entendi corretamente. Você descobriu que aquele filho da puta pretendia usar seu nome como garantia, trocou os documentos antes que ele percebesse, assinou a operação em condições que protegiam você, esperou que ele fizesse todo o restante e, quando ele descumpriu as obrigações, executou a dívida e ficou com as ações.

Claire cruzou os braços.

– Quando você resume dessa maneira, parece bastante simples.

Rebecca soltou uma risada.

– Simples? Eu estou há dez minutos tentando decidir se abraço você ou se começo a ter medo.

Claire sorriu discretamente.

– Pode fazer os dois.

Olhei novamente para os documentos.

– E ele não percebeu.

– Não.

– Nem desconfiou?

– Acho que a maior fraqueza de Ethan é acreditar que sempre é a pessoa mais inteligente da sala. – Claire se aproximou da mesa e apoiou uma das mãos na borda. – Ele não verificou os documentos depois. Não tinha razão para verificar porque acreditava que eu não sabia da existência deles. Na cabeça dele, eu era apenas a esposa que serviria de garantia se a operação desse errado.

– E deu.

– Para ele.

Rebecca soltou outra risada, e eu não consegui evitar um pequeno sorriso. Havia alguma coisa profundamente satisfatória em imaginar a expressão de Ethan ao descobrir que a mulher que considerava apenas um caminho até a Black Enterprises havia tomado justamente a participação que ele comprara para me desafiar.

– Quero uma cópia de tudo com Solomon ainda hoje – falei, organizando as folhas. – Não porque eu ache que você fez alguma coisa errada, mas porque Fitzgerald vai procurar qualquer brecha possível. Quando entender que perdeu as ações de verdade, vai contratar o advogado mais filho da puta que conseguir encontrar.

Claire respirou fundo.

– Ele já entendeu.

A maneira como ela respondeu chamou minha atenção.

Ergui os olhos.

– Você contou a ele?

– Hoje de manhã.

Rebecca endireitou-se na poltrona.

– E como ele reagiu?

Claire hesitou apenas o suficiente para eu perceber.

– Mal.

Minha mão parou sobre os documentos.

– Defina mal.

– Pai...

– Claire.

Ela conhecia aquele tom.

Rebecca também.

Minha irmã permaneceu quieta enquanto eu esperava.

– Ele ficou furioso. Gritou, disse que eu teria de devolver as ações e perdeu o controle por alguns minutos.

– Fez alguma coisa com você?

– Eu estou aqui.

– Essa não foi a pergunta.

Claire desviou os olhos por um instante.

Foi suficiente.

Levantei-me.

– Ele encostou em você?

– Pai, não faça isso.

– Fazer o quê?

– Essa cara.

– Eu tenho uma cara específica para quando alguém encosta na minha filha?

Rebecca levantou a mão discretamente.

– Tem.

Olhei para ela.

– Ninguém perguntou.

– Só estou contribuindo.

Voltei minha atenção para Claire.

– Ele encostou em você?

Ela soltou o ar.

– Segurou meu braço.

Senti minha mandíbula endurecer.

– Com força?

– Jacob – Rebecca advertiu.

– Eu estou conversando com minha filha.

– E já está planejando um homicídio enquanto conversa.

– Não estou planejando porra nenhuma.

Claire arqueou uma sobrancelha.

– Essa frase seria mais convincente se você não tivesse acabado de pegar o telefone.

Olhei para minha mão e percebi que realmente estava segurando o celular. Coloquei-o novamente sobre a mesa.

– Reflexo.

Rebecca riu.

– Claro.

Claire balançou a cabeça.

– Eu empurrei Ethan. Ele me soltou. Saí do apartamento e vim embora. Estou bem.

– Isso não termina aí.

– Eu sei.

– Se ele colocar as mãos em você outra vez...

– Pai.

– Estou falando sério.

– Eu também. Sei me defender.

– Eu sei que sabe. Isso não significa que eu vá fingir que não aconteceu.

Ela me observou durante alguns segundos. Eu esperava uma discussão, mas Claire apenas assentiu.

– Tudo bem. Mas não faça nenhuma loucura.

– Defina loucura.

– Qualquer coisa que faça Solomon precisar esconder uma pá.

Rebecca cobriu a boca para conter a risada.

– Eu não acredito que ela acabou de dizer isso.

– Eu também não.

Claire sorriu.

– Aprendi com você.

– Claramente aprendeu coisas demais.

Voltei a me sentar e organizei os documentos antes de colocá-los novamente dentro do envelope. Claire permaneceu diante da mesa, esperando. Fechei o envelope, segurei-o por alguns segundos e então o estendi para ela.

– Tome.

Claire olhou para minha mão.

– O quê?

– Os documentos.

– Eu sei que são os documentos.

– Então estamos fazendo progresso.

Ela não pegou.

– Por que está me devolvendo?

Franzi o cenho.

– Porque são seus.

Claire olhou para Rebecca, como se esperasse alguma explicação da tia, mas Rebecca apenas levantou as duas mãos, deixando claro que não tinha participação naquela conversa.

– Pai, eu trouxe as ações para você.

– Eu sei.

– Recuperei os vinte e cinco por cento para devolver à Black Enterprises.

– Não.

– Como assim, não?

– Não é uma palavra particularmente complicada.

– Jacob – Rebecca murmurou, já sorrindo.

Ignorei.

Claire continuou olhando para mim.

– Eu não quero vinte e cinco por cento da empresa.

– Problema seu.

– Como pode ser problema meu se estou tentando devolver para você?

– Porque eu não estou aceitando.

– Pai, isso representa uma fortuna.

– Eu sei quanto vale minha própria empresa, Claire.

– Então sabe que eu não posso simplesmente ficar com isso.

– Pode. E vai.

Ela finalmente pegou o envelope, mas apenas para colocá-lo novamente sobre minha mesa.

– Não fiz isso para ganhar ações.

Empurrei o envelope de volta.

– Eu sei.

– Então por que está fazendo isso?

Recostei-me na cadeira e a observei. Claire ainda parecia esperar que eu dissesse que estava brincando. Não estava.

– Porque você conquistou essas ações.

– Tirando do Ethan.

– Exatamente.

– Isso não significa que sejam minhas.

– Significa para mim.

Ela abriu a boca para protestar, mas levantei a mão.

– Escute primeiro.

Claire fechou a boca.

– Durante muito tempo eu tentei proteger você de tudo. E fiz isso da pior maneira possível algumas vezes. Quando não gostava de uma escolha sua, tentava corrigir. Quando achava que alguém podia machucar você, tentava tirar a pessoa do caminho. Quando você insistia em fazer alguma coisa que eu considerava errada, eu puxava cartão, dinheiro, influência, qualquer merda que estivesse ao meu alcance até você fazer o que eu achava certo.

Claire me observava em silêncio.

– Com Ethan foi assim – continuei. – Eu sabia que havia alguma coisa errada nele muito antes de conseguir provar. Você não quis me ouvir e eu fiz o que sempre faço quando alguém não me escuta: tentei controlar a situação.

– Você cortou meus cartões.

– Cortei.

– Mandou investigar meu namorado.

– Marido.

– Na época ainda era namorado.

– Então devia ter investigado mais cedo.

Rebecca soltou uma risada.

– Jake.

– O quê? Estou admitindo meus erros. Não exagera.

Claire tentou esconder um sorriso.

– Isso é você admitindo um erro?

– É o máximo que você vai conseguir hoje.

Ela balançou a cabeça.

– Continue.

Apontei para o envelope.

– Hoje você entrou aqui e me contou que descobriu sozinha uma operação que nem eu sabia que estava acontecendo. Não correu para mim. Não pediu que eu resolvesse. Não usou meu nome para assustá-lo. Você estudou o problema, procurou orientação, protegeu seu patrimônio e esperou o momento certo para agir.

– Eu sou uma Black.

– É exatamente onde quero chegar.

Claire ficou quieta.

– Você amadureceu muito nos últimos meses – continuei. – E não estou dizendo isso porque finalmente resolveu se divorciar daquele desgraçado. Se amanhã você entrar aqui e disser que mudou de ideia sobre qualquer coisa, vou continuar achando algumas de suas decisões uma merda. Isso faz parte do meu trabalho como pai. Mas existe uma diferença entre achar que você está errada e achar que não é capaz de decidir.

Ela abaixou os olhos para o envelope.

– Eu confio em você, Claire.

Minha filha voltou a me olhar.

A surpresa em seu rosto quase me fez rir.

– Não faz essa cara.

– Que cara?

– Como se eu tivesse acabado de dizer que vou largar tudo e abrir uma pousada.

Rebecca riu.

– Eu também fiquei um pouco chocada.

– Você quer sair da minha sala?

– Não.

Claire voltou a olhar para mim.

– Você está falando sério?

– Estou.

Empurrei o envelope pela última vez.

– As ações são suas. Você vai ocupar a posição que corresponde a elas, terá voto, receberá dividendos e vai aprender a lidar com tudo que vem junto. Se fizer merda, eu vou dizer que fez merda. Se tomar uma decisão contra mim, provavelmente vamos discutir. E se algum dia entrar numa reunião despreparada, eu mesmo vou arrancar sua cabeça antes que os outros acionistas tenham oportunidade. Mas você não vai me devolver isso.

Claire segurou o envelope.

– Vinte e cinco por cento.

– Eu sei contar.

– Você é insuportável.

– E ainda assim você veio até mim.

Ela sorriu.

Rebecca levantou-se e foi até a sobrinha.

– Parabéns, Claire. – Abraçou-a e beijou seu rosto. – E eu digo isso pelas ações, pelo divórcio e principalmente por ter conseguido passar a perna naquele imbecil sem precisar que seu pai declarasse guerra a metade de Seattle.

– A manhã ainda não terminou – falei.

Rebecca olhou para mim.

– Não estraga.

Uma batida na porta interrompeu a conversa. Antes que eu respondesse, Quil entrou carregando uma pasta preta e algumas folhas. Ele olhou primeiro para mim, depois para Rebecca e finalmente para Claire.

– Espero não estar interrompendo uma reunião familiar.

– Está – respondi. – Entra.

Quil soltou um suspiro.

– Sempre bom trabalhar em um ambiente acolhedor.

Ele caminhou até minha mesa e colocou a pasta diante de mim.

– Os documentos que você pediu. Solomon conferiu os contratos preliminares e eu acrescentei os relatórios financeiros dos últimos três trimestres. Faltam duas assinaturas, mas consigo isso até o fim do dia.

– Certo.

Quil assentiu e então voltou-se para Claire.

– Oi, Claire.

Alguma coisa mudou nela.

Foi pequena, mas eu conhecia minha filha.

Claire apertou o envelope contra o corpo e respondeu com uma gentileza que eu não via entre os dois havia muito tempo.

– Oi, Quil.

Ele pareceu perceber também.

– Tudo bem?

Claire respirou fundo.

– Eu preciso conversar com você.

Quil ficou claramente surpreso.

– Comigo?

– Sim.

Ele olhou rapidamente para mim.

– Por que está olhando para mim? – perguntei.

– Não estou.

– Está.

– Foi reflexo.

– Todo mundo está tendo reflexos estranhos no meu escritório hoje.

Rebecca riu atrás deles.

Claire não acompanhou a brincadeira.

– É uma conversa particular, Quil.

A expressão dele se tornou séria.

– Claro.

– Agora, se puder.

Quil demorou um instante antes de responder.

– Podemos ir para minha sala.

Claire assentiu.

– Obrigada.

Ela caminhou em direção à porta, mas parou antes de sair e olhou para mim. Ergueu ligeiramente o envelope.

– Nós ainda precisamos conversar.

– Sobre o quê?

– Sobre minha nova posição na empresa.

– Amanhã.

– Está tentando fugir da primeira reunião com sua nova acionista?

– Estou tentando trabalhar.

O sorriso dela surgiu.

– Até mais tarde, sócio.

Fiquei olhando para minha filha.

– Não força a sorte, Claire.

Rebecca começou a rir.

Claire abriu a porta.

– O quê? Você acabou de dizer que as ações são minhas.

– E continuam sendo. Mas se entrar aqui amanhã querendo mudar alguma coisa no meu andar, eu compro seus vinte e cinco por cento por um dólar.

– Isso não funciona assim.

– Eu sou seu pai. Encontro um jeito.

Quil tentou esconder um sorriso.

– Eu não vou me meter nisso.

Apontei para ele.

– Ótima decisão.

Claire balançou a cabeça.

– Você acabou de fazer um discurso inteiro sobre confiar em mim e levou menos de cinco minutos para voltar a ser um tirano.

– Eu disse que confio em você. Não disse que fiquei bonzinho.

Ela riu e finalmente saiu com Quil.

Esperei a porta fechar.

Rebecca continuava sorrindo.

– Nem começa.

– Eu não disse nada.

– Mas vai.

Ela voltou para a poltrona e se sentou confortavelmente.

– Na verdade, eu ia dizer que foi bonito.

– Então definitivamente não começa.

– Você está orgulhoso dela.

Peguei a pasta que Quil havia deixado sobre minha mesa.

– É minha filha.

– Isso não respondeu.

– Respondeu perfeitamente.

Rebecca me observou por alguns segundos e decidiu não insistir. Conhecia-me bem o suficiente para saber quando já tinha conseguido mais do que esperava.

Abri a pasta.

– Agora, se terminou a sessão de terapia familiar, eu tenho uma empresa para administrar.

– Perfeito. – Ela cruzou as pernas. – Então podemos voltar ao assunto de mamãe e papai chegando a Seattle.

Fechei a pasta.

– Não.

Rebecca abriu um sorriso enorme.

– Jake...

– Não.

– Você nem sabe o que eu ia dizer.

– Você falou "mamãe e papai chegando a Seattle". Já sei o suficiente.

– Mamãe quer saber onde vai ficar.

– Na minha casa.

– E papai quer ficar em hotel.

– Não.

– Ele disse que não quer atrapalhar você e Renesmee.

– Não.

Rebecca começou a rir.

– Você percebe que está tendo uma discussão com duas pessoas que nem estão aqui?

– Estou poupando tempo.

– Papai também disse que não vai usar o avião.

Fechei os olhos por um segundo.

– Rebecca.

– O quê?

– Se Billy Black pretende sair de La Push, vir até Seattle numa cadeira de rodas e ainda escolher avião, hotel e horário, pode avisar que ele criou o filho errado.

Minha irmã já ria abertamente.

– Eu adoraria assistir você dizendo isso na cara dele.

– Eu digo.

– Não diz.

– Rebecca.

– Está bem, está bem. – Ela levantou as mãos, ainda rindo. – Vou avisar que o Don Jacob decidiu tudo.

Olhei para ela.

– Sai da minha sala.

– Também senti sua falta, irmãozinho.

– Agora.

Rebecca levantou-se ainda rindo e caminhou até a porta. Antes de sair, virou-se para mim.

– Você sabe que mamãe vai chegar aqui, ignorar absolutamente tudo que você organizou e fazer o que quiser, não sabe?

Pensei em Sarah Black por dois segundos.

Infelizmente, sabia.

– Sai, Rebecca.

Ela fechou a porta às gargalhadas, e eu finalmente consegui voltar aos documentos sobre minha mesa, embora tivesse certeza de que aquela seria a parte mais simples do meu dia.



O restante do dia passei dentro da Black Enterprises, exatamente como eu esperava e muito pior do que desejava. Depois da conversa com Claire, eu ainda tinha uma sequência de reuniões que não podia adiar, contratos esperando minha assinatura, relatórios financeiros para revisar e uma lista crescente de assuntos que precisavam ser resolvidos antes do casamento. Normalmente, não me incomodava passar doze horas dentro daquele prédio. Durante boa parte da minha vida, trabalhar até tarde havia sido praticamente um hábito. Naquela semana, entretanto, minha tolerância para permanecer no escritório diminuía consideravelmente depois das seis.

A culpa era de Renesmee.

Olhei discretamente para o celular ao lado da pasta enquanto Sam apresentava alguma coisa sobre um contrato que eu deveria estar acompanhando. Havia uma mensagem dela recebida poucos minutos antes. Durante o dia, trocáramos mensagens entre uma reunião e outra. Renesmee estava na Doce Encanto com Alice e Rachel, organizando os últimos detalhes do casamento e, segundo ela, tentando impedir que as duas transformassem uma cerimônia de duzentas pessoas em um evento internacional. Eu havia cometido o erro de responder que duzentas pessoas já eram um evento internacional para alguém que originalmente pretendia apenas colocar uma aliança no dedo dela e levá-la para casa.

A resposta veio quase imediatamente.

Romântico como sempre, Black.

Eu tinha respondido que ela não reclamara do meu romantismo quando aceitara a aliança.

Ela mandou que eu fosse trabalhar.

Estava tentando. – Jacob.

Levantei os olhos e Sam estava me encarando.

– O quê?

Paul, sentado à minha direita, olhou para o celular sobre a mesa e depois para mim.

– Ele não ouviu uma palavra.

– Ouvi.

Embry recostou-se na cadeira.

– Então o que Sam acabou de dizer?

Fechei a pasta diante de mim.

– Que vocês três estão começando a esquecer quem paga os salários nesta sala.

Sam soltou um suspiro.

– Foi exatamente isso.

Paul riu. – Apaixonado é uma coisa constrangedora.

Olhei para ele. – Quer descobrir o que também é constrangedor? Desemprego.

– Pronto. Voltou.

Sam empurrou uma folha na minha direção.

– Agora que temos novamente a atenção do presidente, posso continuar?

– Você nunca perdeu minha atenção.

– Claro.

Peguei o documento e comecei a lê-lo.

– Você estava falando da renovação com a companhia alemã.

Sam me olhou por alguns segundos antes de assentir. – Então estava ouvindo.

– Eu consigo olhar para o celular e continuar sendo mais competente do que vocês. Não é uma habilidade particularmente impressionante.

Embry soltou uma risada.

– Ele vai ficar insuportável até o casamento.

– Depois piora – Paul respondeu. – Vai voltar de lua de mel acreditando que é um homem renovado.

Levantei os olhos do papel. – Vocês estão muito interessados na minha lua de mel.

– Ninguém está interessado na sua lua de mel – Sam respondeu imediatamente. – Estamos interessados em saber por que você resolveu reorganizar três semanas de compromissos em cinco dias e transformou nosso calendário num inferno.

– Porque vou ficar uma semana fora.

Paul arregalou os olhos de maneira exagerada.

– Uma semana inteira? Jacob Black vai passar sete dias sem entrar neste prédio?

– Se vocês conseguirem administrar uma empresa durante sete dias sem mim, sim.

Embry olhou para Sam. – Estamos fodidos.

– Profundamente – Sam concordou.

– Continuem e eu transformo uma semana em duas só para obrigar vocês a trabalhar.

Paul riu.

– Não faria isso. No terceiro dia estaria ligando para perguntar sobre faturamento.

– Não vou ligar.

– Vai.

– Paul.

– Tudo bem.

Voltei ao relatório, mas tive de admitir, pelo menos para mim mesmo, que ele provavelmente estava certo. Organizar uma semana completamente fora da empresa estava sendo mais difícil do que eu esperava. Eu tinha passado décadas construindo uma rotina na qual praticamente todas as decisões relevantes terminavam sobre minha mesa. Não pretendia carregar aquela rotina para a lua de mel. Renesmee já havia deixado bastante claro que, se me pegasse trabalhando, meu celular poderia sofrer algum tipo de acidente envolvendo água.

Eu acreditava nela.

Por isso estava tentando deixar tudo organizado.

– Quero todas as operações acima do limite habitual encaminhadas antes do casamento – falei, voltando ao assunto. – Durante aquela semana, Sam assume as decisões executivas. Paul fica responsável pelos contratos pendentes e Embry acompanha as operações externas. Qualquer coisa que possa esperar, espera.

Embry ergueu as sobrancelhas. – E o que não puder?

– Resolve.

– Essa orientação é muito esclarecedora.

– Foi suficiente para mim durante trinta anos.

Sam virou algumas páginas. – E se surgir alguma operação que precise obrigatoriamente da sua autorização?

– Você me liga.

Paul abriu um sorriso. – Acabou de dizer que não vai atender.

– Não vou atender vocês por qualquer merda. Existe uma diferença. – Quem decide o que é "qualquer merda"?

– Sam.

Paul olhou para ele. – Estamos fodidos de novo.

Sam ignorou.

– Eu consigo segurar uma semana. Desde que você realmente desapareça e não passe sete dias telefonando para saber o que está acontecendo.

– Pretendo estar ocupado.

Embry começou a sorrir. – Não faça essa piada.

– Eu nem falei nada.

– Mas pensou.

– Definitivamente.

Apontei a caneta para ele. – Eu conheço sua esposa. Posso contar que você passa reuniões discutindo minha vida sexual.

O sorriso dele desapareceu. – Vamos voltar aos contratos.

Paul riu alto. – Covarde.

– Casado – Embry corrigiu. – Existe diferença.

Continuei revisando os documentos e, durante os vinte minutos seguintes, conseguimos finalmente nos comportar como quatro adultos administrando uma empresa. Sam apresentou os números atualizados, Paul explicou duas alterações contratuais e Embry trouxe informações sobre uma negociação que deveria ser concluída antes da minha viagem. Fiz algumas observações, risquei duas cláusulas que não aceitava e deixei outras três para Solomon analisar.

Já passava das sete quando olhei para o relógio.

Queria terminar aquilo.

Eu havia prometido a Renesmee que iria ao apartamento dela naquela noite e pretendia cumprir. Depois do dia que tive, a ideia de entrar naquele apartamento, encontrar Belinha provavelmente espalhada pelo sofá e Renesmee reclamando que eu havia chegado tarde parecia consideravelmente melhor do que qualquer coisa que ainda estivesse sobre minha mesa.

– Certo. Falta o relatório da aquisição de Tacoma – falei, procurando entre os documentos. – Onde está a análise de risco?

Paul levantou os olhos do notebook.

– Com Quil.

– Por quê?

– Ele ficou responsável pela revisão final.

Estendi a mão. – Então pega com ele.

Paul não se moveu. – Não dá.

– Por quê?

– Porque ele não está aqui.

Franzi o cenho. – Onde está Quil?

Os três trocaram olhares. Não gostei.

– Por que vocês estão fazendo essa cara?

Embry respondeu primeiro. – Ele saiu.

– Eu percebi essa parte. Perguntei onde está.

– Não sabemos.

Olhei para Sam. – Você sabe?

– Não.

– Paul?

– Se soubesse, teria respondido.

– Não seja engraçadinho.

Paul fechou o notebook. – Ele saiu no começo da tarde. Não disse para onde ia.

Aquilo chamou minha atenção. – No começo da tarde?

– Pouco depois do almoço – Embry confirmou. – Eu encontrei com ele no corredor. Perguntei se iria voltar para a reunião das quatro e ele disse que provavelmente não.

– Provavelmente?

– Foi o que ele disse.

Recostei-me na cadeira. – Quil nunca sai no meio do expediente sem avisar.

Sam assentiu. – Também achei estranho.

– Ele parecia estar com algum problema?

Paul pensou por alguns segundos.

– Nervoso.

– Quil?

– Sim.

– Nervoso como?

– Não sei explicar. Distraído. – Paul apoiou os braços na mesa. – Falei com ele duas vezes e precisei repetir as duas. Depois ele pegou as coisas e foi embora.

Embry completou: – Achei que você soubesse. Ele tinha acabado de sair da sua sala.

Olhei imediatamente para ele.

– Da minha sala?

– Mais cedo.

Então me lembrei.

Claire.

Quil entrara para entregar os documentos enquanto Claire ainda estava comigo. Minha filha havia pedido para conversar com ele em particular e os dois tinham saído juntos para a sala dele. Eu não tinha pensado mais no assunto porque Claire tinha acabado de descobrir que Ethan armara a traição que destruíra seu relacionamento com Quil. Era natural que quisesse conversar com ele.

O que eu não sabia era o que havia acontecido depois daquela porta se fechar.

– Ele saiu daqui depois de conversar com Claire – falei.

Sam ergueu as sobrancelhas. – Claire esteve aqui?

– Esteve.

Paul olhou para mim. – E conversou com Quil?

– Foi o que acabei de dizer.

Embry apoiou-se na cadeira. – Isso explica muita coisa.

Olhei para ele. – Explica o quê?

– Nada.

– Você acabou de dizer que explica muita coisa.

– Eu me expressei mal.

– Embry.

Ele soltou o ar. – Só estou dizendo que Quil saiu daqui parecendo que tinha levado uma pancada na cabeça. Se conversou com Claire antes, talvez tenha alguma relação.

Paul concordou.

– Faz sentido.

– O que não faz sentido é vocês três estarem analisando a vida pessoal dele em vez de saber onde está o relatório que pedi.

Sam fechou a pasta. – Você perguntou.

– E já me arrependi.

Peguei o celular.

Nenhuma mensagem de Quil.

– Deixa – falei voltando a olhar para os três. – Eu resolvo isso amanhã.

Paul me encarou com falsa surpresa. – Você vai deixar um relatório para amanhã porque Quil está com problemas pessoais?

– Quer que eu mude de ideia?

– Não. Só estou registrando esse momento histórico.

– Registra também que posso mandar você para Tacoma pessoalmente às seis da manhã.

– O relatório pode esperar.

Sam começou a recolher os documentos.

– Então encerramos?

Olhei novamente para o relógio. – Encerramos.

Peguei o celular e estava prestes a mandar uma mensagem para Renesmee avisando que finalmente estava saindo quando o aparelho começou a vibrar em minha mão.

Rachel.

Atendi imediatamente.

– Fala.

A voz da minha irmã veio rápida do outro lado.

– Jake, vem para a Doce Encanto. Agora.

Meu corpo inteiro ficou alerta. – O que aconteceu?

– Ethan está aqui.

Levantei-me imediatamente.

Sam, Paul e Embry pararam o que estavam fazendo. – Onde está Renesmee?

– Aqui.

– Ele encostou nela?

– Não. Os seguranças estão segurando ele do lado de fora, mas está bêbado, completamente alterado e...

– Rachel.

Minha irmã se calou.

– Nessie está segura?

– Está. Eu estou com ela, Alice também. Mas ela saiu para falar com ele e esse desgraçado está gritando um monte de coisas.

Peguei as chaves sobre a mesa.

– Estou indo.

– Jake, ele está fora de controle.

– Eu ouvi.

Atravessei a sala, e Sam levantou-se imediatamente.

– O que houve?

Levantei uma mão para que esperasse enquanto continuava ao telefone.

– Rachel, escuta. Manda os seguranças manterem Ethan longe da Renesmee. Ninguém deixa aquele filho da puta chegar perto dela. Se ele tentar avançar, eles tiram Nessie dali imediatamente.

– Certo.

– E você fica com ela.

– Eu estou com ela.

– Não deixa Renesmee discutir sozinha com ele.

Rachel soltou o ar.

– Tenta dizer isso para sua noiva.

Apesar da situação, eu sabia exatamente o que ela queria dizer.

– Não discute com Nessie. Só fica perto dela. Estou chegando.

– Está bem.

Desliguei.

Sam já tinha colocado o paletó.

– Ethan?

– Na Doce Encanto.

Paul se levantou. – Vamos com você.

– Não.

– Jacob...

– Eu disse não.

Embry franziu o cenho. – Se ele está alterado...

– Existem seguranças lá. Não preciso transformar a frente da doceria da minha noiva numa reunião da diretoria da Black Enterprises.

Guardei o celular no bolso e caminhei para a porta.

Sam veio atrás de mim.

– Você está com uma cara péssima para alguém que pretende resolver isso conversando.

Parei e olhei para ele.

– Sam, Ethan passou a manhã descobrindo que perdeu as ações, perdeu a esposa e agora apareceu bêbado no estabelecimento da mulher com quem manteve uma segunda família durante seis anos. Eu não faço ideia do que ele pretende e não vou ficar aqui esperando descobrir.

– É exatamente por isso que estou dizendo para não ir sozinho.

– Eu não estou indo sozinho. Tenho segurança lá.

– Não estou falando de segurança.

Entendi perfeitamente. – Não vou matar Ethan.

Paul se aproximou.

– Ninguém falou em matar.

Olhei para ele. – Então ótimo.

Embry cruzou os braços. – Você percebe que dizer "não vou matar Ethan" sem ninguém ter perguntado deixa a frase consideravelmente menos tranquilizadora?

– Boa noite, Embry.

Abri a porta.

Sam ainda tentou:

– Jacob.

Virei o rosto.

– Eu sei o que estou fazendo.

Ele me conhecia há tempo suficiente para perceber que não conseguiria me impedir. Apenas assentiu.

– Liga se precisar.

– Não vou precisar.

Saí da sala e caminhei rapidamente pelo corredor. Enquanto esperava o elevador, tirei o celular do bolso e abri a conversa com Renesmee. A última mensagem dela continuava ali, enviada menos de meia hora antes, reclamando que Alice queria acrescentar mais uma opção de doces à mesa do casamento. Eu deveria estar indo para o apartamento dela. Deveria terminar aquela noite discutindo sabores de alguma coisa que eu provavelmente comeria sem saber o nome.

Em vez disso, Ethan Fitzgerald estava novamente no meio da nossa vida.

As portas do elevador se abriram e entrei.

Liguei para o chefe da equipe de segurança da Doce Encanto antes mesmo de as portas se fecharem.

– Senhor Black.

– Estou a caminho. Até eu chegar, sua única prioridade é Renesmee. Ethan não chega perto dela. Se ele tentar, vocês o afastam.

– Sim, senhor.

– Não estou pedindo.

– Entendido.

Desliguei e guardei o celular.

Agora Ethan teria a minha atenção.