Jack estava entediado. Entediado e preocupado com o fato de não conseguir fazer contato com Norte ou nenhum de seus amigos. Ele também não parava de pensar nas crianças. Breu não estava para brincadeiras e ele sem conseguir sair daquele lugar estranho.

O lugar poderia ser estranho, mas as pessoas, pelo menos as que ele conseguia entender, eram simpáticas e gentis. O reino em si era aconchegante. Um pouco quente demais para ele, mas nada que uma boa nevasca não resolvesse. Jack riu imaginando aquele enorme rio todo congelado. Mal sabia ele da ironia que era esse pensamento.

Ele sempre estava com o Globo comunicador do Norte perto dele, mas era a mesma coisa que nada, não conseguia nada além de uma névoa escura e densa quando tentava localizar seus amigos. Isso o preocupava. Tentava também falar com Jaime e várias vezes pensou estar escutando a voz da Sofia, mas logo descobria que era apenas impressão. Sentia falta delas. Jack colocou o Globo ao seu lado, na grama e suspirou. Olhou para o céu. O dia estava claro, com um clima bom e ele estava à sombra de uma árvore que ficava perto de um lago. Ele precisava encontrar um jeito de voltar, só não sabia como.

Encostado no tronco da árvore, Jack ficou observando o movimento. O reino era alegre e feliz. Ele sentia uma sensação de paz ali e àquela altura já havia feito amizade com todas as pessoas que encontrava. Olaf era seu parceiro de traquinagens. Várias vezes, os dois foram até o castelo de gelo da rainha para irritar o homem de gelo e os bonequinhos de neve que ficavam por lá. Era uma festa completa. Pensou que, quando conseguisse voltar para casa, tentaria trazer Jaime e Sofia para conhecê-los.

Ele gostava de passar o tempo que sobrava com Kristoff, que lhe ensinou a usar o trenó e em troca aprendeu onde encontrar os melhores blocos de gelo para o reino e Anna, que, apesar de lhe dar dor de cabeça de falar rápido e de várias coisas ao mesmo tempo, Jack gostava de ficar conversando com ela. Ele só não conseguia entender a rainha. Ele via que ela era uma boa pessoa, isso ficava claro na forma como ela travava seus súditos e o amor que ela demonstrava para com sua irmã. Mas... Ele não conseguia entende-la. Às vezes ela era acessível, mas a maior parte era particularmente irritante. Jack, ao mesmo tempo que se irritava com ela sentia algo estranho ao estar perto.

Pensando isso, irritado, gritou congelando gotas de água de um peixe que brincava alegremente no lago. Instintivamente pediu desculpas a ele e começou a rir da situação. Começou a congelar as gotas de água transformando-as em cristais de gelo. Um mais perfeito que o outro. Ficou distraído e não notou que as pessoas olhavam sua brincadeira, uma em particular.

Elsa queria entender mais do estranho, como viu que ele estava distraído foi chegando perto devagar. Sempre que tentava conversar com ele, os dois terminavam discutindo. Ela o achava arrogante e inconsequente. E isso a irritava. Irritava ainda mais que ele não queria dizer quem ele era de verdade, como conseguiu seus poderes e o que estava fazendo em seu reino. Elsa, que sempre foi desconfiada, sempre mantinha um pé atrás com ele. Ela só queria entender porque, todas as vezes que estava longe, sentia vontade de estar perto dele.

Anna apenas observava de longe. Já sabia o que estava acontecendo, mas se fosse falar para sua irmã, ela negaria veementemente. Elsa era teimosa demais para admitir que estava encantada com o forasteiro. Então, resolveu apenas observar e esperar o momento certo para mostrar à irmã a verdade.

Jack notou uma presença chegando perto dele e instintivamente procurou seu cajado. Lembrou-se que o havia perdido e se sentia completamente indefeso. Mas ele ainda possuía alguns truques na manga e cuidadosamente criou uma bola de neve pequena. Olhou para a bola perfeitamente redonda em sua mão e começou a rir tamanha a besteira que era. Ao invés disso, tentou descobrir quem se aproximou dele tão cuidadosamente. Era a rainha. Jack pensou no que ela queria com ele e começou a ficar nervoso. Respirou fundo, não queria passar vergonha na frente dela.

Olhou para o lado esquerdo e viu uma flor que lembrava os olhos dela. Se levantou e pegou a flor delicadamente. Então a envolveu numa bolha de ar. Ele sabia que aquilo iria preservar a flor para sempre, bem, pelo menos enquanto aquela bolha durasse. Como a rainha possuía poderes singulares, ele sabia que aquela flor duraria por anos. Então, ele se aproximou dela. Jack achou engraçado o fato de ela estar “escondida” atrás de uma árvore.

– Rainha Elsa? – Ele perguntou baixo e gentilmente para ela. Ela se assustou e corou ao vê-lo tão perto.

– Han... Eu... Bem, é que...

– Isso é para a senhora! – Jack falou entregando-lhe a bolha transparente. – É uma flor. Ela.... Tem a cor de seus olhos. – Ele falou meio sem jeito. Elsa ficou olhando para a bolha e para ele. Respirou fundo e sorriu.

– Você sabia que ela era a última de sua espécie? – Elsa falou sem brigar com ele. Jack sorriu.

– Desculpe! – Falou ele rindo. – É como forma de agradecimento por ter cuidado de mim. Não sei onde estaria agora caso não tivesse sido encontrado por sua irmã.

– Tudo bem. Está tudo bem. Mas como faz isso?

– Diz.... Essa bolha? É fácil. Uma fada do inverno que me ensinou há muito tempo. Se a senhora quiser eu lhe ensino.

– Fada?

– Sim. Ela tinha a pele completamente branca e seu cabelo parecia mais um cubinho de gelo fosco.

– Você está me dizendo que fadas existem? – Elsa perguntou com uma curiosidade infantil nos olhos. O que fez Jack sorrir.

– Bem, sem querer ser atrevido, mas.... Se existem pessoas capazes de controlar o gelo, por que não existiria fadas? Aliás, uma das minhas grandes amigas é uma, sabia? Ela “compra” os dentes das crianças.

– Como assim ela compra?

– Então, quando os dentes de uma criança caem, elas colocam debaixo do travesseiro e a Fadinha troca por moedas.

– Por que ela faz isso?

– Bem, segundo ela, é onde ficam guardadas as primeiras lembranças da infância. Ela os guarda para quando houver alguma emergência. Acredite, rainha, isso funciona mesmo. – Jack falou olhando para o céu voltando a ficar vago.

– Então.... Você vai me contar quem é você e como conseguiu seus poderes? – Elsa perguntou ganhando novamente a atenção dele.

Ele começou a explicar sobre a sua família, mas a conversa foi interrompida com Anna que precisava da Elsa para tentar encontrar a carga perdida. Era uma carga importante que todos achavam que já havia chegado em seu destino, mas aparentemente o barco perdeu-se no mar devido a uma forte tempestade. Isso chamou a atenção de Jack. Será que foi devido a briga deles contra o Breu. Sem demonstrar maiores preocupações, ele falou que a conversa poderia esperar um melhor momento.

Anna percebendo a aproximação dos dois resolveu convidar Jack para o jantar mais tarde que ele gentilmente aceitou. Elsa voltou a agradecer o orbe com a flor e foi juntamente com sua irmã para conversar com os ministros dos reinos do Sul. O que Elsa menos queria agora, era conflitos com a família de Hans.

– Estão se dando bem agora? Vi vocês dois sorrindo. – Anna perguntou com um sorriso cínico no rosto.

– Não comece! – Elsa falou envergonhada. – Ele apenas agradeceu a hospitalidade.

– Claro que sim. Mas... Ele não é tão ruim assim depois que a gente conhece, não é verdade? – Ela perguntou se afastando deixando Elsa com suas tarefas.

A reunião foi complicada. Os ministros estavam irritados por sua mercadoria não ter aportado no porto, mas Elsa conseguiu faze-los entender que foi devido a tempestade que assolou o reino há algumas semanas. Tempestade esta que foi vista por todo reino do sul. Eles também estavam tendo problemas com tempestades estranhas e foras de época ultimamente. Elsa, como prova de amizade, além de os convidar para jantar, chamou Kristoff para que ele pudesse separar as mercadorias exigidas para a viagem de volta. Mesmo não gostando de ter Hans e seus irmãos por perto, Kristoff fez o que lhe foi pedido.

Hans estava calado o tempo todo, mas sempre que via Anna e Kristoff juntos sentia um ódio enorme. Primeiro porque era ele quem poderia estar no Kristoff, depois... Como Anna pôde trocá-lo por um simples catador de gelo do reino? Tudo bem que ele tentou matá-la, mas ele estava num momento ruim de sua vida. Pelo menos era isso que ele vinha pensando esses anos todos. Desde o ocorrido, seus irmãos o mantém sob rédea curta, sempre com alguém perto para evitar que o mesmo crie problemas.

Enquanto isso Jack tinha outros problemas. Ele fora convidado para jantar com a rainha e sua família, o que, claro, exigia roupas melhores da que as que ele estava trajando. Mas como conseguir roupas novas se ele não tinha um centavo no bolso?

– Procurando roupas novas? – Kristoff perguntou encostado na porta do quarto de Jack.

– El... Quer dizer, a rainha me convidou para jantar com vocês hoje. Não posso chegar para um jantar com esses trapos, não é? – Jack falou procurando alguma coisa que pudesse fazer de roupa para usar. — E você? Não era para estar ocupado com alguma coisa do castelo?

– Fugindo do ex da Anna.

– Oi?

– Longa história. Outra hora eu conto. Agora precisamos achar roupas dignas de um jantar com a rainha! Venha, conheço um lugar perfeito para isso.

– Kristoff eu...

– Deixe disso, somos amigos, e mesmo assim, quero um pretexto para sair daqui. Vamos. Não fica tão longe.

Jack e Kristoff foram até o alfaiate do reino. Ele aproveitou que Jack estava sendo atendido e resolveu ir atrás de algo para ele também. Queria provar para aquele idiota do Hans que ele podia se comportar como um príncipe, se ele quisesse. Mas para isso, ele também deveria se parecer mais como um.

Depois de pouco mais de duas horas, Kristoff e Jack saíram da loja sorridentes. Eles conversaram sobre amabilidades evitando a verdadeira conversa que Jack sabia que ele queria ter. Era melhor ele abrir logo o jogo com eles, até porque, se ele chegou até lá, Breu também poderia, se é que já não estava a caminho.

– Você quer conhecer minha família? – Kristoff perguntou de uma hora para outra.

– Diz... Os Trols?

– Sim, soube que o papai Trol quer mesmo conhecer você.

– Sim.... Por que não? – Jack falou sem convicção nenhuma. Quem ele menos queria conversar era com um Trol que mais parecia uma pedra. Ele tinha medo do que iria escutar.

– Não se preocupe, eles são legais.

Jack e Kristoff chegaram à clareira e logo encontraram os trols. Eles estavam fazendo mais uma das reuniões que eles sempre fazem. Todos eles ficaram felizes ao ver Kristoff que foi logo brincando com os menores. Jack ficou olhando de longe rindo. Ele achava engraçado ver um monte de pedras falando.

– Olhem, onde está o papai? Trouxe um amigo para ele conhecer.

– Então esse é o homem de gelo que todos estão falando? – Jack ouviu de uma pedra que deduziu ser o papai que Kristoff tanto fala.

– Bem, acho que sim. – Ele falou meio sem jeito.

Jack ficou ali, parado enquanto o trol ficava olhando fixamente para ele. Isso era desconcertante. De algum modo, parecia que aquela velha pedra iria descobrir coisas que nem mesmo Jack sabia que existiam sobre ele.

– Não se preocupe tanto, você vai reencontrá-los novamente. E será peça importante na guerra que está por vir. Você só tem que, primeiro, entender seus sentimentos. – Ele falou gentilmente, por fim.

– Como eu faço para entrar em contato com eles? Eles devem estar bastante preocupados comigo.

– Sim, estão, mas seus amigos são fortes. E não se preocupe, eles o encontrarão. E você ainda ajudará bastante nossa rainha.

– Elsa?

– Sim. Escute seu coração e confie nele. Vocês têm algo muito peculiar além dos poderes. Quando você conseguir entender isso, tudo irá se resolver.

– Kristoff... Elas vão precisar de toda ajuda possível. Não saia de perto da princesa. Um perigo do passado ronda a vida dela novamente. Não a deixe sozinha com ele.

– Certo papai. Se ele tentar fazer mal novamente a Anna... – Kristoff falou baixo.

– Agora vão meus filhos. E boa sorte. – A velha pedra se afastou rolando. Jack e Kristoff começaram a fazer o caminho de volta ao castelo.

Ambos permaneceram calados por tempo demais. Jack estava ansioso para encontrar seus amigos novamente, mas tentava entender as palavras do trol. Escutar seu coração? Como assim? Até aquele momento, Jack nem havia parado para pensar que possuía um coração. Foi perdido em pensamentos que a imagem de Elsa sorrindo invadiu sua mente tão forte que ele precisou parar para não cair do cavalo.

– Você está bem?

– Pensando nas palavras do seu pai. Aliás, como ele pode ser seu pai? – Jack perguntou recomeçando a cavalgar.

– Me perdi quando era criança. Na mesma época em que a rainha descobriu seus poderes. Eles me acharam e cuidaram de mim e do Sven durante esse tempo todo.

– A rainha.... Me conte mais sobre ela.

– Bem, eu também não sei muito mais que você. Ela é uma pessoa reservada. Passou anos trancada no castelo evitando o contato com as pessoas por não conseguir controlar seus poderes. Ela quase congelou o reino para sempre. – Kristoff falou dando uma gargalhada.

– Ficar trancada? Isso é horrível.

– Foi há muito tempo. Ela aprendeu a controlar os poderes e tudo ficou bem.

– Você sabe se ela.... Tem algum... – Ele estava perguntando de forma rápida, atrapalhada.

– Ninguém conseguiu conquistar o coração dela. – Kristoff falou rindo de maneira estranha pra Jack. – Ainda!

– Ora.... Pare com isso! – Jack falou começando a cavalgar mais rápido apostado corrida com ele. E jogando uma bolinha de neve no ombro de Kristoff.

Eles chegaram ao castelo empatados. Ambos suados, mas felizes. Rindo. Jack jamais havia tido alguém assim tão próximo para esse tipo de divertimento.

– Vamos, temos que nos arrumar, afinal de contas, hoje você irá jantar com a rainha! – Kristoff falou levando os cavalos para o estábulo.

De repente o estômago de Jack se revirou. Ele teria que se comportar para causar boa impressão a Elsa. De alguma forma, ele queria que ela o visse como alguém... Como uma opção. E ele nem sabia porque queria isso.