Mariana ainda era jovem, capaz de iniciar uma nova graduação, mudar de área de atuação. Pagaria o preço para obter a carta de alforria. Preferiria morar num quarto de pensão e dividir banheiro com outras pessoas, mas ter um cantinho para chamar de seu, não era necessário tanto espaço, precisava ir à luta e não ser sombra de ninguém.

Trabalharia em qualquer ocupação onde estivesse livre de Luís, queria o privilégio de caminhar na rua e enxergar o mundo à sua volta como se tivesse despertado de um longo sonho. Retribuir sorrisos, ouvir mais do que falar, encontrar todo dia pelo menos cinco motivos dos mais variados para tornar a gratidão um hábito, voltar a escrever nos diários de papel, explorar ao decorrer das linhas os avanços e retrocessos daquele reinício que se avizinhava.

Nada de perfil de casal, seu nome era Mariana Mendonça Pinheiro e não Luís Mariana. Estava cansada de ouvir aquele sujeito pisando na sua honra, desferindo agressões verbais e psicológicas sem alterar a entonação. Era patético mentir nas legendas das fotos que a vida era um mar de rosas e ter um padrão que permitisse conforto financeiro, pequenos prazeres que uma simples vassala de firma jamais teria, todavia, a dignidade pedia o lugar de fala.

Tinha consciência de que tão logo seu posto vagasse na firma, outra pessoa o tomaria sem remorso. Ela ainda se lembrava dos pais um tanto quanto atônitos com a pressa daquele rapaz em formalizar o relacionamento e das palavras sábias de sua progenitora, alertando-a para ser cautelosa e pelas entrelinhas dizendo que humilhação nenhuma valia um prato de comida.

Mariana era uma garota como tantas outras, da época do ficar, teve suas paquerinhas adolescentes, porém nunca nenhum deles evoluiu para um relacionamento mais sério e vasculhando a vida de Luís, ela descobriu que ele teve duas noivas. O problema passava longe de não ser a primeira mulher da vida dele e sim da mentira contada como se fosse algo banal esconder de alguém um segredo importante e de tanto viver de invenções, não distinguir mais quem era o Luís Real e o Luís Ideal.

Iniciar um relacionamento contando mentiras é semelhante a erguer uma imponente residência com pilares que não serão capazes de suportar a primeira tormenta mais intensa. As inverdades ceifam a confiança, abrem precedentes para que reinem o medo, o desrespeito, a mágoa, a total desconsideração para com a outra parte.

Pior do que descobrir que foi ludibriada por um larápio foi garimpar a internet atrás das antigas companheiras de Luís e tomar conhecimento de todas as atrocidades cometidas, ler aqueles textos todos descrevendo a dinâmica que perdurava durante todo o relacionamento e o difícil caminho até a superação.

O coração de Mariana estava apertado deveras e ela pensava com horror que naquelas noites em que ele saía com os amigos, voltava embriagado e um pouco agressivo, força essa sentida durante as relações e evita-lo piorava o humor dele, desacostumado a ouvir não.

Mariana olhava as horas e era tarde, tarde da noite...