Mariana fechava os olhos enquanto a melodia lhe invadia a alma. A letra, tão bela composição, fazia sentido e o choro transbordava sem pudor, inundando as bochechas, manchando as folhas de papel, gostava de estar só, das noites em que Luís, o sufocador da relação, argumentando “querer espaço”, saía de casa e trancava o apartamento por fora.
Costumava chorar debaixo do chuveiro, quando as lágrimas se misturavam sem ressalvas àquela água que nunca seria suficiente para deixa-la limpa, resgatar a dignidade esmagada. Pudera ela estar de volta em seu antigo quartinho, perto dos seus pais, no final de cada dia despedir-se de todos, fechar a porta e mergulhar em seu mundinho até os olhos pesarem de tanto sono. Pudera ter de volta sua cama para deitar na posição de que mais gostava e não ser invadida por alguém que naquela hora era tudo, exceto humano.
Ainda que já estivesse formada, não tinha chances de promoção dentro da empresa, estava cansada de sentir culpa por detestar aquela rotina e as atividades que não a preenchiam como ser humano porque almejava exercer uma função na qual pudesse contribuir para a sociedade.
Arrependia-se amargamente de ter escolhido Ciências Contábeis no lugar de Letras, História ou Pedagogia. No papel de professora teria a oportunidade de compartilhar o saber com aqueles que viriam a construir o futuro e aprenderia muito com eles, não viveria apenas refém de metas, atrás de um computador, ouvindo fofocas e vendo os famosos puxadores de tapete arquitetando estratégias para obterem promoções.
Seu grande sonho era a Pediatria, porém sucessivas reprovações no vestibular aliadas a todas pressões sociais inerentes a uma mulher, desanimaram-na de persistir e eis que para ter um diploma escolheu estudar Ciências Contábeis na modalidade a distância, comparecendo ao polo de apoio educacional para realizar as provas, entretanto, quando visitava as dependências da instituição, notava que as atividades mais interessantes e edificantes eram realizadas pelos alunos que cursavam Serviço Social e Pedagogia, entretanto, a cobrança para se formar era grande e a grade da opção que escolhera era tortuosa, cada módulo concluído era um a menos de angústia.
Mariana bem pode se recordar de quando ingressou como estagiária naquela firma. Havia sido rejeitada em tantos recrutamentos por não ser poliglota nem ter vasta experiência na área que por ora se sentia agradecida de estar naquele lugar que a ajudaria a se formar. Estava sendo um período difícil de sua vida porque não tinha mais amigos íntimos, todos se casaram e tinham outro círculo de amizades, outros interesses, sem contar no TCC, nas noites em claro assistindo a videoaulas maçantes e notando cada vez mais que estava longe de ser aquela menina de olhos cintilantes e alma repleta de sonhos, para quem o céu jamais seria o limite.
A antipatia entre colegas de trabalho do sexo oposto pode ser cômica e romantizada, mas no caso de Mariana era além do “eu não vou com a cara desse sujeito”, era a intuição dela lhe avisando que seria prudente tomar distância de Luís.
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