Amor em 4 atos
3 3º ato: Do you
Notas iniciais
I know what we have is dead and gone
Too many times I made you cry
And I don't mean to interrupt your life
I just wonder, do I ever cross your mind?
I just wonder
Do you ever
Think of me
Anymore
Do you?
Capota do carro levantada, rock nas alturas, olhos na estrada... Depois de dez anos, eu estava voltando para Nova Orleans, e até chegar lá, confesso que fiquei me perguntando porque exatamente eu estava voltando. Elijah ia casar com Haley, e a noiva tinha uma filha com Klaus, ou seja, ela era minha cunhada duas vezes. Ou pelo menos era o que eu gostava de dizer a ela. Mas esse não era um motivo pertinente para me fazer ficar de vez na cidade. Eu sabia qual era a razão só não queria assumir...
—Hã... fala logo o que você tá me escondendo, Elijah. — exigi. Meu irmão mais velho nunca foi bom em mentir, e até pelo telefone eu podia saber quando ele estava tentando omitir algo.
—Eu não estou lhe escondendo nada, Rebekah. — respondeu visivelmente incomodado.
—Ah, faça me o favor! A grande notícia além do casamento de Elijah, é que o nosso querido amigo Marcel Gerard irá pedir a jovem e bela Camile em casamento no jantar que dará essa semana. Uma pena né, irmãzinha?
A notícia que Klaus largou como uma bomba fez com que eu quisesse sumir.
Remoí aquela história por dias a fio, tendo o sentimento de adolescência voltando a cada noite não dormida. Eu não conseguia entender como uma coisa daquela podia me matar por dentro depois de tantos anos. Há exatos dez anos eu não via Marcel e não sabia se teria condições de vê-lo novamente.
—Oh meu Deus, você chegou! — Haley exclamou assim que me viu saindo do carro. Praticamente pulou com Hope no colo, vindo na minha direção.
—Claro que eu cheguei. — respondi a abraçando e depois focando minhas atenções na minha linda sobrinha. — E você hein princesinha da tia? Tá enorme!
Peguei Hope no colo, e minha cunhada pegou minha mala, me acompanhando conforme entrávamos na mansão. A propriedade era da minha família há mais de um século, desde que os primeiros Mikaelson chegaram a essas terras em 1912. A casa era enorme e tinha mais de cinco quartos, lembro que quando era criança, Klaus e eu brincávamos de pique esconde dentre as várias passagens que há disfarçadas nas paredes revestidas de madeira nobre da mansão.
Vindo da cozinha, Elijah me viu e abriu um sorriso. Me abraçou, e depositou um beijo na minha testa como de costume.
—Você chegou. Seu quarto está pronto para lhe abrigar o tempo que quiser.
Eu achava engraçado como o quão fundo os ensinamentos ingleses de mamãe estavam enterrados em Elijah. Sempre impecavelmente vestido, e com linguagem correta. Era um verdadeiro lorde cheio de classe.
—Espero então que me aguentem por muito tempo. Voltei pra ficar. — anunciei, observando a surpresa nas feições de Elijah e a felicidade no sorriso de Haley.
—E por que dessa mudança repentina?
—Não se envaideça, Elijah, ela não vai ficar por nossa causa. — saindo das portas duplas do segundo andar, descendo as escadas, meu irmão do meio, Klaus veio exibindo seu cínico sorriso. Pegou sua filha dos meus braços, e me lançou uma piscadela — A permanência de Rebekah tem a ver com o noivado de Marcel; não é mesmo querida irmã?
Se fosse possível eu teria fulminado Klaus e aquele sorriso fajuto somente com o olhar. Por que ele sempre tinha que ser tão bom em prever minhas ações? O olhar de Elijah corria de mim para o bastardo do meu irmão que ostentava seu sorriso como se nada tivesse acontecido.
—Isso é verdade, Rebekah?
—Mas é claro que não! Você não vê que Nick continua com o mesmo humor mórbido e se diverte as custas dos outros?
—Ah e não te incomoda nenhum pouco saber que Marcel finalmente seguiu em frente, e irá noivar?
Respirei fundo, tentando controlar minha vontade de acertar a cara de Nicklaus.
—Nicklaus, por favor, deixe Rebekah em paz. — Elijah disse diplomático. — Você sabe que é bem vinda aqui pra ficar o tempo que quiser, seja vinte dias ou vinte anos, minha irmã.
Acenei com a cabeça concordando, enquanto os braços firmes do meu irmão lorde enlaçavam minha cintura me puxando para mais perto. Deixei meus familiares no térreo e levei minhas coisas para o quarto que foi meu a vida toda. Entrar lá me dava dor na alma. Cada canto daquele cômodo me trazia lembranças da melhor época da minha vida, quando tudo de bom se resumia a ter Marcel comigo.
—Cresce Rebekah! — exclamei para mim mesma.
Lá estava eu, no local mais confuso, agitado e colorido do Quartel Francês, Bourbon Street. Precisava de algumas coisas, e eu lembrava de como ver aquela massa colorida de gente me alegrava. Dentre muitas vidas, personalidades e bolsas, vi aquilo que passei o quanto pude evitando. A silhueta morena agora estava mais forte e delineada, ganhara proporções de homem feito, mas eu nunca o confundiria nem em um milhão de anos.
O vi entrar num restaurante qualquer, e totalmente contra minha vontade, o segui. Sentei numa mesa do lado oposto em que ele estava sentado com uma loira que eu supus ser a tal Camile. Fiquei lá com um copo de água na mesa, me perguntando que tipo de idiotice eu estava cometendo, espreitando Marcel.
Mas o que diabos você tá fazendo aí, Rebekah? Vem pra casa. — a mensagem no whatsapp chegou em nome de Haley.
Eu já vou, ela já tá quase indo embora.
Não seja idiota, venha pra casa agora!
No momento em que eu digitava uma boa resposta para Haley, uma sombra se propagou na minha frente. Senti a saliva pegajosa na minha garganta, e meu coração acelerar; eu já sabia que havia sido pega em flagrante.
—Ora, ora se não é a caçula dos Mikaelson. O que está fazendo na minha cidade, Rebekah? — a voz grave de Marcel fez com que eu protelasse a resposta. Ele estava muito diferente do garoto que eu havia deixado para trás, mas os olhos mantinham-se os mesmos.
—Sua cidade? Minha família tá aqui há mais de um século, se alguém tem direito de estar aqui, sou eu.
Ele me encarava olho no olho, e aquela sensação de estar sendo investigada queimava em mim. As órbes castanhas pareciam que exalava calor tamanho brilho que retinham. De repente, ele abriu um sorriso contrariando qualquer reação que eu achasse que viria dele.
—Não vou brigar com você. Olha só, você é irmã do Klaus, portanto é amigo, mas não faça nada Rebekah, ou eu te coloco pra fora daqui com minhas próprias mãos.
Até a forma suave como ele me ameaçava me surpreendia. A amizade com meu irmão fez dele um presunçoso, confiante e sedutor líder capaz de qualquer coisa, atuando cheio de confiança como se desde o começo soubesse que ia dar certo; um reflexo perfeito de Nicklaus.
Ficamos em silêncio por minutos intermináveis, não sei por que motivos. A verdade era que eu estava com vergonha de todo o sentimento de posse que tomava conta do meu peito, como se de alguma forma, Marcel ainda me pertencesse.
—Então quer dizer que ela tem belos cabelos loiros, hum? O que, não conseguiu superar?
Era muita audácia minha, reconheço, mas eu tinha a necessidade de ouvir da boca dele que eu já não o afetava de forma nenhuma. Precisava ouvir que ele amava a tal Camile e que estava feliz ao lado dela. Eu precisava de uma prova que Marcel não me queria mais.
O moreno abriu o sorriso mais brilhante e sedutor do mundo, me encarando.
—Ah, então é disso que se trata? Eu amo a Cami.
—Ela tem nome de garotinha sem sal.
—Qualquer uma é sem sal para o princesinha Mikaelson. — tentei decifrar o cinismo mas não consegui. Agora ele olhava sério e sem nenhum traço de brincadeira — Não se coloque no meu caminho, Rebekah.
Nos dias que se seguiram não houve nenhuma notícia de Marcel na mansão, e eu também não sai mais. Era como se a vida se resumisse a brincar e paparicar Hope; ela era uma representasse tudo aquilo que eu não teria na minha vida. Mas antes que eu pudesse evitar, o dia do noivado de Marcel chegou, e lá ia eu.
No máximo do sarcasmo, Klaus ofereceu a mansão para o jantar e antes da minha chegada, os pombinhos aceitaram. Então eu tive que me preparar para encarar o jantar da morte...
—Não devia estar lá dentro? — perguntei assim que cheguei no jardim. Marcel estava de costa, apoiado na pilastra cor de marfim, sua musculatura definida sob o terno preto, e estava claro sua tensão.
—Eu estava andando e... — suspirou, seu ar pesando uma tonelada — nós passamos tanta coisa dentre os cantos dessa mansão.
—É, eu sei...
—E me incomoda estar noivando aqui, com uma mulher que não é você.
Ofeguei na mesma hora. Meu sangue todo circulando em alta velocidade, mantendo todo meu corpo a todo vapor. Ele não podia dizer aquilo, podia? Meu coração batia tão rápido que devia ser ouvido há quilômetros de distância.
Marcel virou-se para mim, e veio andando na minha direção. Seus dedos longos e finos encostando na minha pele depois de tantos anos, fez com que meu corpo recebesse uma recarga de adrenalina. Mesmo no escuro, eu era capaz de ver o brilho de seus olhos; aqueles olhos quentes que me faziam ver meu mundo refletido.
—Eu te odiei quando você foi embora, e depois me amaldiçoei por ainda sentir sua falta. Nesses dez anos eu tento te esquecer, Rebekah, e aí você chegou... e agora eu não sei.
Havia um nó na minha garganta que me empedia de falar, e meus olhos começavam a se umedecer. Como era possível meu Deus que todo aquele amor continuasse intacto?! Pus a mão sob a de Marcel, fazendo com que um arrepio me percorresse.
—Você ainda pensa em nós? — minha voz saiu embargada.
—Penso. Todo maldito dia eu penso em nós. — sussurrou — Toda vez que vou nas ruínas da casa que eu estava construindo pra nós...
—O que?!
—Eu estava fazendo uma casa pra nós. Um castelo pra minha rainha, só que você foi embora. Por causa do seu maldito irmão, você desistiu de mim, e...
—Shii, pelo amor de Deus, eu tô aqui agora. — chorei. — Eu tô aqui, meu amor, eu tô aqui...
Nossos lábios se tocaram pela primeira vez. Um misto de sentimentos tomou conta de mim, como se nós nunca tivéssemos nos beijado antes. Meu coração pulsava forte de emoção, minhas pernas pareciam moles. Tudo se encaixou no momento que sua língua tocou a minha; o mundo fez sentido naquele momento.
—Eu amo você Rebekah, mas não sei se posso interromper sua vida assim.
Meus olhos se mexiam rápido fitando-o, o nervosismo me atingindo. O que era aquilo afinal?
—Do que se trata isso tudo, Marcel? Me dá um minuto de alegria e uma vida inteira de decepção? — perguntei nervosa.
—Eu só queria que tudo fosse diferente, Rebekah! Eu não sou um moleque, tenho um compromisso com Camile.
—E o que nós temos?! Vai pra onde?
Gritei sentindo minhas lágrimas descendo pelo meu rosto. Ele não tinha esse direito.
—Meu coração vai ser sempre seu, mas eu não posso estragar sua vida assim.
—É isso que você quer, Marcel?
—É o que eu preciso fazer, Rebekah. Amo você.
Naquele dia foi a última vez que fiquei cara a cara com Marcel Gerard. Depois do casamento de Elijah e Haley fui embora, e só volto a Nova Orleans para visitas rápidas. Por vezes, o encontrei pelas agitadas ruas do Quartel Francês, mas nunca passamos de olhares. A aliança dourada no seu dedo reluzia mais que ouro, e era como um letreiro de neon piscando me impedindo de me aproximar. Um dia acordei no meio da madrugada sentindo a presença de um corpo junto comigo, mas quando abri os olhos, tinha apenas um girassol no travesseiro ao meu lado. Um perfume sexy tomava conta do meu quarto e a cortina do quarto balançava, mas nunca tive certeza da visita de Marcel ao meu quarto.
Enquanto dirigia para Nova York, uma música tocava no rádio e foi impossível não lembrar da minha história com o moreno, príncipe de Nova Orleans...
Fale com o autor