Amor em 100 mil atos

1 Amor em 100 mil atos


Não tem festa no Presidente Vargas hoje.

Aliás, não tem nada. No máximo, um pipoqueiro no meio da praça. Alguém, infelizmente, não conseguiu com que o fizesse ficar seguro. E assim, mesmo no meio do inferno, ele tem que trabalhar. Mesmo que só se ouça o uivar do vento no meio da tarde. Não vai vender nada. Nem alegria.

Não tem alegria. As pessoas passam, aos poucos, controladas. Termômetros apontados pra quem passa pela via que leva a Faculdade de Educação, passando pela bilheteria. A grande praça, sempre cheia de gente, sons, churrasco (da qualidade que você quer imaginar), da cerveja e da expectativa aprazível que só aquele gigante acanhado no meio do Benfica pode oferecer, hoje tá quieta. O verde ainda parece o mesmo. Inofensivo ao olhar. Os equipamentos vazios. Os frentistas do posto a frente só observam. Não parecem ter resposta. Não parecem ter consolo. Vendem lenços aos familiares que lá estão. Mas, se pudessem, certamente venderiam outra coisa. Venderiam uma felicidade que para alguns, jamais retornará.

Sentada numa sombra de árvore, enrolada com uma bandeira cintilante vermelha, preta e branca, Ariane se desconsola. Não quer consolo. Não tem consolo. Afinal, ora vejam: Se sequer tem resposta, como que tem consolo? Virar o olhar pra bilheteria parece confortá-la. Lá, jazem dois dos médicos da linha de frente, exauridos, no chão sombreado pelo Aécio de Borba. Olham pro nada. Igualmente desconsolados. Ela já sabe que não adianta mais perguntar. Ela já sabe que seu amor não vai sair mais de lá. Viu os números. Mas, mais do que isso, viu o mesmo perder a respiração aos poucos. Devagarzinho foi sumido.

Os números cresciam. A dor também. É muito dolorido ter que se recordar de todos os momentos. De como se conheceram, da sua paixão pelos tubarões, seja o da Barra do Ceará, seja os que podiam aparecer nos barcos enquanto navegava e observava os jangadeiros na orla. A natureza parecia apaixonar. Minto: A natureza o apaixonava. O mar o apaixonava. Mas, mais do que simplesmente apaixonar, ela moldava os sentidos. Seus sentidos estavam acostumados ao melhor. Sempre quis o melhor. Por que, sempre acreditou que a natureza lhe dava o melhor que podia oferecer. Tanto que quis, que deu o seu melhor a quem aparecesse. Sem muita discriminação. Sem perder de vista o que melhor podia proporcionar. Estar em paz com a natureza é o essencial.

Sua paz consigo mesmo e com o seu universo tornou fácil pra que Ariane quisesse participar. Se tornou rotineiro. Uma gostosa rotina. Até nas coisas que pareciam mais estranhas, como as constantes idas ao mesmo Presidente Vargas. Aprendeu a gostar do seu amor. Aprendeu a gostar do Ferrim. Aprendeu a curtir aquele ambiente. Aprendeu a entender que aquela raiva com aquele zagueiro burro que não sabia subir na bola sem errar o tempo do salto era momentânea. Era a sua paixão aflorada. Era sua maneira de amar aquela camisa. Ainda que o futebol não fosse de melhor qualidade. E ainda sim, todo o sentimento ruim, ficava da porta do PV pra trás. Aprendeu a curtir o pequeno PV e o grande Castelão. Aprendeu a curtir as pequenas e as grandes coisas. No seu amor pelos tubarões, pelo mar, pelo céu, na sua alegria, no seu amor, aprendeu a amar. E a amar, aprendeu a se amar e a amar outros. No que aprendeu a amar, Ariane via no seu amor uma forma de ver as coisas pequenas com mais simplicidade. O amor tornou Ariane mais leve.

Então, é de se imaginar que Ariane não consiga suportar o fato de vê-lo partir assim, do nada. Sem se despedir. Sem olhar em seus olhos. Vendo o morrer com dor. Com dificuldade. Respirava mal. O ar não chegava aos espaços periféricos do corpo. Ele não merecia destino tão cruel. Alguém que tratou o mundo tão bem não merecia perecer pelo descaso alheio. O sangue da moça, despejada na raiz de uma árvore, embrulhada a bandeira que tanto os acompanhou, esquentava. O gosto amargo da partida não a conformava. Os homens e mulheres sem máscara não a conformava. E não foram poucos. Alternando-se entre o desespero familiar e o puro e simples descaso.

Dor era algo que, enquanto viveu com seu amor, nunca foi acostumada a sentir. Muito pelo contrário. As brigas eram calmas, mas existiam. Haviam discordâncias. Haviam partidas. Mas, depois de haver tudo isso, sempre haviam os retornos. Foi acostumada a soltar e esperar que volte. A entender que era melhor se fazer um lugar para hospedar quem quer voltar do que forçar uma volta. E assim, ou ela ou seu amor sempre voltavam. Melhores, mais maduros, mais completos de si e somando seus completos ainda mais a completude deles próprios. Então, a dor da partida era calculável. A dor de perder algo que dessa vez não ia mais voltar, sem ter qualquer decisão nisso era cruel demais pra que aquele coração suportasse sem chorar.

Mas, o que mais doeu em Ariane não era perder. Era ver que ainda sim, alguém pudesse zombar de sua luta. Zombar não só de sua dor, como zombar também daqueles que estavam ali. Lá dentro, ou lá fora. A zombaria, em forma de um homem, calvo, relativamente baixo, embrulhado numa bandeira do Brasil que tentava pular a catraca do PV, agora hospital, sendo impedido por seguranças. Vários seguranças.

Seu olho ardeu. Dessa vez não de chorar mas, sim, de raiva. Ao se aproximar da bilheteria, o berro do homem fica ainda mais nítido:

— Eu quero invadir! Eu quero fiscalizar! Cês são tudo um bando de gente asquerosa! Tem que tratar com cloroquina! Dá cloroquina pra esse povo! Dá a chance deles saírem daqui! – Berrava.

Não era suficiente a falta de sensibilidade. Ainda berrava por um remédio que não funcionou. Pelo menos, não com seu amor. E nem talvez com as outras dez, vinte, trinta pessoas que tentaram consolá-la nas últimas horas. O asco de Ariane era nítido conforme ela se aproximava mais e mais. Ele não estava ali antes. Não tinha direito a opinar sobre a dor dos outros. Não tinha direito a levar suas pautas para aquele lugar, por mais “válidas” que as considerasse.

Quanto mais Ariane se aproximava, mais o ouvia berrar. Mais o ouvia gritar e ser empurrado pra fora pelos seguranças e mais falar de Deus. Mais falar de punição.

Na confusão, o homem derruba a carteira convenientemente nos pés de Ariane. Por mais fosse avessa a invasões de privacidade, não se conteve a olhar o que tinha dentro. Ao abrir a carteira, o sangue ferveu ainda mais. Diria mais: Diria que o sangue se ebuliu. Parecia água na chaleira. A raiva e o inconformismo se transformavam numa fúria incapaz de ser contida. Como uma fera inconsequente, largou a bandeira no chão e avançou rumo a presa.

A dor torna as pessoas fortes. A dor, aquela que atravessa o peito como faca, despedaça, faz chorar, faz gritar, fez Ariane berrar ainda mais forte. O ódio tornou Ariane descomunal. Agarrou o pescoço do louco como uma leoa e o arrancou da bilheteria. Berrava, batia, chutava…

— Você é pastor! Que Deus é esse que não respeita a dor alheia! Vai embora, vagabundo! Vai pra sua igreja sabendo que você matou o meu amor! Você me matou! Você matou todo mundo que tá lá dentro! Seu evangelho de merda matou gente! Você é responsável! Vai embora daqui, vagabundo!

Chutou, chorou, berrou, até que acertou um chute certeiro na cabeça do infeliz que finalmente e aos sangramentos, resolveu correr pela própria vida.

Ariane finalmente desabou. Chorou alto. Berrou. Desconsolada, desamparada. Gritava:

— Parem de me matar! Parem de me matar…

Uns e outros olhavam. Só poucos se dispuseram a acalmar a alma em frangalhos desabada no chão do Benfica. Alguns, entre com e sem máscara, filmavam. Não tinham pudor. Nem sequer se manifestaram. O silêncio insensível só não era maior porque os berros daquela que havia perdido os melhores anos de sua vida se sobressaiam. Por trás dessa gente, outros alguns se juntavam. Em prantos.

Outros amores perdidos. Pais, mães, irmãos. Sem distinção. Afastavam os curiosos e afastavam os defensores do crápula que havia tentado voltar. Sem sucesso.

Ariane não seria consolada. Nenhum daqueles estava sendo. A revolta compartilhada segurou o ódio desenfreado por aquele momento. Com coração apertado, olhavam para a jovem enquanto rasgavam o pastor e seus asseclas com um olhar seco, duro. Sentiam a dor de fazer parte do que seria considerado apenas números numa guerra sem sentido. Eram os 100 mil. Sem consolo, sem despedida. A dor só não era mais comum naquele lugar porque ainda havia o amor daqueles para se lembrar. As memórias doces de quem vai sair daquele lugar, por puro descaso, para uma vala. Sem resposta. Sem direito a defesa.

As lágrimas ficavam miudinhas e o silêncio voltava a reinar. O pastor virou herói. Continuou pregando sem ser silenciado, sendo mais é aprovado por quem o ouvia e também quem não o ouvia e discordava. O silêncio de Saulo reinava. Ninguém faria nada.

Os passantes seguiam sem ligar, usando máscara apenas pra evitar a multa. Ninguém viu. Ninguém sabe. Nomes e números de uma violência, dizem eles. Violência comum, gripezinha. De todas as bolhas, a dos 100 mil é maior. A bolha da dor é maior e jamais vai estourar.

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