Amor e Ódio - sob o fio da espada
2 Séquito
Notas iniciais
CAPÍTULO II
A lesser, assim como Butch, parecia estupidamente chocada; e ambos recordaram um passado não muito distante.
Ela recordou da dor e da vergonha; ele, da fragilidade.
— É um deles — sibilou a lesser, dardejando o policial com seus olhos verdes, frios como gelo; e as lembranças quiseram retornar. As lembranças...
Não. Nada de lembrar. Lembranças não. Ela pensou e sacudiu a cabeça.
Seu corpo estremeceu, havia mais no policial que o sangue vampiro; o reconhecimento foi instantâneo. Podia sentir a maldade do Ômega em O’Neal.
— Então... O Destruidor.
Butch olhava a fêmea lesser a sua frente e não a pode conciliar com a imagem do passado. Os longos cabelos, anteriormente negros, estavam totalmente brancos — não loiros, brancos — e lhe desciam pelas costas em uma elegante trança. A pele, antes de um tom mel, agora exibia a tonalidade própria de um lesser, como uma atriz que tivesse passado mais pó de arroz que o necessário para subir ao palco. E os olhos, levemente oblíquos, embora possuíssem o mesmo tom verde, não exibiam mais a pureza de quando a vira pela primeira vez.
— Foi dada como morta há três anos, Nagisa.
A lesser não pode conter o sorriso sarcástico diante do comentário.
— Quando me viu pela última vez, detetive, já era uma moribunda.
Nagisa observou o vampiro loiro e o detetive. Poderia vencer o primeiro, já quase o tinha derrotado, antes da chegada de O’Neal. Mas agora a balança não pendia mais ao seu favor. O loiro ainda podia lutar, e o policial seria um páreo duro. Neste exato momento, podia sentir em todo o seu corpo uma estranha compulsão de largar a espada e baixar as defesas diante do policial. Ele parecia emitir alguma ordem silenciosa, como Lash. Só que, como acontecera com o filho do Ômega, sua mente e seu corpo não sucumbiam.
— Seus truques de destruidor não funcionarão comigo, detetive — comentou Nagisa, dando passos lentos e estudados em direção a saída do beco.
— Não vai fugir Lesser — ofegou Rhage.
Nagisa arqueou uma sobrancelha sem tirar os olhos de O’Neal.
— Esta, vampiro, é apenas uma saída estratégica — comentou, continuando a dar passos para trás. Estava quase na saída do beco. A espada em um ângulo horizontal a frente de seu corpo. A lâmina brilhando ao refletir as luz do luar.
Com velocidade impressionante, sumiu a direita antes que Butch fizesse menção de caçá-la.
— Vá atrás dela — gritou Rhage ao ver o policial parar e retroceder para auxiliá-lo. — Droga, Butch, estou bem. Não a deixe fugir.
Butch correu na mesma direção que a lesser, procurando-a com aquela parte do Ômega que tinha dentro de si, seguindo o leve aroma adocicado, mas deu-se conta que não a encontraria. Sua habilidade alcançava a determinada distância e, com certeza, aquela coisa que um dia fora uma mulher, uma amiga, já não estava ao seu alcance. Com vergonha, deu-se conta que não saberia o que fazer com a inimiga se lhe encontrasse.
***
Vinte minutos depois, Rhage estava sentado na ala hospitalar da mansão, agora totalmente equipada. Seu corpo musculoso e forte relaxado sob o cuidado da Dra. Jane, enquanto relatava a batalha com a fêmea lesser. Mary, sua shellan, sua esposa, aferrada a sua mão direita, seguia todos os gestos da médica e amiga nos cuidados ao seu hellren.
Warth, o rei dos vampiros, escutava ao irmão com as sobrancelhas franzidas por cima dos óculos escuros, as mãos apertadas em punhos, parado no meio do recinto em toda a sua magnificência de mais de dois metros de altura.
Zsadist e Phury, os gêmeos, estavam no canto oposto, perto da porta. Thor, com seu cabelo escuro e a face encovada, mantinha-se silencioso atrás do rei. Vishous, o melhor amigo do ex-policial e agora vampiro, olhava ao Butch inquisitivo enquanto ouvia o relato de Rhage chegar ao fim.
— Nunca houve uma fêmea na Irmandade Lessening. Nunca! — esbravejou o rei cego.
Todos puderam sentir a rajada de frieza e ódio que seu corpo sólido cuspiu em todas as direções. Warth era o último vampiro puro sangue do mundo e, apesar de sua deficiência visual, que a pouco se tornara completa, ainda era um inimigo formidável para qualquer vampiro, lesser ou desavisado humano.
Toda a Irmandade, agora reduzida a apenas sete membros, estava reunida naquela sala. Warth o rei; Zsadist o mais feroz de todos, em razão de seu passado como escravo de sangue; seu gêmeo, Phury, com seu cabelo multicolorido e sua perna artificial; Vishous, com sua mão mortal e sua habilidade de ver o futuro; Rhage, com sua besta interior, agora mais domada por causa de sua shellan; Butch, o mais novo membro, com sua bendita habilidade de mandar os lesseres para o esquecimento e assim destruir uma parte do Ômega; e Thor, Thorment, ainda debilitado, de corpo e alma, pela morte de sua shellan.
Todos estavam em silêncio, meditando sobre aquela nova tática do Ômega, o mal contra o qual lutavam, o criador da Sociedade Lessining, cujo único objetivo era destruir os vampiros que foram criados pela sua irmã, a Virgem Escriba.
— Assim, como sabemos que o maldito Ômega recruta seus soldados entre a escória da humanidade, e que esta é a primeira vez que descobrimos uma mulher em suas fileiras... — disse Thor com voz dura, quebrando o silêncio —, ela deve ser a maior bastarda que chegaremos a conhecer.
Vishous sentiu o corpo de seu amigo Butch estremecer ante o comentário de Thor e deu-se conta que o Rhage olhava ao poli fixamente, aguardando que este terminasse a história.
— Butch??! — encorajou Rhage.
O ex-policial ergueu a cabeça, encarando a todos.
— Eu a conheço — declarou, ante a surpresa do grupo. — Melhor, a conheci. Katana Nagisa era seu nome. Uma boa moça Thor, uma boa colega, boa parceira... e minha amiga.
Butch soltou um fraco suspiro, sentindo que os olhos de toda a Irmandade estavam cravados em si. Olhou fixamente a um ponto da parede oposta e deixou-se transportar ao passado. Suas palavras foram pausadas dali em diante e descreveram com com precisão as suas lembranças de Nagisa.
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