Notas iniciais
Essa é a história de uma garota que se arrependeu de algo que não fez, e isso é pior do que se possa imaginar...

Era verão. A cidade onde vivia já era bem quente e no verão então...
Quase sempre eu encontrava uns amigos num parque perto da minha casa pra jogar conversa fora, jogar, comer, passar tempo juntos. Estávamos de férias da escola, mas não nos desgrudávamos. Esses amigos geralmente traziam outros amigos e assim o grupo ia aumentando e íamos conhecendo mais gente ao redor da cidade. Era divertido, apesar de ter pouca habilidade social, gostava de ver todo mundo junto sorrindo e contando histórias.

Acordei no sábado de manhã com uma ligação da Clara, minha amiga.

— Quem ousa? — Falei com uma voz rouca e fraca.

— Tamo organizando um campeonato de xadrez hoje à noite no parque, você é a nossa melhor jogadora, TU TEM QUE IR! – Clara terminou a frase quase berrando mesmo.

Eu jogo xadrez relativamente razoável, mas Clara adora exagerar e me enaltecer. Ela sempre tá massageando meu ego frágil. Tirei o celular no ouvido o mais rápido que consegui quando ela gritou.

— Amiga, eu tô bem aqui, não precisa gritar.

— Então, tô te ligando porque ficamos sabendo que a outra galera vai levar uma mina que joga muito, então tu tem que fazer bonito, Sam. – Falou rápido, me ignorando.

— Eu não posso dar certeza de nada, Clara. Nos vemos à noite. Beijo.

— Beijo. – Ela desligou e eu joguei o celular na cama, ainda tentando acordar de verdade.

O dia passou rápido e quente demais para um verão que acabara de começar. Não estava ansiosa, mas queria que chegasse logo a noite pra eu sair do tédio que foi o dia inteiro, mesmo eu fazendo toda a minha rotina de exercícios físicos e leitura de livros atrasados.

Cheguei no parque exatamente no lugar onde geralmente nos encontramos e lá estava uma galera enorme.

Sammy! – O Felipe logo veio me recepcionar com um abraço e um beijo na testa.

É um garoto muito gente boa e tranquilo.

— Oi, Fê. – Devolvi o abraço e o beijo.

Falei com o resto do pessoal e logo avistei uma pessoa que não conhecia. Ela tava com a outra galera, o pessoal que são amigos dos meus amigos. Ela notou que eu estava olhando e logo tirei a vista. Em seguida me apresentaram a famosa adversária que a clara tinha falado mais cedo.

— Sam! Essa é a Ellen, nossa enxadrista campeã! – O MB falou apontando pra garota enquanto os dois se aproximavam de mim.

Eu dei a mão pra apertar a dela.

— Oi, Ellen. Prazer... Samantha! – Ela segurou minha mão e me puxou pra um abraço.

— Oi, Samantha! Prazer, garota! Os meninos tavam falando de você, espero que você não me humilhe no xadrez.

Ri envergonhada e respondi soltando o abraço.

— Mais fácil eu levar bomba. A galera tá exagerando, e de qualquer forma estamos aqui para nos divertir.

Ela assentiu sorridente enquanto o MB falava mais alto, levando nossa atenção para ele.

— Bora começar, galera! – MB falou e em uma só voz a galera deu um grito de “yeah!”.

MB era um dos amigos dos meus amigos, mas eu tinha uma aproximação maior com ele do que com os outros. Sempre muito extrovertido, ele o cara que gosta de juntar as turmas.

O campeonato começou e eu fui ganhando todas enquanto a Ellen também ganhava as partidas dela. Pelo visto iríamos mesmo para a final juntas. A garota que notei estava sempre com a Ellen observando as partidas mas não estava participando. Quando finalizei minha semi final tive um tempo pra descansar e fui observar o jogo da Ellen, tática pra analisar as jogadas da minha adversária. Senti uma pessoa bem atrás de mim.

— Você joga muito. – A menina quem eu observava desde que chegara tinha uma voz grave e forte de um jeito que só consegui fechar os olhos enquanto ouvia.

Pensei “se você não responder, ela vai achar que você a ignorou”. Na mesma hora me virei e foi aí onde a magia aconteceu.
Me inundou os pulmões com seu cheiro enquanto nossos olhares se encontravam e ali permaneciam, e eu procurando uma resposta em minha mente que na verdade só queria apreciar o momento sem ser perturbada.

Respirei profundo e ri.

— Obrigada. – Foi tudo que eu consegui dizer.

Ela riu de volta. “Será que ela sentiu isso que senti?”

— SAMMY! – Juca me fez sair do estado catatônico em que eu permanecia enquanto meu olhar repousava sobre o dela. – Ei, garota. – Dessa vez ele chegou perto o bastante para me segurar pelo ombro, sem perceber que atrapalhava. – É sua vez, vai lá! Nos representa, gata!

Fui levada até a mesa mas ainda buscando a seus olhos que foram me acompanhando até eu sentar, ela sorriu pra mim e levantou o polegar fazendo sinal positivo. Observei que na minha frente era realmente a Ellen, que parecia animada com a nossa final.

Todo mundo estava animado e o jogo começou enquanto a garota se colocava na torcida da Ellen.

A partida estava demorando uma eternidade, Ellen era uma ótima jogadora, mas eu não estava deixando fácil, se ela quisesse ganhar, seria na raça.

No fim, terminamos empatando a partida e eu que já estava cansada demais mentalmente para jogar outra, dei a medalha de primeiro lugar pra ela que humildemente pendurou no pescoço de um cachorrinho que morava lá no parque, fazendo ele de coleira.

— Pronto, o campeão é o Tonico! – Todo mundo aplaudiu a Ellen. Nos abraçamos e começou a farra pra beber as cervejas que tínhamos combinado depois do campeonato.

Me afastei um pouco levando uma cerveja comigo. Sentei um banco mais distante e logo em seguida percebi uma pessoa se aproximando de mim.
— Posso sentar aqui? — A garota que quase me fez desaprender a respirar perguntou segurando um cigarro nas mãos.

— Lógico, senta aí. – Respondi dando um gole na garrafa.

— Se incomoda se eu fumar? — Ela perguntou.

— Claro que não, eu também fumo.

— Então você quer um?

— Aceito. Valeu.

Acendemos o cigarro. Dei uma tragada e soltei a fumaça pro vento levar, não sabia o que falar.

— Você estuda no Colégio Grupo? — Ela perguntou depois de um tempo caladas.

— Sim, você estuda no Cora, né? — Devolvi a pergunta.

— É. Legal conhecer a galera do Grupo, achei que eram um bando de playboy.

Ri de imediato, mas respondi divertidamente.

— Quem diz isso é porque não conhece a galera certa do Colégio Grupo.

Rimos enquanto terminávamos de fumar.

— Quem me chamou hoje foi a Ellen, o MB sempre vem, mas a gente ainda tava com esse preconceito de vir, mas hoje acabou isso. – Ela parecia meio envergonhada de falar.

— Então vai vim mais vezes? — Falei mais aberta, ela me fazia me sentir mais a vontade a cada minuto. – Toda semana temos o dia do dominó, é o melhor dia.

— Venho sim. – Respondeu.

— Posso te perguntar uma coisa? — Falei sem nem pensar se iria falar besteira.

— Claro.

— Como é o teu nome? — Ela até podia saber o meu, pois um monte de gente berrou meu nome hoje nesse lugar.

— Verdade, não nos apresentamos devidamente. Desculpa. Me chamo Heloísa, mas todo mundo me chama de Lica. Prazer! – Falou esticando a mão direita pra mim.

— Prazer, Heloísa! Meu nome é Samantha, mas todo mundo me chama de Sammy ou Sam. – Estiquei a minha mão e apartei a dela. Sorrimos enquanto nos olhávamos e novamente me invadiu aquela sensação.

Pigarreei envergonhada, mas ela continuou sorrindo enquanto tirava a vista.

Ali, deu-se início a uma amizade inesperada, calma, sem cobranças, muitas coisas em comum e quase toda noite encontros e conversas sobre o universo e seus mistérios enquanto o pessoal jogava e espairecia nas noites quentes da nossa cidade.