Os dias foram passando e eu e a Heloísa nos víamos cada vez mais, mas nunca tocamos no assunto daquela noite, o que me deixou intrigada, mas não tive coragem de perguntar nem falar nada, provavelmente ela também não.

Estava saindo do Colégio Grupo quando escutei aquela voz doce que mexia comigo.

— Hey, Samantha! – Ela foi chegando animada. Me abraçou.

— Oi, Heloísa! – Soltamos o abraço e ela segurou minha mão. Corei.

— A galera tá indo pro rio aqui perto passar a tarde lá, cê tá a fim de ir? — Ela apertou minha mão como forma de incentivo.

Sempre gostei do contato com a natureza, mas pensando que seria a galera do Cora que eu não conhecia bem e minhas poucas habilidades sociais eu dei um passo atrás.

— Ah, não sei, eu não conheço muito a galera, sabe... – Falei e ela abriu um sorriso lindo antes de falar.

— Ah, e qual a desculpa? Essa é a chance de conhecê-los! – Ela, que ainda segurava minha mão, me puxou mais pra perto.

Respirei fundo.

— Tá, eu vou.

— Aê! – Ela me deu um beijo no rosto. – Vai passar em casa ou vamo?

— Ah, vamo! – Falei e ela me puxou de leve, ainda segurando minhas mãos.

Eu adorei que fomos o caminho todo assim, juntas, de mãos dadas, mas eu gostaria de ter coragem de perguntar o porquê estaríamos agindo dessa forma.
Chegamos ao encontro do pessoal que já estava todo lá. Viram a gente de mãos dadas, nos olharam de forma alegre.

— Aê, casal, finalmente, hein, Lica? — Falou a Ellen.

“Casal? O que eles tavam sabendo que nem eu sabia?”
Olhei pra Heloísa estranhando ela ser a última a chegar, comigo.

— Heloísa, você passou no Grupo só pra me chamar? — A pergunta saiu de imediato.

Ela soltou minha mão, jogou a mochila no chão enquanto pegava velocidade pra saltar dentro do rio. Boiou na superfície com um sorriso lindo e me chamou.
Eu preferi ficar na minha, acendi um cigarro e fiquei admirando ela nadar.

— E aí, Sammy... Vocês... – Falou o Fio enquanto se aproximava de mim.

Olhei pra ele com um olhar assustado.

— Vocês, quem? — Perguntei.

— Ah, sem essa, vai. – Ele tocou no meu ombro. – Tá na cara que vocês se gostam.

Observei a Heloísa de novo antes de responder. Pensei em abrir o jogo pro Fio, ele era um cara bacana. Mas balancei a cabeça em negativa.

— A gente é amiga, a Heloísa jamais me olharia de outra forma. – Falei encerrando a conversa. Levantei enquanto apagava a ponta do cigarro para jogar no lixo.

— Não vai ter coragem de saber se ela realmente te olha de outra forma, né? — Ele perguntou e me fez parar, ainda de costas pra ele.

— Não. – Falei e continuei a andar.

Não sabia o que me fazia travar e não resolver essa história com Heloísa. Eu sei que tinha minhas dificuldades pra me enturmar socialmente, mas sempre ia bem com relacionamentos amorosos. Quando se tratava dela, a primeira coisa é me sentir pequena, insuficiente pra ela, e por isso não querer arriscar e estragar nossa amizade. Ficar perto dela já era muito bom pra mim, mesmo eu nutrindo sentimentos que nem eu fazia ideia da força que tinham.

Nunca tinha imaginado como era covarde.

Enquanto divagava, a Heloísa foi se aproximando de mim enquanto enxugava seus cabelos com uma toalha, foi quando percebi que tinha me afastado demais das pessoas.

— Aconteceu alguma coisa, Samantha? — Ela me olhava curiosa. E eu me apaixonei mais ainda. Antes de responder observei seus lábios quase roxos do frio depois de um bom tempo na água, não consegui parar de olhá-lo. – Samantha? — Ela falou percebendo que eu travei na sua boca.

— Oi, desculpa. – Respondi toda sem jeito. – Ah, foi legal o banho de rio? — Tentei disfarçar.

— Foi, mas você vai me responder? — Ela segurou a toalha com as duas mãos e ficou se balançando, parecia estar com frio.

— O quê? — Me senti um idiota por não ter ouvido a pergunta dela.

— Você tá distante da galera, perguntei se tinha acontecido algo.

— Ah, não, tá tudo bem. Só tava admirando o lugar, nunca tinha vindo aqui, tava olhando as coisas.

— Ah, sério que é a primeira vez aqui? — Ela deu um sorriso de canto. – Quer dar uma volta? Vou aproveitar pra esquentar o corpo, tô congelando.

— Tá.

Adentramos a mata observando os detalhes da natureza, conversando sobre as arvores, os pássaros, plantas e animais que ali podiam habitar. O papo de repente parou e eu fiquei sem saber o que falar, só andávamos. Chegou um momento da trilha que tivemos que andar uma atrás da outra, o caminho era bem estreito.

Ela parou de repente.

— O que foi? — Me assustei.

Ela ainda permanecia de costas.

— Acho melhor a gente voltar daqui. – Ela falou virando e ficando de frente pra mim.

O silêncio pairou novamente. Só se ouvia o barulho do vento nas folhas das árvores. Continuamos a nos olhar, sem nada fazer, sem nada dizer. Enquanto a olhava, percebi algo que talvez nunca tenha percebido em ninguém que me apaixonei antes, talvez pela maturidade, talvez pela pessoa que ela era que foi a escolhida pra me mostrar... Destino, sorte, acaso... Nada importava naquela hora. Meu coração palpitava e estrondava todo meu ser, eu não piscava, o mundo parara de girar. Ela me olhava e nada fazia, parecia ter prendido a respiração.

Talvez esse momento tenha durado pouquíssimo tempo, quatro, cinco segundos, mas foi a maior prova da minha existência, nunca havia tido outro momento em que tivera me sentido mais viva, mais dentro do meu corpo.
Neste momento, senti nossos corpos sendo atraídos. Sem que eu me esforçasse, meu corpo chegou perto do dela e eu conseguia sentir a sua respiração na ponta do meu nariz. Seus lábios foram se expandindo até se formar um sorriso e sem perceber, abri o meu também. Por fim, fechei os olhos, minha essência clamava por esse momento, mordi meus lábios antes de sentir os seus.

Eu podia jurar que, ao nos tocarmos pelos lábios, o universo agradeceu por finalmente ter nos unido, os pingos d’água caíram do céu e foram ficando mais forte enquanto nosso beijo durava, mas o sol continuava brilhando forte entre as folhas, era a comemoração da natureza pelo nosso momento. Depois de alguns segundos apenas sentindo seus lábios, tomei a liberdade de segurá-la pela cintura e pude sentir ela se entregar em meus braços quando me abraçou pelo pescoço fazendo com que nossos corpos se tocassem por completo. O beijo sempre calmo e singelo, cheio de carinho e ternura que foi abençoado pela chuva e atingiu todas as minhas expectativas, foi se acabando junto com a chuva.

— Eu sabia que a chuva era a benção da natureza pra esse momento. – Ela falou sorridente. – Vê só... Passou! – Ela abriu os braços enquanto olhava pra cima, admirada.

Eu só conseguia olhar pra ela, mesmo sentindo a energia que a natureza emitia naquele momento. Olhar enquanto sorria. A gravidade quase perdia pra a leveza que estava sentindo e não fazia mais o seu papel de me segurar na terra.