Acordo com gosto de sal nos lábios e o rosto marcado com rastros de lágrimas. Lana não está em canto algum do quarto e a porta está entreaberta. Saio de debaixo das cobertas e esfrego os olhos. Permaneço encarando a porta, à espera de meu pai, que a qualquer momento vai entrar e me dar a notícia de que quer me casar com um completo estranho. Só de pensar nessa ideia, meus olhos ardem – mas as lágrimas parecem ter acabado.

Ele não demora muito. Ouço três batidas na madeira branca e papai entra, sorridente. Fito e janela, a neve que continua a cair, e desejo ser um floco de neve agora e ir para longe daqui.

– Bom dia, princesa – papai ri. – Dormiu bem?

– Não – respondo categoricamente -, a nevasca estava forte demais. Acho que vou ficar na cama até mais tarde.

– Nada disso – madame Daisy chega ao quarto com um embrulho de papel de seda nos braços. – Hoje a senhorita tem muito que comemorar.

Olho para os dois, crispando os olhos.

– Por acaso dormi por um ano e já é meu aniversário outra vez?

Madame Daisy sacode a cabeça enquanto deposita o embrulho sobre minha poltrona de leitura. Ela para e olha para mim, cordialmente.

– Você e seu pai têm muito o que conversar. Vou deixá-los à vontade.

E ela nos deixa.

Papai puxa o banquinho da minha penteadeira e senta-se perto da cama, onde ainda estou, abraçada a um travesseiro. Não quero encarar meu pai. Ele parece tão feliz, tão cheio de expectativas... não quero decepcioná-lo.

Tampouco quero me casar com quem ele quer que eu case.

– Anna, querida – ele começa a falar, meio nervoso. Seus cabelos grisalhos quase cintilam à luz precária do sol que entra pela janela fechada. – Hoje receberemos a família Bjorgman para um jantar muito especial em nossa casa. Um jantar importante principalmente para você.

Esforço-me para me fingir de desentendida.

– Para mim? Por quê?

Papai fica sem jeito, corado.

– Você já atingiu a maioridade, querida, e precisa de um marido. O filho mais velho do casal Bjorgman é um pretendente mais que adequado para você.

Agora me permito desabar.

– Como... como pode me dizer algo assim, papai? – minha voz sai entrecortada, chorosa. – Um casamento arranjado? Como o seu e o da mamãe? Achei que não quisesse isso para mim! E eu... eu nem conheço esse pretendente. Como quer que me case com ele? Eu não quero!

– Ouça, minha filha... Eu esperava que reagisse desse modo, mas...

Num salto, levanto-me da cama.

– Não vou me casar. Não importa o que diga.

– Anna, escute...

– Achei que você queria que eu fosse feliz!

– E eu quero! – ele também se levanta. – É exatamente por isso que escolhi esse rapaz para ser seu marido. Confie em mim, minha filha, você precisa confiar em seu pai que tanto a ama.

– Não!

Um olhar sombrio cruza o semblante dele e papai me puxa pelo braço antes que eu saia do quarto.

– Escute-me, Anna – ele diz, com firmeza. — Escute com atenção. Você se casará com o rapaz Bjorgman querendo ou não porque é para o bem de toda Arendelle. Você é minha filha e essa cidade é sua também. Precisamos cuidar do povo e o povo precisa que você se case.

– Por quê? – a pergunta saiu engasgada.

Papai me soltou. Baixou os olhos e voltou a se sentar no banquinho.

– Tive uma reunião com os banqueiros e o tesoureiro da cidade há uns três meses, querida. Os cofres da cidade não darão conta de sustentar a todos. A econimia por aqui está em crise, as pessoas estão fazendo negócios com o pessoal da metrópole ao invés de comprar de seus próprios vizinhos e amigos de bairro. Se as coisas continuarem desse jeito, a cidade entrará em completa miséria.

Cubro os lábios com os dedos. As famílias de Arendelle são tão trabalhadoras e honestas, as pessoas são tão gentis e prestativas! Ninguém aqui merece viver na pobreza. Mas para que isso não aconteça eu tenho que me casar?

– Por... por que você acha que meu casamento resolveria isso tudo? – pergunto, hesitante.

Meu pai suspira e esfrega os olhos, parecendo cansado.

– Os Bjorgman são riquíssimos. Concordaram em construir um ponto comercial para atrair cidadãos da metrópole a investir dinheiro em Arendelle.

Mordi o lábio.

– E não há outra maneira?

Papai nega.

– Eles querem casar o filho com uma moça de boa família. Querem herdeiros para ficar com suas terras. Essa é a condição imposta.

Sinto meu rosto arder quando papai diz aquilo. Herdeiros?

Pela primeira vez na vida, não sei o que dizer. Abro a boca, mas as palavras não saem.

Meu pai governa Arendelle com bons princípios, com bondade e colocando as necessidades da população antes das suas. Um bom governante deve colocar seu povo antes de qualquer coisa. Eles dependem dele, papai sempre diz. E eu o acho bom e nobre exatamente por causa desses princípios. Quero ser como ele, quero que as pessoas confiem em mim. Mas terei que sacrificar minha liberdade por isso?

– Pai... – suspiro. – Posso pensar um pouco sobre isso?

Ele me olha com tristeza e por um minuto acho que ele vai chorar.

– Não, Anna. A data do casamento já está marcada – ele engole em seco e funga. – Eu me odeio por forçá-la a isso. Sinto como se estivesse vendendo-a a esses... esses... ricos.

Não consigo ficar zangada com ele. Não mesmo. Sinto-me uma garotinha mimada por fazer um escândalo desses enquanto meu pai, que cuidou de mim sozinho e sacrificou tanto por mim, está em conflito com o amor e o dever. Sinto meu coração doer, mas tomo finalmente minha decisão.

– Papai – apoio as mãos em seus ombros e ele olhar para mim. Não consigo sorrir. – Eu entendo o motivo de tudo isso. Entendo de verdade. E se preciso me casar com o filho dos Bjorgman para salvar Arendelle, que assim seja. Tudo pelo bem do povo. É um sacrifício que estou disposta a fazer.

O rosto dele se ilumina e ele se levanta e me abraça apertado.

– Querida, querida, querida... Obrigado – ele segura meu rosto em suas mão e beija minha testa. — Você não faz ideia de como estou feliz em ouvir isso. Obrigado, meu anjo.

Ao menos um de nós dois está contente.

Notas finais
Espero que gostem e continuem acompanhando! Beijocas!