Notas iniciais
Aqui estamos mais uma vez para o terceiro capítulo de Amor e Conquista.
Boa leitura.

Capítulo O3

- Sim – falou rapidamente a mãe, abrindo um sorriso grande, quase assustador. – Ficaremos encantadas com uma visita tão ilustre em nossa casa – Ela passou o endereço e falou – Não é um dos mais finos endereços. É primeira temporada da minha Lulu e não sabia quão antes deveria alugar uma casa.

- Tenho certeza que a presença de lindas damas alegram qualquer lugar – respondeu Ikuto educadamente.

Lulu e a mãe sorriram com o comentário e Amu sentiu um ciúme quase infantil. Queria gritar que Ikuto era dela.

Mas, é lógico que aquilo era um absurdo. Ikuto não era, e nunca poderia ser somente dela.

Ikuto saiu com um gesto de cabeça e um sorriso neutro a todas. Logo que ele saiu, Lulu e a mãe olharam para Amu.

- Você não disse que conhecia Lorde Tsukiyomi – falou a Sra. Morcerf, em um tom de prazer e reprimenda.

- Não sabia se ele se lembraria de mim – respondeu Amu. – Faz muitos anos desde que nos vimos pela ultima vez.

- Como o conheceu? – Perguntou Lulu, chegando mais perto de Amu, ignorando o jovem que estava atrás dela.

- Éramos amigos quando crianças – explicou Amu. – Morava... Perto da família dele. – Seria complicado explicar tudo, e aquilo pertencia somente aos dois.

- É muita bondade ele lhe procurar – falou a Sra. Morcerf, sem se preocupar com a maldade das palavras.

Amu já acostumada com sua posição ignorou o desdém da mulher.

- Ele é muito bondoso

- Sem dúvida ele quer conhecer Lulu – continuou a mãe, tentando entender como um nobre se relacionava com uma pessoa de baixa classe social como Amu. – E conhecer você, Amu, facilitou as apresentações.

Amu tentava conter sua raiva. Lembrou-se que a Sra. Morcerf não tinha senso, e talvez não quisesse ser rude. Ou achava que Amu não tivesse moral o suficiente para se ofender. Ikuto se aproximou para falar com ela e não para ser apresentado a Srta. Morcerf.

Entretanto quando mais se passava a noite, olhava Lulu flertar com seu bando de admiradores, não parava de dançar e sua certeza começava a desmanchar-se. Lulu era extremamente bonita e atraente, e ela...

Seu olhar parou na sua roupa escura e gasta. Estava vestida como uma governanta, cabelos presos em um coque alto. Uma dama de companhia não podia chamar atenção. Especialmente com a Sra. Morcerf, que detestava qualquer concorrência com sua filha. Como alguém poderia lhe olhar quando ficava ao lado de Lulu?

Amu pensou sobre isso pelo resto da noite. Não acreditava que ela a tivesse usado para ser apresentado a Lulu. Por outro lado, era realista para saber que ele tinha percebido a beleza da moça quando a conhecera. E também ele mostrou o desejo de visitá-la. Isso deveria ter mais ligação com a beleza de Lulu do que com sua amizade.

Não se julgava no direito de achar que Ikuto pensava nela com interesse romântico. Há muito tempo desistiu desses sonhos de infância. Era agora uma mulher adulta, e era consciente de que nada sabia daquele homem. Conhecia o menino. Mas um dia foi muito querido, e doía pensar que seu interesse por visitar-la era apenas por Lulu.

Durante a volta para casa, a Sra. Morcerf e a filha abarrotaram-na com perguntas sobre o lindo e solteiro Lorde Tsukiyomi. Quantos anos têm? Tem casa em Londres? É tão rico como dizem?

- Ele tem 28 anos, e o resto não sei – respondeu Amu, cansada – Não conversamos sobre isso enquanto dançávamos. E não nos víamos há anos.

- As fofocas falam que tem uma enorme fortuna – falou Lulu com os olhos brilhando.

- Ouvi dizer que fez dinheiro na China – acrescentou a Sra. Morcerf – Não é adequado para um nobre, mas sua linhagem é impecável.

- E a fortuna é enorme – murmurou Amu sarcasticamente.

- Sim, sim – concordou a Sra. Morcerf sem perceber o sarcasmo das palavras de Amu.

- Já vi dizer que ele conseguiu fortuna na guerra. – disse Lulu – Yuki Hatoba disse que a tia dela contou que ele era espião.

- Ela falou para que lado? – perguntou Amu.

- Ninguém sabe – confidenciou Lulu com os olhos muito abertos – A reputação é de um homem bastante perigoso.

- E era um rebelde quando jovem – disse Sra. Morcerf.

- Sempre foi muito desacreditado – replicou Amu. Aquele era o tipo de frase que sempre escutou sobre Ikuto desde o dia em que o conheceu.

- Todos falam... – comentou Lulu.

- Ninguém o conhece – cortou Amu.

- Sinceramente, Amu – A Sra. Morcerf olhou-a irritada.

Amu segurou a raiva. Sua língua afiada sempre a colocava em apuros. Foi um ensinamento difícil, mas com o passar dos anos aprendeu a não discutir com os patrões.

- Desculpe-me, senhora – disse ela – Não pretendia desmenti-la. Só sei que Lorde Tsukiyomi sempre foi julgado mais maldoso do que é na verdade.

A Sra. Morcerf sorriu condescendente.

- Deve acreditar em mim, como alguém que já viveu mundo. Onde há fumaça, há fogo.

O forte senso de humor de Amu superou a raiva. A mulher declamou o provérbio como se fosse uma fonte de sabedoria eterna.

- Claro – concordou Amu, fechando os lábios para evitar uma risada. Afinal, que importância tinha o que uma idiota como Elisa* Morcerf pensava sobre Ikuto Tsukiyomi?

Ajeitou-se no canto da carruagem, ouvindo parte do cacarejo de Lulu sobre o melhor vestido e penteado para amanhã. Quando chegaram a casa, subiu para o quarto, um aposento sem muitos moveis no final do corredor, perto da ala dos serviçais. Como dama de companhia, seu quarto não ficava junto com o dos empregados, porém estava longe de ser confortável. Amu pensou com nostalgia em suas acomodações quando trabalhava para a Sra. Kazuya.

Bem, lembrou a si mesma, morar em um quarto pequeno, tendo que agüentar uma patroa como a Sra. Morcerf era melhor que continuar vivendo da caridade de Yukari e Kazuomi Hotori.

Com uma careta, Amu começou a tirar a roupa. A mente voltava ao tempo que viveu na propriedade dos Hotori. Achava que o fato de ter encontra Ikuto a levou aquelas recordações, pois há muito tempo tinha enterrado suas lembranças, e não pensava muito no passado.

Amu tinha 8 anos quando seu amado pai, o filho mais novo de um barão, morreu. Lembrava-se de ter ficado na cama à noite, ouvindo o baixo choro da mãe no quarto ao lado. Amu estava muito assuntada para chorar.

Da noite para o dia, seu mundo virou de cabeça para baixo. Não apenas o pai a deixou, mas a mãe, sempre carinhosa e sorridente deu lugar a uma pessoa pálida, triste e ansiosa, sempre vivia pelos cantos chorando. Foram as empregados, o caseiro, um homem bravo que vivia batendo na porta delas. As visitas faziam a mãe chorar.

Quando abandonaram a casa que vivera a vida inteira, saindo apenas com a roupa do corpo e as jóias da mãe e mudou-se para um conjunto de quartos em uma casa onde várias pessoas moravam. Sua mãe, Midori, passava o tempo escrevendo cartas. De tempos em tempo, Midori pegava a pequena caixa de jóias e avaliava o conteúdo. Escolhia um conjunto de brincos ou um bracelete. Saía por algumas horas e voltava com os olhos vermelhos e doces para Amu.

Só anos depois entendeu o medo que a face de sua mãe mostrava. Uma mulher com criança pequena, sem dinheiro e sem habilidade para trabalhar, sobrevivia vendendo as poucas e preciosas jóias e sabia que logo iria acabar a única fonte de dinheiro e ficariam na miséria. A única renda da família era os poucos bens deixados pelo pai em custodia da avó e uma pequena quantia em dinheiro que ele ganhava escrevendo. E ambos meios acabaram com a morte do pai.

Um dia, um homem veio visitá-las. Falou rapidamente com a mãe, que começou a chorar. Amu correu até ela, furiosa com o homem que magoou a mãe.

Midori estendeu os braços e abraçou a filha. Puxando-a de encontro ao peito, disse:

- Querida, este é o marido da prima Yukari, e ele acaba de nos salvar. Foram muito bondosos em nos convidar para morar com eles.

No dia seguinte, viajaram para a casa Hotori junto de Kazuomi Hotori. A casa Hotori era um lugar grande e de porte, feito de rochas cinza e fixas com cimento escuro. Para sua alegria não viveriam ali, mas sim em um pequeno chalé nos fundos.

Midori, explicou para filha que sua prima, Yukari, casou-se com Kazuomi Hotori, que eles não os davam somente um casa, mas permitiriam que fosse educada junto com os filhos deles na casa principal. Com cuidado, ensinou que deveria ser sempre educada e respeitar os Hotori. Nunca desmentir-los e não ser um estorvo. Estavam lá por caridade, devia brincar com os filhos deles somente quando quisessem nas brincadeiras os filhos dos Hotori tinham sempre razão.

O aviso sempre irritava Amu, que era uma menina independente. A irritava depender de alguém. Mas, a necessidade de agradar a mãe, a prometia seguir as ordens. Em seguida, foi levada à família que na mente de criança era muito poderosa.

Yukari Hotori era uma mulher alta, elegante e fria. Diferente da mãe curvilínea e pequena. Não parecia a mulher que deixasse uma criança sentar em seu colo. Não demonstrava carinho nem por ela, muito menos pela mãe. Achava difícil acreditar que era parente daquelas pessoas.

Yukari encarou Amu, e mandou um dos empregados levá-la para a professora.

A professora era uma mulher que variava nos tons de cinza, os cabelos prateados e vestido recatado. Chamava-se Srta. Kisaki. Amu foi apresentada também à Tadase e Utau Hotori.

Tadase era um menino forte que teria um ou dois anos a mais que ela, era arrogante e tinha olhos frios.

- Você é mais um parente pobre – falou ele, fazendo careta e mostrando a língua.

Amu, não acostumada a outras crianças, ficou surpresa, mas fez um reverencia educada e olhou para a irmã dele. Utau tinha quase a sua idade e era parecida com a mãe, alta para a idade e magra. Com cabelos longos e loiros, presos em traças colocadas no topo da cabeça.

- Oi – falou Utau, mas amigável que a mãe – Mamãe disse que veio para brincar comigo.

- Sim, se quiser. – respondeu Amu, aliviada por haver uma pessoa que não tivesse repulsa por ela.

O olhar de Amu passou pelas duas crianças e caiu em um menino que se encostava na estante de livros. Tinha as mãos enfiadas nos bolsos e com o rosto fechado. Parecia alguns anos mais velho que La. Tinha cabelos azulados e densos que caiam desajeitados sobre o rosto e olhos igualmente azuis escuros. Olhou para Amu sem expressão, enquanto ela o olhava curiosa.

- Oi – disse finalmente, curiosa com o menino que parecia mais interessante que o resto da família – Meu nome é Amu Hinamori. Quem é você?

- Te interessa? – revidou o garoto.

- Ikuto! – falou mal a professora.

- Ele mora com a gente – explicou Utau.

- É órfão – acrescentou Tadase com um sorriso de desprezo.

O garoto deu um olhar ameaçador para Tadase, mas não falou nada.

- O nome dele é Ikuto Tsukiyomi – a professora informou – É primo dos meninos. Sr. Hotori é seu tutor. Como o Sr. Hotori é muito bondoso toma conta dele depois do acidente dos pais. Mas, sua pergunta foi grosseira. Deve aprender a controlar a língua. Amu olhou a mulher, surpresa.

- Mas como eu saberia que ele é?

A Srta. Kisaki fechou o rosto e mandou ficar quieta. Amu, lembrando do que a mãe falara segurou o protesto que faria. Olhou para Tadase, que encarava malicioso e em seguida Ikuto, que a observava indiferente.

Eles começaram a estudar. Como o pai de Amu era estudioso, foi seu professor no passado, então achava os trabalhos escolares fáceis e cansativos. A Srta, Kisaki leu um trecho de um livro que Amu já conhecia, e trabalhava para manter os olhos abertos. Viu que Ikuto, que tinha a cabeça jogada sobre a mesa, nem fingia ouvir. Ela queria ser tão valente quanto ele.

Mais tarde, quando a Srta. Kisaki escrevia no quadro alguns problemas, Tadase se retorcia na cadeira, entediado. Alguns instantes depois, ele tirou um pedra pequena do bolso. Viu que Amu o olhava, riu e piscou para ela. Após atirou a pedra na professora, que não a acertou, mas bateu no quadro assustando a professora. Ela virou-se com raiva.

- Ikuto! Estenda as mãos.

Ela caminhou para o garoto com uma régua pesada.

- Não fiz nada – reclamou Ikuto, furioso – Foi Tadase.

- E agora está mentindo – falou a professora – Estenda as mãos agora – levantou a régua.

- Não fui eu! – repetiu Ikuto, enquanto se levantava encarando com raiva a professora.

- Está-me desafiando? – gritou a Srta. Kisaki, parecendo assustada – Vá para seu quarto.

- Ele está dizendo a verdade – defendeu Amu – Foi Tadase que jogou a pedra. Eu vi.

O olhar frio de Ikuto se voltou para Amu. A professora também a olhou, com rosto vermelho de raiva.

- Não minta para mim, criança- disse ela,

- Não estou mentindo! Eu não minto. Foi Tadase. Ikuto não fez nada.

Cada coisa que falava fazia a professora se enfurecer cada vez mais.

- Esse garoto já a corrompeu? Ou é farinha do mesmo saco? Não tenho duvidas que foi largada no mundo, dependendo da caridade dos outros...

Lagrimas inundaram os olhos de Amu que sentiu um desejo de voar no pescoço daquela mulher a batê-la.

- Ainda bem que não dependemos da sua bondade – disse Ikuto para a professora, enquanto abria e fechava os punhos. – Pois é claro que não tem nenhuma.

- Vá para o quarto agora, vamos ver se amanhã será tão desafiador se ficar sem jantar.

- Não é justo! – gritou Amu.

- E você, ficará olhando para a parede no corredor até lhe dizer para parar. Sugiro que pense nos seus atos e se acha que uma dama diria as mesmas coisas.

Ikuto saiu do salão para uma sala ligada, batendo fortemente a porta.

Amu ficou no corredor e mais tarde a Srta. Kisaki deixou que voltasse para as aulas, ficou quieta ignorando os olhares irados de Tadase. No lanche, guardou uns sanduíches no bolso. Mais tarde quando deveriam ler e a Srta. Kisaki dormia na cadeira, Amu foi até onde Ikuto estava.

Ele estava olhando para fora da janela e surpreendeu-se com a entrada rápida de Amu. Franziu o rosto, e caminhou até ela.

- O que tá fazendo aqui? – sussurrou ele. – Se o dragão a pegar, vai castigá-la.

- Está dormindo – informou, Amu, tirando do bolso os sanduíches guardados em um guardanapo, e entregou a Ikuto.

Ele a encarou duvidoso.

- Por que está fazendo isso?

- Achei que ficaria com fome – explicou. Ele a encarou mais um minuto e começou a comer.

- Não deveria ter feito isso.

- Trazer comida? – Ele deu de ombros

- E responder para o dragão. Tadase está sempre certo e eu sempre errado. É assim na casa Hotori.

- Não é justo!

Novamente, Ikuto deu de ombros.

- Não importa, é assim que funciona – fez um gesto com a cabeça em direção a porta. – É melhor ir agora.

Amu passou a sala em silencia, quando alcançou a maçaneta da porta, Ikuto falou baixinho.

- Obrigado.

Amu virou-se e sorriu. Então ele devolveu o sorriso. Aquele raro e doce sorriso que transformava o rosto. Naquele instante, o laço entre eles foi formado.

Notas finais
Espero que tenham gostado.
Continuaremos em breve.
Deixem reviews
Beijos, Lady.