Notas iniciais
Olá, pessoas lindas, cá estou com o 15º capítulo!
Espero que gostem, sem mais nada a falar, nos vemos nas notas finais e...
Boa leitura.

Capítulo 15


Amu passou o resto da manhã passeando pela casa em companhia da Sra. Haeni. A empregada parecia disposta a mostrar cada canto da residência, desde os porões até os quartos dos criados. Trouxe também o cardápio semanal e o explicou em detalhes. Não sabia se o excesso de detalhes era por que a tia Yukari convenceu a empregada que seria extremamente rigorosa nos trabalhos da casa ou se realmente mantinha as rédeas curtas no trabalhos domésticos. Fosse qual fosse a razão, na hora do almoço a mente de Amu continha mais informações do que poderia assimilar.

— Temo que leve algum tempo para que eu tenha noção de tudo — afirmou Amu. — Porém, até lá, sei que poderei contar com sua competência para manter tudo funcionando. A casa está muito bem cuidada.

A Sra. Haeni sorriu, orgulhosa.

— Obrigada, Senhorita. Pode contar comigo.

— Não se preocupe com o cardápio. Estou certa de que está perfeito e não quero alterar nada. Especialmente com o trabalho extra que o casamento acarretará.

— Não tema — retrucou a criada, firme. — Todos estão se mobilizando para isso. Se me permite... seja bem-vinda. Estamos felizes em tê-la conosco outra vez.

Amu sorriu. Os cozinheiros sempre foram carinhosos com ela, quando vivia naquela casa. Sempre desviando comida para que levasse para Ikuto, quando o menino estava trancado no quarto sem jantar ou lhe dando pedaços de bolo para sua mãe.

— Obrigada, Sra. Haeni. Também estou contente em estar aqui.

Amu decidiu que uma boa caminhada a ajudaria a clarear a mente, após receber tanta informação. Sendo assim, após o almoço, saiu para um passeio no vilarejo. Mal alcançou os primeiros degraus da escada da frente, ouviu seu nome e voltou-se em direção ao som, levando a mão em concha à fronte para proteger os olhos do sol. Ikuto atravessava o gramado em frente ao estábulo, a fazendo achar que estava voltando da casa do administrador.

— Ikuto! — exclamou, sentindo a já familiar palpitação, enquanto ele caminhava em sua direção, devorando a distância entre ambos. A luz solar acentuando o brilho dos cabelos azuis.

— Já está fugindo? —perguntou com um sorriso.

— Estava tentada a fazê-lo — replicou Amu. — A Sra. Haeni me mostrou toda a casa e deve ter me achado péssima aluna

— Estou certo de que está enganada —argumentou Ikuto, parando em frente a ela. — Para onde ia?

— Pensei em visitar a Sra. Nelliel. Era nossa empregada, quando eu era criança, lembra-se? Ficará magoada se não a procurar. Era muito amiga da minha mãe.

Ele concordou.

— Posso ir com você?

Amu deu um sorriso luminoso.

— Adoraria. Mas não tem que trabalhar? Ikuto fez um gesto descuidado.

— Acabei por hoje. Kuga quer me levar aos arredores para me apresentar aos inquilinos, mas isso levará um dia inteiro, então decidimos adiar para amanhã. Talvez Tadase se prontifique a se juntar a nós nessa tarefa.

— Ele não o fez hoje?

Ikuto meneou a cabeça em negativa.

— Não, o que deixou Kuga nervoso, pensando que eu iria culpá-lo pela ausência do patrão.

— Eu o vi esta manhã.

— Quem? Tadase? — Amu assentiu.

— Sim. Estava espiando no corredor, enquanto eu caminhava com tia Yukari. É um homem ruim.

— Eu sei — concordou Ikuto, dando de ombros. — E tem razões para ser. Cuidou da propriedade todos esses anos... E pelo que pude ver dos livros de contabilidade e da conversa com Kuga, não fez um mau trabalho.

— Tenho de admitir que isso me surpreende.

— A mim também — comentou ele. — Acho que ele ama este lugar... muito mais do que eu. Ainda assim, não há nada que possamos fazer sobre a herança. Não posso mudar o fato de ela ser inalterável ou de eu ser o herdeiro do título. Não quero despejá-lo. Nunca o faria. — Fez uma pausa e voltou a falar, exasperado: — Se ele ao menos não fosse tão desagradável.

— Tadase torna difícil que no gostemos dele.

— Eu sei. Pensei que pudesse enterrar nossas diferenças do passado quando voltasse. Afinal, ele era apenas um menino naquela ocasião e tinha o péssimo exemplo do pai. Talvez tivesse mudado com a idade e se eu ignorasse o passado, meu primo também poderia fazê-lo. -Deu de ombros, desanimado. — Mas não consigo sequer permanecer no mesmo aposento que ele. E é obvio que Tadase sente o mesmo.

— Acho que ele sente mais que isso. Ikuto lhe voltou um olhar curioso.

— O que quer dizer?

Amu hesitou, porém decidiu continuar.

— Tadase o teme.

— Teme? — repetiu ele, franzindo o cenho. — Por quê?

— Preocupo-me com o que ele possa fazer a você -prosseguiu Amu sem responder à pergunta.

Ikuto soltou uma gargalhada.

— O que Tadase poderia fazer a mim? Se acha que me sentiria ameaçado por aquele bêbado desengonçado, imagino que noção faz de minhas habilidades de luta.

— Não estou me referindo a luta — retrucou Amu, em tom irônico. — Duvido que ele a vencesse, se fosse justa. Porém, não vejo razão para acreditar na honestidade de Tadase. Não o desafiaria para uma luta, mas poderia perfeitamente atirar em você a distância, forjando um "acidente" quando estiver cavalgando ou...

— Acha que ele pretende me matar?

— E tão improvável assim? — rebateu Amu. — O pai dele já tentou uma vez. E Tadase foi objetivo em desejar que Kazuomi tivesse conseguido se livrar de você. Se morresse, ele herdaria toda esta terra, não? Não se tornaria o Lorde?

— Bem, sim... ele é o próximo na linha de sucessão. Mas seria apenas isso que Tadase herdaria, pois minha fortuna iria toda em testamento para você, como minha esposa.

— Acho que ele não se importa com o legado financeiro. O que ele quer é a terra e o título.

— Tadase não teria coragem. Sempre fez o tipo covarde, que costuma ferir os mais fracos ou que estão sob seu controle.

— Quanta coragem é necessária para empurrar um homem escada abaixo, como fez o pai? — questionou Amu. — Não viu como ele está hoje? Parece cheio de ódio por você.

Preocupada, ela tocou o braço forte com ambas as mãos, fitando-o com olhar intenso. Ikuto cobriu-lhe as mãos com as dele.

— Está bem. Tomarei cuidado com ele. — E, sorrindo do olhar de dúvida que Amu lhe lançou. — Prometo. Não se preocupe. Não deixarei Tadase me ferir. Agora... vamos falar de algo mais prazeroso. Como por exemplo, como está bela com esse vestido.

Amu riu disfarçadamente, com o coração aquecido e empurrou as preocupações para o fundo da mente.

— Elogiar meu traje, senhor, é gabar a si mesmo, já que foi um dos que escolheu pessoalmente.

— Não foi o vestido que elogiei — retrucou Ikuto, com um brilho intenso no olhar. — Ele apenas realça sua beleza.

— Lisonjeador — brincou Amu, deslizando o braço sob o dele, enquanto atravessam o caminho.

Parecia tão certo, pensou ela, estar em companhia de Ikuto. Estava determinada a não permitir que as sensações que tomavam quando estava em companhia dele arruinassem a perfeita amizade que compartilhavam. Eram amigos, e deveriam permanecer daquela forma.

A Sra. Nelliel vivia numa cabana nos arredores do vilarejo. Era uma residência pequena e quase totalmente coberta por heras e um jardim com centenas de flores coloridas na parte da frente. A amiga de sua mãe veio atender à porta quando Ikuto bateu e deteve-se a observar Amu por algum tempo, até que a mente clareasse e um sorriso se estampasse na face.

— Amu! Sr. Ikuto!... Lorde Tsukiyomi, devo dizer agora. Ouvi que tinham voltado a Casa Tsukiyomi esperava vê-los.

— Claro que eu viria visitá-la — afirmou Amu, dando um passo à frente e abraçando a mulher baixa e corpulenta.

A Sra. Nelliel deu um passo atrás, ajeitando os cabelos como se tivessem escapado da grande touca branca, onde estavam habilmente presos.

— Entrem e sentem-se, por favor. Deixem-me providenciar um chá. Devem estar sedentos. Fizeram o percurso da casa até aqui a pé? — indagou a senhora, caminhando em direção a cozinha, onde podiam ouvi-la enchendo uma chaleira de água e procurando pratos. Minutos depois, retornou à sala, carregando uma bandeja que continha não só o bule de chá de porcelana branco e as xícaras, mas também um prato cheio de docinhos.

— É bom revê-la, Amu — disse a senhora, esticando a mão para tomar a de Amu. — Faz tanto tempo.

— Eu sei. Senti saudades da senhora — declarou Amu. Sempre mantivera correspondência com a ex-criada, informando onde se encontrava e o que estava fazendo, porém sentia uma pontada de remorso por não tê-la visitado. — Porém, uma vez que saí daqui...

— Não precisa explicar, minha querida — interrompeu-a a senhora em tom suave, enquanto colocava o chá nas xícaras. — Ficou claro para mim que não viria visitar a casa depois da sua saída — continuou ela, sorrindo, enquanto lhes entregava as xícaras. — Mas agora está de volta a Casa Tsukiyomi como patroa. Sua mãe ficaria orgulhosa de você.

Amu retribuiu-lhe o sorriso, sem saber o que dizer. Porém a Sra. Nelliel parecia não necessitar de resposta. Continuou a falar, sobre sua mãe. Era evidente que a Sra. Hinamori ocupava um lugar de honra no coração da ex-criada.

— Sua mãe era um santa. Sempre triste, mas alguma vez ouviu uma queixa sequer escapar de seus lábios? -A Sra. Nelliel meneou a cabeça em negativa, respondendo a si mesma. — Nunca. Não teve boa sorte na vida, mas aceitou o fardo e seguiu em frente.

— Ela sentia muita saudade de meu pai — concordou Amu. Recordava a mãe com o olhar perdido e triste, movendo-se através dos dias como um fantasma. O luto fechado, refletido nas vestes, faziam-na parecer ainda menor e mais pálida do que de fato era.

— O coração dela foi para o túmulo com ele — acrescentou a Sra. Nelliel. — Chorei muito quando ela faleceu, mas por mim, não pela Sra. Hinamori. Afinal, alcançou a paz e não sofreu muito. O coração lhe provocou um mal súbito que a levou bem depressa. Amu anuiu.

— Sim. O médico garantiu-me que não seria demorado ou doloroso.

— Não foi assim com ele — continuou a Sra. Nelliel, fitando de modo vago a parede.

Amu não sabia de a quem a senhora falava.

— Falo do Senhor Kazuomi Hotori — esclareceu a ex-criada. Não tinha necessidade de perguntar à Sra. Nelliel o que sentia em relação ao tio de Ikuto. A expressão da mulher era de genuíno nojo.

— Não sei como ele morreu — comentou Amu. — Na época não morava mais aqui.

— Hidropisia — informou a ex-criada. — Uma morte dolorosa. Estava inchado como um sapo. Disseram que era por causa do fígado — não é de se admirar, da maneira como bebia. Definhou por meses — acrescentou, dando de ombros. — Apenas uma amostra do que iria enfrentar na vida futura.

Amu piscou várias vezes, tomada de surpresa pela maldade no tom de voz da senhora. Pensava que tinha razão quanto à sorte futura do tio de Ikuto, mas não era comum as pessoas falarem mal dos mortos, mesmo que fosse verdade.

Felizmente, a Sra. Nelliel voltou a falar da tão estimada Sra. Hinamori e dos anos em que trabalhara em sua casa. Amu não precisava fazer mais do que consentir com um gesto de cabeça ou fazer algum comentário apropriado sempre que a senhora fazia uma pausa para tomar fôlego ou lhe lançava um olhar inquisitivo.

Algum tempo depois, quando haviam terminado o chá e Amu recordara todos os ternos momentos que vivenciara na cabana em que morava com a mãe na propriedade dos Hotori, ela e Ikuto se despediram da Sra. Nelliel e retornaram à casa.

Fizeram o caminho de volta, aproveitando o ar fresco do verão e a calma da tarde depois das horas de confinamento na cabana da Sra. Nelliel. Amu sequer reparou que Ikuto lhe tomara a mão enquanto caminhavam. Quando o fez, um traiçoeiro calor emanou daquela mão, espalhando-se por seu corpo. Fitou-o de soslaio, imaginando se Ikuto estivera tão inconsciente do gesto quanto ela.

A mão era cálida e a palma levemente áspera, fazendo sua pele formigar sob ela. Embora momentos antes estivesse tão confortável na presença dele, naquele instante tinha consciência da figura máscula a seu lado — a proximidade do braço musculoso, a textura do tecido que o cobria, a espessura dos cílios que contornavam os olhos negros, a linha firme da mandíbula que se encontrava ligeiramente sombreada pela barba, no momento. Imaginou como seria lhe tocar a face. Se a pele seria macia ou um tanto áspera pela barba.

Ele baixou o olhar para fitá-la e de pronto a face de Amu corou. De imediato, procurou um assunto diferente do que tinha em mente. Haviam emergido de um matagal e se encontravam em uma colina. Através do campo, podiam avistar Casa Tsukiyomi, destacando-se sobre outra elevação. O sol estava baixo no céu e banhava de dourado as pedras cinzentas da construção.

— Veja. — Apontou Amu em direção à casa. — É linda, não?

— Sim — concordou Ikuto, hesitante. — Se não a conhecerem.

Em um gesto inconsciente, ambos suspiraram e em seguida, Ikuto lhe voltou o olhar, ensaiando um sorriso.

— Pronta para outro jantar?

— Não, se for igual ao de ontem. Talvez Tadase não esteja lá.

— Temo que seja uma esperança vazia — replicou ele, voltando o olhar à casa. — É uma pena que não possamos escolher nossos próprios parentes.

— O que fará? — indagou Amu em tom suave.

— Sobre Tadase? — Ikuto meneou a cabeça. -Gostaria de saber. Ele parece querer me pressionar. É como se ele fosse ganhar algo em me induzir a expulsá-lo da casa. Não posso imaginar o que seria.

— Talvez o que almeje seja confirmar o que sempre pensou sobre você — opinou Amu. — Para justificar o modo como sempre o tratou. O que o pai fez e o que ele mesmo tentou fazer com você. E conseguindo assim o pequeno estímulo de que necessita para eliminá-lo.

— Não esquecerá esse assunto, não? — indagou Ikuto, meneando a cabeça.

— Não posso. Tadase é um homem perigoso.

— É insignificante demais para ser levado a sério -retrucou ele. — Mas tomarei cuidado quando estiver próximo dele. Serei cauteloso.

— Não quero que nada de ruim lhe aconteça.

— Eu sei. — Ikuto a fitou nos olhos por um longo instante e Amu percebeu algo mudar e sombrear os olhos negros.

O corpo feminino de pronto ficou tenso. Ele iria beijá-la.

Mas, o olhar de Ikuto relaxou, enquanto ele dava um passo para trás.

— Bem — começou ele, com um sorriso sardônico. -Vamos enfrentar as feras mais uma vez?

Amu anuiu e ambos se dirigiram à casa.


Notas finais
Éé sem grandes emoções, mas prometo muitas para os próximos capítulos.
A título de curiosidade: Hidropsia é uma doença caracterizada pelo acumulo anormal de líquido nos tecidos ou em determinadas cavidades do corpo. Mais informações vide Google.
Deixem reviews e façam a autora feliz no dia das crianças ^^
Beijos, até o 16º capítulo
Lady.