Amor e Conquista
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Foi escrito com a ajuda da Jy, e da Gabi-chan, pessoas ativas no Nyah!, mas não publicam suas histórias (grande desperdício)
Nos vemos lá em baixo, e por favor leiam todo o capítulo e as notas finais.
Capítulo 11
Amu pensou sobre o assunto. Na verdade, não fez outra coisa o resto do dia senão pensar na cena que acontecera entre eles. O beijo de Ikuto deixou-a perturbada, cheia de sensações estranhas e pensamentos sem noção que a faziam tremer da cabeça aos pés.
O que ele queria com aquele beijo? Uma parte dela queria acreditar que fora uma indicação de que Ikuto sentia mais por ela do que havia expressado. Que apesar de suas declarações de não crer no amor, no fundo nutria esse sentimento por ela.
Mas tentou apagar esses pensamentos. Conhecia bem o mundo para saber que havia uma diferença muito grande entre amor e luxúria. E os homens podiam facilmente sentir desejo sem qualquer tipo de ligação mais profunda. Seria o cúmulo da loucura acreditar que o pedido de Ikuto significava algo diferente do que ele havia declarado: um casamento de conveniência, sem amor.
Nem Amu podia negar que de fato a oferta era bastante tentadora. Muitas mulheres ficariam alegres com a oportunidade de casar com Lorde Tsukiyomi, mesmo sem a menor sombra de afeto. Tornar-se Lady Tsukiyomi, a dona de duas casas e um grande número de criados, lhe garantiria excelente posição na sociedade. Era o sonho de muitas jovens casadoiras. Para uma solteirona de 24 anos sem fortuna, forçada a ganhar o próprio sustento, era um presente quase impossível.
Durante toda a sua vida, vivera à margem do mundo de riquezas e privilégios, sempre olhando, mas nunca participando. Ajudara moças, como sua prima Utau ou Lulu Morcerf, a se vestir e arrumar os cabelos, e depois assistia vestida em suas roupas simples, essas moças irem aos bailes, à ópera ou a algum sarau.
Um casamento com Ikuto mudaria esse quadro. As roupas que comprasse seriam suas. Daria grandes festas e receberia convidados. Usaria jóias e tecidos caros. E jamais teria que se submeter a um patrão novamente ou se preocupar com a sua situação caso não conseguisse um emprego. Isso a dava como dissera Ikuto, uma imensa liberdade.
Mas, ainda assim, não gostava da idéia de se envolver em um casamento sem amor. Sempre acreditara que se casaria apaixonada. Carregava consigo a lembrança do amor dos pais, a risada e o afeto que sempre compartilharam. O dinheiro nunca fora farto, mas os dois não se preocupavam com isso. O amor compensava qualquer necessidade. Era o que queria para si.
Ikuto era o homem que povoara seus sonhos de juventude. É claro que à medida que amadureceu, percebeu o quão idiota e improvável era esse sonho. Mas se segurava à esperança de que em algum lugar existia um homem que a amaria e que encontraria o mesmo tipo de amor que os pais tinham vivido. Parecia uma terrível ironia que, quando por fim fora pedida em casamento, a proposta que recebera fosse o contrario de tudo quesempre quis feita pelo mesmo homem que ocupara seus sonhos no passado.
Como poderia suportar se prender em tal acordo, tão próximo dos seus sonhos e ao mesmo tempo tão distante?
Por outro lado, sabia que seria um absurdo desperdiçar aquela oportunidade. Em sua situação atual, a possibilidade de vir a se casar por amor era quase zero. Ikuto estava certo em dizer que, na posição dela, raramente conheceria homens qualificados e, se isso acontecesse certamente nenhum deles pensaria em pedir em casamento uma desampara como ela.
Se não havia nenhuma possibilidade de se casar por amor, era tão terrível se casar quando havia pelo menos uma amizade verdadeira? Ikuto tinha um jeito próprio de gostar dela. Disse que a considerava como parte da família. Por isso significava algo sobre o seu lugar na vida dele. Estava disposto a se casar para lhe dar uma vida melhor em vez de se casar com uma das jovens que se atiravam nele.
E mesmo se estivesse longe de ser amor, podia servir de base para um casamento logo. Compartilharam um passado juntos e eram amigos. Ele era um bom homem, a despeito de tudo que falavam da sua natureza malvada. Só sua bondade poderia tê-lo feito oferecer-se para se unir a ela pelo resto da vida.
Oh, mas havia, sem dúvida, um pequeno desejo perverso em Ikuto de figurativamente cuspir nos olhos dos parentes que o haviam maltratado. Seria irritante demais vê-lo assumir a casa e o título que eles tanto desejavam. E não seria ainda mais irritante vê-la, ela, outra criatura aos olhos daquela gente, como à senhora da propriedade? Ikuto deixaria toda a sociedade perplexa quando ouvissem dizer que ele tinha se casado com uma mulher sem dinheiro.
Mas todos esses motivos não eram suficientes para fazê-lo querer se casar, Amu estava certa. No fundo era sua natureza generosa que o estimulara a fazer a oferta. E um homem assim, por certo, seria um marido amável e generoso. Se alguma outra mulher na mesma posição tivesse lhe pedido um conselho, certamente a aconselharia a aceitar a proposta.
E foi o que Rima lhe disse mais tarde naquele dia, quando contou à amiga sobre a oferta de Ikuto
— É claro que deve aceitar. Você merece a vida que Lorde Tsukiyomi pode dar, e ele sabe muito bem escolher uma esposa.
Amu suspeitava que Rima não compartilhasse dos seus sentimentos sobre os laços sagrados do matrimônio. Ela e o marido pareciam ter um tipo bastante estranho de relacionamento, algo muito fraterno, carinhoso, mas sem qualquer paixão. Sabia que a amiga queria o seu bem. Talvez tivesse razão no que disse.
Foi para a cama naquela noite sem ter solucionado o assunto pendente, e quando o dia amanheceu e despertou de um sono inquieto e sem sonhos, descobriu que ainda estava insegura sobre o que fazer.
Após o café da manhã, Rima foi trabalhar em seu estúdio, como fazia na maioria das manhãs. Amu deu um passeio com as crianças e a babá. Depois as crianças subiram para estudar, deixando-a sozinha com seus pensamentos.
Devia ir até a agência de empregos e perguntar se tinha aparecido alguma vaga. Mas, não se sentiu animada. Tinha que ficar ali para esperar a visita de Ikuto.
Começou a trabalhar em um bordado que Rima precisava terminar, mas não conseguia se concentrar. Então, notou que teria de desmanchar metade do trabalho que fizera. Por fim, pôs o bordado de lado.
Estava na hora de tomar uma decisão.
Logo Ikuto estaria ali e teria que lhe dar uma resposta.
Não seria melhor se casar com Ikuto? Ter a segurança e as vantagens que aquele casamento lhe traria? Porém, não aturava sequer pensar em aceitar a um marido que não a amava e que mantinha casos discretos na rua. Queria um casamento de verdade. Mas quando pensava em rejeitá-lo, sentia um aperto no coração.
Ao ouvir o som de uma batida na porta da frente, seu estômago se contorceu em expectativa e ela apertou as mãos junto ao colo. No instante seguinte, escutou o som de passos ao longo do corredor e logo Ikuto entrou na sala.
Ergueu-se ofegante, enquanto ele vencia a distância que os separava. Num gesto, ao estilo francês, curvou-se sobre a mão dela, endireitou-se e a fitou nos olhos com intensidade.
— Bem? — perguntou, com uma expressão séria. — Decidiu?
Não podia fazer aquilo, pensou Amu. Não podia se algemar a tal vida. Abriu a boca para falar, mas, para sua surpresa, as palavras que saíram foram:
— Sim, eu me casarei com você.
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Ikuto parecia quase tão surpreso quanto Amu. Seus lábios se abriram num largo sorriso. Puxou-a para si e a abraçou. Por um momento, ela relaxou de encontro ao peito largo. Era mais fácil acreditar que o compromisso deles era normal, que ele estava contente porque a mulher que amava aceitara seu pedido de casamento.
Mas aquilo não era a verdade, e quanto mais cedo aprendesse a conviver com aquela realidade, melhor. Amu se afastou, sorrindo desajeitada.
— Pensei que seria mais complicado convencê-la. Mas você tornou as coisas bem mais fáceis para nós dois — disse Ikuto.
— Eu... Era a coisa mais certa a fazer — respondeu cautelosa.
— Tenho que ir a casa Hotori em breve. Por que não nos casamos lá? Por menos que eu goste deles, são tudo que nos resta de família.
Amu concordou com a cabeça. Não tinha muita vontade de ver os primos, mas aquele seria um dos seus primeiros deveres como esposa de Lorde Tsukiyomi. Forte e próspero como ele era, poderia servir de pára-choque contra a família.
— Providenciarei uma licença especial assim dispensamos os proclamas. E temos que conseguir tempo para lhe comprar um guarda-roupa novo.
— Não é necessário — começou um pouco envergonhada.
— Besteira, é claro que precisa. Uma noiva precisa ter um enxoval, não é?
— Mas ainda não estamos casados.
— Tenho que esperar até depois da cerimônia? — perguntou ele, os olhos flamejando. — Temos que nos casar aqui e então comprar suas roupas antes de partirmos para a nossa propriedade?
Amu fez uma careta.
— Não seja idiota. Não preciso de...
— É claro que precisa. Já se olhou no espelho? Não quero minha esposa vestida como uma governanta. Quero que o mundo veja como você é linda. Quer que todos falem que sou um mão de vaca, deixando minha esposa usar roupas velhas e tristes?
— Claro que não — rebateu Amu. Sentia-se uma mercenária em aceitar tal presente, como se estivesse se casando somente pela riqueza dele. O que não era verdade! Estava se casando por que... Bem, era melhor nem pensar. — Certo — disse com um sorriso. — Compraremos meu enxoval.
Os dois deram a notícia a Rima. A amiga ficou alegre ao ouvir que Amu ganharia um novo guarda-roupa.
— Maravilhoso! Deveríamos começar com a madame Hyuuga. Ela é a melhor estilista do ano. As fofocas falam que ela é filha de imigrantes aristocráticos franceses que fugiram da Revolução.
— Verdade?
Rima encolheu os ombros.
— Sobre isso não faço a mínima idéia. Na verdade, tenho minhas suspeitas. Acho que é mais provável que ela seja uma competente atriz de Ópera. Mas, a mulher é uma artista na confecção de vestidos.
— Confiamos na sua experiência, milady — assegurou Ikuto.
Os três foram visitar a loja da estilista na manhã seguinte e Amu ficou imediatamente encantada com um vestido exibido em um manequim. Era um vestido de baile de cetim creme, com bordados florais em linha de ouro pálido ao redor da bainha e na pequena cauda. O bordado se repetia ao redor da gola baixa e redonda.
— Mademoiselle gostou? — perguntou madame Hyuuga com um sotaque bastante acentuado. Ela lançou um sorriso cortês a Amu e depois a Ikuto e Rima — Combina com seus cabelos e olhos. Quer experimentá-lo? — perguntou já se virando e sinalizando para a assistente remover o vestido do manequim.
— Oh, não... — começou Amu, um pouco surpresa pelo profundo e imediato desejo que sentia de usar aquele vestido.
— Sim, ela quer — respondeu Ikuto. — É para isso que estamos aqui, não é? Os olhos escuros se iluminaram ao contemplá-la.
— Sim, eu sei. — Amu sentiu a face se ruborizar. Sabia que estava sendo tola. Mas o hábito de uma vida toda economizando centavos era difícil de romper.
Deixou que a costureira a levasse até o vestiário na parte dos fundos, enquanto Rima permaneceu no sofá verde aveludado com uma revista de moda nas mãos. A costureira e a assistente ajudaram-na a se livrar do vestido escuro. Madame Hyuuga balançou a cabeça triste ao examinar a roupa de Amu e o lançou a um quanto qualquer.
— Não, não, não. Esta cor não combina com você — disse. Então, inclinou a cabeça e acrescentou, com um brilho divertido nos olhos: — Nem com ninguém.
Hyuuga e a assistente levantaram o vestido de cetim e deslizaram-no cuidadosamente sobre a cabeça de Amu. Enquanto a ajudante fechava os botões da parte de trás, a modista cuidou da saia, arrumando, até que todas as pregas se ajustassem com perfeição.
— Oh, sim — disse a mulher, radiante. — Está perfeito! Bem, um pouco curto, mas isso pode ser facilmente contornado. Um pequeno ajuste na saia e pronto.
Amu se olhou no espelho e sentiu por um desejo irresistível de levar aquele vestido. Até mesmo com os cabelos presos para trás do seu jeito habitual, jamais se achara tão bonita. Os tons creme e dourado faziam um contraste perfeito com seus cabelos rosa. Nunca se achou uma pessoa vaidosa, mas não podia deixar de admirar sua aparência com aquele vestido.
A costureira sorriu, satisfeita.
— Venha, vamos mostrar ao seu...
— Noivo — disse Amu depressa, atenta à pontada de orgulho que sentiu.
Madame Hyuuga a conduziu de volta à loja, onde Ikuto e Rima aguardavam sentados. Ao vê-la entrar, ele se ergueu e seus olhos escuros brilharam.
— Ah! Está encantadora! — disse com satisfação. — E assim que deve vestir-se.
Amu enrubesceu sob o olhar penetrante. Sentiu o mesmo formigamento que experimentava tão freqüentemente na presença de Ikuto e desejou saber se ele também sentia algo quando estavam juntos.
— É muito caro — contestou ela, embora soubesse que não tinha força de vontade para abdicar daquele vestido.
— Não pense nisso — disse Ikuto, aproximando-se. — Quero que tenha roupas caras. Você será minha esposa.
Ele a fitou nos olhos e, de repente, Amu percebeu que era importante para o noivo comprar-lhe roupas bonitas. Era mais do que um impulso amável da sua parte. Parecia satisfazê-lo, lhe dar prazer, e isso encerrava o assunto para ela.
— Obrigada — disse simplesmente.
Amu passou a semana seguinte em verdadeira onda de compras. Ikuto, depois do primeiro dia, deixou a tarefa nas mãos de Rima. Como a mulher tinha um gosto refinado e muito dinheiro, conhecia as melhores modistas e chapeleiras. As duas iam de loja em loja, fazendo compras e adquirindo tantas coisas que a deixaram zonza.
Compraram vestidos para o dia de musselina florida, trajes de noite de musselina com qualidade superior, lã e seda, decorados com faixas de cetim ou bordados na bainha e nas mangas para passeio e vestidos de um tecido mais resistente para viagens de carruagem.
Quando Amu protestou sobre o preço de um traje de equitação de veludo azul-escuro, dizendo "Mas nem mesmo tenho um cavalo", a amiga lhe lançou olhar óbvio e respondeu: "Mas vai ter."
Também compraram vestidos de baile, mesmo que nenhum se comparasse, na opinião de Amu, ao primeiro vestido de baile que comprou. Eram dos mais elegantes cetim e tafetá, alguns com pequenas caudas e decotes profundos que deixavam à mostra boa parte dos seios.
Mas os vestidos, tantos que faziam a cabeça de Amu girar, não eram o bastante. Precisava comprar roupas íntimas novas. Também tinha que comprar camisolas de noite, enfeitadas com bordados e roupões de veludo.
E ainda os vários modelos de capas considerados adequados a uma senhora da sociedade, como casacos curtos e peliças, bem como mantos para usar com vestidos de noite e sobrecasaca de corpo inteiro. É claro que vários calçados também eram necessários. Botas de montaria de couro brilhante, sapatos para caminhar, chinelos de noite em pelica macia e colorida ou cetim bordado. Também não poderiam esquecer dos guarda-sóis de seda em grande variedade de cores para combinar com as roupas e luvas em diferentes comprimentos, materiais e tonalidades. Fitas... Leques... Bolsas... A lista de artigos necessários parecia infinita.
E nenhum guarda-roupa poderia ser considerado completo sem a adição de chapéus. Havia os de aba larga, bonés em forma de concha, alguns amarrados com um lenço no estilo "cigano" e outros com tiras coloridas largas. Havia toucas justas que moldavam a face docemente e chapéus de veludo estilo turbante. Alguns eram mais pontudos, outros achatados e outros ainda seguindo o estilo mais atual, com coroa alta. Todos possuíam enfeites, é claro, como penas de avestruz, pequenos cachos de cerejas de madeira pintadas, flores ou tiras.
Era um excesso de riquezas e, embora fosse encantador, Amu logo começou a se sentir como uma criança enjoada de doces. Afinal, ninguém precisava de tantos chapéus, tantos sapatos e acessórios, e no final da semana resolveu dar uma parada.
E claro que a maior parte do que havia comprado precisou ser confeccionada. Alguns vestidos, como o elegante vestido de noite que experimentara primeiro, já estavam prontos, necessitando apenas de um pequeno ajuste que as costureiras concordaram em apressar. Mas o restante das roupas, para as quais as estilistas tiraram as medidas, seria enviado para a Casa Hotori quando estivessem prontas.
Devido à correria daqueles últimos dias, Amu quase não vira Ikuto até irem para a Casa Hotori, pouco mais de uma semana depois. Mas esse dia pareceu chegar voando. Mal pôde acreditar quando se viu dando um beijo de adeus em Rima, antes de subir na majestosa carruagem que a aguardava.
Olhou o veículo junto ao qual Ikuto estava de pé, esperando para ajudá-la a subir e quando retrocedeu o olhar à amiga, um súbito aperto incomodou-lhe o estômago.
— Oh, Rima — murmurou. — Estou fazendo a coisa certa?
A mulher sorriu.
— Claro que sim. Está apenas um pouco excitada com o fato de se casar. Senti o mesmo e você sabe como em geral sou bem calma.
— Mas eu mal o conheço — insistiu Amu. — Nos tomamos dois estranhos nestes últimos 12 anos e...
Rima segurou a mão e a apertou.
— Sabe que é bem-vinda na minha casa. Se achar que está indo rápido demais... Bem, ele vai esperar, tenho certeza. Pode viajar para a Itália comigo e Kairi e quando voltar, então pode se casar se ainda quiser.
As palavras da amiga foram o remédio perfeito para o nervosismo que a atacara. Oferecer a opção de não se casar, a fez regressar. Percebeu que apesar de qualquer apreensão pré-casamento que pudesse estar vivenciando, casar-se com Ikuto era o que de fato desejava.
Amu riu mais de si mesma do que de qualquer outra coisa, e retribuiu o aperto de mão de Rima.
— Não. Não quero esperar. De verdade. Você tem razão... É apenas o nervosismo de iniciar uma nova vida. Estou empolgada e assustada ao mesmo tempo. Só queria que você estivesse na cerimônia.
— Eu também — assegurou Rima. — Se já não estivéssemos com as passagens de navio compradas...
— Eu sei. E você não deve demorar na sua viagem. -Amu não mencionou, da mesma maneira que Rima não o fez que o som da tosse de Sir Kairi piorava a cada dia.
Com um abraço final, afastou-se da amiga e desceu os degraus que levavam à rua. Ikuto segurou-lhe a mão para ajudá-la a subir na carruagem e em seguida se curvou em uma reverência para Rima, antes de subir no veículo, seguindo Amu.
Ajeitou-se no banco em frente ao dela, porque, afinal de contas, era considerado impróprio a um cavalheiro sentar-se ao lado de uma dama na carruagem, a menos que fosse seu marido ou um parente, como um pai ou irmão. O veículo movimentou-se e Amu se encostou no luxuoso assento.
— É maravilhosa! — disse ela, sentindo um incômodo agora que estavam a sozinhos.
— Fico feliz que tenha gostado. É sua — respondeu ele.
— É? — Amu o fitou, surpresa. Ele encolheu os ombros.
— Um coche fica bem para um homem solteiro. Mas uma dama precisa de uma carruagem fechada.
Amu deu outra olhada ao redor do veículo, encantada. Ikuto tinha razão, Lady Tsukiyomi não poderia fazer suas visitas em um coche de duas rodas. Embora não pudesse deixar de pensar que aquela compra indicava mais que do que apenas atenção ao que era necessário à sua posição.
Estaria sendo tola por pensar que talvez Ikuto a quisesse mais do que imaginava?
Seus olhares se cruzaram. As linhas fortes do rosto másculo de alguma maneira haviam se suavizado e os olhos escuros exibiam um brilho intenso. Ela fitou aqueles lábios sensuais e se lembrou de como se ajustaram aos seus, firmes e ao mesmo tempo flexíveis. O calor que havia experimentado a inundava agora só de pensar no beijo. Então, virou o rosto, esperando que ele não percebesse.
Amu clareou a garganta.
— Obrigada. Você é muito generoso comigo.
— Sinto prazer nisso — disse Ikuto simplesmente. — Há um limite para quanto uma pessoa pode comprar para si mesmo.
Amu o encarou, os olhos faiscando quando disse:
— Há várias pessoas que não percebem isso, você sabe.
— Já reparei.
A carruagem rodou lentamente pelas ruas de Londres, mas aos poucos o tráfico diminuiu e as edificações escassearam. Estavam deixando a cidade. A viagem até a Casa Hotori, que se ficava na encantadora costa de Kent, não era muito longe. Para outras pessoas, parecia estranho que Ikuto ainda não tivesse visitado a casa ancestral. Mas, ela podia entender perfeitamente sua relutância. Aquela compreensão pensou, talvez fosse à razão principal por que ele desejava se casar com ela. De todas as pessoas do mundo, era a única que sabia por que era tão difícil para Ikuto colocar os pés novamente dentro daquela fria mansão. Fora testemunha dos esforços para conter o temperamento que ele tinha quando criança, dos castigos, das surras dadas no estúdio de Kazuomi Hotori e, talvez o pior de tudo, da falta de amor dada a um menino órfão.
Quando criança, sentia-se confusa pelo modo como os Barre tratavam Ikuto. Agora entendia que era o ciúme o que movia Kazuomi Hotori, inveja por saber que a criança um dia herdaria aquela propriedade e o título. Não era capaz de perdoar aquele homem. Em vez do amor, ofereceu somente solidão e antipatia. Ikuto contava apenas com a amizade dela e de alguns dos criados e inquilinos da propriedade. Sentia-se um pouco triste em pensar que era provavelmente fosse à única pessoa no mundo com quem ele podia esbanjar um pouco da sua fortuna.
Amu o olhou. Ele estava olhando a paisagem rural, a expressão misteriosa. Desejou saber sobre o que ele estaria pensando em seu retorno à antiga casa.
— Será estranho ver a mansão novamente — comentou ela. — Não vou lá há mais de oito anos.
— Acho que será tudo muito familiar.
— Tem razão — concordou Amu. — Ela fez uma pausa, então continuou. — O que pretende fazer lá?
— Examinar os livros e as terras. Resolver qualquer problema que surgir. Tadase tem tomado conta de tudo desde a morte do pai. E tenho dúvidas sobre seu trabalho.
— Talvez ele tenha mudado.
— Talvez.
— Vai deixar que continuem vivendo lá?
Um sorriso perverso curvou os lábios másculos.
— Devo dizer que sentiria um grande prazer em colocá-los para fora. — Ele encolheu os ombros. — Mas não serviria de grande coisa. Não pretendo viver lá. É um lugar repugnante, desagradável. Espero passar, ou melhor, passarmos, a maior parte do tempo em Londres ou na casa que foi de meus pais em Cornwall. Seria horrível da minha parte despejar tia Yukari e Tadase, não concorda?
Amu sorriu.
— Fico feliz por você pensar dessa maneira. Também não gosto muito deles, mas...
— Mas tem um bom coração — terminou ele.
— Como você.
— Não. Apenas não vejo necessidade em simplesmente criar confusão. — A face de Ikuto assumiu um ar severo. — Mas, não posso dizer que minha reação seria a mesma se tio Kazuomi ainda estivesse vivo.
— Era um homem mau. Sempre morri de medo dele. Tinha os olhos mais frios que já vi. Era como olhar para uma cova. Nunca tive coragem de encará-lo como você fazia.
— Meus joelhos ficavam bambos, posso lhe garantir, mas não queria lhe dar a satisfação de me ver assustado. Era mais teimosia que coragem.
— Bem, espero ser bastante teimosa para entrar naquela casa novamente.
Ikuto a fitou um tanto preocupado.
— Isso a preocupa tanto assim? Não era preciso ter vindo.
— Não, acho que era preciso por você. Não é? Ele levou algum tempo para responder.
— Sim. Mas não temos que nos casar lá. Você não precisava ter vindo.
— Provavelmente é tão necessário para mim quanto para você. De qualquer jeito, minhas lembranças não são tão ruins quanto as suas. Mas devo falar que fiquei feliz por não ter planos de morar lá para sempre. Acho a casa de Cornwall muito melhor.
A face de Ikuto brilhou.
— Sim. É uma casa adorável... Ou era. Ficou abandonada com a minha ausência. Mas já providenciei os reparos. Deverá estar habitável dentro de alguns meses. Até lá, ficaremos na Casa Hotori.
— Foi em Cornwall que você viveu quando menino, certo?
Ikuto assentiu com a cabeça.
— Sim. Fica em um penhasco sobre o oceano. A vista dos andares superiores é magnífica!
— Lembro-me de como você sentia falta de lá — disse Amu suavemente.
— Acho que sentia mais falta do mar. Tínhamos um barco e meu pai me ensinou a velejar. Era o meu passatempo favorito.
— Foi para lá quando deixou a Casa Hotori? Ele concordou.
— Não para a casa. Tinha certeza de que seria o primeiro lugar onde Kazuomi me procuraria. Mas fui para Cornwall. Eu conhecia pessoas lá que me abrigariam. E poderia trabalhar nos barcos.
— Pescando?
— Entre outras coisas. — Ele olhou a paisagem através da janela e então voltou a olhar-la. — Contrabandeando, também. As histórias são verdadeiras sobre isso. Ganhava muito dinheiro e era um bom modo de me esconder do meu tio. A maioria das pessoas não me denunciaria. Mas aqueles que pensassem em fazê-lo teriam medo de trair um contrabandista.
— Então contrabandeava mercadoria da França.
— Sim. Conhaque e vinho, principalmente.
- E sobre a espionagem? — perguntou Amu.
— Também é verdade. Na época em que comandava o meu próprio navio, transportava espiões para a França. Outras vezes trazia apenas informações. — Ele encolheu os ombros. — Normalmente, eu não fazia o trabalho de espionagem. Ficar na França por meses dificultaria os meus negócios.
— Normalmente? Isso significa que às vezes ficava na França, recolhendo informações?
— Fiquei uma ou duas vezes. Certa vez quando as comunicações foram interrompidas, precisaram descobrir o que havia acontecido e me ressarciram dos prejuízos. E mais tarde também, quando eu estava disposto a vendê-las de qualquer maneira. — Ele sorriu. — Como pode ver, as histórias que contam a meu respeito são verdadeiras. Não sou uma pessoa tão correta. Talvez seja melhor pensar de novo sua decisão de casar-se comigo.
— Espionava para a Inglaterra?
— Sim. Não era tão canalha a ponto de trabalhar para o outro lado.
— Então era um patriota. E o contrabando era necessário ao seu disfarce. Não acho que tenha feito nada de errado.
— Teria contrabandeado de qualquer maneira. E eles me pagavam muito bem pelo resto. Fiz tudo pelo ouro, não por patriotismo.
— Então o que quer na verdade? — Amu replicou com um sorriso. — Me Convencer de que é perverso?
Um sorriso curvou os cantos da boca de Ikuto.
— Acho que você é tão teimosa quanto eu.
— Talvez seja.
— Não espere muito de mim — disse ele num tom mais sério. — Não quero vê-la desapontada.
— Isso não vai acontecer. — Amu não especificou se a sua resposta era em relação a esperar muito ou ficar desapontada. E Ikuto não perguntou.
O restante do dia passou num clima de tranqüilidade. Às vezes conversavam. As vezes ficavam calados e encostados nos confortáveis assentos. Era notável, pensou Amu, como era fácil estar com Ikuto, até mesmo depois de todos aqueles anos de separação. Havia momentos em que, se achava contemplando as linhas rígidas da mandíbula dele, a curva escura das sobrancelhas ou o modo como a luz do sol rebrilhava nos cabelos escuros. Então não era mais amizade ou conforto que sentia. Era uma agitação, no fundo de suas entranhas, outro tipo de sentimento, uma excitação, uma onda lenta de desejo que a fazia se remexer impaciente no assento e desviar o olhar, com as faces rubras de embaraço.
Era nessas vezes que se lembrava do beijo que ele lhe dera e desejava saber o que significara. Mais do que isso, desejava saber se ia acontecer novamente.
No meio do caminho pararam em uma hospedaria para almoçar. No final da tarde, Amu cochilou em um dos cantos do banco ninada pelo barulho da carruagem. Quando despertou, já estava anoitecendo.
— Estamos quase chegando — disse Ikuto. Amu endireitou-se e contemplou a paisagem através da janela.
A zona rural parecia familiar e ela percebeu que estavam chegando à vila. A Casa Hotori ficava do outro lado da cidade.
Alisou a saia, um tanto nervosa, então tirou as luvas e o gorro que usara durante a viagem de carruagem e o contemplou.
Ikuto lhe devolveu um sorriso fraco.
— Não fique nervosa. Se eles a maltratem, os mando embora.
Amu retribuiu o sorriso.
— Não é por eles... É... Não sei. Isto faz parecer como se uma nova vida estivesse começando.
— E está.
Agora passavam pela aldeia. Após contornarem uma curva, cercas vivas começaram a surgir bem próximas, logo após uma fileira de plátanos. E lá, no fim da estrada, erigia-se uma grande casa de três andares, em formato de um retângulo simples. Uma construção de pedra cinza e preta. Tinha uma frente perfeitamente simétrica, com quatro torres, uma de cada lado, com janelas de vidro e varandas nos três andares. O brasão dos Hotori que Kazuomi mandou esculpir no alto. Era uma residência graciosa e elegante, mas havia certa frieza na sua perfeição.
Enfim, haviam chegado a Casa Hotori. Agora, Casa Tsukiyomi. Sua casa.
Notas finais
Como está semana e a próxima estarei abarrotadas de provas, amanhã terei três, e estou cabulando o estudo, não poderei postar com tanta frequência. Mas, um capítulo por semana está garantido.
Beijos, Lady.
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