Amor e Ódio - sob o fio da espada
3 Suplício
Notas iniciais
CAPÍTULO III
Nagisa enfaixou o melhor que pode o ferimento de seu braço. Sua raiva era imensa fazendo seu corpo vibrar.
Maldito policial. Maldito.
Devagar começou a colocar os apetrechos na sua pequena caixa de pequenos socorros antes de guardá-la no armário sob a pia.
Seu apartamento era pequeno, de paredes e azulejos brancos. Pouca mobília, mas tudo metodicamente limpo. Nada era supérfluo. Nada estava fora do lugar. Tudo ali parecia tão estéril quanto ela mesma. Nada podia ser mais comum que sua moradia.
E esta era a mensagem que queria passar a todos. Lesseres não tinham posses materiais. Um lesser não comia ou bebia... Todo o seu objetivo de vida era a destruição dos vampiros, obedecer ao Omega, seu criador, e a ele retornar no final de sua existência.
Se preparou mentalmente antes de erguer o rosto para o espelho sobre a pia. Seu rosto de sempre lhe encarava.
E por De... Droga, aquela não era ela.
Depois de três anos, apenas seus olhos seguiam sendo os mesmos, verdes como os de seu pai, até mais verdes do que antes. Não pensar, não lembrar, não sentir. Esse era seu lema. Mas droga, não era fácil. Não, não era fácil. Mesmo sem um coração no peito, a dor parecia vir exatamente do lugar onde o bastardo costumava estar.
Estava agora mesmo a lembrar. Todas as malditas lembranças do que perdera, do que abandonara e do que sacrificara. Maldita raça de vampiros. Aquelas infelizes criaturas haviam...
Ofegou.
Nada de lembranças. Mas elas vinham em golfadas. Maldito O´Neal que as trouxera de volta. Cansada de lutar, e feliz por um breve momento sentir, deixou-se engolfar por elas.
Nagisa podia se vê claramente como tinha sido há sete anos, quando se tornara detetive e fora designada como parceira do detetive O'Neal. Lembrava o modo como se afeiçoara aquele grandalhão como a um irmão mais velho e tragara tudo que ele poderia lhe ensinar sobre marginais, sobre como manter um informante sem comprometê-lo, como nunca deixar de se indignar pelas maldades cometidas contra os menos favorecidos, os fracos, os indefesos.
Butch fora seu professor, seu amigo, quase um irmão. Não havia muitas demonstrações de afeto entre eles, mas sabia que ele lhe tinha imenso carinho, no que era correspondido. O respeitava acima de tudo por que ele não a encarava como uma garota frágil como muitos dos outros colegas. Não o Butch. Ele não a menosprezava, não a protegia em demasia e, principalmente, a respeitara como mulher e policial.
Mas essa lembrança do policial era como olhar a um filme antigo e não conseguir captar toda a ternura dos personagens principais. Era como tentar alcançar algo que estava ali, mas que ao tocar se dissolvia como fumaça entre seus dedos.
Essas lembranças não doíam.
As lembranças que conseguia tocar e sentir, tão sólidas como o chão aos seus pés, ou a pele que cobria seus ossos, eram de outro homem. Nada havia de carinhoso, todas eram tingidas de vermelho: paixão e amor.
Seu marido. Seu amor. Seu David.
Era fato que um lesser não apenas perdia sua alma quando aceitava a proposta do Omega, ele perdia suas emoções, seu corpo e seus desejos. Um lesser era sem exceção impotente. Não só sexualmente, mas emocionalmente.
Conhecera muitos lesseres nesses três anos de conversão e todos demonstraram que a cada segundo deixavam para trás as emoções humanas. E assim como seus corpos perdiam a cor, ficando tão brancos como a neve, mais e mais suas almas ficavam negras, como um poço sem fundo. Tão ocas e vazias que não existiam palavras para descrevê-las.
Mas Nagisa, como a única representante feminina desta raça maldita, não se sentia assim. Apesar de não sentir desejos carnais, ainda podia sentir sobre todo o seu corpo a paixão e o amor que um dia devotara ao marido, como se lhe passassem uma faca em brasa sobre a pele.
Se fechasse os olhos podia sentir o cheio de seu hálito. Podia ver seu cabelo claro, seus olhos azuis, seu sorriso fácil, a pequena cicatriz sob a sobrancelha esquerda. Podia sentir o toque dos seus dedos acariciando a sua clavícula, quando sentados, seu braço rodeava seus ombros e deixava sua cabeça descansar em seu peito. O modo como David colava o corpo ao seu, cobrindo-a por inteiro com proteção amor e paixão.
Tudo destruído em um momento. Um momento desgraçado.Track! Como o estralar de dedos.
Um momento de se.
Se ao voltar do restaurante, em que comemorava, e enquanto David dirigia contando uma de suas inúmeras histórias engraçadas, não tivesse virado o rosto, olhado pela janela e visto... Se não tivesse pedido para David parar o carro e descido em direção ao que lhe chamara atenção... Se não tivesse retirado a arma do coldre e abordado o homem que atacava a mulher naquela esquina escura e deserta.
Se, se, se, seeeeeeee..
As lembranças mais terríveis tendem a ter sabores, cheiros, sons e cores tão vívidas, tanto quanto mais dolorosas elas tenham sido. E a pior lembrança de sua vida fora a do instante em que David fora assassinado.
Poderia descrever com clareza as formas das sombras criadas pela luz fraca do poste de iluminação. A música de alguma ária de Puccini que ressoava a distância; o sabor da pizza com mussarela que comeram; e da fragrância do perfume amadeirado de David que impregnara a sua roupa quando o beijara na saída do restaurante e ficaram abraçados esperando o manobrista trazer o carro.
O modo como o homem, ou animal, se virara em sua direção, os lábios manchados de sangue, olhos brilhantes como faróis, da sensação de atordoamento que quisera tomar conta de todo o seu corpo e da certeza absoluta de que aquele topor era produzido pela criatura, que com desprezo, largara a mulher e fixara toda a sua atenção nela e em David.
Quando a criatura, não homem, mas sim criatura, arreganhara os dentes e dera dois passos em sua direção a arma já estava firmemente apontada para seu peito e apesar das advertências ele não recuara. De repente estava lá e no outro momento não.
Seu corpo ainda possuía as cicratizes daquela sua primeira batalha. Recebera golpes que a lançaram em várias direções até que em um mais poderoso lhe arremessou de encontro a parede oposta. Ao se chocar contra a superfície dura todo o seu lado esquerdo parecia ter se desintegrado em pequenos pedaços repletos de dor.
Com a experiência de quatro anos como policial a pequena glock não escapou de suas mãos em momento algum. Abrir os olhos diante da dor levou séculos e quando conseguira firmar as vistas estancou ante o horror de observar o animal atacar ao David, dilacerando seu pescoço e este não esboçar reação alguma. Com a mão firme tinha mirado e atirado nas costas do homem/animal, do vampiro, fazendo-o largar seu marido e vir em sua direção.
Fora justamente naquele instante que os lessers apareceram. Na época não sabia o que eram, mas acreditou por um instante que eram anjos salvadores, tão brancos e puros, quanto a sua aparência parecia demonstrar.
Eles atacaram ao vampiro e este se defendia. Eram dois contra um, mas o vampiro parecia estar levando a melhor. Vira aqueles três executarem diferentes tipos de estilos em artes marciais, desde o Kung Fu a golpes de boxe.
De repente um dos lesseres foi atirado a metros de distância e Nagisa pode ouvir o baque de seu corpo, o ruído inconfundível de ossos se partindo. Com um rugido o vampiro se livrou do segundo lesser, se encostou na parede buscando o controle de suas emoções, respirando brandamente. Uma, duas, três vezes e bum... sumir.
Os lesseres tentaram se aproximar de David e dela mas o ruído característico das sirenes de polícia os fizeram recuar. Não soubera que força buscara dentro de seu corpo ferido para se arrastar até o marido antes que o carro da polícia chegasse, mas conseguira chegar até ele.
Seu pescoço destruído vertia sangue em jatos ritimados seguindo a batida de seu coração, bombeando seu fluído vital mais e mais para fora de seu corpo. Seus lábios moviam-se sem que o som escapasse, num inconfundível amo você. A mão de seu marido tateou em busca da sua, seus dedos se entrelaçaram e apertaram-se como nunca antes e nunca mais.
E assim como buscaria no futuro no olhar de seu inimigo o momento final, ela viu os olhos de seu amado se dilatarem e vidrados tornarem-se janelas abertas de uma casa vazia.
As lembranças mais terríveis tendem a ter sabores, cheiros, sons e cores tão vívidas, tanto quanto mais dolorosas elas tenham sido. E a pior lembrança de sua vida fora aquele instante. Nada... nada poderia ser pior que aquela dor sufocante que não permitia que sua voz escapasse, que impedia que o ar entrasse em seus pulmões. Fora como se mil facas lhe golpeassem e a retalhassem.
***
O que Butch contou aos irmãos e o que Nagisa lembrava naquele mesmo instante eram as duas faces da mesma moeda.
O poli contava aos membros da Irmandade a amiga e parceira que ela fora. O assassinato bárbaro e cruel de seu marido por assaltantes. A versão oficial. A versão que ela mesma inventara, não por medo, mas sim pela certeza de que não aceditariam em sua história.
Butch relatava aos irmãos a última vez que a vira, tão ordinariamente maltratada e frágil no leito de hospital uma semana depois do ataque. O modo vago como respondia as perguntas, como recebia o alimento e seu lento progresso em direção a recuperação.
Nagisa via claramente o policial entrando em seu quarto no hospital. Aquele homem grande de cabelos rebeldes e olhos avelã contritos. Butch a encarara com ferocidade. O conhecia demais e sabia que o parceiro tinha sincera dificuldade em lidar com qualquer tipo de violência com mulheres.
— Oi.— dissera se aproximando mais do leito.
— Ele o matou O’Neal. — sua voz saíra mais rouca e fraca do que pretendia.
Contudo o ódio estava ali queimando, crescendo um pouquinho mais, um pouco mais, muito mais.
— Vamos encontrar esses bastardos, filhos de uma puta, eu te prometo!
— Sei que tentará. Mas não vai conseguir O’Neal... sei que não vai. — sussurrara. — Mas juro a você, por David faço essa promessa, não descansarei até que tenha exterminado cada um deles da face desta terra.
As palavras saíram como num sopro, murmuradas tão brandamente, com uma convicção tão cruel, que Butch soube que ela dissera a mais pura verdade.
E ao fitar dentro dos seus olhos pela primeira vez, descobriu que a Nagisa que amava como a uma irmã, não estava mais ali.
***
Foi naquela mesma tarde, logo após a saída de Butch, quando Nagisa estava com a mente perdida em lembranças cruéis, tentando arquitetar planos de vingança, que ele aparecera.
A figura envolta em tecido branco surgira das sombras no canto, de forma lenta e acariciante. Nagisa não se surpreendeu. Nada a surpreenderia novamente. Esperou paciente que ele aos poucos deslizasse em sua direção, estacando a pouco mais de meio metro de seu leito.
Apesar das vestes tão alvas, seu corpo parecia condensar e extrair sua forma das sombras do quarto, fazendo-as convergirem em sua direção e ao mesmo tempo se expandir em todos os lugares possíveis, como que tentando a todo o custo destruir os pequenos faixos de luz que aqui e ali teimavam em iluminar o local.
— Como vocês criaturas humanas são frágeis. — Sussurrara o Ômega para a figura quebrada sobre a cama. Nagisa sentiu um frio descer pela sua espinha ante o som daquela voz. — Um pequeno golpe, um leve sopro e seus corpos estalam.
Nagisa o viu deslizar ao redor do leito para aproximar-se do lado de seu corpo mais judiado e parecia extrair prazer desta visão. A cada centímetro de sua aproximação mais as suas emoções negativas se intensificavam.
Mas não o medo... Nada mais de medo.
— Sim. Que maravilha de aroma você exala jovem humana. Tanto ódio e rancor em um só ser, misturados a tanto... Não reconheço esse sentimento... Mas é poderoso.
O Ômega inclinou-se sobre o leito e inalou o ar ao redor do seu rosto.
— Poderia sentir o seu desejo de vingança a anos luz de distância. Foi como um farol a me guiar até você.
Seus rostos ficaram bem próximos e apesar de Nagisa só poder ver sombras por baixo do capuz, sentiu os olhos frios e maliciosos fixos nos seus.
— Sabe o que lhe atacou, pois não?! Sabe agora que eles existem e toda a sua racionalidade humana recebeu um duro golpe. Mas posso sentir que não está confusa... não, não está. O que você não sabe querida, é que nada que faça, ou nenhuma arma que tenha a sua disposição agora, nada de natureza humana, poderá lhe ajudar a encontrar aquele vampiro.
Ela sabia que era verdade. Tinha toda aquela determinação dentro de si crescendo, mas nenhuma forma de encontrar o bastardo vampiro e vingar-se dele.
Deixou que seus olhos se afastassem da aparição e passeassem pelo seu corpo ferido, seu braço e perna engessados, os aparelhos ao seu redor no quarto frio e vazio. Ainda podia sentir um pouco do calor que Butch deixara para trás, mas até isso se esvanescia.
Voltou a fixar a aparição e teve certeza, não saberia descrever como, de que ele viera para lhe fazer uma proposta.
— Sabe humana, vocês mulheres, fêmeas, tem tão poucas qualidades, tão poucos encantos para mim. Mas você, huuuuummmm! Seus atrativos vão além de uma oportunidade... Você poderá ser uma arma perfeita na luta contra os filhos de minhã irmã... – Ele afastou-se um pouco e ergueu-se. – Percebeste que vim lhe oferecer algo que lhe dará chances de encontrar seu nêmesis e executar a sua vingança? Sabe também que não será algo que lhe ofertarei de graça?
— Eu aceito! — Suas palavras sairão firmes apesar de sua voz fraca. Não se importava nenhum pouco com o preço. Não se importava com mais nada a não ser vingança. — Nada que você me peça em troca pode ser mais doloroso do que aquela criatura me fez perder.
— Não se engane minha cara, existem coisas piores. Horrores indescrítiveis...
— Me dará a força, as armas e os meios para matar o bastardo? — sibilara.
— Sim. — respondera o Ômega aproximando-se novamente do seu corpo. – Em troca de sua alma, seu sange e seu coração.
— Eu aceito. — ela respondera sem titubear.
E descobriu que o Ômega dissera a verdade, fora uma dor insuportável, mas nunca pior do que a imagem de David sem vida em seus braços, do quanto perdera além de seu marido e seu...
Nada de lembrar.
E aqui estava ela, tão pálida e degradada quanto um lesser podia ser, exalando aquele cheiro doce por cada um de seus poros.
E caçara o maldito vampiro que havia desencadeado toda a sua infelicidade. Quase três anos e muitos outros vampiros mortos até encontrá-lo e matá-lo.
Entretanto, não fora o suficiente. Seu ódio só terminaria quando destruísse o último deles, ou fosse destruída tentando fazê-lo.
Ás vezes pensava que nem assim.
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