Amor e Ódio - sob o fio da espada
10 Sestra
Notas iniciais
Capítulo X
— Foi...
As palavras que queria dizer não saíam. Sua garganta parecia se fechar e nada poderia pronunciar além de um som estrangulado, que a custo reteve. Não precisava que ela soubesse o quanto aquilo tudo, todas aquelas sensações e seu próprio cheiro impregnado nela o assustava e o maravilhava.
Poderoso no Fade, a amava!...
... Ele a fitava com fúria e amor... Desejo e loucura... E unido a todos esses sentimentos podia perceber as dúvidas em sua mente.
Devagar afastou a mão do seu seio, puxando o zíper até o fim. O que quisera dizer ficou perdido entre as estranhas sensações e ele se fechou tal qual um animal cauteloso.
Quando o vampiro se afastou para ajeitar as próprias roupas, experimentou um sentimento de perda tão grande como se estivessem terminando algo irremediavelmente. Como se jamais fosse sentir os braços dele fecharem ao seu redor, ou sua boca colar a sua novamente.
Por impulso ergueu a mão e entrelaçou seus dedos aos dele. As mãos alçadas tomando o espaço entre seus corpos, os unindo por um breve momento.
Seus olhares vagaram um no outro.
Ele a considerou linda apesar de ser o que era, ali, tão lívida quanto um fantasma. Ela o amou com os olhos desde as botas de soldado, passando pelas adagas cruzadas no peito, até os olhos azuis límpidos ainda brilhantes de desejo.
Pensou que a vida, o miserável destino, ou qualquer outra merda que governava os caminhos e os entrelaçava fizera um baita de um desgraçado trabalho os unindo quando todo o resto conspirara para mantê-los separados.
— Foi... Maravilhoso. — Completou para ele com amor. Sua voz soando tão melosa que sentiu uma imensa vergonha. — Eu...
Antes que pudesse declarar em palavras todos os sentimentos por ele, que tão inesperadamente a preenchia, o cheiro impregnou o local.
"E pelo maldito, a fantástica fábrica de chocolate não era ela."
Como aves de rapina seis lesseres adentraram na cela, atacando ao vampiro em sincronia. O estranho balé de seus corpos ao executarem os passos da batalha pareciam deslocados ali, agora, logo após o sexo duro que tiveram.
Tohr, apesar da surpresa em vê-los ali enquanto o Mhis seguia ativo, estava mais do que preparado para guerrear. Lutava com garra, entretanto, eram muitos e ele um só.
Nagisa, acorrentada muito pouco podia fazer para ajudá-lo. A todo o custo tentou soltar-se, mas era impossível.
Em pouco tempo dois lesseres já haviam se dissipado em um clarão de luz e agora o vampiro se batia com os outros quatro.
As adagas faziam estragos nos corpos alvos e o sangue negro brotava e espirrava em todas as direções. Tohr também tinha sido atingido. O sangue vermelho corria dos inúmeros cortes que ele recebia, cobrindo seus braços e sua roupa.
Precisava ajudá-lo.
— Nagisa! — Tohr gritou.
Com perícia e perspicácia ele arremessou um dos lesseres em sua direção. Assim sendo, tal qual fizera ao Butch enroscou o corpo ao dele, rodeando-lhe o pescoço com as correntes. Um estalo alto se fez ouvir e o demônio descorado caiu ao chão, imobilizado, por ora.
Com desespero ainda procurava se libertar das correntes, percebendo que os lesseres mantinham a luta a distância de onde se encontrava. Puxava os pulsos machucando a carne, o sangue negro escorrendo e pingando no chão. Tentou até mesmo arrancar a base da parede com todas as forças que conseguiu reunir, mas o metal era muito forte.
— Tohr, cuidado! Atrás de você. — Alertou ao perceber a presença de mais três lesseres.
Que loucura, estavam sendo atacados por uma batalhão deles. E tão certo como não tinha alma, sabia que eles não estavam ali para resgatá-la.
Os lesseres queriam ao vampiro.
Desesperada viu um dos lesseres atirar no vampiro e um Tohr trôpego se aproximar de seu corpo, as costas cravadas por dardos tranqüilizantes como se fosse um animal perigoso.
Em um golpe certeiro ele atingiu a corrente presa a seu braço direito, libertando-a parcialmente. Ainda tentou libertá-la por completo, mas quedou sem forças, anestesiado pelo sedativo.
Ao vê-lo caído, os lesseres se aproximando de seu corpo, rugiu, tentando alcançar à merda da adaga que ele ainda mantinha presa a mão.
Do nada, o chute atingiu seu rosto arremessando-a para trás. Depois outro em seu estômago, e mais outro. Até ser jogada tão distante do corpo de seu amante que a oportunidade de pegar uma das armas que ele carregava se tornou impossível.
Buscando o fôlego tentou se erguer vendo pontinhos brilhantes a cegarem. A dor esquecida no momento em que viu, ao se recuperar parcialmente, os lesseres carregando Tohr desacordado para fora.
— Nããããõooooooo!— Gritou esticando todo o corpo para frente, sendo detida bruscamente pelo braço acorrentado.
— Tisk, Tisk, Tisk! — O lesser que a golpeou se aproximou mais um pouco — Sabíamos que estava viva Miss N. Entretanto, pensávamos que lhe encontraríamos um pouco mais... Judiada... Se é que me entende!
A voz fanha a fez erguer a cabeça e lançar um olhar assassino ao Sr. T. Este a observava com os olhos brilhantes de alegria. Parecia uma criança abrindo um presente de natal.
Alcançou a outra adaga no canto oposto da cela, onde caíra durante a luta com o gigante vampiro e brincou com a lâmina passeando pela palma da mão, sujando-se com o sangue negro fresco.
— Mas ora, que surpresa não foi encontrar nossa linda assassina de sanguessugas de mão dadas com o a sua presa preferida. — T riu deliciado. — Essa droga de magia não os protege se um de nós estiver nele para nos guiar, sabia? E os bastardos foram tão arrogantemente previsíveis trazendo você para cá.
Sentindo todo o horror da situação, ela buscou forças para ficar em pé se escorando na parede e encarando o lesser de voz fanhosa. Discretamente atrás dele, um lesser tão baixo, que de longe poderia ser confundido com um adolescente, surgiu.
Sr. O, braço direito de Lash.
— Sr. T, pare de brincar. — Ordenou o fore-lesser. — Os outros já encaminharam ao vampiro para interrogatório. Este local é apenas um posto avançado. Nada aqui nos remete ao quartel general do vampiro. Está tudo limpo e vazio.
Olhou a fêmea com profundidade, tentando dominá-la. A resposta de Nagisa foi um grunhido de fúria e mais uma tentativa de se libertar da corrente.
— É um desperdício eliminar você, mas suas atitudes tornaram a sua execução a única ação possível. — O baixinho se virou e caminhou rapidamente para a porta. — Elimine-a Sr. T, queime a instalação e se una a nós em seguida. Tentar arrancar algo do bastardo vampiro será algo prazeroso, apesar de sabermos que provavelmente será inútil.
Após a saída do Fore-lesser o sorriso assassino e demente do Sr. T se intensificou.
— Não é assim tão letal sem sua maldita espada, não é? — Riu andando de um lado ao outro a sua frente longe o bastante para que ela não conseguisse alcançá-lo. — Nunca compreendi você até esse momento. Tão altiva e cheia de atitudes honoráveis e códigos de conduta. Achando que era diferente de todos nós, só por não ter sido um bastardo fudido, assassino escroto ou qualquer outra merda que o Ômega escolhe e recolhe para o seu exército.
Nagisa gemeu procurando um apoio maior nas pedras as suas costas. Oscilava precariamente forçando o corpo a ficar de pé.
— Ha! Mas quando eu vi como lutou pelo vampiro, como uma tigresa, soube que não é como nós... Nunca foi... E por isso tenho certeza que vai sofrer muito em saber que o vão sangrar, humilhar e machucar. Farão tanto mal ao corpo e a alma daquele vampiro que ele vai chorar e implorar para morrer. E no final, será retalhado como um animal no abatedouro e seus restos mutilados jogados ao sol para que nada reste dele.
Ao vê-la estremecer e se apoiar ainda mais a parede Sr. T riu ainda mais alto.
— Acha que sou tolo para cair nessa encenação? Pensa realmente que sou assim idiota? Sei que está fingindo, todos nós fingimos muito.
Sacudiu a adaga de um lado para o outro em frente ao próprio rosto, em um sinal negativo.
Certas ordens são muito perigosas Miss N. O Sr. O está muito enganado se acha que vou obedecer e tentar te matar. Para isso teria que me aproximar demais de você e sei que isso é o seu maior desejo no momento.
Afastando-se devagar de costas em direção a porta retirou um isqueiro no bolso.
— Tenho outros planos sabe. Um que envolve você, gasolina, essa casa e esse meu inseparável amiguinho combustor aqui. — Riu. — Sempre gostei de queimar coisas. Desde pequeno. Pergunte a minha família quando os encontrar do outro lado... Ops! — O sorriso alargou-se na nojenta face. — Esqueci que você tem uma viagem sem escalas para as veias do nosso amo e algoz. Adeus Miss N.
Quando teve certeza que ele se fora, se aprumou segurando os elos da corrente, puxando com todas as forças que possuía e buscava do desespero.
Nada.
Tentou puxar a mão pelo bracelete, que como algemas grossas, pendiam do seu pulso, mas estavam muito rente à carne, sem espaços onde pudesse passar os dedos, mesmo que quebrasse alguns deles para facilitar.
Com um gemido estrangulado deixou-se cair sobre os joelhos se machucando ainda mais. As lágrimas que pensava não possuir, inundando seus olhos, escorrendo pelo seu rosto, pingando no chão, misturando-se ao sangue negro e vermelho.
Pensava apenas no vampiro. Em Tohr. A angústia de saber que estava nas mãos do inimigo porque a manteve viva, lhe dilacerava. A raiva de ver-se impotente para ajudá-lo ou pelo menos avisar aos seus amigos, dolorosa.
Sabia que o Sr. T não estava brincando e nem mentindo. Tohr seria interrogado e isso era sinônimo de dor... Sofrimento... E mutilações...
Estancou.
O cheiro da fumaça atingiu seu nariz no mesmo momento que a idéia para se libertar surgiu em sua mente.
Olhou a mão acorrentada estudando o melhor ângulo, a melhor forma de começar a se soltar.
Rasgando uma parte do couro da calça fez um torniquete no braço acima do cotovelo o mais apertado que conseguiu.
Não houve vacilação quando, com a mão direita amparou sua irmã aprisionada, erguendo-a em direção a sua boca... aos seus dentes.
Ao primeiro golpe o gosto do sangue como ácido em sua língua, e a dor em rasgar a pele carne e tendões, fez seu corpo se retesar e o braço voar para longe.
Se alguém estivesse ali com ela agora, vendo como novamente abocanhava a mão, numa tentativa de se auto mutilar, com o sangue escuro escorrendo pelo queixo, suja e determinada, entenderia até que ponto se pode amar... Amar verdadeiramente alguém.
Com o corpo trêmulo pela dor mordeu mais rápido e mais forte. Precisava terminar logo antes que perdesse muito sangue e ficasse fraca demais para ajudar seu amante de alguma forma.
Quando com um último puxão arrancou último naco de carne, não pensou muito e firmemente puxou o braço em direção ao corpo. Afastando-se como um animal ferido, se enroscando sobre o membro mutilado, tentando a todo o custo parar o sangramento apertando ainda mais o torniquete com a única mão que sobrara e seus dentes.
A cela agora parecia um forno. Por certo o Sr. T fizera uma bela fogueira sobre a sua cabeça.
Olhou em volta enquanto se erguia com determinação. Fizera o mais complicado, agora necessitava sair, avisar aos adagas negras e encontrar o seu vampiro antes que o matassem.
Seus olhos foram atraídos pela jaqueta de couro no canto mais afastado do recinto, onde a pouco menos de uma hora Tohr a jogara antes de fazerem amor.
Caminhou até ela, pegou e começou a revistá-la. No bolso interno encontrou o celular. Devagar colocou o aparelho no bolso de sua calça e enrolou a peça de couro ao redor do pulso, enquanto se dirigia a porta.
Não estava trancada.
Felizmente o lesser a subestimara.
Galgando os degraus com pressa subiu para se deparar com o inferno.
O fogo e a fumaça tomavam e destruíam tudo ao seu redor. Prendendo a respiração começou a buscar a saída. Ao passar por um recinto viu a espada ao chão perto de seu sabre. Com a jaqueta as recolheu e seguiu firme em busca do ar limpo e fresco do exterior.
De certa forma a sorte, ou algo mais, estava de seu lado, pois havia precisamente saído do lado oposto a que o Sr. T estava. O lesser, absorto, contemplava sua obra, deliciado com o alaranjado das labaredas que devoravam a estrutura.
Nagisa avistou primeiro a sombra do bastardo, tendo tempo de evitar que ele a pudesse descobrir. Observando, percebeu que o T estava sozinho, e isso era muito oportuno, já que teria que lutar com o bastardo para sair dali.
Uma das desvantagens era sua mão mutilada; outra, que seu ferimento ainda sangrava muito, a tornando fraca; e, por fim, que ele poderia, e com certeza, devia possuir uma arma e não seria a adaga de Tohr.
As vantagens consistiam em que a mão extirpada a dentadas tinha sido à esquerda, pois apesar de ambidestra, possuía maior habilidade com a direita; outra que possuía um tônico cicatrizante poderoso a mão, o fogo; a última, que ao recuperar a sua espada, selara o destino do miserável lesser piromaníaco.
Determinada, se aproximou de alguns escombros em chamas da casa, enrolou uma parte da jaqueta colocando o couro entre os lábios e mordendo com força.
Sem pensar, enfiou o toco sangrento do pulso nas brasas fechando instantaneamente a ferida.
Respirou fundo para tomar folêgo ainda mordendo o couro, inalando a fragrância do vampiro em busca de forças e clareza.
O lesser não percebeu a sua presença até ser tarde, muito tarde para tentar algo como apontar a SIG e atirar nela. A espada o acertou em cheio quando ergueu o braço, separando o membro de seu corpo. Outro golpe cortou seus tendões de Aquiles e ele quedou urrando em dores.
Nagisa se postou sobre ele, o braço e joelho esquerdo forçando o lesser com o seu peso a ficar quase imóvel. A visão do sangue dele esguichando como um chafariz do local em que a lâmina arrancara o braço, lhe dando um enorme prazer.
— Pra onde o levaram? — A pergunta numa voz tão calma e fria assombrou o Sr. T. — Conte, e eu posso te deixar viver. Sabe que conheço as casas da sociedade. O que quero é evitar perder meu tempo e seguir direto à que levaram o vampiro.
Com o peso da mulher sobre seu peito o lesser só conseguiu murmurar a localização aos arrancos. Ela o fitou gravemente antes de erguer a espada com intenção de enterrar no peito do maldito.
— Você prometeu. — Ele conseguiu articular em meio ao desespero.
— Disse que poderia, não que faria — Respondeu enterrando a espada tão fundo, que esta atravessou o corpo do lesser atingindo o solo.
Observou o carro parado pouco adiante e enquanto se encaminhava até ele retirou o celular do bolso, procurando na agenda o número de um dos irmãos. O primeiro que encontrou foi de Warth, o rei.
Decidida apertou o botão de discar.
Quando fez a chamada uma voz fria, furiosa e aristocrática retumbou em seu ouvido.
— Maldito Fodido...
— Os lesseres levaram Tohr. Preciso de ajuda para resgatá-lo. Não posso perder tempo com explicações. — Falou rápida, mas calmamente, enquanto entrava no carro do lesser procurando as chaves até encontrar.
Segurou o aparelho entre queixo e o ombro para dar a partida no veículo
— Se quiser ter a chance de salvá-lo me rastreie. – Com a certeza de que poderiam seguir o sinal do celular, desligou, pisando fundo no acelerador.
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