Amor e Ódio - sob o fio da espada
8 Sacrilégio
Notas iniciais
Capítulo VIII
O ar da cela cheirava a talco de bebê, raiva e remorso. Todos olhavam aos dois personagens no centro do drama. Estes alheios se fitavam. Butch sentia como se as correntes que estiveram ao redor de seu pescoço, agora apertassem seu coração.
Ela fixava aos sentimentos estampados na face de Butch e teve certeza que, apesar de toda a rivalidade entre a Irmandade e os lessers, apesar do ódio entre eles ser algo natural e sem questionamentos, ele não faria.
Contudo, não tinha por que se alegrar. Qualquer um dos outros aceitaria a tarefa com prazer e não sentiria o mínimo remorso em cravar uma adaga no seu peito, mandando-a em um estalar de dedos ao encontro do Omega e do tormento eterno.
E de certa forma o desejava.
— Droga Butch, o rei nos deu uma ordem. — Falou Rhage.
— Chega! Sai da frente poli... Eu faço... V leva ele... — Zsadist ordenou mais do que pediu caminhado em direção a fêmea.
— Brian?... Não pense muito, não demora também. — Zsadist parou perto de Butch diante do tom de voz da mulher.
Deus, era quase como uma súplica e definitivamente não combinava com ela.
O vampiro cravou seus olhos cor de avelã nela.
— Não posso ajudar você, não posso te salvar da besteira que fez, não posso... E isso está doendo Kat... Sabe mais do que qualquer pessoa como me senti impotente a vida toda... Droga, agora esses são meus irmãos, essa é minha família, estou com eles... Se o fizer, se te matar.... E tenho que fazer, ou permitir... Nunca vou me perdoar ou te perdoar... Há pouco achei que pelo menos não estaria te condenando, que seria como te libertar, mesmo que me magoasse e me ferisse. Mas isso agora... É pior!
Butch parou de falar, sentindo-se exposto. Cristo, porque tinha que ser tão difícil? Se não podia fazer era só ir dali agora mesmo e deixar que Z ou um dos outros fizesse aquela droga de serviço e depois não pensar, esquecer. Entretanto sabia que nunca esqueceria. E por Deus, tão certo como sua herança irlandesa, não seria capaz de perdoar ao irmão que a executasse.
— Droga maldita Brian, não pensa só faz. — Ela ordenou. — Se eu tivesse como, tentaria fugir e continuaria matando vampiros, lutando contra vocês, por que isso aqui pálido e morto agora sou eu.
Os irmãos ao redor apenas acompanhavam. Tohr colava às costas a porta observando a todos, o corpo todo tremendo. Zsadist parado atrás de Butch, Rhage com as adagas preparadas, Phury quieto calado a face pétrea e Vishous com os olhos postos na lesser num ângulo em que só ela poderia ver-lhe o rosto.
Manter-se ali parado sentindo que a qualquer momento um deles acabaria com a indecisão de Butch estava deixando Tohr louco e tornando-o mais e mais incapaz de deixar que algum deles lhe machucasse.
Merda queria poder protegê-la. Queria que ela fosse qualquer outra coisa que não uma maldita não morta.
— Gostaria de poder inventar uma bela mentira que pudesse enganar você. Queria mesmo, mas para quê? A escolha foi minha Brian. Podia ter seguido em frente. E talvez... Droga! Sei que David desejaria que eu fizesse. Mas eu me deixei dominar pelo ódio... Odiei tanto que segui a escolha mais fácil. Para quê guardar um coração quando ele já está morto em seu peito?
Encarou a Tohr sobre o ombro de Butch
— Amar e perder. Amar e não poder possuir. É tão desgraçadamente doloroso que torna tudo escuro e sem valor ao seu redor. Nos faz querer deixar tudo para traz. Nada mais importa. — Suspirou. — Não estou me desculpando. Só queria que soubesse que o amor não é apenas um privilégio dos que são bons.
Encarou a todos observando de relance o estranho negror no olho tatuado do vampiro de cavanhaque.
Lentamente abriu os braços fazendo com que as correntes em seus pulsos balançassem.
— Pode fazer, prometo que vou facilitar para vocês. — Disse sorrindo e fechando os olhos.
Silêncio. Calma. Consternação.
A figura pálida e acorrentada, não temia, apenas aguardava.
Ninguém se mexeu por um momento, até que Zsadist se decidiu. Era um soldado, um vampiro e um membro da Irmandade da Adaga Negra, tinha que cumprir as ordens de seu rei. Com a adaga em punho procurou acertar o peito exposto da lesser.
Seu golpe foi detido por outra arma igual.
***
De braços abertos, olhos fechados, totalmente vulnerável Nagisa se ofereceu para o abate. Pelo menos seria rápido e não saberia quem fora seu algoz.
Dizem que quando o fim irremediável se aproxima e as portas da morte se abrem para nos dar passagem, você pode rever toda a sua vida.
Não é verdade.
Pelo menos não o foi para ela, não naquele momento.
Nos breves segundos em que sentiu um dos vampiros vir fatalmente em sua direção, a única coisa em que pensou foi nos beijos de Tohr, do breve contato entre seus corpos, no seu delicioso cheiro. Nem mesmo se questionou porque ele e não David.
Estava preparada para se deixar destruir, mas não para o som de lâminas se batendo, da mão forte empurrando seu corpo contra a parede afastando-a do perigo e se postando a sua frente. Menos ainda para, ao abrir os olhos, descobrir surpresa Butch e outros dois vampiros atônitos, parados no mesmo lugar, Thor com seu corpo grande protegendo-a, e o vampiro da cicatriz sendo detido no seu ataque pelo da tatuagem no rosto.
— O que você acha que está fazendo V? — Gritou Zsadist empurrando o macho de cavanhaque e se afastando admirado enquanto alternava o olhar entre este e Tohr. — Que merda é essa que está fazendo? Está se deixando enganar por esta coisa. Acreditou em alguma das mentiras que saiu dessa boca nojenta?
— Na verdade, irmão, eu estava protegendo você! — Respondeu V calmamente afastando-se de onde Tohr com as adagas nas mãos protegia a lesser.
— Virgem Escriba! — Murmurou Zsadist diante da figura do vampiro mais velho.
O assombro de todos era palpável.
Tohr estava com as presas à mostra, a lâmina preparada, os olhos dilatados e quase negros, e protegia a fêmea com todo o seu corpo.
"O leve cheiro que emanava não era de emparelhamento, ou por Deus seria?" Pensaram todos.
— Afastem-se! Droga Z afaste-se! — Tohr olhou a todos. — Não quero machucar vocês, mas não posso me deter.
— Tohr o que fez? Emparelhou-se com ela? — Perguntou Rhage. — Homem deitou com um lesser?
— É anormal, vergonhoso. — Cuspiu Phury.
— Responde Tohrment. Deitou com ela? — Rhage parecia miserável os olhos vermelhos não de vergonha mais de dor.
Com o corpo esmagado pelo do vampiro Nagisa não podia se afastar dele e não queria. A solidez dos músculos era tão confortante, seu cheiro tão bom, seu calor viciante.
Fechou os olhos novamente e esqueceu-se dos outros ao redor, da confusão em torno, deixando a cabeça descansar nas costas largas. O vampiro estremeceu junto ao seu corpo e uma quente rajada de prazer se desprendeu em todas as direções na cela, abalando ainda mais os vampiros presentes.
Logo depois uma fria rajada de angústia que todos sentiram no fundo de suas almas. Nagisa a sentiu tão poderosa que um gosto ruim alagou a sua boca. Deu-se conta então do mal que estaria fazendo a ele permitindo que desafiasse seus amigos por ela.
E ele o fazia. Desafiava os irmãos, suas leis, suas regras, a natureza para protegê-la.
Surpresa custou a compreender, mas quando o fez, sentiu pela primeira vez uma onda forte de alegria e contentamento como não experimentava há três anos. E pela primeira vez durante todo esse tempo sentiu medo, não por si mesma, mas por ele.
Não poderia deixar que ele fizesse aquilo. Não deixaria que ele se perdesse por ela. Tohr estava praticamente traindo sua gente, pois diferente de Butch que a conhecera antes de toda aquela merda de vampiros, lessers, e a guerra que travavam, o macho moreno sempre fora um deles e há muito tempo um irmão.
— Deixa. — Pediu a ele num sussurro. — Por tudo em que acredita, vá daqui.
— Não.
— Tohr, não faça isso, não valho à pena. Sou má... Muito má. Deixe-me!
— Não! — Respondeu rouco, e a firme decisão de sua voz abalou a todos.
— Irmão? — O som estrangulado escapou da garganta de Zsadist quando cravou o olhar na forma como o corpo da lesser se moldou as costas de Tohr, tão completamente entregue como ele próprio fazia com a sua shellan após amá-la.
Cada um deles estremeceu, até mesmo Butch involuntariamente, ao observar os dois corpos tão unidos.
— Irmãos vão! — Pediu Vishous. – Deixem-me conversar com Tohrment. Aguardem lá em cima.
Por um breve momento pareceu a Vishous que nenhum deles iria, mas lentamente cada um se desmaterializou, enquanto Butch subia as escadas apressado.
A cada irmão que sumia no ar o corpo de Thor relaxava, suas presas diminuíram e seu olhar entrou em foco na direção de V. Porém seu corpo não se afastou da mulher.
O filho da Virgem Escriba se afastou um pouco para focalizar melhor aos dois e tentar colocar sua mente em ordem.
— Sabe que está totalmente fudido depois dessa merda, não sabe?
— Já estou há muito tempo. — Tohr respondeu-lhe
— Cavou sua sepultura com o Warth e toda a Irmandade.
— Uma pá de areia a mais ou a menos não fará diferença.
— No mínimo poderá ser expulso e exilado. Talvez morra. E a sorte dela já está lançada.
Nagisa estremeceu. Estava estranhamente quieta.
— Tomei minha decisão. — Respondeu Tohr guardando as adagas.
— Não há amanhã para vocês. Não com você e uma lesser. Eu vi. Acredito que seja obvio até demais.
E como o maldito do V podia ver o futuro, devia estar totalmente certo.
— Só está confuso irmão, perdeu sua shellan há muito pouco tempo, perdeu seu filho...
— Não fale deles! — A temperatura na cela foi parar abaixo de zero.
— Temo que esteja apenas procurando outra forma de se matar. — V soprou triste.
As palavras ditas tão calmamente e com convicção abalaram a estrutura de Nagisa. Não poderia deixar aquilo acontecer. Não ia ser o instrumento de destruição do homem que a fizera amar novamente. Devagar afastou o corpo do dele, mesmo diante da resistência do vampiro.
Ainda que relutante em dar as costas a Vishous, Tohr girou o corpo para a lesser segurando seus punhos, o aroma adocicado misturando ao seu cheiro atingiu suas narinas fazendo que uma parte de seu corpo se repugnasse e estimulando a outra.
Quando seus olhos se encontraram o profundo tom verde nos da fêmea fez seu corpo se agitar ainda mais, e V foi varrido de seus pensamentos.
— Só me conhece há um dia. — Ela sussurrou aproximando as mãos de seu rosto. — Não pode sentir nada por mim. Simplesmente não pode.
Devagar o vampiro se aproximou dela tomando sua boca em um beijo que lhe mostrou mais do que em palavras seus sentimentos.
Ela deixou que o desejo e todo o amor que estranhamente sentia por ele, crescessem e preenchessem cada canto obscuro de seu corpo lesado e ferido.
Aferrado ao corpo dela Tohr olhou ao Vishous antes que ele se fosse.
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