Notas iniciais
A ideia dessa história surgiu enquanto eu revia um filme chamado Noite de Ano Novo (que é muito bom por sinal). Espero que gostem. Boa leitura.

A noite chegava e com ela vinha mais uma monotonia que sempre costumava ocorrer nos sábados noturnos. Jacob não costumava sair muito de casa, para ele suas melhores companhias eram: pipoca e um bom seriado. Não precisava de mais nada. Morava no décimo andar de um edifício ao centro da cidade e tinha uma visão mais do que privilegiada de tudo. Era um show de luzes brilhantes e coloridas, algumas vezes passava horas tomando chá e vendo aquela paisagem, que mais parecia uma pintura.

Estava começando a fazer seu ritual semanal. O computador já estava conectado com a televisão da sala, o netflix já estava aberto, cobertor e travesseiro em cima do sofá. Agora só faltava fazer a pipoca e estaria pronto para escolher um seriado e virar toda a noite o assistindo. Foi quando o problema surgiu: não havia mais pipoca. Revirou todos os armários presente na cozinha e até mesmo abriu a geladeira, não encontrou nada. Já passava da meia noite e a maioria das lojas de conveniência já estavam fechadas. Teria que ir a um daqueles mercados vinte e quatro horas. Revirou os olhos e respirou fundo, enquanto pegava a chave do carro.

Saiu do apartamento e seguiu para o elevador, até porque não iria descer pelas escadas daquele andar. Ainda não entendia o motivo de arquitetos terem projetado aquele elevador daquela maneira: feito de vidro, dando pra ver o resto da cidade de dentro dele. Não tinha medo de altura nem nada do tipo, mas sentia certa aflição sempre que entrava nele, pelo menos o chão não era feito da mesma forma.

— Ei, segura o elevador pra mim! — gritou uma voz feminina, vindo do lado de fora. Não queria ir do décimo andar até o térreo acompanhado de alguém que não conhecia, então apenas fingiu não escutar, não fazendo nada. Porém a mulher foi mais rápida e conseguiu chegar a tempo. — Obrigada. — comentou, olhando com seriedade para o rapaz, que começava a ficar vermelho.

Não queria ficar encarando a mulher — muito menos puxar assunto com ela —, mas não pôde deixar de notar que ela estava muito bonita e arrumada. Usava um vestido azul, um salto quase da mesma cor e uma maquiagem bem leve. Como ele sabia disso? Estava vendo o reflexo que a parede de vidro fazia da mulher. Era melhor do que ficar encarando-a na cara dura.

Enquanto o elevador descia, Jacob se apoiava na parede de vidro e batia seus dedos na sua superfície, visivelmente muito ansioso para que chegasse de uma vez por todas no térreo. Então as luzes se apagam de repente e o elevador para de uma vez, fazendo o corpo do garoto ir para frente e o da garota para trás, consequentemente batendo um no outro. Logo as luzes voltam a funcionar, porém o elevador continua sem se mover.

— Não acredito nisso — disse a mulher, enquanto começava a apertar diversas vezes o botão de “t”, como se isso fosse fazer o elevador voltar a funcionar magicamente.

— Tenta segurar aquele botão e falar com o porteiro — respondeu, apontando para o botão mais separado dos outros. Então ela o fez, aproximando a boca do comunicador.

— Ei, tem alguém ai?! A gente ta preso no elevador, tem como fazer alguma coisa? — Nenhuma resposta foi dada para o casal, foi quando a mulher bateu no painel, com raiva. — Droga! Porque isso tinha que acontecer logo hoje?! — Olhava a mulher se irritar sozinha e então respirou fundo, olhando para a cidade atrás de si. Não iria perguntar o porquê dela estar tão irritada, não era necessário, até porque o problema seria resolvido em pouco tempo. Pelo menos era o que esperava.

Os minutos se passavam rapidamente e nada do elevador voltar a funcionar. Jacob já estava mais que impaciente, andava de um lado para o outro, enquanto a mulher se se encostava à parede de vidro, olhando a movimentação da cidade. Então sua atenção é voltada para Jacob, que ainda não parava de ir de um lado para o outro.

— Você realmente ia fingir que não me escutou e ia deixar a porta se fechar? — A pergunta foi feita do nada e o pegou de surpresa. O homem parou de andar e olhou para ela. O que poderia lhe responder?

— Er... Sim? — Não sabia se aquilo era o certo a se dizer em uma situação como aquela, mas não tinha outra resposta preparada.

— E porque ia fazer isso? — Não estava acreditando que ela estava fazendo todas aquelas perguntas naquele momento. Ela não devia estar desesperada querendo sair dali?

— Ah... Eu gosto de ficar sozinho. Afinal, vai que você conseguisse entrar no elevador e ele parasse no meio do caminho. Seria no mínimo constrangedor. — Ambos sorriram. Então a mulher retira de sua pequena bolsa um cigarro e um isqueiro.

— Você se importa? — perguntou, mostrando para Jacob o que tinha em mãos. Ele negou com a cabeça e deixou que ela fizesse o que queria, não era como se um pouco de fumaça fosse matar eles asfixiados. — Aceita? — ofereceu, esticando o cigarro para o garoto, que recusara.

— Isso me dá muita dor de cabeça, além de me deixar muito tonto. — O comentário fez a garota sorrir, enquanto voltava o cigarro para a boca.

— Eu já passei dessa fase, agora eu só fumo pra passar o tempo. — Não entendia o porquê das pessoas fazerem aquilo. Sabem que aquilo faz mal e mesmo assim o fazem para “passar o tempo”. Aquilo não fazia sentido algum. — Alex.

— Oi? — Não tinha entendido o nome aleatório. Estava olhando para as ruas iluminadas pelos postes e totalmente distraído quando o nome surgiu.

— Meu nome é Alex — repetiu, voltando a sorrir.

— Ah sim. O meu é Jacob.

— Igual o lobo? — a pergunta veio junto com uma fumaça saída de sua boca.

— Existe alguma espécie de lobo chamado Jacob e eu não sabia? — Sabia exatamente do que ela estava falando, mas queria deixar o clima mais amigável.

— Você sabe, aquele filme que tem os vampiros, os lobos e aquela menina louca sem expressão.

— Ah, você ta falando daquele livro que a capa é alguém oferecendo uma maça. Sim, é Jacob que nem ele — respondeu, voltando a sorrir juntamente de Alex.

Continuaram conversando por bastante tempo e cerca de uma hora e meia já tinham se passada e nenhum sinal de que o elevador ia ser consertado tão cedo. Ambos se encontravam sentados no chão do elevador, um virado para o outro. Alex já tinha fumado mais dois cigarros e agora não tinha mais nenhum. Tentou falar com alguém pelo celular, mas continuava sem sinal dali. O elevador se encontrava entre o sétimo e o oitavo andar, dando uma ampla visão para os dois.

— Já pensou se eu ou você tivéssemos medo de altura? Acho que eu já teria quebrado esse vidro e me jogado daqui de cima — comentou, com um sorriso, olhando para a garota.

— Acho que eu estaria gritando desesperada, enquanto tentava abrir essa porta sozinha e, acredite, eu ia conseguir.

— Eu queria muito ver essa cena.

— Você não sabe o que está pedindo, garoto. Eu posso ser muito escandalosa e sou mais forte do que você imagina.

— Ok, agora é fato. Eu quero ver você representando isso agora. Tipo, nesse instante.

Então a garota colocou um sorriso desafiador em seu rosto e começou a se levantar. Tirou os saltos e colocou no canto e então, depois de respirar fundo, começou a gritar desesperadamente, enquanto ria ao mesmo tempo. Começava a bater na porta de ferro do elevador e então as mãos foram para o começo da porta e, com toda sua força, começou a tentar puxar tudo aquilo sozinha.

Jacob ainda se encontrava sentado, com os braços cruzados e um sorriso no rosto. Não achava que ela seria capaz de abrir aquela porta sozinho, por mais que ela fosse muito forte, aquilo era quase impossível. Foi quando viu que aquilo abriu por cerca de dez centímetros, porém logo imediatamente fechou com tudo.

— Uau. Você quase conseguiu Shehulk.

— E olha que eu estava apenas encenando. Se eu realmente tivesse desesperada, aquilo ali não seria nada pra mim — respondeu, enquanto voltava a se sentar na frente de Jacob.

— Ei, deixa eu te perguntar uma coisa... Pra onde você estava indo hoje mais cedo? — Ao terminar de fazer a pergunta, a garota bufou e revirou os olhos.

— Eu ia sair com meus amigos pela ultima vez. Sabe, eu vou me mudar de estado amanha. Então era algo como uma despedida... — Seus olhos começaram a brilhar, começavam a ficar cheios de lágrimas. Jacob se arrasta até ficar de seu lado, então segura sua mão.

— Sinto muito por isso... Mas acho que ainda dá tempo pra sair e se divertir com seus amigos.

— Até daria, se esse elevador estúpido voltasse a funcionar — respondeu, passando a mão em seus olhos, impedindo que as lágrimas começassem a escorrer. — E você, o que ia fazer?

— Eu? Eu tava indo fazer algo muito importante, sem isso meu sábado ia todo por água abaixo.

— E o que seria essa coisa tão importante? Ia se encontrar com alguma garota? Porque olha, acho que ela já deve estar te xingando bastante por demorar tanto.

— Não... É bem mais importante que um simples encontro, por favor. Eu ia comprar pipoca pra poder assistir seriado na companhia dos meus melhores amigos: senhor cobertor e senhor travesseiro. — A mulher começou a sorrir. — Ei, é sério — comentou, empurrando Alex com seu corpo.

— Ok, tudo bem, desculpa — respondeu, empurrando o garoto como ele o fizera.

Continuavam conversando e, com isso, iam ficando cada vez mais próximos um do outro. Começaram a falar sobre experiências com namoros e isso rendeu varias risadas. Então, novamente, as luzes voltaram a se apagar de uma vez, fazendo com que ambos se levantassem rapidamente. A respiração estava acelerada e ambos se encontravam bastante nervosos. Diferente da primeira vez, as luzes não voltaram a se acender rapidamente, elas simplesmente não se acenderam.

Permaneceram em silêncio por vários minutos, imóveis. Então o elevador desceu cerca de um metro de uma vez e voltou a parar. Nesse momento os dois se abraçaram ao mesmo tempo, estavam aterrorizados. Mais uma vez o elevador começa a descer e para de uma vez. Lagrimas começavam a escorrer dos olhos e Alex e Jacob tentava a consolar, porém estava mais nervoso do que ela. Então ele pega o rosto da mulher com as duas mãos e encosta sua testa com a dela.

— Olha, vai ficar tudo bem — começou, passando a mão pelo cabelo de Alex. — Vamos ficar bem...

Jacob mal terminou de falar e então o elevador simplesmente começou a descer rapidamente, agora sem parar. Os dois corpos voltaram a se unir e, enquanto a mulher estava com os olhos fechados, Jacob olhava a cidade embaixo deles se aproximando cada vez mais rápido. Quando estavam prestes a bater em o que quer que fosse, o garoto fechou os olhos. Foi quando o elevador parou de uma vez, fazendo os dois corpos serem lançados contra a parede de vidro.

Abriram os olhos lentamente e só então perceberam que seus rostos estavam bem próximos um do outro. Olharam-se fixamente sem dizer uma só palavra, um sentindo a respiração quente do outro. Foi quando seus lábios começaram a se aproximar um do outro, no mesmo ritmo lento. Antes de selarem um beijo, a luz do elevador volta a funcionar e, finalmente, a porta do elevador se abre, mostrando diversas pessoas e técnicos do lado de fora.

Jacob e Alex se separam rapidamente ao ver aquela cena. Ela começa a arrumar seu vestido, enquanto ele observa a reação das pessoas com aquela cena. Então diversas pessoas começam a perguntar se ambos estavam bem e os dois somente concordavam com a cabeça, enquanto se olhavam uma vez ou outra. A garota pega seus saltos e os calça, finalmente saindo do elevador, seguido de Jacob.

— Então... Acho que ainda dá tempo de você ir se encontrar com seus amigos... — comentou, meio sem jeito.

— Sim... E acho que já pode ir fazer “sua coisa importante” — respondeu, em meio a um sorriso tímido.

Ambos seguiram juntos para a saída do edifício, sem falarem um com o outro. Então, ao saírem, se olharam uma ultima vez e, depois de um sorriso, ambos partiram para lados opostos. Jacob não conseguia tirar a garota da cabeça, por todo o caminho ficou pesando em Alex e em como ele deveria ter lhe beijado. Olhou para trás, com a esperança de ainda vê-la por perto, mas não havia mais sinal da garota. Respirou fundo e só então entrou no mercado.

Comprou cerca de três pacotes de pipoca e só então voltou para o edifício. Parou na frente do elevador, pensando seriamente em se utilizava dele ou subia pelas escadas. Foi quando se lembrou de que morava no décimo andar, com certeza não iria subir toda aquela quantidade de escadas. Apertou o botão e esperou o elevador chegar até aquele andar, enquanto isso olhava para fora, ainda com esperança de ver Alex, porém não aconteceu.

Entrou no elevador e respirou fundo, olhando para o lado de fora através da parede de vidro. A porta começou a fechar e então ouviu uma voz pedindo para que segurasse o elevador e, dessa vez, o fez. Apertou o botão específico e a porta voltou a se abrir, revelando uma mulher com vestido azul esperando com um sorriso no rosto.

— Achei que não iria segurar novamente — disse, com um sorriso no rosto.

— Eu não ia cometer o mesmo erro duas vezes. Vai que é uma pessoa importante que pediu por isso — respondeu, sorrindo logo em seguida. Então Alex parou ao lado de Jacob, olhando para a porta se fechar, enquanto lentamente ele segurava sua mão, entrelaçando ambos os dedos, enquanto a porta do elevador finalmente se fechava.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!