Amor de Ontem, Hoje e… Sempre⏳⌛⏳
20 A sorte está lançada
Notas iniciais
... ainda no apartamento de Kate...
No quarto de suas filhas, após ter contado uma historinha e tê-las colocado para dormir, Richard esperou um pouco a fim de confirmar se Bia e Annie continuariam dormindo.
Depois de um tempo, ele se levantou e percebeu que já podia descer para a sala de estar a fim de sentar e conversar com Kate. Contudo, olhando para as meninas, que estavam com a respiração e os rostinhos serenos pelo sono tranquilo, ele meditou sobre a forma maravilhosa como elas estavam sendo educadas pela mãe.
Ela fizera um trabalho excelente. Ele não saberia dizer se outra mulher no lugar dela faria a mesma coisa. Não saberia dizer se outra mulher no lugar de Kate iria conseguir não só criar as duas filhas sozinhas, mesmo depois de ser rejeitada pelo noivo, mas também montar nos coraçõezinhos e nas mentes das meninas uma imagem excelente deste mesmo homem que a humilhara, não só falando somente coisas maravilhas dele e sobre ele, mas também ajudando a fixar na mente delas a fisionomia dele por meio de fotografias, fruto de fotomontagens perfeitas; não sabia também dizer se outra mulher, com tantas coisas para se preocupar, tais como moradia, educação e alimentação de duas crianças, conseguiria ter resistência para trabalhar duro e lutar por dias melhores, coisa que, surpreendentemente, Kate fizera e fizera muito bem, tendo em vista o magnífico apartamento em que morava com as filhas.
Ainda meditando, ele se lembrou que havia se passado seis anos sem vê-la ou sequer soubesse alguma coisa a seu respeito. Depois de todo esse tempo, ele acreditara já ter superado as suas dores. Mas não. Não foi bem assim que aconteceu. O simples fato de Antonella Symens ter mencionado o nome de Kate, fez com que uma represa se rompesse. Mas nada que sentira naquela manhã no seu escritório, em Nova York, ou nenhum sentimento que experimentara na vida, sequer chegara perto da emoção que teve ao reencontrá-la, frente a frente, no escritório dela em Washington D.C., momento em que sentiu seu coração quase explodir e sair pela boca. E, como se não bastasse a emoção de tê-la reencontrado, ainda descobrira que ela engravidara dele e tivera não uma, mas duas lindas e saudáveis meninas.
Tinha que falar com ela. Saiu do quarto das gêmeas, se dirigiu à escada e, lentamente, desceu, encontrando-a sentada no centro de um dos confortáveis sofás na sala de estar. Estava linda e com a fisionomia leve, o que o deixou menos tenso para a conversa que pretendia ter com ela.
Quando ele se aproximou, ela se levantou, deu uns passos à direita e fez um gesto educado com a mão direita, indicando os sofás e as poltronas que havia ali, sugerindo que ele poderia se sentar. Ela externou o seu gesto, falando – Acomode-se, Richard, fique à vontade. Sente-se onde quiser.
Com tantos locais para se acomodar, Richard preferiu se sentar no mesmo sofá onde Kate estivera sentada, bem próximo ao local onde certamente ela retornaria. No entanto, assim que ele se sentou, Kate deu mais alguns passos e se abancou, ereta e com as pernas cruzadas, numa poltrona individual que ficava em frente ao sofá onde ele estava sentado, só que do outro lado da mesa de centro.
Ao verificar que ela procurava se distanciar dele, Rick percebeu que tal atitude dificultaria o diálogo.
Ele nunca temera enfrentar nenhum tipo de assunto em qualquer ambiente, seja com grandes ou pequenos empresários, seja com políticos notáveis ou com seus funcionários, contudo, aquele tema em pauta seria muito delicado e, ao contrário do que pensou que ia acontecer, estava tenso e sentia sua garganta seca. Portanto, para começar a falar, passou a língua sobre os lábios secos de forma a umedecê-los e, assim, facilitar a articulação das palavras a fim de iniciar a conversa que pretendia ter com ela. Richard, discreto, tossiu e pigarreou levemente como se estivesse querendo limpar algo que irritava sua garganta.
Atenta, ao sentir que ele estava com a garganta incomodando, Kate olhou para ele e falou – Richard, você quer beber um pouco de água?
Pegando o gancho, ele aventurou-se – Ao invés de água, não poderíamos beber um bom vinho tinto gelado? – ele arqueou as sobrancelhas e tentou dar um sorriso para descontrair o ambiente.
Surpresa diante da petulância dele ao solicitar vinho, Kate, sem perder a classe, olhou nos olhos dele e falou educadamente – Richard, não me lembro de ter oferecido vinho a você. — o olhou séria e continuou — Eu te ofereci ‘água’. Nada mais. Tenho certeza que você sabe que vinho é sinônimo de prazer e alegria, situações que não estamos vivenciando. O vinho é para ser degustado nos momentos alegres da vida, desde aqueles mais simples até os mais marcantes, como por exemplo, uma celebração, ocasião também que não estamos vivendo. E o bom vinho, Richard, como você bem sabe, é para ser apreciado sempre na companhia de pessoas queridas, como familiares e amigos, ou até mesmo em um encontro romântico, situações que você, Richard, por escolha própria, não se encaixa. Portanto, — ela o olhou com o queixo erguido – não confunda as coisas.
Ao ouvir dela tal reprimenda, mesmo dita com muita delicadeza, ele sentiu-se muito mal e, se não fosse pelos sentimentos que ainda tinha por ela, ele teria saído imediatamente daquele apartamento. Mas não iria desanimar, muito menos desistir. Ele iria quebrar a resistência dela e lutaria com unhas e dentes para recuperar o amor e a confiança dela.
Richard encheu o peito de ar e discretamente o soltou pela boca, enviando a ela um olhar firme.
Ela o olhou meio de lado e continuou e repetiu a oferta – Se você quiser água... – ela fez uma pausa – É só pedir. A água é cortesia da casa. – ela inclinou levemente a cabeça e deu um meio sorriso.
— Aceito. – falou simplesmente.
Kate foi providenciar a água e, sem demorar, retornou com uma bandeja muito bonita, confeccionada com lascas de bambu entrelaçadas, contendo uma pequena jarra em cristal com bordados em alto relevo, com água cristalina, uma taça apropriada para ele e um balde com cubos de gelo. Havia também um pequeno recipiente contendo rodelas de limão e um porta-guardanapos. Acomodou a bandeja na mesa de centro em frente a ele e, como uma boa anfitriã, o serviu, perguntando se ele queria rodelas de limão, o que ele aceitou.
— Aceito, obrigada. Pode colocar cinco rodelas.
Após servi-lo, ao invés de retornar à poltrona onde anteriormente estivera sentada por pouquíssimo tempo, Kate voltou a sentar-se no mesmo sofá onde Richard estava acomodado, sendo que ficou um pouco mais afastada.
— Então... – Richard resolveu ele mesmo iniciar a conversa e não tocaria no assunto do término do noivado, pois sabia que era um assunto muito denso. Deixaria para fazê-lo mais tarde, se surgisse oportunidade.
Ele sentou-se um pouco de lado, a fim de ficar mais fácil o acesso visual a ela, bebeu alguns goles d’água, continuou segurando a taça e em seguida começou a falar – Kate, primeiro eu queria falar que ainda continuo emocionado em saber que tivemos duas lindas filhas. Ainda parece que estou sonhando que Bia e Annie são minhas filhas e fico triste só de pensar que eu não fazia a mínima ideia da existência delas. No entanto, adorei e aproveitei cada minuto que passei hoje com elas. E neste curto espaço de tempo, deu para perceber a excelente educação que você deu a elas, Kate. Além de lindas e visivelmente espertas e inteligentes, elas são doces, educadas, sensíveis, carinhosas e amorosas. – ele fez uma pausa, tomou mais uns goles de água e prosseguiu – E eu nem consigo expressar a emoção que tive ao ver que elas me reconheceram na praça e, de uma forma tão pura e particular delas, expressaram todo o amor e carinho que elas sentiam por mim, sem ao menos nunca terem me visto pessoalmente e sem eu nunca ter tido a oportunidade de estar presente na vida delas. Portanto, Kate, eu queria agradecer a você...
Mudando de posição no sofá e esticando o braço direito à sua frente, com a palma da mão virada para Richard, exigindo que ele deveria parar de falar, Kate o interrompeu – Ôôôô... Pode parar, Richard. – Kate recolheu o braço e falou firme com o queixo erguido – Pode parar. – ela usou o dedo indicador da mão direita para sinalizar um “não”, recolhendo-o em seguida – Não é bem por aí, Richard. Você não precisa me agradecer por isso, porque eu não fiz nada disto pensando em você. Eu não eduquei nem vou continuar educando minhas filhas pensando em você, Richard. Eu não fiz minhas filhas te amarem, pensando em você, Richard. Muita presunção de sua parte. Eu fiz isso pensando ‘exclusivamente nelas’ e no ‘futuro delas’. Faça-me o favor, Sr. Richard Alexander Rodgers! Não me venha com esse papinho mole para cima de mim depois de seis longos anos de completo silêncio. Imagina!... Só faltava essa, agora! – ela estava indignada – Depois de você ter me enxotado da sua casa e da sua vida como se eu fosse uma qualquer, uma vadia, uma mulher sem caráter?... – fez uma rápida pausa – Rá, rá, rá... – imitou o som de risada forçada em tom de deboche, depois continuou – Pois fique o senhor sabendo, Richard, que eu fiz questão de dar a elas uma educação doméstica e escolar de primeira, com base sólida; fiz questão de enchê-las de amor, carinho e afeição, dando-lhes segurança emocional de tudo que é lado, tendo até me utilizado do seu nome e de sua imagem para dar-lhes confiança, para que elas sentissem que tinham um pai que olhava e zelava por elas. Um pai que, mesmo ausente nas intermináveis "viagens", estava presente nos meus discursos para elas e reforçava o que eu falava expondo as dezenas de fotografias que estão lá no quarto delas, dia e noite, olhando para elas. Assim, Richard, ao saberem que são queridas e amadas pelo pai, por mim e por todas as pessoas que as cercam, elas não se sentiriam rejeitadas ou abandonadas. Ao se sentirem amadas e queridas, elas se fortalecem, e sendo fortes, elas ficam aptas a enfrentar as desigualdades e os percalços que elas, com certeza e infelizmente, encontrarão pelo caminho.
Kate olhou firme para ele, que estava em choque com as palavras ditas por ela, e, levantando-se, afastou-se dele, indo para o outro lado da sala, mas após ficar andando de um lado para o outro, retornou, ficou mais perto dele e, olhando-o fixamente, continuou atirando as palavras sobre ele – Não fique você pensando que ao falar de você para minhas filhas, desde o primeiro minuto de vida delas, eu pensava no seu bem-estar, Richard; Não fique você pensando que eu pensava no seu bem-estar quando eu falei bem de você e de todas as qualidades que um dia eu pensei que você realmente tinha; Não fique você pensando que eu pensava no seu bem-estar quando mencionava você nas conversas que eu tinha com elas acerca do papai delas e também quando eu as animava dizendo que quando menos elas esperassem a viagem do papai terminaria; Não fique você pensando que eu me preocupava com o seu bem-estar quando elas me perguntavam sobre você e eu respondia sempre que você era maravilhoso, bom e o melhor pai do mundo... Não, Richard. Não, não e mil vezes não! Eu vou repetir, caso você não tenha entendido ou ouvido: o único motivo pelo qual eu sempre falei bem de você para minhas filhas, informando que você era o melhor pai do mundo; quando contratei a famosa artista plástica brasileira, a Miky Mello, para fazer fotomontagens onde você apareceria abraçando as meninas, e providenciei também encher o quarto delas com as tais fotografias suas, Richard, foi exclusivamente por elas. Simplesmente para que elas não se sentissem rejeitadas e abandonadas. Somente isto, Richard. Nada mais. – Kate respirou fundo, demonstrando que estava chateada, e voltou a sentar-se no sofá com as pernas levemente afastadas, o tronco levemente inclinado para frente, as palmas das mãos segurando suas têmporas e seus cotovelos apoiados nas suas coxas. Mas esta posição durou apenas alguns segundos, retornando a se sentar confortavelmente no sofá, com um joelho ligeiramente sobre o assento, de forma que ficasse de frente para ele.
O silêncio reinou absoluto no ambiente por longos segundos. Podia-se dizer que o silêncio estava ensurdecedor. Os dois tinham olhos fixos um no outro.
Se os olhos de Rick fossem de papel, com certeza já estariam queimados, tendo em vista os raios de fogo que ela lançava na direção dele.
Como sempre fora firme nas suas ações e nas suas resoluções, Richard resolveu prosseguir com sua intenção de conversar com ela, independentemente do que ela já tinha dito ou até mesmo do que ela ainda fosse dizer.
Richard bebeu o resto de sua água gelada e devolveu a taça para a bandeja na mesinha de centro. Em seguida, ajeitou-se mais uma vez no sofá, ficando confortavelmente meio de lado, quase do mesmo jeito que ela estava sentada, para que ficassem de frente um pro outro.
Com a mão esquerda, Rick fez uma pequena massagem na sua nuca e em seguida, passou a mesma mão nos cabelos. Endireitou o pescoço e, usando sua voz firme, falou – Um momento, Kate.
— Como você ousa...
Ela tentou interrompê-lo, mas ele não permitiu – Kate, eu sei que você está em sua casa, mas eu vou falar agora. – ela o mirou com os olhos semicerrados, mas ele não se intimidou. Continuou dizendo com voz firme — Você já se manifestou e, não vou mentir, eu até entendo a sua posição, Kate. Entendo também que você não queira agradecimento pela forma como educou e tratou ‘NOSSAS' filhas, pois, como você mesma disse, não fez por mim, e sim por elas. Tudo bem! Apesar de não concordar totalmente com seu posicionamento, acho louvável que sua preocupação seja exclusivamente voltada para elas. Contudo, – fez uma pequena pausa – quero te informar que de hoje em diante vamos fazer umas alterações em tudo que se refere a mim e 'NOSSAS' filhas. Sim, Kate, pequenas alterações, tendo em vista que eu e elas já nos conhecemos pessoalmente, e por isso, providenciarei arrumar minha agenda profissional de modo que eu esteja o máximo possível presente na vida delas, para que você não precise mais usar de artifícios para que elas saibam que eu existo, que as amo, que me preocupo com elas, e igual a você, que tenho interesse no bem-estar delas.
Kate escutava, mas não falava nada. Por mais que considerasse difícil esta nova situação e soubesse que, perante a lei, seria impossível ela perder a guarda das filhas, haja vista a existência do dossiê e da declaração que ele assinou, porém, também sabia que perante esta mesma lei, ele sempre poderá ver Bia e Annie e, como ela sempre visou e sempre visará o bem-estar das filhas, sabia que o melhor para elas é que estas visitas fossem feitas amigavelmente, com o livre consentimento dela, sem qualquer intervenção da justiça.
— Ok, Richard. – ela disse vencida – Não era o que eu tinha em mente, mas não vou colocar obstáculos. Mas tem um ‘porém’, Richard.
— Estou ouvindo. Pode dizer, Kate.
— Para que elas não fiquem com a mente confusa com toda esta novidade, acho por bem que todas as suas visitas sejam previamente agendadas, até porque, como eu já te disse mais cedo lá no meu escritório, que elas estudam de segunda a sexta-feira numa escola de tempo integral, entrando às 10 horas da manhã e saindo às 17:30 horas. Mas já fique avisado que a partir do próximo ano letivo, elas estarão em um grupo mais avançado e entrarão às 7:30 horas. Então, elas precisam dormir cedo para que em hipótese alguma, elas faltem um dia sequer de aula, entendeu, Richard? Exijo também que sua presença na vida delas não signifique bagunça ou desorganização de horário e que elas vejam em você um porto seguro, um pai em que elas podem confiar de olhos fechados e que terão certeza que não vai desaparecer.
Olharam-se fixamente até que Richard assentiu – Entendi, Kate e novamente eu repito: apesar de não concordar totalmente com todas estas regras, eu aceito.
— Richard, — Kate argumentou – ou você aceita os meus termos ou teremos que conversar mais a respeito. Eu não estou sugerindo estas regras porque eu quero implicar com você. Longe disto, Richard. Estas regras já existem e são exclusivamente para o bem-estar de Bia e de Annie. – ela fez uma pausa e olhou para ele e prosseguiu — Como deu para você perceber durante o tempo que passou com elas, apesar de todas estas “regras”, elas são doces, educadas, sensíveis, espertas e obedientes sem, contudo, deixar de ser alegres, felizes, divertidas, brincalhonas e espirituosas como qualquer criança da idade delas. Portanto, peço que você não mude a rotina delas mais do que já vai ser mudada com as visitas periódicas que eu sei que você fará. Entretanto..., como não sou ditadora, eu te garanto que analisaremos o modo como elas vão se portar diante de todas estas novidades com relação as suas visitas, e, então, de acordo com o que percebermos, poderemos, com o passar do tempo, ir adequando algumas inovações na rotina delas, de acordo com o que você for sugerindo, sem que elas sejam prejudicadas. – Olhando firmemente para ele, ela disse entredentes e com os olhos semicerrados – Mas desde já eu te digo que nada nem ninguém fará com que elas saiam de Washington D.C. sem minha autorização. Entendeu bem, Richard?
Atento a tudo que ela falou, Richard novamente assentiu – Sim, Kate, eu entendi. – Percebendo que ela estava mais maleável, inclusive até se predispondo a modificar num futuro próximo a rotina das filhas de acordo com as sugestões dele, ele viu que poderia entrar com o assunto do rompimento do noivado. Ele ajeitou-se no sofá de modo que ficou possível encher sua taça de água. Pôs mais pedras de gelo e mais algumas rodelas de limão. Esperou alguns segundos e depois bebeu todo o líquido, retornando a taça ao seu local de origem. Em seguida levantou-se.
Kate não esperava que ele se levantasse, então o mirou com olhar indagador e rapidamente perguntou – Você já vai? – ela percebera tarde demais o modo ansioso com que fizera a pergunta... Mas esperava que ele não tivesse notado.
Só que, atento, ele percebera a ansiedade com que ela falara. Ele a olhou e, sorrindo com malícia (tipo safadinho) para ela respondeu com uma pergunta – Vai ficar com saudades?
Com os olhos arregalados, Kate contestou – Não seja tolo, Richard. Hummm! Até parece. – respondeu sem graça. Logo em seguida, recuperando a confiança, ela olhou para seu relógio de pulso e comentou – Se bem que já está tarde. São quase 20 horas e como não temos mais nada para conversar, acho melhor você ir.
Pegando a deixa, ele falou rapidamente – Não, Kate. Ainda temos algo para conversar.
Aaahn! – Ela fez um som típico de quem está aflita sem entender nada e, em seguida falou – O que teríamos mais para conversar?
— Kate, não é mais novidade. Você já sabe que eu estou muito feliz por ter descoberto que tivemos duas filhas e tenho certeza que você cuida delas como ninguém mais cuidaria, ou seja, que você é uma mãe maravilhosa para elas. Isto é fato. Mas eu queria te dizer que estes últimos seis anos foram os mais difíceis da minha vida e não havia um só dia em que eu não pensasse em você e, só para deixar bem claro, eu não pensava em você por causa das gêmeas, até porque eu nem sabia da existência delas.
— Richard! – Kate o interrompeu.
— Não, Kate, eu preciso falar. Hoje somente você falou, mas eu também preciso falar. – ela o olhou meio de lado, torceu a boca em sinal de censura, mas não mais o interrompeu. Ele continuou — Por várias vezes hoje você me falou da sua mágoa e da sua raiva por ter sido humilhada e enxotada do meu loft e da minha vida e, usando suas próprias palavras, como se você fosse "uma qualquer", "uma vadia", "uma mulher sem caráter"... Kate, hoje, por várias vezes você falou dos envelopes e do seu conteúdo que me levaram a acreditar que você havia me traído.
— Richard... – Kate revirou os olhos em sinal de impaciência. – Eu não quero...
— Kate, como eu já te disse, eu sei que você está em sua casa, mas eu preciso falar, portanto eu te peço que me ouça. – Kate revirou os olhos e fez um jeito no rosto visivelmente emburrada — Então, como eu estava dizendo, Kate, tanto as fotografias quanto o bilhete montado com letras avulsas recortadas de jornais e revistas me levaram a crer que você estaria me traindo com o ... – ele respirou fundo, olhou para cima, pois abominava até falar no nome daquela criatura — ... com o... com aquele médico... com o Josh. – falou finalmente. – Até hoje eu ouço as palavras de minha mãe dizendo que eu havia sido precipitado, que eu havia errado e que eu deveria ter ouvido você ao invés de dar importância a um bilhete e fotografias, cujo autor era anônimo, talvez desconhecido ou até podia ser uma pessoa que tivesse interesse na nossa separação, até porque nós estávamos com casamento marcado para dali a três meses, talvez uma mulher maluca que estivesse interessada em mim, ou uma ex-namorada minha ou algum homem ou até o próprio Josh que quisesse tirar você de mim e, que além de tudo isso, você me respeitava, me amava muito e que você provava isso todos os dias, todos os minutos e, por fim, minha mãe falou que você não tinha o perfil daquele tipo de mulher que eu tinha te acusado.
— Richard! – ela olhava e falava para ele não com o intuito de interrompê-lo, e sim surpresa com aquela declaração dele que aventava a hipótese de ter errado na sua decisão de terminar o noivado deles sem ao menos ouvi-la. Mas apesar de tudo o que ele disse, ele não conseguira diminuir a raiva, a mágoa e a humilhação pela qual passara. Tentando não cair na conversa dele, ela fala tensa – Não acredito que você está me impondo, aqui na minha própria casa, a ouvir sua resenha do que aconteceu há seis anos. Seis anos, Richard. Seis longos anos. – ela concluiu irritada.
— Kate, por favor, me ouça. Como eu disse agora a pouco, eu sei que se passaram seis anos e esses anos foram os piores da minha vida, onde eu só pensava besteiras e não tinha ânimo para nada. Naqueles dias sombrios, eu não vivia, apenas sobrevivia, pois além das palavras de minha mãe ficarem martelando na minha cabeça, havia ainda a saudade que sentia de você. A falta que você me fazia me tirava a paz, a tranquilidade e a razão de viver. Somente por Alexis eu consegui forças para levantar e seguir em frente e não sucumbir. É, Kate, somente por causa de Alexis eu consegui ânimo para voltar ao trabalho. Eu tinha uma empresa para gerir e pessoas que dependiam dela para sobreviver. Então, passei a não pensar em mais nada além de trabalhar. Quando não estava no trabalho, eu estava com Alexis. E, não tenho constrangimento de dizer, Kate, que eu tenho vivido uma vida de monge, tirando raríssimos momentos de revolta e de angústia, onde, com a ajuda de más companhias, mulheres fúteis e álcool, eu cometi certas loucuras.
Nesta altura, ela era só ouvidos, porém o ciúme cortou seu peito ao ouvi-lo dizer sobre os momentos de loucuras com outras mulheres. Urgh! Que raiva! Então, sem perceber, falou entredentes— Não preciso ouvir a respeito dos seus momentos de loucura com mulheres fúteis, Richard.
Ele amou ouvir aquela explosão de ciúmes dela, mas não tocaria naquele assunto de ciúmes agora, deixaria para um momento apropriado. Prosseguiria com sua narrativa. Ele continuou – Tá bom, Kate, mas a maior parte do tempo eu vivia uma vida celibatária, e vivia pensando no que minha mãe havia me dito tentando abrir meus olhos. Portanto não tinha mais certeza da sua traição, eu só pensava em você. Então eu teria que tomar uma atitude e encontrar você, pois eu iria enlouquecer se continuasse com aquela vida e com aquelas dúvidas. Decidi, então, procurar você não só porque eu precisava te ver, mas também porque eu precisava esclarecer os fatos e, depois de tudo esclarecido, pedir desculpas a você por ter dito coisas terríveis para você e pela forma drástica e tosca com que eu havia terminado o nosso noivado. Eu precisava organizar minha vida, pois, após você ter saído do loft, por determinação minha, eu me sentia um trapo humano. Quando eu não estava trabalhando ou com a Alexis, eu só pensava em você e na falta que você fazia na minha vida, o seu cheiro, o seu sabor, o seu toque, os seus carinhos, os seus beijos, os sussurros e os gemidos que você emitia quando fazíamos amor e você atingia o orgasmo, todas estas lembranças eram dolorosas e estavam me matando aos poucos.
A esta altura da narrativa dele, Kate já respirava com certa dificuldade, sentia seu corpo pegando fogo, sentia desejo por ele e mordia o canto de seu lábio inferior – fato que não escapou da observação dele, e, por conhecê-la intimamente, sabia que ela estava muito excitada, o que o deixou igualmente aceso – Rick... – irrequieta, Kate falou o apelido dele na tentativa de repreendê-lo – Richard! Você... Você não precisa entrar em detalhes...- gaguejou.
Ansioso, Rick prosseguiu – Muito antes da Antonella, a Diretora de Dep...
— Eu sei quem é Antonella, Richard – Kate o avisou.
— Sim..., então, bem antes da Antonella, hoje pela manhã, falar o seu nome como sendo a única advogada que ganharia a ação para tirar a “NICE CLOTHES” das minhas vistas, eu já havia telefonado para o escritório de advocacia que você trabalhava à época, mas quem atendeu disse que não te conhecia e que naquele momento não havia no escritório ninguém que tivesse trabalhado com você. Como não tive êxito de te localizar no seu antigo escritório, eu já estava providenciando contratar um Investigador Profissional (PI) para te localizar. Já tinha até uma relação de nomes e telefones de alguns e estava fazendo uma triagem para fazer contato.
Richard a observava e notou que ela estava ouvindo atentamente.
Ele continuou – Mas aí, quando a Antonella falou no seu nome, eu senti que Deus não havia me esquecido e que estava colocando você novamente na minha vida e eu não iria perder aquela oportunidade. Então eu vi a chance de te ver e iria tentar convencê-la a me ouvir, já que, segundo Antonella, você se recusara a advogar para mim, o que só piorava a situação, pois confirmava que você, como eu, sofrera com a nossa súbita separação, não só pelo afastamento emocional e também pessoal. Só que ao chegar ao seu escritório aqui em Washington D.C., eu vi as fotos das minhas filhas e ficara sabendo que você havia enfrentado sozinha uma gravidez sem o meu apoio e a minha presença. E isto mudou totalmente o objetivo da minha visita, pois, apesar de querer como louco esclarecer a nossa situação, enquanto casal, para que você voltasse para mim, eu teria que, antes de pensar em mim, teria que pensar primeiramente em Beatrice e na Annie. Fiquei muito abalado com aquela notícia de que você tivera duas filhas comigo e eu não as conhecia. Logo eu, que sempre procurei ser o melhor pai que uma filha pudesse ter. Logo eu que seria capaz de matar por Alexis para que ela não corresse perigo e para ela sempre ter saúde, e fazia por ela todas as coisas possíveis para deixá-la feliz.
Kate continuava atenta a cada palavra do relato emocionado do ex-noivo que continuou – Após saber sobre as nossas filhas, pensei que minha cabeça fosse estourar, pois além de descobrir que tinha mais duas filhas, e sequer as conhecia, caiu por terra a tentativa de conversar com você sobre o rompimento do noivado, pois apesar de estar louco para esclarecer as dúvidas acerca da suposta traição, porque eu estava louco de vontade de reconquistar você e de tê-la de volta, eu teria que saber tudo sobre minhas filhas e conhece-las. E o pior é que com a notícia acerca da existência de minhas filhas, eu corria o risco de você pensar que eu te queria apenas por causa das meninas.
Kate estava sentada no sofá e a certa altura da narrativa, Richard, totalmente apaixonado, se sentou em frente a ela, sobre a mesinha de centro. Porém, durante boa parte da sua história ficou em pé, se movimentando com pequenos passos de um lado para o outro, sempre próximo a Kate.
Sentado na mesinha de centro, percebendo que não seria rechaçado por ela, mudou-se lentamente de lugar, se sentando ao lado dela e continuou a falar sobre o assunto e, ao senti-la vulnerável, pegou uma longa mecha de cabelo que estava sobre seus olhos e o colocou para trás da orelha, momento em que os olhos de ambos se encontraram e ele não viu olhar de raiva. Ela estava emocionada. Os olhos de Richard desviaram dos olhos para os lábios de Kate e ao retornar para os olhos, sentiu que desta vez, era ela quem olhava sedenta para sua boca. Sem esperar mais nenhum tipo de demonstração de receptividade ou mesmo de rejeição, ele se acomodou de forma que ficou quase colado a ela e, sem qualquer tipo de força ou esforço, usou as duas mãos para segurar o rosto dela com carinho, encostou sua testa na dela. Vendo que ela fechara os olhos, liberando-o para avançar, ele prosseguiu e roçou seu próprio nariz na face e no nariz dela. Ao fazer este carinho, ouviu-a sussurrar – Rick... – e em seguida tremeu sob as mãos dele. Então, lentamente, encostou seus próprios lábios nos dela, sem pressão, apenas um leve toque, um beijo casto.
Apaixonado e excitado, mas sem querer afugentá-la, sentiu que podia avançar mais, então passou a ponta da língua sobre os lábios dela que, neste momento, após um leve tremor, se abriram levemente, o bastante para ele aprofundar o beijo que, numa fração de segundos já não havia mais controle por parte de ambos. Naquele momento, nada mais os deteriam; num instante o fogo os consumiria. As coisas iam muito rápido. Richard já tinha colocado Kate no seu colo, ambos totalmente entregues à paixão, se beijavam e se acariciavam como se o mundo fosse acabar naquele dia.
Neste momento, totalmente vestidos, sentada no colo de Rick, beijando-se e acariciando-se apaixonadamente, sentindo seu membro já totalmente inchado sob si e com certeza, louco para se livrar do aprisionamento inerte e agoniado sob o tecido da calça e da Cueca Boxer para, aí sim, se instalar numa cavidade também apertada, porém umedecida, com direito a se se movimentar bastante e brincar de esconde-esconde.
Kate foi despertada não só com estes pensamentos estimulantes, mas também porque Rick já havia passado sua mão por dentro da sua blusa e a acariciava eroticamente por debaixo dela, apalpando seus seios e apertando e girando seus mamilos com os dedos, levando-a a dar suaves gemidos de prazer. Como por milagre, foi tirada do mundo das emoções libidinosas e deliciosas para a realidade e percebeu que devia estar louca por estar naquela situação com Richard.
Sobressaltada, saltou desajeitada do colo dele para se afastar, deixando-o sem entender nada. Ao fazê-lo, apressada e trêmula, se desequilibrou e caiu de costas, sentada no chão, toda atrapalhada, ainda com a perna direita sobre o assento do sofá, apoiando-se no chão com os braços, oportunidade em que, rápido como um felino, ele desceu do sofá e foi ao encontro dela, ficando ajoelhado entre as pernas dela. Ambos olhavam-se em êxtase. Ela excitada, porém, assustada com o rumo dos acontecimentos eróticos. Ele excitado e sem nenhuma intenção de parar o que haviam começado.

Ainda sentada no chão, com o rosto dele já grudado ao seu, ele ia beijá-la quando ela desviou o rosto para o lado.
— Kate!...
Ela o olhou assustada e disse – Rick eu te dou um minuto para sair da minha casa.
— Amor, você pode até estar falando isso, mas é da boca prá fora, pois não é realmente o que você quer. – Richard falava excitado e apaixonado, agora roçando seus lábios nos lábios dela.
— Não me chame de “amor”. – ela falava tentando se livrar dos braços dele – esta palavra não combina com nada do que você fez comigo seis anos atrás – continuou ríspida, porém com a respiração irregular face o ponto de excitação em que se encontrava.
— Kate, o que foi que aconteceu?
— O que foi que aconteceu? Richard, você ainda me pergunta? Você ainda tem coragem de me perguntar o que foi que aconteceu, Richard?
— Sim, amor... – ele insistia em usar aquela palavra carinhosa para se referir a ela.
— Eu já te falei para não me chame de “amor”. – ela repetiu mais chocada com ela própria do que irritada com ele.
Ambos se olhavam. Ele assustado com o rompante dela e ela assustada pelo que queria fazer com ele e que por pouco não fizera. Pedia a Deus para conseguir parar.
Ainda sentada no chão sem condições de se levantar e tentando ser forte para resistir a ele, ela se arrastava no chão para trás, como se ele fosse um monstro prestes a ataca-la. Com voz rouca, ela conseguiu perguntar — Richard, porque foi que você terminou o noivado comigo há seis anos?
Não acreditando no que acabara de ouvir, ele fala bem próximo ao seu rosto, acariciando os cabelos dela — Ah, Kate! Sério, que você quer mesmo falar sobre isso?
Tentando virar o rosto de um lado para o outro para evitar que ele a beijasse, ela insistiu — Richard, eu vou repetir e quero que você me responda: Porque foi que você terminou o noivado comigo há seis anos?
— Você já sabe a resposta, Kate. Porque nos torturar? – ele fez uma pausa — Mas eu já te disse que eu queria solucionar isso junto a você. Não consigo viver mais um dia sem você, Kate. Eu ainda te amo. Te amo muito e sei que você também me ama... – ela continuava a desviar o rosto para evitar que ele a beijasse — Não tente esconder, Kate. – ele falou carinhosamente.
— Mas repita, por favor. Eu quero ouvir novamente, Richard.
Temeroso, mas pacientemente ele respondeu — Kate, eu terminei o noivado com você porque eu duvidei de seu caráter e a acusei de me trair com... com aquele médico.
Conseguindo se afastar mais dele, ela fala com os olhos ardendo, pois as lágrimas queriam descer. — E depois de tudo o que eu passei, desde aquele dia que prá mim foi um pesadelo, pois você me humilhou e não quis me ouvir, você acha que eu vou ficar com você, vou fazer amor... corrigindo..., você acha que eu vou fazer sexo com você somente porque os nossos corpos não conseguem ficar longe um do outro? É isso, Richard?
— Kate...
— Isto é química, Richard. Química! Mas eu não quero somente química, eu quero amor, Richard, eu quero amor e quero respeito. Dignidade. Quero ser respeitada como ser humano e como mulher. Eu quero que você se retrate. Mas mesmo que você se retrate, não sei se vou conseguir confiar novamente em você, pois se surgir qualquer dúvida ou intriga envolvendo meu nome, você novamente não vai querer me ouvir e, como da primeira vez, me expulsaria de sua vida. Só que agora, Richard, não somos somente eu e você, nós temos duas filhas e não quero que elas passem pelo que eu passei. Não quero que elas presenciem você me humilhar. Não quero isso para minhas filhas. Isso partiria os coraçõezinhos delas, igual como, com certeza, aconteceu com a Alexis naquela época. Se você não pensou na minha bonequinha ruiva naquele momento, eu vou pensar na Bia e na Annie agora. – a esta altura, lágrimas teimosas desciam pela face dela. Ela, com raiva das lágrimas, passou as mãos para limpá-las. Ela se recusava a chorar na frente dele. Ainda sem forças para levantar, ela conseguiu se arrastar e tentou continuar a ir mais prá trás, mas não conseguiu porque havia se encostado na mesa de centro – A nossa química é maravilhosa, Richard, não posso negar. Mas você acha mesmo que eu vou conseguir abrir a guarda para você, Richard? Você acha mesmo que eu vou conseguir ficar com você, um homem que jurava me amar, mas que na primeira acusação anônima que recebe você acredita que eu estava te traindo. Você, ao invés de querer ouvir o que eu tinha para te dizer, preferiu acreditar numa pessoa que nem mesmo sabe quem é, uma acusação de um mero desconhecido! Acreditou naquele bilhete imbecil e naquelas fotografias ridículas, e você, agindo como uma criança birrenta e cabeça dura, acreditou serem verdadeiras, sequer pensou na possibilidade de serem falsas; Sequer pensou em olhar nitidamente para elas, porque se fizesse, Richard, com certeza perceberia que se tratava de fotomontagem grotesca. Demais prá mim, Richard. Muito me admira, você, que eu julgava ser tão inteligente...
— Kate...
— Richard, você não quis ir embora, então vai ter que me escutar. – ela estava irritada – Eu nem acredito que você foi tão cabeça dura. Assim que eu abri o envelope, li o bilhete e vi as fotos, percebi de cara que era eu e o Josh... Só que com certeza, havia algo estranho e muito podre ali, pois aquelas cenas nunca aconteceram: Eu e Josh? Não! Vi também que eram recentes tanto o meu corte de cabelo quanto aquela roupa que eu estava usando nas fotos, e, com certeza, não coincidiam com o período em que eu namorei com o Josh. Assim que eu terminei o namoro com ele, logo depois eu e você começamos a namorar e não nos desgrudamos mais. Aliás, eu terminei o namoro com ele porque eu nunca o amei. Eu namorei com ele porque ele me amava e eu pensava que aquilo me bastava. Só que a partir do momento que eu descobri que te amava, Richard, eu vi que não fazia mais nenhum sentido ficar com o Josh. Então eu, já completamente apaixonada por você, terminei o namoro com ele e aceitei suas investidas e não demorou muito nós dois começamos a namorar. Assim que o Josh descobriu que eu terminara o namoro com ele para ficar com você ele teve a ousadia de ir até minha casa para tirar satisfação, mas daí eu disse com todas as letras que eu nunca tinha amado ele e que, na realidade, eu amava você, Richard. Então, ao ouvir isto, ele foi embora com muita raiva e nunca mais o vi. E eu e você já estávamos juntos há mais de três anos e neste período, nem mesmo por coincidência eu vi o Josh, quanto mais sair passeando e me beijando com ele, como atestavam aquelas fotografias. Impossível! Mas eu estava tão ligada em “fatos”, “datas" e "detalhes de roupa e corte de cabelo” que não vi o que estava gritando nas fotografias. De cara dava para saber que aquela mulher era eu. Isto eu não tinha dúvidas. Só que aquele homem nunca poderia ser Josh. Aquele homem era você. Eu o reconheceria até se você tivesse usando capuz e era exatamente o que acontecia naquela foto... quer dizer,... mais ou menos. Para confirmar minhas suspeitas, olhei atentamente para as duas fotos e firmei minha vista sobre o rosto de Josh e confirmei minhas suspeitas: aquele homem era você, Richard. Então fui identificando sua roupa, seus sapatos, suas mãos, seu corpo e não tive dúvida. Era você. Então, já certa que era você, eu voltei a olhar os detalhes. Eu amava você como você era, mas não podia deixar de perceber que o Josh tinha mais altura e era mais esbelto do que você. Então, solucionado quase tudo, eu passei a olhar atentamente o rosto das fotos e aí, eu, apesar de revoltada com a situação, consegui achar graça, pois um imbecil substituíra o seu rosto pelo de Josh nas duas fotos, numa fotomontagem grotesca.
Kate fez uma breve pausa, mas continuou — Apesar de estar te contando com detalhes, todo este exame que eu fiz muito rapidamente, imediatamente eu fiquei louca de preocupação porque o bilhete dizia que você receberia um envelope com o mesmo conteúdo. Então, por saber que você é esquentado e detestava Josh e tudo que se relacionava a ele, eu, ao invés de ir prá casa me arrumar porque iriamos a um evento naquela sexta feira, fui imediatamente para o seu loft, porque queria mostrar para você o envelope que eu tinha recebido, antes mesmo de você receber o seu e aí, eu explicaria tudo o que eu havia descoberto. Eu tinha plena convicção que, mesmo chateados com aquela situação, ainda conseguiríamos achar graça naquilo. Mas qual foi a minha surpresa ao chegar a sua casa e me deparei com toda aquela cena e com tudo o que me aconteceu, sem que você sequer deixasse que eu abrisse a boca. – ela fez uma pausa – Então, Richard, você acha mesmo que eu vou conseguir ficar com você de corpo e alma sabendo que você não confia em mim? Você acha que daria certo? Pare e pense. Você acha que poderemos iniciar uma nova vida juntos, com todas estas dúvidas que pairam na minha cabeça e na sua? Eu não conseguiria viver com você com a dúvida se você iria me expulsar novamente, acaso você recebesse uma nova carta e novas fotografias ou quem sabe até um telefonema também anônimo ou coisa do gênero, que fizesse você duvidar do meu caráter. Já você, Richard, depois de seis anos é que você pensou em contratar um investigador profissional para me encontrar e fazer as pesquisas acerca da minha integridade moral, etc, etc, etc..., ou seja, mesmo depois de todas as advertência que Martha fez, você ainda tinha dúvidas se eu te traí. Agora me diga, se eu não tivesse, neste momento, quase que obrigado você a ouvir todas estas explicações, você me ouviria? Você ainda vai continuar acreditando que eu te traí? E se você ainda continuar acreditando nesta traição, talvez quisesse ou aceitasse ficar comigo somente porque insiste em dizer que ainda me ama e que está com saudades. Richard, você está cheio de carinhos, palavras e declarações de amor... Mas nada disso eu acredito. O que talvez você queira é só fazer sexo comigo, porque sabe que nossa química é maravilhosa e porque nestes seis anos que ficamos separados, você não encontrou nada igual ou parecido. E se ficarmos juntos, Richard, o que eu faço com toda a mágoa e raiva que eu sinto por você? E o que você faz com a falta de confiança que você tem em mim? Você pensa que é assim, chega, me beija, tiramos nossas roupas e fazemos o melhor sexo do mundo... e tudo está resolvido. Então tudo se resumiria apenas em sexo. Richard? O que adianta desfrutarmos de um sexo maravilhoso se não houver confiança?
O silêncio voltou a reinar no ambiente. Só se ouviam as respirações que estavam fortes.
Após alguns instantes, Richard chega mais perto de Kate. Ela permitiu que ele se aproximasse e lhe fizesse um carinho no rosto que a fez fechar os olhos e se arrepiar, então ele falou – Kate, eu te amo. Acredite em mim.
Louca de desejo, de amor e de paixão, Kate lutava para resistir a ele. Ao sentir que ele esta dando selinhos nela, a fim de derrubar suas barreiras, ela, abriu lentamente os olhos, mas não o rejeitou, apenas não retribuiu. Seu coração estava acelerado, batendo totalmente descompassado e muito forte e, tinha quase certeza que ele poderia ouvir o barulho que ele fazia. Ainda sem se afastar dele, Kate, emocionada e cheia de coragem falou – Rick...
— Sim. – ele sussurrou entre um selinho e outro.
Ainda recebendo selinhos, ela se afastou um pouco, pegou o queixo e o rosto dele com suas mãos e prosseguiu – Você quer mesmo ficar comigo? — ela perguntou sussurrando, seduzindo-o.
— Sim, Kate, é o eu que mais quero na vida... – ele deslizou os dedos pela face dela, num carinho bem sensual.
— Você me ama mesmo? – Kate sussurrou.
— Sim. Eu te amo como nunca pensei que continuaria a te amar...
Afastando-o, delicadamente, Kate fala – Então, Rick, já que você me ama e quer ficar comigo, você tem que me provar.
Ele a olhou sorrindo, achando que esta tarefa seria muito fácil. E passou a continuar distribuindo selinhos nela. Neste momento, encontrando forças de onde não sabia que tinha, falou – Então, já pode se considerar minha – dizendo isto ele retornou, já a abraçando e a enchendo de selinhos
— Você entendeu errado, Richard... – ela o encarou com olhos semicerrados, ainda deixando ele “se espalhar” – Você entendeu tudo errado...
— Ãahhn! Como assim, eu entendi errado? – ele quis saber.
— Eu disse que se você quiser, vai ter que provar que me ama..., mas não é provar com suas performances sexuais... – ela disse, ainda com os olhos semicerrados, mas agora com voz sensual.
— Ãahhn! Então... – ele fazia cara de curiosidade.
Já fortalecida, ela consegue escapar dos braços dele e se levanta, mas ainda fica de frente para ele, que também se levantou, e continua falando baixinho, quase sussurrando — Rick, — ela falou sensual — se você tiver mesmo interessado em mim, na minha pessoa, e se ainda quiser provar que me ama, — o olhou firme e mudando totalmente o jeito de falar e o tom de voz, falando grave, completou — vai ter que provar por ações. – e com o dedo indicador, ela o espeta no peito com força – Você vai ter que me provar que realmente acredita que eu não te traí e que está arrependido por ter me humilhado e me expulsado da sua vida e da vida da minha filhinha ruiva. — percebendo que ele ficou aflito, Kate continuou — Você vai ter que rebolar, Sr. Richard Alexander Rodgers.
Kate afastou-se dele e foi na direção oposta, deixando-o boquiaberto, alcançando o elevador. Ela apertou o botão, chamando o aparelho.
Richard ainda se encontrava no mesmo lugar de antes, seguindo-a com os olhos, de queixo caído, tendo em vista a mudança repentina do rumo da conversa e do modo de ela falar com ele.
Percebendo que ele estava em transe, ela o chama para despertá-lo – Richard! – ele a olha atento, mas continua mudo – Se você realmente quiser, vai ser do meu jeito. E não pense que vai envolver Alexis, Bia e Annie no jogo, porque elas têm que permanecer neutras, você está me entendendo? – o elevador chegou e ela olhou para ele e continuou – Pronto, “Rick” – frisou seu apelido – A sorte está lançada. Mas por hoje, seu tempo acabou.
Richard recuperou sua altivez, endireitou os ombros, encheu o peito de ar e inclinou-se diante da mesa de centro para pegar o envelope das fotografias tiradas no parque naquele final de tarde, mas teve seu movimento interrompido pela voz dela – Não! Não pegue estas fotografias, Richard. Elas são de minhas filhas... – levantando as sobrancelhas em sinal que havia cometido um erro ao se referir as meninas como “minhas” — Tudo bem..., corrigindo, estas fotografias... Elas são de nossas filhas.
— Eu quero cópias. – explicou.
— Pode deixar que eu providencio cópias. – o olhou firme e disse – Richard, o elevador não é privativo do meu apartamento, ele serve a todos os moradores, portanto, apresse-se.
Ele foi em sua direção, parou em frente a ela, e, pegando-a de surpresa, tocou levemente no seu rosto e numa mecha do seu cabelo, olhou-a profundamente nos seus olhos e disse – Você vai ter notícias minhas – disse isso e roubou um beijo dela, que o empurrou levemente, impedindo-o que continuasse o beijo.
Imediatamente ela disse – Vou esperar – ela disse ao vê-lo entrar na cabine. – Então, você está preparado.
— Estou. Estou preparado e vou provar que ainda te amo e que acredito na sua fidelidade. Vou encontrar um jeito. Vou usar armas dignas de um vencedor.
— Surpreenda-me.- ela falou, recebendo um olhar penetrante dele – mas desde que estas armas não sejam nossas filhas... vale tudo. Lembre-se apenas que Beatrice e Annie não têm nada que ver com isso. Portanto, já que você entrou presencialmente na vida delas, não as abandone.
Impedindo com o corpo que a porta de correr do elevador se fechasse, ele completou — Não as abandonarei... Pode ter certeza que eu não as abandonarei. – ele disse com os olhos semicerrados – E não estou falando somente com relação às nossas filhas, falo também com relação a você. – ao dizer isso, ele saiu do campo de alcance do sensor eletrônico do elevador que impedia da porta correr. Entrou completamente na cabine e a porta se fechou.
Ao ver a porta do elevador se fechar, ela puxou e soltou uma enorme quantidade de ar, deixou os braços caírem soltos, sentindo-se mais leve, ao mesmo tempo excitada com o que estava por vir. Contudo, tinha a mente e o corpo cansados como se estivesse corrido uma longa distância numa maratona e como também tivesse acabado de fazer uma sustentação oral perante uma corte, num processo dificílimo.
Na verdade, embora não fosse um processo jurídico, aquele, seria um dos processos mais difíceis que teria que enfrentar, pois envolvia não só a sua vida, envolvia também a vida de suas filhas. Envolvia o futuro. E, se tivessem sorte, Richard estaria nele.
Tomando ar, aprumou-se, consultou o relógio de pulso e viu que ainda não tinha dado 22 horas e subiu em direção ao seu quarto. Teria que começar a lutar e não ficaria aguardando as coisas acontecerem. Ela tomaria atitudes e uma das atitudes era fazer com que Richard soubesse que ela não ficaria esperando por ele, sentadinha, como uma donzela boba e sonhadora. Longe disto.
Ao chegar ao seu quarto, pegou o smartphone na sua bolsa, e teclou um dos números da memória rápida, que foi prontamente atendido por uma voz que ela amava.
— Amiga, quem é viva sempre aparece. – Lanie falou sorridente.
Sem delongas, Kate foi logo dizendo – Lanie, preciso de um namorado.
— Ãaahhnn!!! – Lanie não escondeu seu espanto. – Quem é você? O que fez com minha amiga? — Lanie se divertia.
— Lanie! — Kate ralhou com a médica.
— Katherine Beckett! É você mesma?
— Lanie! Eu estou falando sério! — Kate tentava fazer com que Lanie a escutasse.
— Como assim, amiga?- Lanie riu com vontade — Me conta aí esta história, querida, porque eu acho que perdi algum capítulo. – falou divertida.
— Não é piada, Lanie! Mas se você não quiser, eu não te conto.
— OPS! Vou ficar quieta!
— Então, tá, porque vou precisar de sua ajuda Vou te contar. Senta aí – Kate tem uma pausa – aliás, você pode falar comigo agora ou as crianças e o Esposito estão aí com você? – Kate quis saber.
— Pode me contar tudo, nos mínimos detalhes. O Espo está lá embaixo no gabinete lendo uns papéis e as crianças, graças ao bom Deus, estão dormindo. – sorriu novamente – Neste momento, amiguinha — Lanie piscou curiosa e matreira para Kate -, eu estou à sua disposição. Sou toda ouvidos. Vai. Você vai me revelar tudo. Pode começar a me contar tudinho, tudinho. Quero saber os detalhes...
Continua...
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