Notas iniciais
Estou amando os comentários e obrigada por todos eles. Bjinhos. Denise



WASHINGTON-DC, SEXTA-FEIRA, APÓS O COQUETEL.

No apartamento da família Rodgers...

Kate e Lanie estavam sentadas nas poltronas no quarto do casal. Elas já estavam ali há algum tempo. Kate estava arrasada. Desabafava toda sua tristeza e chorava as mágoas diante da cena de traição do marido que presenciara no escritório dele.

As lágrimas desciam livremente por sua face e a cada segundo ela lembrava de uma coisa, de um momento feliz que tiveram, falava também das promessas dele e dos sonhos que eles tinham construído.

Lanie amava a amiga e queria o melhor para ela e estava sendo dolorido vê-la assim, sofrendo.

...

...

...

Lanie assistia sua amiga sofrendo, mas se pudesse faria o possível e o impossível para livrá-la daquela angústia. Como amiga fiel, Lanie pensava em cada segundo da cena que assistira e tentava analisar, de modo imparcial, cada um deles – Kate, você é como se fosse uma irmã para mim e estou do seu lado, te ajudando e te apoiando até debaixo d’água, mas o meu papel é te ajudar a decifrar o que vimos, amiga. Temos que analisar a cena.

Desde que saíra do escritório com Kate, Lanie ficou a meditar do modo como Richard estava confiante no seu discurso, então ela já não pensava como antes. Ela agora estava com dúvidas do que realmente acontecera, pois de acordo com o ângulo delas, a coisa poderia ser outra. Ela continuou – Kate, o que nós vimos foram duas pessoas no chão, mas não sabemos se a situação foi real ou se foi um acidente. Será que não foi mesmo uma armação. Seu marido estava, sim, com as mãos nos quadris dela, eu vi, mas será que o Richard não estava mesmo tentando tirá-la de cima dele, como ele afirmou?

— E o rosto dele cheio de batom? – Kate fungou — Ah, Lanie, eu vi... Aliás, você também viu. – Ela conseguiu dizer, entre soluços.

— Eu sei, Kate, eu sei. Eu vi... Mas minha função, como amiga é tentar fazer você ficar bem, não é botar lenha na fogueira... Meu papel também é tentar acalmar a situação e procurar ver as coisas por um ângulo diferente. Apesar de amar muito você, eu não estou diretamente envolvida no assunto e por isso, eu posso olhar a situação com mais frieza, sem paixão e, com certeza, enxergarei detalhes que talvez passem despercebidos por você, amiga. Vocês se amam e tem muitas coisas envolvidas. Não concordo que filho segura casamento, mas é importante lembrar que eles existem antes de tomar uma atitude precipitada porque depois você pode se arrepender e se isso acontecer o sofrimento será maior, inclusive e principalmente para as crianças. São seis filhos que precisam muito dos pais e vocês dois juntos são melhores do que separados. Kate, querida, preciso que você me escute com atenção e não tome minhas palavras como se eu não estivesse do seu lado. Eu quero o melhor para você e para o casal. Então, vamos tentar entender a cena. Vamos recapitular. E para fazer isto, temos que lembrar quem é a Kelly Wilker e quem é o Richard Rodgers. Como é o jeito de ser de cada um; Como são as atitudes de cada um; Quais os antecedentes que você conhece de um e do outro. Ela, por exemplo, já informou a você o que pretende: ela quer o seu marido e, por outro lado, seu marido já provou a você o que pretende: ele quer ser feliz com você. Ele quer fazer você feliz. Então, amiga, que tal dar uma chance a vocês? Que tal confiar menos nela e mais nele? Você deveria ouvi-lo, amiga.

— Ouvir mais o que, Lanie? Ele já falou demais. Chega! Quando nos reencontramos, Lanie, eu acreditei nele. Juro que acreditei e passei por cima das humilhações e dos problemas que ele me fez passar. Passei por cima de tudo porque eu percebi que apesar dos pesares eu ainda o amava, e ele me fez ver que também me amava. Ele me pediu perdão, e em nome do nosso amor eu deixei tudo lá atrás e me joguei na relação. Foi aí que eu errei. Foi tudo muito rápido. Nós pulamos várias etapas.

— Querida, o que está feito, está feito... Não adianta agora ficar falando o que poderia ou o que não poderia ter sido feito... Vocês deixaram o amor falar mais alto. Que mal há nisto, querida? Mas também vamos usar a razão. Vamos fazer um mix de amor, paixão e razão.

— Mas eu estou com muita raiva dele e com ódio de mim porque eu ainda o amo, Lanie. Eu o amo muito.

— Kate, você podia ouvi-lo, amiga. Ouça e depois você analisa tudo. Você é advogada e percebe mais facilmente quando as pessoas estão mentindo...

— Eu talvez até possa ver isto, amiga, mas acho difícil, porque agora, neste momento, eu não sou a "advogada", Lanie, eu sou a "mulher". Uma mulher que é loucamente apaixonada pelo seu marido e que está em frangalhos.

— Querida, mais um motivo para você escutá-lo. Pense o que teria acontecido com vocês se há seis anos ele tivesse te ouvido ao invés de ser orgulhoso. Kate, se o Richard tivesse te ouvido e deixado de lado a raiva ou qualquer outro sentimento mesquinho, com certeza vocês não teriam se separado. Você sabe que tentou ao máximo explicar a ele o que você havia percebido, ou seja, a fotomontagem. Mas ao invés de te ouvir e raciocinar junto com você ele achou melhor te evitar e não ouvi-la. Resultado, vocês perderam seis anos e suas filhas ficaram os primeiros cinco lindos anos de suas vidas sem o pai por conta da recusa dele em te ouvir.

Entendendo perfeitamente o raciocínio lógico da amiga, mesmo com raiva, sofrendo e chorando, Kate ponderou – Você tem razão, Lanie. Apesar de toda raiva que eu estou sentindo, apesar de ter visto com meus próprios olhos aquela cena grotesca, eu não posso fazer com ele o que ele fez comigo há seis anos. Eu não vou fazer conosco o mesmo que ele fez. Então eu vou dar a ele a oportunidade de falar e de se explicar ou quem sabe justificar... Oh, Deus! Nem sei mais o que estou falando... Acho que estou falando coisa com coisa. Estou nervosa.

— Calma, amiga. Calma. Você está falando tudo direitinho. Gostei de te ouvir falar assim. Fico contente que você vai dar chance dele te explicar ou justificar ou, sei lá o que. Se você quiser eu telefono para ele e digo que você aceitou falar com ele. Pronto. Agora você vai relaxar um pouquinho naquela banheira. Eu já preparei a água... ela está quentinha e já coloquei sais calmantes. Você sabe que banho de imersão com sais é muito relaxante, ajuda a recuperar o bem estar físico e mental, e vai te proporcionar equilíbrio para seu corpo e para sua mente. Eu estou falando como amiga e como médica.

Lanie se levantou e acariciou os cabelos de Kate, confortando-a. Pegou novamente seu tensiômetro e mediu a pressão arterial da amiga e constatou que estava sob controle. Aliviada com o resultado, Lanie continuou — Vá lá, amiga e depois você vai prá cama e tentar dormir um pouco. Aliás, não! Você não pode... Tem as meninas... Elas estão na brinquedoteca entretidas com as bonecas e com os vestidos de princesa. Eu vou ficar com elas enquanto você tá na banheira... Depois você vai vê-las. Com certeza elas vão te distrair. Então, querida, vá logo prá banheira. Fique meia hora lá e tente relaxar para o seu bem e para o bem das meninas. E não deixe que elas te vejam assim, chorando, nariz vermelho, olhos inchados... Mas coloque as meninas para dormir cedo porque eu sei que tudo isto te cansou muito e você precisa descansar e ter um sono sossegado. Seus bebezinhos devem estar ansiosos para você ficar quietinha.

Kate levanta os olhos e olha para sua amiga — Eu estou bem, Lanie.

— Eu sei, querid...

Lanie foi interrompida pela chegada de Richard que entrou sem bater à porta, pois aquele, até que provassem o contrário, também era o seu quarto.

Ao vê-lo, Kate passou os dedos nos olhos para enxugar as lágrimas.

Levantou-se e perguntou séria – Qual foi a parte de “você não mora mais aqui”, que você não entendeu? – sem esperar resposta, Kate, devastada com o que acontecera, continuou indagando — O que você quer, Richard?

— Você. — Com o coração explodindo de medo, de ansiedade e de amor, Richard respondeu sem titubear — Eu quero você, Kate. Eu quero seu amor. Eu quero te dar amor. Eu quero participar da sua vida e da vida dos nossos filhos. Eu quero nosso casamento. Eu quero nossa família, Kate.

Triste com a situação, ela rechaça — Porque você não pensou nisto antes de se envolver com aquela vagabun... – ela não terminou a palavra — ... com aquela indiana desavergonhada.

Lanie se levantou da poltrona e se dirigiu aos dois – Queridos, eu vou deixa-los sozinhos. Vou à brinquedoteca ver as crianças.

Muito rapidamente, Kate intercedeu – Não, Lanie! Você fica. Quem vai sair é ele.

Apesar de Lanie, inicialmente, também ter interpretado a cena de traição da mesma forma que a amiga, ela agora já estava pensando diferente. Havia muita coisa para apurar, então, preferia não dar sua opinião. O papel dela era ajudar primeiramente a Kate, que era sua amiga e, consequentemente, ajudar o casal. Assim, pensando desta forma, ela olhou de um para o outro e recomendou – Vocês são adultos ajuizados. Conversem com calma.

De forma discreta, Lanie chegou bem pertinho de Kate, torceu a boca e falou baixinho somente prá ela – O que foi que você decidiu mesmo, amiga? Você não disse que iria ouvi-lo? Não foi você mesma que disse que não ia fazer com vocês o mesmo que ele fez há seis anos? – afastando-se da amiga, ela avisou aos dois – Mantenham a calma. Se precisarem de mim, estou na brinquedoteca com as meninas — e foi saindo do quarto.

Lanie já estava passando pela porta para sair quando Richard, demonstrando interesse na saúde da esposa, foi até a médica e indagou – Eu sei que ela está chateada, com raiva e tudo o mais. Eu sei que ela pensa que eu a traí... – vendo que médica estava atenta ao que ele falava, ele completa – Tudo bem, eu sei que você também acredita nisto... Eu tenho que conseguir provar que não tenho culpa, Lanie, mas enquanto eu não consigo provar, eu preciso que minha mulher esteja bem de saúde. Ela e os meus bebês. Você conseguiu saber como é que está a pressão arterial dela? E os bebês?

Paciente com o amigo, até porque ela sabia que ele era um excelente pai, Lanie responde — No caminho prá cá, passamos na minha casa e eu peguei minha maleta de médica. – Lanie apontou para a maleta aberta sobre a bancada e ao lado dela estavam o tensiômetro e o estetoscópio. – Por incrível que pareça, ela está com a pressão somente um pouquinho alterada, mas isto é normal diante do momento em que ela está, mas nada para se preocupar. Ela está ótima! Nem medicamento eu precisei dar prá ela, porque conversando ela vai se acalmando e logo a pressão fica normal. Eu já verifiquei três vezes, desde que chegamos e está equilibrada. E os bebês estão ótimos. Eu também os ouvi e eles estão bem. – apesar do clima tenso, a médica esboçou um leve sorriso diante do ótimo estado de saúde de sua amiga e também porque viu nos olhos dele um genuíno interesse na saúde de Kate.

Ao ouvir a notícia sobre o estado de saúde de sua esposa e dos seus bebês, Rick deu um suspiro de alívio. – Obrigada, Lanie e... E desculpe todo este trabalho... Esta situação constrangedora que, mesmo involuntariamente, eu provoquei. Mas eu vou provar que foi uma armadilha daquela indiana maluca, Lanie. Eu quero minha mulher de volta. Eu a amo.

Lanie torce a boca demonstrando que entendia a preocupação dele – Do fundo do meu coração, Richard, eu espero que você consiga provar e convencê-la, porque, apesar do que eu vi, eu quero crer que tudo foi realmente uma armação. Eu sei que vocês se amam e um amor assim não se joga fora. Eu vou ver as meninas. Conversem. – ela se adiantou para sair, mas retornou e o pegou pelo braço. – Eu falei “conversar”, Richard. Pelo amor de Deus, mantenham a calma e não briguem. Se precisarem, estou na brinquedoteca.

Assim que a médica saiu fechando a porta atrás de si, os olhos de Richard e Kate se encontraram e houve um silêncio ensurdecedor.

Com o coração acelerado Kate resolveu quebrar o silêncio e continuou firme na sua decisão – Richard, eu não vou mudar de ideia. Eu quero o divórcio. – tentando manter a calma, ela prosseguiu — Eu reconheço que tenho uma parcela de culpa nisto tudo porque fomos muito depressa neste relacionamento. Nós nos jogamos de cabeça, como famintos atacando um prato de comida. Só que eu não sabia onde estava sua cabeça nestes seis anos que ficamos separados... Não sabia realmente quem você passou a ser...

— Kate eu sou o mesmo... Posso ter mudado um pouco, como você também mudou, mas mudamos para melhor... Nós amadurecemos e estamos juntos porque nos amamos. Nada de achar que fomos rápidos demais... E quanto a comparação que você fez, de parecermos famintos atacando um prato de comida... Esta é a mais pura verdade, pois nós dois estávamos com fome de amor, do nosso amor, para mim só servia você. Prá mim, só servia o seu amor e eu sei que você também só queria a mim. Se não fosse assim, estaríamos com outras pessoas e, com certeza, infelizes. Kate, pare e pense. E a cena que você viu foi armação... Foi um teatro que aquela maluca planejou...

— Porque é que você insiste de me dizer que foi teatro? Como ela iria adivinhar que eu iria comparecer ao coquetel, se nem eu mesma sabia? Eu só soube que iria poder ir mais ou menos meia hora antes de sair – Kate disparou.

Ele estava tenso e seu coração estava aflito – Eu ainda não sei explicar isto, mas a verdade vai aparecer. Eu perguntei a ela como é que ela soube do coquetel e ela disse que o vento levou o convite até as mãos dela. Eu pedi para Antonella investigar, de forma discreta, como foi que ela recebeu o maldito convite. Com certeza tem que ter uma explicação. Meu amor, você não pode acreditar naquela cena burlesca de filme de quinta categoria do cinema de Bollywood!

Mesmo ouvindo tudo que ele falara, Kate ainda estava com muita raiva e não conseguia acreditar naquilo, principalmente porque a indiana não tinha como adivinhar que ela iria ao evento — Richard, poupe suas desculpas. A sua explicação não está encaixando. – ela o olhou emocionada — Eu já tomei minha decisão. Eu quero o divórcio. Não vou mudar de ideia.

Richard estava desesperado, pois não podia perder novamente o amor da sua vida. – Kate, a vida nos deu uma segunda chance e não sabemos se vai ter uma terceira. — Caminhou pelo quarto como se estivesse procurando um caminho para ela acreditar nele. Passou as mãos pelos cabelos, deixando os fios espetados e desordenados – Kate será que vamos ter que esperar outros seis anos para o acaso nos juntar novamente e aí você vai perceber que cometeu um erro em não acreditar em mim igual eu reconheci que cometi a maior burrada da minha vida em nem sequer te escutar?

As lágrimas desciam pelo rosto dela e ela tentava a todo custo fazê-las parar, sem êxito.

Ele também estava emocionado. Chegou perto dela e tentou abraça-la, mas ela o evitou.

Ele voltou a andar sem rumo pelo quarto — Meu Deus! – ele pedia ajuda divina, mas logo percebeu que tinha mesmo que colocar seu plano em prática. Ele tentou de todas as formas evitar fazer isto, mas não via outra saída. Sem alternativa, retornou para junto dela e, puxando muito ar pelo nariz, encheu o peito e comunicou com austeridade – Não vai haver divórcio, Kate.

— As coisas não são como você quer, Richard.

— O mesmo eu digo para você, “Katherine”. – ele frisou o nome dela, sem usar a forma reduzida e isto a pegou de surpresa, pois ele nunca a chamava assim.

— Eu não quero mais falar sobre isto. Já estou cansada!

Mesmo com o coração acelerado, pois seu casamento estava em jogo, Richard foi firme. Ele falava baixo e pausado, tentando passar uma tranquilidade que estava longe de sentir. – Kate, mais uma vez eu te digo: Não vai haver divórcio.

Ela voltou a se sentar, pôs a cabeça recostada no apoio macio da poltrona, olhou para o teto e fechou os olhos, pensativa, tentando manter a calma. Ainda sentada, voltou a olhar para o marido – Vejo que não chegamos a um consenso. Então, já que pensamos de forma diferente, nossos advogados chegarão a um acordo, inclusive com relação à guarda das crianças.

Percebendo que, realmente, não tinha outra saída, Richard manteve a voz suave e soltou a bomba – Eu vou pedir a guarda das minhas filhas. Assim que terminar o ano letivo delas, eu vou desativar o escritório daqui de Washington, D.C. e morar com elas em Nova York.

Ao ouvir a declaração do marido, Kate não se alterou com o comunicado que ele acabara de fazer e sorriu de forma sarcástica – Você deve estar delirando, só pode.

— Por que eu estaria delirando, Kate? – ele fingiu demonstrar ignorância dos fatos.

Ainda sentada, sem dar a mínima ao que o marido falara, Kate se afasta do encosto da poltrona e passa a listar os fatos já conhecidos por ele — Richard, pense bem. Qual o Juiz daria a guarda a um pai que evitou falar com a mãe de suas filhas por um ano? E esta mãe, no caso eu, estava grávida; Qual o Juiz que daria a guarda a um pai que mesmo com excelente condições financeiras, deixou a mãe de suas filhas passar necessidade, com risco, inclusive de nem chegar a dar a luz por falta de alimentos adequados e primordiais para uma gestação saudável, eihm? Um pai que não quis saber nada sobre elas, rejeitou-as completamente e nem mesmo respondeu as milhões de mensagens eletrônicas enviadas pela mãe de suas filhas, eihm? Diz aí, Richard. Você acha mesmo que o Juiz vai dar a guarda das nossas filhas para você? Sério?

Richard sentou-se na poltrona anteriormente ocupada por Lanie e com fisionomia tranquila fez uma pergunta que ele já sabia a resposta, mas precisava tocar neste assunto – Mas como você pretende provar tudo isto, Kate? Como você pretende provar que eu negligenciei você e minhas filhas?

Mais uma vez ela riu de forma sarcástica – Não se faça de inocente. Você sabe perfeitamente do que eu estou falando. Não se faça de desentendido. Mas tudo bem, você quer ouvir novamente, então eu falo. Richard, eu tenho o dossiê... O mesmo dossiê que eu te dei uma cópia. Portanto, seria melhor você nem tentar pedir a guarda porque a coisa pode ficar feia para você.

— Eu insisto, Kate. Eu vou pedir a guarda. Eu vou alegar que eu não sabia que você estava grávida, muito menos que teve minhas filhas. Vou provar que você ocultou tudo de mim, desde a gravidez até a existência das gêmeas. Vou provar que eu só as descobri quando elas estavam com cinco anos. Kate, toda a burrice e estupidez que eu fiz quando desfiz nosso noivado, eu vou passar por cima. Eu vou tirar nossas filhas de você.

Apesar de ter achado forte as palavras dele, Kate ouvia tudo como se fosse uma piada, pois ele não poderia provar nada do que dizia. Chegava a ser cômico mesmo. Ela até riria, mas não tinha ânimo, pois seu coração estava aos pedaços porque tinha perdido o homem a quem amava e confiava.

Triste, chateada, traída, despedaçada, mas ainda apaixonada, ela olhou para ele — Então, tá. – ela recostou novamente na poltrona. – Então, já que você está decidido vamos ver o que vai acontecer... Eu só não posso te desejar boa sorte, mas te desejo boa noite. Vá embora, Richard. Amanhã eu já vou providenciar trocar a senha do elevador. E igual como você fez comigo há seis anos, vou avisar ao porteiro que você não é bem vindo neste prédio.

Mesmo impactado com as últimas palavras dela, Richard indagou — Você não quer saber por que eu estou seguro que vou ter a guarda das nossas filhas?

— Pra falar a verdade, não. Eu não estou interessada porque isto nunca vai se concretizar. Nunca mesmo. Mas já que você quer fazer seu discurso... Vá em frente. Diga aí, o que você pretende inventar? Ah, sim... Só pode, né, você vai ter que inventar. – ela ironizou.

De uma só vez ele soltou a segunda bomba — Você não tem mais o dossiê, Kate. Assim que você saiu do meu escritório, eu fui ao seu e, por coincidência, como você não conseguiu fechar o armário onde as pastas estavam, eu nem precisei arrombar. Você facilitou meu trabalho. – neste momento ele ficou vigilante, porque não sabia se ela guardava outra cópia do dossiê em casa.

Kate arregalou os olhos e raciocinava... “- Eu dei trânsito livre para ele no meu escritório e, realmente, deixei o armário aberto. Estou morrendo de raiva e obviamente muito preocupada, mas não vou deixar a peteca cair”.

Kate continuou a enfrentar o marido – Eu tenho todo o material nos meus e-mails, Richard. É só imprimi-los novamente. Não vou ter mais os exames no original, mas tenho todas as cópias digitalizadas no meu e-mail.

Ele torceu a boca, esperou uns segundos e anunciou – Não tem mais, Kate, eu apaguei todos os seus e-mails que tinham as palavras “Annie”, “Bia”, “Beatrice”, “bebês”, “gêmeas”, “crianças” e outras palavras que eu julguei encaixar na situação, independentemente do assunto e do destinatário. Também apaguei todos os e-mails encaminhados para mim.

— Como você acessou o meu e-mail? Você não sabe minha senha... – ela o provocou.

— Para que me preocupar com senha se você me deu de mão beijada o seu computador ligado e com o e-mail aberto? – ele a olhava e captava cada movimento de seu rosto — Kate, nós saímos apressados ontem do seu escritório e você não só deixou o armário aberto como também seu computador com os e-mails e outros programas abertos e disse para sua Secretária que ela não precisaria arrumar a sua sala e ainda pediu para não deixar ninguém entrar.

Kate estava arrasada, mas ainda não ia entregar os pontos. Ela era advogada e zelar pelas provas era o trabalho dela – Richard eu tenho tudo digitalizado no meu computador. Eu fiz um arquivo especificamente para isto e...

Ele a interrompeu – Não tem mais.

— Como assim?

— É como eu disse. Você não tem mais este arquivo no seu computador.

— Mentira! – ela falou quase gritando — Você não pode apagar porque é protegido por senha, ou seja, não pode acessar, alterar, muito menos apagar. — apesar de tudo ela estava muito preocupada.

— Na verdade, Kate, você não tem mais arquivo nenhum... Eu tirei o HD da sua máquina. Satisfeita?

— O que? Como assim? – aí ela se inquietou.

— Eu sempre gostei de mexer em computador, então, pensando em tudo, antes de ir para o seu escritório eu passei em uma loja de informática e comprei todas as ferramentas para abrir e mexer nos componentes do computador. O resto foi fácil.

Ao ouvir as palavras do marido, Kate organizou na cabeça tudo o que ele tinha falado e viu que estava perdida. Além de perder o homem da sua vida para outra mulher, também ia perder suas filhas.

Ela não conseguiu segurar o choro.

Ela chorava e sem constrangimento, ela declarou – Richard, primeiro você me trai e despedaça meu coração. Você jogou nosso amor todo no lixo. Nosso casamento, nossas promessas, nossos sonhos, nossa parceria de vida, nosso romance... Tudo foi pisoteado e jogado na lama por causa daquela mulher... E agora, para destruir de vez comigo você diz que vai tirar minha filhas de mim... Pelo amor de Deus, não tire minhas filhas de mim. Não tenho constrangimento em dizer que sem você já vai ser difícil, pelo menos no início, mas sem elas eu não vou conseguir viver. Só de pensar, eu...

Kate parou de falar e ficou apoiada entre o recosto e o braço da poltrona. Ficou pálida e seus olhos ficaram sem brilho e sem expressão. Ele percebeu que Kate ia desmaiar, então correu para o banheiro molhou boa parte de uma toalha, retornou para junto da esposa e passou a toalha molhada pela fronte dela e pelas faces e pela nuca. Depois a carregou e a deitou na cama, voltou a passar a toalha molhada nos mesmos locais. Pegou as mãos dela e percebeu que estavam geladas, e ficou apertando-as a fim de esquentá-las.

Richard deu graças a Deus que ela não desmaiou, contudo ficara abatida — Kate! Meu amor! Amor da minha vida! – Richard estava aflito.

Mesmo de olhos fechados as lágrimas de Kate escorriam. Depois os abriu e procurou reagir.

Sentindo sua energia retornar, ela respira fundo, se senta na cama e se arrasta até encontrar os imensos travesseiros e ficar recostada no painel acolchoado da cama, mas não fala nada.

Richard retorna a falar de forma clara – Kate, você sabe que eu te amo. O meu objetivo agora não é te fazer sofrer. Jamais! Eu só quero o nosso casamento de volta. Então, Kate, preste atenção: Eu te devolvo tudo que eu peguei... o dossiê e o HD do computador, se você desistir do divórcio. Eu fiz isto... Tudo isto que eu fiz – ele se emocionou e sua voz engasgou. Respirou fundo e prosseguiu — eu só fiz porque não consigo imaginar minha vida sem você, Kate. Sem você e sem minhas filhas. Eu não te traí. Aquela mulher é louca, disse que recebeu um convite. Não sei quem foi o louco que mostrou o convite para ela... Talvez um outro convidado amigo dela, não sei... Não sei mais o que pensar... Só sei que ela é louca e invadiu meu escritório e não trocamos cinco palavras e quando eu estava saindo para botá-la prá fora da sala, ela me empurrou, eu me desequilibrei, cai no chão e ela se jogou por cima de mim e ficou me agarrando, descontrolada. Parecia que ela estava fora de si. Uma louca!

Com o rosto voltando a ganhar cor, Kate comunicou a ele – Richard, poupe-me destas desculpas... Chega! Chega! Pela minha ótica, tanto de esposa quanto de advogada, eu vi traição. – fez uma pausa — e enviou a ele um olhar de desconfiança, mas decidiu arriscar – Contudo... – ela fez uma pausa – Contudo, você falou que se eu desistir do divórcio você não tiraria minhas filhas de mim...

Richard gelou de alegria, pois sentiu que ela estava analisando a possibilidade de aceitar o acordo. Com esforço ele conseguiu disfarçar a felicidade que estava sentindo com a chance dela recuar da intenção do divórcio – Sim, Kate. Se você desistir do divórcio eu não tiro nossas filhas de você. – Ele estava tão emocionado com a possibilidade dela desistir de pedir o divórcio que seu coração batia forte igual a um tambor e tinha certeza que ela estaria ouvindo. Ele respirou fundo para se acalmar e pensou “- Deus! Meio caminho andado.”

Kate estava pensativa. Estava mais calma diante da atual situação. Neste momento ela pergunta – Digamos que eu desista do divórcio e você não tire minhas filhas de mim... Como seria isto? Eu e você... Como ficaríamos?

— Simples, Kate. Muito simples. – ele respondeu muito rapidamente — Nós continuaremos casados, morando na mesma casa, no mesmo quarto, na mesma cama, com...

Ela o interrompeu e foi sarcástica – Já sei. E eu fingiria que o ‘mundo é cor de rosa', que vivemos na terra dos “Ursinhos Carinhosos” e, como num passe de mágica, esqueceria que você não me traiu. É isso?

— Kate, quantas vezes eu tenho que repetir que eu não te traí. Eu te amo, e você sabe disto. Kate, você me ama, que eu sei. Nós vamos continuar casados e você, pelo amor de Deus, tem que acreditar e confiar em mim.

— Richard, eu preciso botar prá fora os meus questionamentos que estão explodindo aqui na minha cabeça. Um deles é que você sempre fala que eu sou o amor da sua vida e que eu sou a esposa que você sempre sonhou... Então, Richard, por que? Por que você me traiu? Você não tinha o direito de fazer isto comigo, não depois de tudo que sofremos; não depois de tudo que eu que eu passei; não depois de tudo que eu consegui superar para voltar a sermos um casal. – Kate não parava sequer para tomar fôlego. — Richard, um dia eu te falei que eu sou movida pela crença de lealdade, sempre em uma via de mão dupla... ou seja, tanto minha para você, quanto de você para mim. Passei seis anos da minha vida sofrendo por ter sido apedrejada por você e de uma hora para outra você reapareceu e jurou sentir amor por mim e derrubou minhas barreiras, fazendo reaparecer o amor que eu sempre senti por você. Lutei contra este sentimento, mas você conseguiu provar que realmente me amava e que você mesmo não se perdoava pelo que me fez passar. Então, por amor, eu deixei realmente para trás o que ficara para trás. Eu procurei enterrar todo o sofrimento do passado. Richard, nós nos reaproximamos e por amor nos casamos e eu já tinha reaprendido a confiar em você e por isto estou em choque porque eu fui traída pela pessoa que eu confiava, o homem que dizia me amar e que divide a vida e a cama comigo. E uma coisa é certa e o mundo repete toda hora: “a confiança é a base de qualquer relacionamento”, tanto profissional quanto pessoal. E agora, Richard? Trincou! – ela fez uma pausa, fechou os olhos, respirou fundo, voltou a encará-lo e continuou – Eu não estou falando somente em confiança. E mais um detalhe importante, Richard, eu reaprendi não só a confiar em você, como também a me apoiar emocionalmente em você, com relação a mim e minhas filhas. Quando nós nos reencontramos, eu estava com minha vida toda organizada e, apesar de ter amigos a quem recorrer eu só tinha a mim mesma para resolver todo e qualquer problema que surgisse na minha vida e na vida das minhas filhas, então você sugiu... e vi em você a fortaleza que me apoiaria e por mais madura e independente que eu fosse, eu queria colo, eu precisava de colo. Eu confiei tanto em você que passei a ter você como uma âncora, não só para mim, mas também para nossas filhas. Eu amarrei a minha vida e a das minhas filhas a você. Só que você me traiu. Traiu não só no quesito marido, mas também no quesito confiança. Então é como se o cabo de aço que prendia a âncora tivesse rompido e o navio estivesse agora a deriva. E neste momento, depois de tudo que você aprontou lá no seu escritório, eu te digo que para novamente eu passar a confiar em você, Richard, e ter você novamente como minha âncora, você precisa mostrar que o risco vale a pena.

Ele a ouviu com bastante atenção – Então... – ele queria que ela desse a decisão final. – Então, o que você sugere? Qual a sua contraproposta, Kate?

— Então, por medo de perder minhas filhas e... – ela ficou em dúvida se ia ou não ia se expor, então optou por continuar a ser franca – Richard, preste bem atenção no que eu vou dizer. Eu vou continuar a ser muito franca e abrir meu coração prá você, Richard. – ela fez uma pequena pausa e continuou — Eu te amo – ela viu luzes nos olhos dele. Os olhos dele brilharam ao ouvir a sua declaração de amor, então continuou – sim, Richard, eu te amo, mas fique sabendo que eu estou com muita raiva de você, estou magoada, estou triste, estou transtornada com a situação, mas por medo de perder minhas filhas e acreditando que existe uma luz no fim do túnel e que um dia, não sei quando, nós encontremos um caminho para a felicidade plena, eu desisto de pedir o divórcio e, juntos, criaremos nossos filhos.

Com o coração explodindo de felicidade por ela tê-lo aceitado de volta, Richard não conseguiu reter as lágrimas que escorriam por suas faces. – Oh, meu Deus! – Ele se aproximou da esposa para abraça-la e beijá-la, mas ela estendeu o braço à frente e pôs a mão no peito dele, fazendo-o parar. Ela o repeliu e isto o deixou arrasado. Afastou-se um pouco dela e perguntou – Kate? O que foi?

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O amor que Kate sentia por Richard não desapareceu, sequer diminuiu e isto ela não conseguia controlar, tampouco esconder e embora tivesse presenciado a traição, ela também tinha certeza do amor dele. Eles se amavam, contudo seu coração continuava despedaçado diante da cena medonha que presenciara e isto ela estava achando difícil de enfrentar. Entretanto, a oportunidade de permanecer com as filhas lhe deu forças para aceitar a proposta dele e ela agarraria esta chance para analisar não só seu casamento, mas também a verdade dos fatos com relação a traição. Com o tempo sua cabeça iria esfriar e usando de ponderação, iria descobrir se mesmo a amando, ele teve um caso fortuito com a indiana. Iria descobrir se ele estava ou não falando a verdade.

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Ao ser questionada sobre o motivo da rejeição, Kate explicou – Richard, eu apenas falei que não vou pedir o divórcio, ou seja, vamos continuar casados, vivendo na mesma casa, mas isto não significa que prosseguiríamos como se nada tivesse acontecido. Acho que você não ouviu direito quando eu disse que “... para que eu possa confiar novamente em você, e tê-lo novamente como meu marido e minha âncora, você precisa mostrar que o risco vale a pena.” Então, Richard, até lá, até você me provar que o risco vale a pena, seremos marido e mulher perante a sociedade e perante nossa família, principalmente para nossas filhas, mas nada de beijo, nada de abraço, nada de sexo. Continuaremos na mesma casa, mas não dividiremos o mesmo quarto e muito menos a mesma cama. Compartilharemos intimidades familiares e não intimidades de casal.

Continua...

Notas finais
Serei repetitiva, mas nunca é demais falar: Sejamos cautelosos. Vamos manter a calma... Só peço isto. Lembrem-se que a história ainda não terminou e sem nenhum tipo de pensamento ruim eu acrescento... como é mesmo aquele ditado? Ah, sim... "Depois da tempestade vem a bonança" e o outro também encorajador "O amor sempre vence". Vamos juntos em busca da reconciliação deste casal que tanto amamos. Como será que Rick e Kate vão se portar diante deste "pacto"? Será que ela vai consegui resistir? Será que o amor que ela sente por ele vai suportar ficar perto sem ao menos poder tocá-lo? E Rick... Como vai suportar viver na mesma casa que Kate, sem poder tocá-la? Muitas emoções estão por vir. Como já disse anteriormente, a história termina ainda este mês. Ainda temos quinze dias para terminar o mês, e ainda falta resolver umas coisas e desvendar outras... Então, talvez, tenhamos, cinco... dez... quinze capítulos? Será?... Então... Quem viver, verá. rsrsrs CASKETT, Always! Bjinhos (Eu adoraria ouvir o que vocês estão achando) Denise ============= Kate arrasada - http://45.media.tumblr.com/tumblr_mcop1uKWdz1qgytrco1_500.gif Kate limpa as lágrimas - http://26.media.tumblr.com/tumblr_lv30csraTG1r2zzh5o2_250.gif Rick pensativo e charmoso senta na poltrona - https://media.giphy.com/media/10Zq9SCJbYVLH2/giphy.gif Kate chora -