Amor de Fogo

1 Capítulo 1


Acordo cedo, mais um ano de aulas, não é que eu não goste da escola, porém, digamos que sou uma daquelas pessoas que vão, estudam, faz o que tem de ser feito, mas tem como maior incentivo seus amigos. Não moro muito longe da escola, ando 4 ou 5 quadras e lá estou eu, ela fica em uma rua inclinada, e por isso, depois de passar pela entrada, é preciso descer alguns lances de escadas, até chegar ao pátio. Sempre me direciono até uma janela da secretaria, onde espero meus amigos, Amanda é sempre a primeira a chegar, sempre que vejo ela, me sinto aliviado de não ter que ficar sozinho nas aulas, mesmo sabendo que minhas outras amigas chegarão logo depois, porém a preocupação sempre bate. Em seguida chega Mia, e o sinal toca, é de se esperar que Tália e Maíra cheguem somente no 2º turno.

Descemos mais alguns lances de escadas, pegamos uma rampa — que é feita originalmente para deficientes físicos, porém acabamos usando esse caminho para desviar da multidão de pessoas -, chegamos na sala de aula e sentamos em nossos lugares, eu sento na carteira da frente, segunda fileira, Mia senta-se atrás de mim, e Amanda à sua direita. Mia me cutuca.

- Bruno — ela sussurra me chamando para perto, eu me ajeito — Não sei se vou conseguir suportar o ano inteiro estudando no mesmo período que o Miguel — Estamos no 1º ano do ensino médio, o que significa que alunos que não víamos a quase dois anos estarão entrando na 8ª série, que é o ano de estréia na turma da manhã na minha escola. Miguel é um desses alunos, que teve uma certa história com Mia, que não deu certo, e ela conseguiu se livrar disso no ano passado, quando estávamos em períodos diferentes, mas agora...

- Relaxe — digo — se ele vir se intrometer no nosso grupo querendo se enturmar, eu despacho ele. — ela ri, mas na realidade, isso é impossível, digamos que, se o Miguel quiser, ele pode me jogar dentro da cesta de basquete, não que ele seja alto, musculoso e bruto, eu é que sou extremamente fraco, mas isso não vem ao caso.

As terceiras primeiras aulas já acabaram, e o sinal do intervalo toca, Tália e Maíra já estão conosco, subimos para o pátio e sentamos em uma mesa no centro. Me pego procurando Miguel pelo local, não por um motivo específico, mas sim por curiosidade, afinal, apesar de tudo, eu sempre achei ele um tanto quanto atraente, e não podia negar que estava ansioso para ver o quanto ele mudara. Finalmente o encontro, ele realmente mudou, ele cresceu um pouco — não muito, mas cresceu -, seu rosto está mais definido, mais maduro, alinhado com um queixo masculino, seus olhos semicerrados — provavelmente devido ao sono — encaram todos nós da mesa. Suas roupas também mudaram, seu estilo mudou, calça jeans sem cinto e pouco caída, camisa xadrez vermelha e branca e um tênis comum. E claro, não posso esquecer, o cabelo, posso dizer que o cabelo é sim minha parte favorita em qualquer garoto, sem dúvida alguma, pode soar um tanto quanto superficial, mas não nego. Ele usa um corte comum, curto dos lados, grande em cima, usa um boné com a aba indo até metade da cabeça e sua franja lisa penteada para cima completa o estilo do cabelo. Ele vem na nossa direção.

- Oi — diz ele, cumprimentando cada um de nós.

- Quanto tempo — digo

Mia vira pra mim e puxa assuntos, ignorando completamente a presença de Miguel, consequentemente, ele sai e volta para seu grupo de amigos, acho que essa era a intensão dela na realidade mesmo. Enquanto conversamos, Olavo aparece — Ele é alto, branco, um cabelo encaracolado castanho bem claro, e absurdamente animado -, espontâneo como sempre.

- Oi pessoal — começa ele -, então... Como estamos no começo do ano, eu preciso procurar candidatos para os cargos do Grêmio Estudantil da nossa escola, algum de vocês estaria interessado?

- Eu! — Maíra é a primeira do grupo a levantar a mão — eu quero participar do grêmio.

Não é surpresa que Maíra queira entrar no grupo, ela é o tipo de pessoa que gosta de dar o máximo possível para fazer a diferença, seja na escola, na cidade ou país.

- Isso é ótimo — diz Olavo — estamos precisando mesmo de pessoas do primeiro colegial, pois nesse ano, as oitavas séries e terceiros colegiais não poderão ser presidentes do Grêmio, então eu fico feliz com isso Maíra. — com isso ele se despede e vai em busca de mais candidatos -.

Depois do intervalo, voltamos para as sala, porém por só uma aula, as duas últimas serão vagas, e seremos dispensados, mas nós não saímos da escola, ficamos no pátio conversando, com exceção da Tália, que acaba sempre indo para casa por sono e preguiça. Maíra está falando algo com Olavo, provavelmente sobre o Grêmio ou algo assim. Mia acaba saindo com seu amigo para rodear pela escola, e acaba sobrando eu e Amanda — como sempre -, conversando sobre livros e seriados de TV, até que Maíra chega com um papel na mão.

- O que é isso Maíra? — retruca Amanda.

- Olavo me passou a lista de pessoas que se candidataram pro Grêmio — responde ela -, nada de muito interessante. Não foram muitas pessoas, vejamos... Alan, Carlos, Daniel, Danilo... Eu, Miguel... — o nome dele me da algo no estômago, não é nojo, nem ânsia... é algo... diferente.

- O Miguel se candidatou? — pergunto sem pensar — digo... por que alguém como ele iria se interessar pelo Grêmio?

- Bom, reuniões semanais... isso ocupa aulas, e isso significa matar aula com uma desculpa — ela sorri.

- Vou me candidatar. — as palavras escapam da minha boca, não sei exatamente por que disse isso... na realidade, no fundo, eu sei sim, eu quero ver o Miguel em reuniões semanais, ficar perto dele, apreciar a presença dele, não por um motivo pessoal ou algo do tipo, mas por atração real.

- Ficou interessado nas reuniões semanais, é? — diz Maíra rindo.

- Não é isso... só quero o bem da minha escola. — até para mim essas palavras saíram falsas, mas não é minha intensão convencer ninguém.

Ando pelo pátio em busca de Olavo, encontro ele em uma sala pequena onde é guardado alguns instrumentos da fanfarra, parece que é lá que serão feitas as reuniões, ele concorda em me inserir na lista de candidatos, saio da sala, e sentado em uma mesa grande ao lado da porta, encontro Miguel.

- Olá — ele estende a mão e me cumprimenta.

- Oi — sento-me na mesa e ele se deita nela, com as mãos na cabeça e olhando para o teto.

- Você e a Mia são bem amigos não são? — ele olha pra mim.

- Somos sim, por que? — dou um sorriso amigável.

- Você acha que ela ainda gosta de mim? — posso ver em seus olhos um brilho profundo, essa pergunta me deixa sem palavras.

- Não posso dizer isso... não porque não quero, mas sim porque não sei a resposta, não sei o que passa dentro da cabeça dela, mas o que posso te dizer é que ela prefere se afastar de você.

- Eu amo ela... amo ela a muito tempo, nunca senti por ninguém o que sinto por ela, mas ela é muito complicada, ela não se decide, não sabe o que quer — ele diz em um tom de frustração.

- As mulheres são difíceis de entender — foi tudo que conseguir pensar em responder. Ele assentiu.

- É... bom, vou voltar para minha sala, até. — ele se despede.

Em seguida, Olavo sai da sala, ele me diz algo sobre uma aula de teatro que ele vai dar hoje a tarde, parece que Maíra virá, então acho que venho também.

Chega o horário de ir embora, eu subo com Mia até o ponto de ônibus, eu costumo esperar ela lá para não deixá-la sozinha, conversamos um pouco, até que seu ônibus chega. Atravesso duas ruas, e sigo caminho de volta pra casa, paralelo com o caminho em que vim hoje cedo, pois esse tem mais sombras, e enfrentar o calor do 12:00 não é fácil. Começo a pensar um pouco sobre o que Miguel dissera, até que escuto algo, continuo subindo a rua e escuto alguém de novo, olho para trás. Miguel. Ele vem subindo com sua bolsa cheia e pesada. Aquela sensação de antes volta a me atingir.

- Você anda rápido! — diz ele, ofegante.

- Desculpa, não sabia que pegava esse caminho.

- É, normalmente uso a rua do lado, por que usa esse caminho? — ele pergunta.

- As sombras, é um caminho mais calmo, ninguém da minha sala usa ele, não preciso esbarrar com eles, prefiro assim.

- Entendi... espera — olho para ele e viro o rosto corado, ele começa a desabotoar sua camisa. — Segura para mim? — diz ele. Ele está com a camisa da escola por baixo, que ele também tira, ficando nu da cintura pra cima, no meio da rua, na minha frente. Seguro sua camisa e entrego a xadrez de volta, que ele coloca novamente. Ele abre a bolsa e eu coloco sua camiseta lá dentro.

Seguimos caminho até que chego na minha rua, me despeço e entro em casa, vou direto para o meu quarto, e guardo minhas coisas. Minha mãe me chama para almoçar, como rápido, dou uma olhada no computador e vou para cama descansar um pouco.

Acordo 15:30, me apresso e coloco novamente meu tênis, aviso para minha mãe sobre a aula de teatro e saio de novo para escola, chego lá e encontro Maíra.

- Olá de novo — ela diz, me cumprimentando

- Aqui estamos nós de novo, isso que chamo de amor pela escola, não? — digo sorrindo.

- Bom, vamos entrar. — descemos as escadas e vamos em direção da quadra de futebol aberta, do lado do pátio, Olavo está lá.

Conversamos um pouco com ele, e depois fazemos alguns exercícios de atuação, andamos de um lado para o outro pelo pátio, enquanto ouvíamos o que ele dizia, contando histórias dizendo como devíamos agir, felizes, tristes, angustiados, raivosos etc. Depois fizemos algumas coisas relacionadas a improviso, e finalmente sentamos, conversamos sobre música e sobre a vida artística dele.

- Já é quase 17:00, preciso ir logo, minha mãe vai me matar se eu chegar muito tarde em casa — diz Maíra, pegando sua bolsa — tchau meninos, até amanhã!

- Certo, vamos então? — diz Olavo — moramos na mesma rua, vamos juntos. — eu assento.

Vamos lentamente conversando sobre coisas aleatórias, até que acabo tocando no assunto de repente.

- Hoje fui embora com o Miguel, acredita que ele tirou a camisa na minha frente? — digo

- Sério? Bom, não é grande coisa pra mim, ele já dormiu na minha casa, e já vi ele sem camisa também — ele ri

- Não sabia que eram amigos, ele dormiu mesmo?

- Sim, ele é uma das pessoas que mais considero, mas mesmo assim, se eu pudesse, eu ficava com ele.

- Eu também — deixo isso escapar, mas não posso dizer que é mentira -, mas ele é hétero... Você sabe...

- Sabe, o problema do Miguel é que ele quer experimentar coisas novas — as palavras dele me atingem como uma rocha, sinto uma palpitação dentro de mim -, ele quer ficar com um garoto, eu sei disso, mas ele não tem coragem de admitir isso.

- Você acha mesmo? — pergunto desconfiado. — será que ele não está interessado em ninguém mais novo não? — eu rio.

- Eu tenho certeza. Bom... ele prefere pessoas mais velhas que ele, então não sei se ele ficaria com alguém mais novo, mas se ele realmente se decidir, e querer alguém mesmo, você vai ser o primeiro que vou indicar.

- Eu não acredito muito, mas vou esperar então. — digo sorrindo.

- Não se preocupe, não vou esquecer isso, vou te indicar com certeza. — suas palavras entram em mim e fazem com que o meu coração acelere de uma maneira que nunca tinha sentido antes, é aí então que percebo, o quão ferrado eu estou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.