Amor de Estudante
1 Todas as ruas do amor
Notas iniciais
“Se sou tinta
Tu és tela
Se sou chuva
És aguarela
Se sou sal
És branca areia
Se sou mar
És maré cheia
Se sou céu
És nuvem nele
Se sou estrela
És de encantar
Se sou noite
És luz para ela
Se sou dia
És o luar”
(Flor de lis, Todas as ruas do amor)
Excerto do diário da Cida:
Rio de Janeiro, 09 de Fevereiro de 2016
Querida mãezinha,
Em poucos minutos estarei embarcando numa viagem que vai mudar a minha vida. Tenho medo. Tenho esperança. É possível ter as duas coisas ao mesmo tempo, mãezinha?
Não sei bem o que vou encontrar me esperando, mas não pode ser pior do que ficar aqui.
Acho que experimentar uma coisa nova, arriscar, deve dar sempre o friozinho na barriga que estou sentindo nesse momento, mas penso que tem algo de muito bom me aguardando no final dessa viagem.
Talvez no destino encontre o início de algo novo, aquilo com que sempre sonhei.
Coimbra, 10 de Fevereiro de 2016
Cheiro a terra molhada. Essa seria para sempre a primeira memória de Coimbra que Cida reteria, quando o trem se apeou na estação da cidade e ela saiu, arrastando a pesada mala com toda uma vida condensada em trinta quilos. Tinha finalmente chegado ao destino.
Quase vinte e quatro horas e muitos milhares de quilômetros a separavam da vida de antes. Pelo caminho, ela tinha aproveitado para registar no diário aquelas pequenas impressões e sentimentos que a tinham marcado durante o trajeto.
O medo durante aquela que era a sua primeira viagem de avião. Como ela tinha rezado durante a turbulência que tinha agitado o aparelho quando se encontravam a meio do oceano Atlântico. Ela não podia ter visto um fim sem ter visto um início.
A alegria no instante em que, depois de aterrar em Lisboa, teve que se apresentar perante o funcionário fardado dos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras que lhe pediu para mostrar a documentação em ordem:
— Maria Aparecida dos Santos. Sou estudante e vou fazer um semestre na Universidade de Coimbra.
A surpresa quando, depois de se desenvencilhar e apanhar um trem com destino a Coimbra, descobriu que ninguém a tinha ido esperar à estação.
A resiliência no momento em que, depois de perceber que teria que ficar plantada à espera, decidiu seguir caminho por sua conta e risco. Não se desiste de uma corrida a poucos metros da meta.
Os poucos trocos no bolso não lhe permitiram recorrer aos serviços de um táxi, mas a força dos seus dezanove anos a ajudou na hora de empurrar os pertences rua acima.
Como Maria Aparecida depressa iria aprender, a cidade podia ser pequena, mas padecia de um problema de inclinação que, não sendo relevante no dia a dia, era um desafio para quem tinha que a atravessar desde a parte baixa até à parte alta no meio do frio inclemente de Fevereiro, carregando um malão sem rodas.
Grandes lições se aprendem em pequenos momentos. Cida aprendeu uma grande lição sobre a importância do planejamento quando, no meio do trajeto, desabou uma tromba de água e, para além de não ter onde se abrigar, percebeu que devia ter esquecido o guarda-chuva comprado em Lisboa debaixo do assento do trem.
Naquele momento, acabado de entrar no edifício principal da Faculdade de Direito de Coimbra, Elano Fragoso também se debatia com um problema ligado ao planejamento (ou antes à falta dele). Aquele dia era a data limite para a entrega de um trabalho de grupo para a disciplina de Direito Comercial e o colega responsável pela entrega se tinha revelado um irresponsável.
Elano não se podia dar ao luxo de ter uma má nota. Contrariamente aos restantes colegas, ele era um bolseiro com muitas responsabilidades autoatribuídas quando voltasse para o Rio de Janeiro.
As irmãs e o sobrinho estava contando com ele, se sacrificando para que ele tivesse aquela oportunidade. Se auto culpabilizando também por não ter trazido uma cópia do trabalho e por não o ter guardado no seu e-mail, Elano se ofereceu para ir a casa e enviar o bendito trabalho para o professor que o aguardava. Que ninguém o comparasse a uma Nina de Avenida Brasil, com a sua falta de precauções tecnológicas.
Abrindo o grande guarda-chuva preto, o jovem estudante de Direito enfrentou a tempestade que se formava e fazia tremer as telhas de alguns beirais.
Quando, encharcada da cabeça aos pés e tiritando de frio, Cida encontrou a morada que procurava, não pode deixar de comparar o edifício a um castelo.
O prédio devia ser muito antigo, mas estava completamente renovado. Coberta por azulejo branco estampado em tons de azul, a fachada era emoldurada por arcos em pedra e pequenas varandas de ferro. Uma pequena torre nas águas furtadas lhe chamou a atenção, com as suas janelas ovais. Era uma verdadeira cápsula do tempo numa versão luxuosa.
Claro que menos não seria de esperar do alojamento escolhido pelas filhas de Ernani Sarmeno. Quando Isadora e Ariela se mudaram de malas e bagagens para estudar em Coimbra, obrigaram o pai a manter o estilo de vida ao qual estavam (mal) habituadas.
Cida agradeceu a boa sorte dessa coincidência. Se as estrelas não se tivessem alinhado daquela forma, ela nunca teria conseguido aquela oportunidade.
A última promessa que ela tinha feito à mãe, muitos anos antes quando Dolores estava no seu leito de morte, tinha sido a de, um dia, se formar e estudar em Coimbra, mítico sonho da pobre arrumadeira.
O sofrimento e o sacrifício tinham valido a pena. Os Sarmento, patrões da mãe de Cida, tinham ficado com ela depois da morte de Dolores. Cida tinha crescido entre as brincadeiras com as garotas e a obrigação de fazer o serviço pesado da casa, mas com a voz da mãe martelando bem forte dentro da sua cabeça.
Foram muitas noites mal dormidas estudando para passar no vestibular, sem saber onde encontrar o dinheiro necessário para prosseguir estudos. Valeu-lhe Valda, madrinha em mais do que um sentido, que se prontificou para usar as suas pequenas economias para ajudar a filha da sua amiga Dolores.
Foi no abraço da madrinha que Cida veio a festejar quando descobriu que tinha passado no vestibular para Jornalismo.
Quando, um ano depois, os Sarmento não só lhe assinaram finalmente a carteira de trabalho, como lhe ofereceram o bilhete de avião caso ela quisesse se candidatar a uma bolsa para estudar em Coimbra e viver com Isadora e Ariela, Maria Aparecida se sentiu dentro de um sonho.
Porém, naquele momento, Cida se sentia dentro de um pesadelo. O edifício em que iria passar a morar podia parecer um castelo, mas estava chovendo tanto que, em breve, frente ao castelo se iria formar um fosso lamacento.
Já escorria muita água rua fora enquanto Cida carregava freneticamente na campainha correspondente ao apartamento das Sarmento. Não era possível que elas não conseguissem ouvir.
Sozinha, abandonada, cansada da longa viagem, um verdadeiro pintainho molhado debaixo da chuva insistente, bateu nela uma vontade de chorar:
— Mãezinha, o que é que eu fui fazer…
Desistindo de se tentar proteger da chuva, Cida se sentou sobre a mala caída no chão e fez um pedido pela alma da sua mãe. Que a vida lhe mandasse um sinal de não ter tomado a decisão errada.
Quando Elano dobrou a esquina teve que se esquivar do ônibus que passou sobre uma poça de água a alta velocidade, lançando salpicos de água por todo o lado. Pelos vistos, a falta de civismo de muitos motoristas era universal.
Consultando o celular, resolveu apertar o passo. Não tinha muito tempo até à hora limite de entrega do trabalho.
Não tivesse sido esse percalço, ele estaria àquela hora bem longe dali, encafuado na biblioteca da universidade, sem a necessidade de correr pelas ruas de meia cidade. A vida tinha um sentido de humor muito estranho para o ter colocado naquele local, enfrentando uma ventania que o ameaçava levar para Oz, tentando chegar em casa.
Porém, quando chegou na porta do prédio onde habitava viu, não uma bruxa com o nome de um ponto cardeal, mas uma fada com os olhos mais bonitos que ele já tinha visto na vida.
Aqueles olhos ameaçavam contribuir para inundação que tomava conta da rua e o instinto de proteção de Elano suplantou a sua pressa de entrar em casa. O bom moço convidou a garota a entrar no átrio para se proteger da chuva e, torcendo o cabelo comprido ensopado, Cida aceitou a ajuda daquele estranho, confortada por aquele sotaque familiar:
— Nossa, moço. Muito obrigada…
O agradecimento se suspendeu com um, dois, três espirros que saíram em jato da boca da garota. Seria muita sorte se aquela aventura resultasse apenas numa constipação.
— Saúde e de nada. — respondeu o bom moço, oferecendo um lenço que ela aceitou prontamente — Eu sou o Elano. Você veio visitar alguém?
Suspendida a sessão de espirros, ela aproveitou para também se apresentar e explicar:
— Eu sou a Maria Aparecida, mas todo mundo me chama de Cida. Estou me mudando para o prédio.
— Sério, vizinha? – brincou ele – Qual andar, Cida?
Ela permitiu-se ao primeiro sorriso desde que tinha pisado naquela terra:
— 4ºB. Você conhece a Isadora e a Ariela Sarmento?
Elano conhecia, mas preferia não ter conhecido. Avaliando rapidamente a garota diante de si, o futuro advogado não compreendeu a ligação entre aqueles olhos lindos e a alma podre das suas vizinhas do lado:
— Conheço bem, Cida. Eu moro no 4ºA. – explicou ele, dando um metafórico passo atrás.
— Você me ajuda, Elano? Eu toquei na campainha do apartamento e ninguém me responde…
Deveria ter sido naquele momento, o ponto em que Elano perceberia que seria incapaz de negar um pedido de ajuda vindo daqueles olhos de borboleta, mas aquela história estava apenas começando.
Encabulado, o estudante tentou explicar o melhor que conseguiu:
— Cida, não tem ninguém em casa. Elas aproveitaram que é Carnaval e foram para Lisboa. Acho que só voltam depois de amanhã. Você não tem a chave?
Maria Aparecida não tinha nem um número de contato das Sarmento, quanto mais a chave do apartamento. A única coisa que ela tinha era a noção da forte possibilidade de ter que passar as 48 horas seguintes sem ter um teto para colocar sobre a sua cabeça. Aquela viagem estava começando muito mal:
— Não. Elano, o porteiro não tem uma chave?
Ele teve um pequeno sorriso perante o desconhecimento que Cida apresentava sobre o modo de funcionamento do mundo em que se dispunha a entrar. Ele tinha passado pelo mesmo processo meses antes:
— Cida, é que nem tem porteiro. Se você quiser, pode ficar lá na minha casa.
Ela não tinha outra hipótese a não ser aceitar a oferta daquele recém-conhecido. Não, se quisesse evitar ser uma sem-abrigo involuntária.
Porém, qualquer coisa lhe dizia que podia confiar naquele garoto. Elano tinha bondade no olhar. Por muito que tivesse crescido isolada do mundo, isso Cida sabia reconhecer.
Depois de a ver assentir com a cabeça, Elano pegou na mala dela e os encaminhou para o elevador.
Foi num clima acanhado e silencioso que os dois entraram no pequeno cubículo. Ela porque tinha a cabeça a mil com a surpresa desagradável que lhe tinha ocorrido. Ele porque se sentia constrangido, sem saber muito bem como se dirigir à garota. Elano tinha dificuldade em expressar por palavras o que lhe saía facilmente através de gestos.
Felizmente, a viagem foi curta. Elano se apressou a colocar a chave na fechadura e fez com que Cida entrasse na sua frente. Ela estremeceu levemente. Noutras circunstâncias, nunca teria aceitado entrar na casa de um cara que tinha conhecido dez minutos antes.
O apartamento estava impecavelmente mobilado, ainda que algo bagunçado. Vários aparelhos eletrônicos de tecnologia de ponta que valiam uma pequena fortuna jaziam, aparentemente esquecidos, pelos cantos da sala. O cômodo era uma man cave sofisticada, o que a surpreendeu porque não lhe parecia ser a cara de Elano:
— Você mora sozinho?
Ele desfez o equívoco com uma informação que ele pensava vir a tranquilizar a garota:
— Não. Moro com dois caras. Eles já devem estar chegando.
Ela suspirou de alívio. Não iria ficar sozinha com um garoto que tinha acabado de conhecer.
A diferença de temperatura entre o exterior e o interior impeliu um novo ataque de espirros na garota e uma declaração inopinada do garoto:
— Você está toda molhada. Precisa sair já dessas roupas.
O lapso de formulação linguística de Elano colocou Cida novamente em sentido de alerta. O que é que ela deveria entender por aquilo?
Ele se apercebeu automaticamente do erro cometido. Como é que alguém que era tão eloquente em salas de tribunal simuladas era um desastre completo na vida real, sempre que tinha que falar com garotas?
Como uma gatinha acuada, ela procurava uma saída. A dança de olhares entre eles tentava decifrar e traduzir para a sua própria língua micro expressões desconhecidas.
Murmurando um “respira fundo, Elano” inaudível a ouvidos humanos, ele tentou consertar o erro, levantando as mãos em sinal de rendição:
— Calma, Cida. É que você vai acabar pegando um resfriado se não trocar de roupa. Se você quiser, pode usar o meu banheiro para tomar um banho quente. Eu vou na padaria aqui do lado e você tranca a porta do apartamento por dentro.
Ela tinha vivido resguardada do mundo, mas se sentiu uma tolinha por ter aquele comportamento. Se Elano se tinha disposto a ajudá-la, mesmo sem a conhecer, ela também teria que confiar nele. Suspirando, ela voltou a baixar a guarda:
— Não é necessário, Elano. Você está na sua casa. Eu agradeço muito a sua ajuda.
Com umas breves indicações sobre a geografia do apartamento, Cida seguiu para o banheiro, deixando o estudante de Direito meditando sobre o ataque de borboletas que tinha tomado conta da sua barriga desde que tinha batido o olho em Cida. Aquilo nunca lhe tinha acontecido antes.
Foi apenas quando ela deixou o seu campo de visão que ele se lembrou da razão de ter voltado correndo para casa. Elano se tinha distraído tanto com Cida que ainda não tinha enviado o abençoado trabalho. Onde mesmo é que ele tinha deixado o laptop?
Quando Cida saiu do banheiro se sentia como uma intrusa prestes a ser pega no flagra. Era completamente surreal estar numa casa que nunca seria a sua, mas aquele banho quente tinha valido por um dia no melhor spa do mundo.
Elano já a esperava na cozinha com uma caneca de infusão de camomila para ela:
— Obrigada. — agradeceu ela, se aconchegando na cadeira onde se tinha sentado e ele fez o mesmo — Foi muita coincidência e muita sorte encontrar um brasileiro logo de cara…
— Nem por isso. O prédio pertence a um brasileiro. Aliás, ele vive comigo. Ou eu vivo com ele. Já não sei. – explicou Elano, rindo.
Maria Aparecida achou o riso de Elano uma graça. Ele ficava com a cara de uma criança quando abria um sorriso enorme que o fazia fechar os olhos.
Definitivamente desarmada, Cida se sentia com vontade de saber mais sobre o seu anfitrião-salvador da pátria:
— Você faz faculdade?
— Faço. Direito e com muito orgulho.
Uma continência desastrada por parte de Elano fez com que ela se risse:
— Veio para cá há muito?
— Uns cinco meses, mais ou menos. – explicou ele.
Ela continuou com as questões de enxurrada:
— E você ainda vai ficar cá muito tempo ou volta em breve?
— Volto para casa no final de Setembro. As minhas irmãs e o meu sobrinho já devem estar contando os dias.
Ela abriu os olhos enormes em tom de surpresa e se apressou a explicar:
— É que eu também volto no final de Setembro. Nossa, são muitas coincidências entre a gente.
Elano levantou a sua caneca e incitou Cida a fazer o mesmo:
— Às nossas coincidências. — brindou ele, fazendo bater as canecas.
Era a vez de Cida se começar a abrir:
— Eu faço Jornalismo. Adoro escrever.
— Eu sei. Percebi pelo interrogatório. — brincou ele.
Pela primeira vez, no lugar de ficar encabulada pelo comentário, ela sorriu.
Elano se ia oferecer para voltar a encher as canecas quando ouviram a porta da entrada se abrindo. Um dos garotos que dividia a casa com Elano tinha acabado de chegar.
Cida voltou a sentir a vergonha do constrangimento de se encontrar em território alheio, mas tudo se desvaneceu quanto viu o herói de cinema diante de si.
Usando o traje tradicional dos estudantes de Coimbra, Conrado Werneck parecia um príncipe com direito a capa de super-herói. O fato podia ser preto, mas parecia ter sido feito à medida e os cabelos perfeitamente penteados não ficavam abaixo dos de um Christopher Reeves estrelando como Super-Homem. Também Conrado parecia poder voar.
Werneck estava habituado a adulação e percebeu facilmente que tinha causado forte impressão em Cida. O que ele não percebeu foi como Elano tinha conseguido levar uma garota para o apartamento. O fato era completamente inédito.
Resolvido a abusar da galanteria para zoar com a cara de Elano, quando ele se viu obrigado a apresentar a moça, Conrado se inclinou e pegou na mão de Cida, a beijando como num filme a preto e branco. Ela corou com o gesto e se deixou visivelmente derreter.
O instinto de proteção de Elano voltou a dar sinal de vida com o modo predatório como Conrado passou a encarar Cida. Os meses de convívio forçado entre os garotos tinham sido bem mais do que o suficiente para Elano ter a certeza de que Conrado se tratava de um mau-caráter irrecuperável, sem um pingo de respeito pelas pessoas de quem se aproveitava.
Aqueles olhos de borboleta, facilmente impressionáveis, não podiam cair na canção do bandido. Como um cavaleiro medieval, Elano jurou proteger a sua donzela prestes a entrar em apuros.
Fale com o autor