Amor de Estudante
16 Pavilhão de espelhos
Notas iniciais
“Não, eu não me arrependi de nada
Vida voa e o tempo é outro já
Você mudou e eu também
Tô aqui só pra saber que existe saudade
Ainda bem
Como num pavilhão de espelhos
Eu te vejo multiplicada em mil
Eu vim aqui pra ver você
Solta, vestida de lua na nuvem
Dança como se dançasse pra ninguém
Ou só pra mim
Ainda bem”
(Roberta de Sá, Pavilhão de espelhos)
Coimbra, 14 de Setembro de 2016
Quando Danilo e Maria Aparecida chegaram no aeródromo, a chuva caía como se se avizinhasse um novo dilúvio, mas nem sinal da arca de Noé.
O azar bateu de novo à porta quando perceberam que não existiam avionetas disponíveis para levantar voo, mas o Marra não se iria resignar a não ver o final de conto de fadas daquela história, assinalando a única outra opção:
— Só se você quiser ir de helicóptero.
Cida estava disponível até para seguir de balão de ar quente, se fosse esse o único meio à disposição, ainda que a ideia do helicóptero fosse um pouco menos cabeça no ar. O aparelho estava disponível, mas o piloto habitual estava demasiado longe para ser chamado ao serviço.
Abrindo a porta do aparelho, o milionário Marra ajudou Maria Aparecida a subir para o seu interior e se sentou depois no lugar devido ao piloto.
— Você sabe dirigir isso?
Cida tinha razão na sua apreensão, ao ver o modo hesitante como Danilo procurava os controlos e os botões de apoio à navegação.
— Tenho muitas horas de treino… no simulador que o meu primo Davi construiu.
Que acontecesse o que o destino já tinha preparado para eles. Cida se benzeu enquanto apertava o cinto de segurança. Do lado dela, Danilo cruzou os dedos, pedindo aos deuses boa sorte no momento em que a hélice rodava a todo o vapor, os levantando de uma forma desequilibrada do chão.
Os céus continuavam chorando abundantemente, iluminados ciclicamente por segundos pelos relâmpagos que se cruzavam com os seus irmãos trovões.
A aldeia do Piódão era já uma miragem à vista quando uma corrente forte obrigou Danilo a aterrar de emergência do outro lado do vale, sem hipótese de conseguir descer até ao seu fundo, onde se aninhavam as construções de xisto que tinham servido de lar a muitas gerações passadas.
O heliporto improvisado não oferecia condições de segurança ao aparelho que cada vez balançava mais com o furacão que o apertava em seu redor.
Danilo Marra teve que gritar para se fazer ouvir quanto à necessidade de abortar o plano:
— Cida, com essa tempestade, eu tenho mesmo que voltar a levantar voo.
Ele podia querer voltar a subir, mas Cida se soltou e abriu a porta, descendo da boleia:
— Eu vou a pé.
O helicóptero oscilava precariamente no topo de um monte. Para chegar até Elano, Maria Aparecida teria que, sozinha, descer até ao vale, atravessar o rio e subir pela aldeia íngreme até chegar na casa do topo, pouco providencialmente escolhida como residência por Pamela Parker e Ernesto Avelar.
Danilo sabia que Elano lhe iria torcer o pescoço se viesse a saber que o milionário tinha deixado que Cida se aventurasse de uma forma tão perigosa:
— Cê tá louca, garota? Você é tão magrinha que esse vento te vai levar na primeira oportunidade.
Não existia naquele momento, nem seria possível inventar forma de a convencer:
— Eu sigo a pé.
— Mesmo que esteja caindo uma tromba de água?
— Mesmo que seja o dia do juízo final, Danilo.
Ela já nem prestava atenção no momento em que o helicóptero se afastou levantando voo, tentando fintar a fúria da mãe natureza enquanto ela corria na direção oposta.
No meio da precipitação que se abatia no chão como grossas cordas caindo do céu durante a escuridão da noite há muito chegada, Maria Aparecida se tentou orientar pelos pontos de luz tremeluzente que via ao longe, a prova de que nem todos dormiam naquele lugar.
Rezava a lenda ter sido naquele local que se tinha escondido um dos assassinos de Inês de Castro, fugindo da perseguição da fúria cega de D. Pedro. A história se fechava num círculo perfeito.
Completamente imunda de lama e de vestígios de vegetação recolhidos arbitrariamente pelo caminho, Maria Aparecida lutava contra a corrente se agarrando a arbustos, ramos e ao que conseguia deitar mão na descida pelo terreno inclinado.
Cida chegou muito mais rapidamente do que o suposto ao vale ao escorregar pelo terreno afogado em água e rolar sem apoio pela encosta abaixo.
Ao se levantar, a garota percebeu que, para além do equilíbrio, tinha perdido a bolsa e um sapato no processo.
Se a chuva tivesse dado tréguas, Cida teria visto que, do outro lado do rio, existia uma aldeia congelada no tempo, proprietária de muitas histórias, mas disposta a partilhar o seu saber com visitantes longínquos.
Se a água tivesse parado de correr de cima para baixo, Maria Aparecida teria apreciado o pormenor das casas restauradas com paredes alicerçadas em camadas de paralelepípedos de xisto e telhados de placas redondas da mesma pedra mágica, teria visto as portas pintadas com um azul berrante ou ouvido as águas de um ribeiro correndo fortes, dançando em cima dos seixos do seu leito.
Se não fosse a borrasca ela teria visto, mas não viu. Assim, Maria Aparecida não teve oportunidade de apreciar essas pequenas maravilhas da natureza senão no dia seguinte.
A via de passagem ainda lhe pareceu segura e a garota continuou correndo quando passou por cima do rio e seguiu sem parar na entrada da aldeia.
Era mesmo necessário que Elano se tivesse escondido no ponto mais alto da povoação?
As construções em terreno inclinado eram unidas por escadas serpenteantes de pedras de xisto empilhadas e, afastada a hipótese de escalar por outras vias, Cida caía e se levantava à medida que os elementos a derrubavam na subida.
A maioria das casas eram usadas apenas como habitações de férias, mas a garota sabia qual a casa ocupada por uma alma perdida, com a chama bruxuleante de luz que se escapava do seu interior.
Sentado no tapete diante da lareira, Elano estimulava o fogo recém-acendido a crescer diante dos seus olhos. Fazia horas que a eletricidade tinha falhado por conta do temporal incessante e finalmente lhe tinha vindo a vontade de sair debaixo do manto de escuridão involuntária e de solidão desejada.
Espalhando velas de chamas tremeluzentes ao acaso, o bom moço ouvia a sinfonia da dança entre vento e chuva batendo contra portas e janelas, chiando num suspiro continuado, procurando uma frecha por onde entrar e atormentar o seu público.
Elano ouvia as pancadas de Molière que se multiplicavam contra a madeira da porta principal, bem como um murmúrio abafado continuado de lamento prolongado.
As histórias do folclore popular da zona estavam cheias de superstições sobre os espíritos dos mortos que vagavam à solta pela serra, assombrações que procuravam os vivos.
Talvez essas histórias tivessem um fundo de razão e à sua porta estivesse batendo o fantasma de Diogo Lopes Pacheco, aproveitando a oportunidade de um tête-à-tête com um organismo pulsante para pedir desculpas atrasadas por ter cortado o pescoço de Inês seiscentos e cinquenta anos antes.
Decidido a descobrir se eram os seus sentidos a enganá-lo, Elano Fragoso abriu a porta ficando na dúvida se na sua frente tinha um fantasma, uma alucinação ou uma doidinha.
Cida parecia ter passado à pressa por uma série de campos de batalha. A roupa enlameada da garota estava completamente destruída e dos seus cabelos revoltos despontavam restos de folhas e de pequenos ramos esmagados.
Mistura forçada entre mulher e elemento da flora local, a garota segurou a porta com a palma da mão espalmada, num gesto de quem não ia aceitar uma resposta negativa. O sorriso lhe saiu tímido e atrevido na hora de começar as negociações:
— Estou toda molhada. Preciso sair já destas roupas.
Quando Maria Aparecida saiu do banho vestiu o roupão branco com as iniciais de Pamela Parker Avelar bordadas com seda dourada. Estava mais leve depois de retirar quilos de lama de cima de si, mas ainda pesada na procura das palavras certas para resolver o que ela mais desejava na vida.
Elano a esperava na sala, diante da lareira, iluminado pelas chamas dançantes que corriam para o céu.
Ver Cida diante dele, cheia de pequenos golpes cortantes, descalça, frágil da luta contra a intempérie, mostrou ao garoto que o seu instinto de proteção não podia ser adormecido.
Foi aí que ele reparou que os cortes nos joelhos de Maria Aparecida ainda não tinham parado de sangrar.
Sem dizer uma palavra, Elano se ajoelhou aos pés da garota para desinfetar e proteger as feridas.
O pensamento do garoto se debatia num duelo interno com o seu coração. Estava preso de corpo e alma àquela mulher. Já não pertencia a si mesmo. Nunca mais pertenceria.
Para o bem e para o mal, Elano nunca mais deixaria de ter o medo de a perder, ainda que já não a tivesse.
Só a Maria Aparecida pertencia a chance de o salvar ou de o destruir.
— Eu nunca te vou abandonar, Elano. Nunca. Mesmo que você me mande embora.
Cida lhe lia os pensamentos e os verbalizava, os espelhando como seus.
O garoto se afastou, impelido pelo receio de acreditar no que queria ouvir, mas a segurança de Maria Aparecida preencheu os metros que os separavam. Era o melhor indicador de ser verdade.
— Elano, você é o meu abrigo. E eu sou o seu.
Eles ainda eram Cida e Elano, mas já não eram os mesmos, o garoto e a garota desconhecidos que se tinham encontrado num dia de temporal, sete meses antes. Algures no caminho, as vias de trânsito se tinham cruzado e fundido numa só.
— Errei. Te deixei inseguro. Eu queria a liberdade de pertencer a mim mesma, mas me tornei prisioneira disso. Se eu pudesse voltar atrás, eu voltava. Só que não dá para pensar no que já foi. Dá para pensar no que ainda pode ser. Você é o meu futuro.
Cida estava diante dele de alma aberta e coração descerrado. Cautelosamente, Elano se aproximou e deixou que ela o abraçasse. O seu final feliz estava ao alcance da confissão que o bom moço libertou com as lágrimas reprimidas ao longo daquelas semanas:
— Tenho medo. Tenho medo de nunca mais te ver. Tenho medo de você nunca mais me querer ver. Tenho medo de ter saído do seu coração porque você nunca vai sair do meu.
— Eu não vou embora, Elano. Isso nunca vai acontecer.
Nos contos de fada, era muitas vezes com um beijo de amor verdadeiro que a princesa voltava à vida. Também Elano se sentiu vivo de novo, apertando com vontade a sua salvadora enquanto ela o beijava:
— Sem você nada mais faz sentido. Você é o amor da minha vida. A gente é o destino um do outro, Cida.
A chuva continuava batendo forte lá fora, fazendo tremer as telhas da casa, pelo que a fuga da torre nem se justificava, nem seria de todo prática, mas o casal tinha outra ideia quanto à forma de ocupar o tempo nos poucos parágrafos que os separavam do final feliz tradicional:
— Minha princesa…
Foi aquele o momento em que Cida sorriu enquanto desfazia o laço do roupão e os dois caminharam desastradamente, enrolados um no outro, na direção do tapete diante da lareira.
O conteúdo do resto da noite não se enquadrou propriamente em material próprio para crianças, restando contar que aquele final de conto de fadas foi selado com muito amor entre o mocinho e a mocinha da história.
Quando, na manhã seguinte, Cida acordou, o contato pleno com os lençóis a relembrou de que estava nua em pelo. Levantando o tecido, ela constatou sorrindo com um à vontade recém-descoberto que Elano também partilhava do mesmo estado.
As lembranças da noite anterior eram doces e a garota as provou de novo, distribuindo beijos pelo corpo disponível debaixo do dela.
Elano suspirou, se mexendo ao apertar o abraço inconsciente, e Maria Aparecida se deixou levar por tantas sensações novas multiplicadas por mil numa noite que duraria para sempre.
Cida se iria lembrar por toda a vida de ter adormecido nos braços de Elano, ouvindo de olhos fechados e corpo cansado de tanta felicidade os votos, as promessas do bom moço murmuradas devagar contra o ouvido da garota:
— Eu juro passar o resto dos meus dias te fazendo feliz.
Ela já o fazia o mais feliz dos homens. Elano era o poço mais fundo de felicidade, géiser de amor estourando bem alto sobre aquela terra.
O calor havia voltado e Cida saiu da casa usando apenas uma camisa de homem enorme, enrolada nas mangas, e avançou devagar pelo terraço para não tropeçar ou escorregar nos chinelos de Elano, o único calçado que lhe estava disponível, mas vários números acima do dela, e que tocava uma sinfonia muito própria de um clap clap compassado à medida que ela caminhava sobre o chão molhado.
Elano já tinha acabado de colocar o café da manhã na mesa debaixo da pérgula, o único espaço poupado pelo dilúvio, e Cida riu da situação, se sentando no colo do bom moço, enquanto ele enchia as xicaras com o líquido negro fumegante.
A paisagem de cara lavada era um mar de verde que se prolongava até onde a vista alcançava.
Elano e Maria Aparecida eram os únicos habitantes de um novo mundo.
— Linda! A gente vai ser tão feliz…
Ela parou de barrar a fatia de pão para agradecer sob a forma de beijo o elogio e a promessa:
— Isso é algum decreto-lei, doutor Fragoso?
— A única lei a que a gente tem que obedecer é a lei do amor.
Ela gargalhou com vontade, encontrando a graça da piada tosca.
— Foi muito cafona, Cida?
— Não. Foi fofo. Fofo como você.
Ao longe, sobrevoando a aldeia no helicóptero contratado, Danilo Marra quase se lançou pela porta com a excitação de ver que, no topo da povoação, se encontrava um casal abraçado, completamente ignorante do mundo, mas não um do outro.
Do seu ponto de vista privilegiado, o milionário inferiu corretamente que Elano e Cida estavam produzindo muito mais mel do que qualquer uma das colmeias aninhadas em velhos troncos perdidos pela serra.
O casal continuava vidrado, espelhado da felicidade da certeza de que eles seriam para sempre.
— Para onde é que você está olhando tanto?
Cida riu com a questão brincalhona. Elano ainda fazia uma pergunta daquelas?
— Para o meu futuro. Eu quero que você nunca se esqueça disso: o meu futuro é você.
Excerto do diário da Cida
Piódão, 15 de Setembro de 2016
Ai, mãezinha. Minha vida mudou tanto que até custa acreditar. Agora eu vejo como eu era infeliz e não sabia. Agora eu vejo como é possível ser realmente feliz. É isso que eu vou ser. É isso que eu já sou! Acho que não existe nenhum idioma com as palavras necessárias para conseguir explicar como me sinto feliz, mas basta que eu saiba que o sou. Melhor, basta que o Elano saiba como ele me faz feliz e como eu o quero fazer feliz também. Obrigada por ter sido o meu anjo da guarda, minha mãe. Nunca mais vou ser sozinha porque agora eu vivo dentro de outra pessoa.
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