Amor com Amor se Paga.
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Aiolos e Shura tomavam o café da manhã naquele domingo ensolarado, o clima não era dos melhores logo se via. Talvez porque apesar de não ter quebrado a rotina de ir para a casa do namorado todo fim de semana, Shura não escondia a irritação. Durante a semana haviam discutido sobre o ciúme tolo de Aiolos a respeito de algumas alunas espevitadas que não paravam de falar do lindo espanhol professor, Shura achou absurdo que o diretor da Fundação Kido tivesse se deixado levar por fofoca de adolescentes.
Quando já estavam as boas, Shura descobrira que o advogado da Fundação fora ex-noivo de Aiolos. Fato esse que passaria despercebido se o professor de Educação física, não tivesse encontrado Heitor no escritório de Aiolos no sábado muito à vontade.
Aiolos parecia muito bem com o advogado e ainda o defendeu como sendo um “homem sem igual”. Acabaram discutindo por horas sobre isso, por fim não estavam se falando apesar de Shura estar ali na casa dos Argenkland no domingo.
Foi o espanhol quem viu Shun chegar à sala de refeição onde o café estava servido, o japonesinho vestia uma blusa dois números maiores que ele e pelo visto só ela e a cueca. Quando viu os dois à mesa se assustou e percebeu que não estava em sua própria casa.
— Foi por isso que eu achei o caminho longo demais... – murmurou olhando em volta ainda sonolento.
— Bom dia Shun, sente-se. – cumprimentou Aiolos – Você dormiu aqui com Hyoga? Ele já acordou?
— Não sei dizer, eu estava com o Shiryu... Hyoga provavelmente está dormindo ainda com o Ikki.
— Com o Ikki?! – chiou Aiolos arregalando os olhos. Shura apurou os ouvidos e permaneceu lendo o jornal a espera do que podia sair dali.
— Bom dia pai, Shura... – Shiryu surgiu na sala também sentando ao lado de Shun que já se servia – Você saiu do quarto e nem me esperou.
— Acordei e pensei que estava em casa, vim beber um copo d’água. Estou morrendo de sede! – Shun riu fraquinho e Shiryu o acompanhou acariciando os fios castanhos dele.
— Shiryu, Hyoga está com...
“Cadê o pessoal dessa casa, não muito tarde para dormir Eleanor?”. A voz de Milo podia ser ouvida ainda do hall e os passos animados dele no assoalho indicavam que ele se aproximava, Aiolos estava começando a hiperventilar. Shun e Shiryu se olharam pálidos e Shun se ergueu às pressas para sair e avisar o amigo e o irmão, mas acabou parado pelo corpo forte e bem maior de Milo Savalas que ocupava uma parte da porta em arco.
— Shun? Que foi garoto, parece que viu um fantasma? – Milo arqueou a sobrancelha loira para o menor só agora percebendo com quem estava falando – O Ikki deixou você dormir aqui? Cadê o Hyoga?
***
Milo mexia nas suas ferramentas sem ter em quem ou algo para descontar sua infelicidade, já havia amaldiçoado o irmão, tentado matar Ikki. Traidores eram os dois, um por não cuidar do seu bem mais precioso e o outro por corrompê-lo.
— Ikki seu filho da puta! – e jogou uma chave longe.
Uma sombra surgiu na entrada da garagem chamando a sua atenção e Milo se virou encontrando Camus parado na porta da garagem o olhando, na manhã ensolarada daquele domingo, o ruivo era a última pessoa que imaginaria ver.
Fazia alguns dias que não se falavam, Milo acabara com as mensagens e telefonemas por não se achar mais no direito de instigar o ruivo como fazia, principalmente agora que as coisas pareciam certas com Saga. O advogado até o levara para jantar na companhia do irmão e dos amigos do escritório naquela semana. No entanto, isso não significava que Milo não sentisse falta das conversas, de olhar o Camus e imaginar como seria sair com ele, conversar sobre tudo e nada, acariciar aquela pele firme de alabastro e deixar os dedos correrem pelos fios rubros daquela cor incomum.
— Por que quando nos vemos sempre está tudo uma confusão? Será que é porque você nunca pensa antes de agir Milo?
— Olha ruivo, se você veio até aqui para passar sermão é melhor ir embora.
— Tem razão, não tenho o direito de interferir na sua relação com o seu filho. – Camus entrou na oficina indo encostar-se ao velho volvo de Milo, o local era pequeno, mas estava limpo e arrumado o que surpreendeu o francês. Milo ficou olhando Camus ali vestido com uma blusa de linho azul e sapatênis, uma bermuda social, elegante demais para a sua oficina enquanto ele vestia jeans rasgado e uma camiseta manchada. Tantos contrastes! – Só que eu não consigo parar de pensar se não foi longe demais dessa vez, nas atitudes e tudo o que disse. Sei que está decepcionado, mas era uma decisão dele que você não poderia mudar.
— E o Hyoga lá tem idade para tomar decisões Camus?! Ele é uma criança!
— Não é mais Milo, ele cresceu e continua crescendo e você tem que aprender a aceitar isso. Você precisa entender isso ou vai acabar perdendo o respeito e a cumplicidade que construiu com seu filho, não pode continuar tratando-o como se ele tivesse sete anos... Milo olha pra mim! – o grego relutou, mas levantou o rosto para fitar Camus – Grego maluco ele é seu filho! Vai te amar para sempre mesmo que agora você tenha alguém para dividir o coração dele. O Hyoga ainda não é adulto, mas já começa a trilhar o mundo com suas próprias pernas e se você não estiver lá para apoiar e aconselhar quem estará?
— Você! Afinal foi muito solicito em apoiá-lo a fazer essa enorme merda! – Milo cuspiu para Camus, estavam todos contra ele, pensava o grego furioso. Todos achando lindo que Hyoga tivesse dormido com Ikki e feito aquela burrada, ele quase uma criança.
— Hyoga me ligou para pedir conselhos. Na verdade ele só queria apoio porque estava totalmente decidido do que ia fazer e nada do que eu dissesse ia demovê-lo de se entregar para Ikki. Dei o apoio que você podia ter dado se não fosse tão cabeça dura! – Camus não ia deixar que a raiva do grego o atingisse, se solidarizava com o que Milo podia estar sentindo e não o culpava de todo – Eu sei que não é fácil, embora eu só consiga imaginar o que está passando. Não tenho filhos, não sei o quanto é difícil ver aquele ser que você viu nascer, de repente está tomando suas próprias decisões e se tornando dia a dia mais independente... Ontem ele me ligou e fiquei um minuto inteiro sem saber o que fazer porque ter esse poder de decidir sobre apoiar ou não a decisão de alguém tão querido é assustador!
— Ah ruivo, então você entende sim o que eu tô passando agora!
Milo suspirou se afastando de Camus tentando evitar que as palavras dele levassem sua raiva embora, o que não surtiu efeito porque só a presença de Camus parecia agir nele de forma surpreendente. Camus ficou ali ao lado de Milo observando o grego debater consigo mesmo, os músculos retesados sob a pele bronzeada. Para o ruivo Milo era perdidamente bonito, de uma beleza crua e selvagem, sem muitos artifícios. Porém, o que encantava e repelia em Milo na opinião de Camus era aquela capacidade de sentir sem limites, o cuidado e carinho que ele tinha com o filho.
“Porque você apareceu na minha vida, grego?!” perguntou-se Camus.
— Porque você apareceu na minha vida? – Camus nem percebeu Milo se aproximar, quando o notou o mecânico murmurava a mesma pergunta que ecoava em sua mente com os olhos fixos em seu rosto. Estava tão próximo que o francês podia ver os cílios claros que emolduravam os olhos de mar.
— Me faço a mesma pergunta. O que seu filho e você fizeram comigo?
— Não consigo tirar você da cabeça! E então você aparece mostrando que pode ser um pai muito melhor do que eu para o meu filho e ao invés de querer te matar, só consigo pensar que isso deveria ser o certo não é? Eu e você?
— Sei lá... É tudo tão louco!
— Você ama o Saga e eu namoro com ele agora, porque você simplesmente não me odeia?! Mas não está aqui tentando me ajudar com Hyoga e eu me sinto ainda pior!
— Eu duvido que você se sinta pior do que eu neste momento. – “porra Milo me beije, por deus me beije” Camus pensava enquanto as respirações se misturavam, Milo deixou que os lábios carnudos roçassem nas maçãs do rosto alvo e o toque agiu em todas as terminações nervosas dos dois, causando uma sensação quase dolorosa de necessidade.
“Foda-se!” e Milo tomou a boca vermelha do outro com a sua, saqueando a boca do francês com uma fome nunca antes experimentada, a voragem o consumia inteiro e ele sentia-se exultar ao ver o francês perder o controle e puxá-lo para si. Forte, intenso e havia todos aqueles dias de expectativa entre os dois que ansiavam por aquele beijo. Camus sentia que sua sanidade estava se esvaindo. Não podia cair tanto...
Camus afastou Milo com brusquidão, não poderia continuar mesmo que seu desejo fosse outro. Não poderia fazer aquilo com Shaka! Falavam de casamento na noite anterior para agora ele estar ali aos beijos com Milo Savalas? Era sórdido e isso ele se recusava a ser.
— Não é justo agora. Não quando eu tenho outra pessoa, eu não faria a ninguém o que Saga fez comigo... Tantas vezes! – Camus passou a mão nos cabelos, no rosto. Estava trêmulo e tão afetado quanto Milo – Você está comprometido agora Milo... Vá conversar com o seu filho e esqueça o que aconteceu aqui!
— Impossível Camus! Olha pra você, olha pra mim! Você quer tanto quanto eu, não tente negar.
— Eu pedi o Shaka em casamento ontem. – despejou o francês de uma vez, sem hesitar e sem demonstrar que o olhar de mágoa e surpresa de Milo mexera com ele. Era melhor que acabassem todas as esperanças ali, não ia se tornar um cafajeste! – Achei que devia saber. Agora esqueça o que houve e concentre-se no seu filho!
— Você vai casar? – Milo murmurou mais para si mesmo que para o outro, o olhar estava perdido pela oficina e ele não conseguia digerir aquela nova informação. Achava que tinha tesão pelo ruivo, interesse apenas. Mas agora ele falava que ia casar e era como se estivesse torcendo seu pescoço, ele se sentia sufocar.
Camus não queria mais estar ali, apenas se virou e saiu quase correndo. Foi lá a convite de Hyoga e encontrou aquela confusão, acabou deixando tudo ainda pior! Saía de lá com o coração aos pulos e o corpo trêmulo de desejo. Provara um pouco do que Milo Savalas podia fazer consigo com apenas um beijo e aquela era uma experiência que nunca conseguiria esquecer.
Na oficina Milo tentava encontrar o próprio eixo antes de subir os degraus da pequena escada e ir ter com o filho, precisava agora ter a conversa que não conseguiram ter na casa dos tios. Milo quase surtou quando encontrou Ikki e Hyoga juntos, houve um tanto de gritaria e confusão até o grego arrastar o filho para a casa deles ao pé do monte Lycavittos.
Estavam ambos magoados um com o outro, mas Milo tinha que passar por cima da sua decepção para dar apoio ao filho como Camus sugeria. Já estava feito e era hora de deixar Hyoga crescer! Apesar de odiar admitir.
Encontrou Hyoga encolhido na cama mexendo no celular, mesmo percebendo que o pai sentara junto a si na cama pequena não se virou. Não o perdoaria por aquele dia, Milo fora longe demais nas palavras e ações na casa dos tios, e ainda na frente de todos.
— Vamos almoçar. – Hyoga continuou virado e Milo apertou o canto dos olhos, teria que trabalhar muito para transpor a barreira que ele próprio criara – Venha você precisa comer e nós precisamos conversar.
— Agora você quer conversar? Não foi o suficiente tudo que disse? Você me humilhou! Eu te odeio!
— Hyoga eu tava de cabeça quente! Como você queria que eu reagisse vendo o que eu vi? O que eu ainda estou vendo? – Milo tinha olhar nos ombros de Hyoga onde havia alguns vergões vermelhos, resultado do “presente” de aniversário de Ikki Amamiya. Hyoga pensou que talvez devesse ter deixado o pai dar alguns socos no namorado, só alguns – Depois dessa merda com esse tal de Tenma, de todos os conselhos que eu venho dando a você...
— Pai eu amo o Ikki.
— Como pode ter tanta certeza disso? Você mal saiu das fraudas!
— Do mesmo jeito que eu tenho certeza que amo você. Pai eu te amo e admiro tudo que fez e faz por mim, por não ter desistido de mim quando a mamãe morreu. – Hyoga estava a essa altura sentado na cama fitando o pai – Mas não vou deixar seus medos me impedirem de viver! Eu quero que confie em mim pai, que acredite que é isso que eu quero muito. Eu amo o Ikki, não vou desistir dele.
— Você é jovem demais... – Milo se ergueu e começou a andar pelo quarto – Quero que você estude que seja o patinador que Natássia e você sempre quiseram! Meu filho eu te amo, por isso não quero que leve a vida que eu levo. Você não sabe o quanto foi difícil abandonar tudo pra casar com a Natássia e ter você, todas as coisas que eu e a sua mãe tivemos que desistir. Não quero que você tenha que fazer essas escolhas também.
— Você sabe que tecnicamente eu não posso engravidar. – Hyoga revirou os olhos.
— Eu sei cacete! Mas pode desistir de patinar, pode querer fugir com esse maluco do Ikki e virar um porra louca vivendo sei lá como! – Milo suspirou olhando o filho atentamente. Tinha vontade de quebrar cada osso do Amamiya ao ver as marcas da noite tórrida que tiveram os dois adolescentes, tórrida sim porque ele bem conhecia aquelas marcas. Natássia também acabava ficando assim quando eles se empolgavam. Perguntava-se se Hyoga tinha pegado o gosto da mãe por morder, esperava que sim porque Ikki tinha que ser punido de alguma forma.
— Pai eu sei o que quero. O Ikki não é nenhum doido e eu sei que ele me ama, não vai sugerir nada que me afaste daqui ou de você, porque sabe que eu não seria feliz. Ainda é muito cedo para planos também, vamos ficar juntos sei lá, dez anos ou um ano? Eu quero viver isso! E vou com ou sem, o seu apoio. – o russinho fungou – Eu estou decepcionado com você assim como está comigo, mas eu não queria que desistisse de me amar e que confiasse que eu nunca faria algo tão errado. Você me conhece, afinal você me criou e me ensinou a ser uma boa pessoa.
Milo puxou o filho para si beijando o alto da cabeça dele e o apertando forte junto a si, os olhos marejados não escondiam a emoção pelas palavras de Hyoga.
— Argh! Você está crescendo e isso é horrível, Natássia saberia lidar com você nesse momento... Porque ela não está aqui agora?!
Hyoga abraçou o pai mais forte a raiva já totalmente esquecida. O russo reconhecia todo o esforço de Milo em criá-lo sem ajuda da mãe, para que ele não sentisse falta de Natássia embora fosse inevitável. Se para ele era difícil viver sem a mãe, ficava imaginando como estava o pai por todos aqueles anos sozinho com todas aquelas responsabilidades.
— Você precisa nos dar uma chance. Nós estamos falando do Ikki, você o conhece desde pequeno, o ajudou a crescer e tudo mais então sabe que eu escolhi uma boa pessoa.
— Tem razão, mas eu ainda quero matar ele!
— Por que você é um ciumento. Seja sensato pai, Ikki agora é meu namorado e você está estragando o aniversário dele.
— Eu tinha prometido um almoço... – Milo afastou o filho – Vá lá chamar os dois que nós vamos sair e comer, meu carneiro ficou uma bosta! Vou tomar um banho e você também.
— Ei! Você está cheirando a perfume francês! – Hyoga olhou o pai com um ar malicioso – Sim! Perfume de você-sabe-quem. Cadê ele por falar nisso, Camus está lá embaixo?
— Ele foi embora. – a cara desolada com que Milo disse isso preocupou Hyoga que ia começar a falar, mas Milo ergueu a mão – Chega! Uma coisa de cada vez, por favor. Vá chamar os Amamiya e mais tarde conversamos sobre Camus Chevalier.
***
Saga Laskaris balançava o copo com sua bebida e olhava os e-mails em seu celular entediado de ter que esperar Milo no shopping. Não eram seus planos maravilhosos de domingo, mas devido ao problema entre o mecânico e o filho, Milo mudara tudo em cima da hora. Deixaria que o namorado bajulasse o pirralho o quanto quisesse e depois quem sabe conseguiria que ele o acompanhasse até a sua casa para ficarem sozinhos.
Estava se divertindo com Milo, ele era além de suas expectativas e também o secreto prazer de frustrar os planos de Camus lhe dava ainda mais satisfação. Só precisava ficar de olho em Kanon, mas isso era fácil com ele na clínica. Depois do que ocorrera na Fundação Kido, o francês não queria Kanon por perto nem pintado de ouro. Era engraçado como a maioria das pessoas não conseguia diferenciá-los, fora tão fácil se passar por Kanon e assediar as criancinhas. Não que ele gostasse daquilo, era tudo um jogo apenas.
Tudo para provar ao irmão gêmeo que ele não podia se aproximar de Camus Chevalier novamente. Aquele francês parecia sempre gravitar em volta da sua vida, Saga o odiava! Camus roubara-lhe muitas coisas, não merecia qualquer espécie de felicidade.
Como fora fácil fazê-lo se apaixonar, afastá-lo de Kanon. Camus era tolo, não entendia como aquele homem inferior e idiota conseguira a admiração dos seus pais, Dionísio Laskaris era um admirador impar do francês, sua mãe Diana se desfazia em elogios ao jovem patinador, inteligente e educado! Eram tantos elogios, Kanon sempre almejando a atenção dele... Odiava Camus.
Até quando quis comprovar o quanto Kanon amava Camus teve uma decepção. Kanon não foi capaz de machucar Camus como fazia com seus outros amantes, como fazia com ele...
Olhou em volta de novo e percebeu uma cabeleira longa e conhecida em uma loja próximo a praça de alimentação. Buscou rapidamente na mente e encontrou o dono dela, como poderia esquecer aquele olhar tão marcante de Shaka Evrad?
As ideias de Shaka para um domingo a tarde não incluíam sair a esmo e olhar vitrines no shopping, mas por Camus faria aquele esforço. Como o ruivo levantara a possibilidade do casamento Shaka passou um bom tempo pensando nisso e quando almoçaram juntos naquele dia, fez o pedido formalmente. Camus aceitara, porém faltaram as alianças de compromisso mesmo que houvessem concordado em planejar o casamento com mais calma depois. Parecia repentino aquele noivado, contudo os dois concordaram que era muito lógico. Quando contasse a Mu ele riria por minutos e o chamaria de louco.
Entrou na que seria (esperava pelo menos), a última loja que visitaria aquele dia quando outra pessoa passou por ele causando um encontrão. Shaka quase se desequilibrou e se não fosse o braço forte a lhe segurar, provavelmente teria batido no vidro com força.
— Sinto muito... Amor preciso desligar agora, o encontro em alguns minutos. – Saga desligou o celular olhando para o homem que ainda segurava. Shaka Evrad era muito bonito, ainda mais do que se lembrava naquela ultima vez que se viram na casa de Camus – Eu estava ao telefone e não o vi, me perdoe.
— Pode me largar agora Laskaris. – Shaka se recompôs do susto e do fato de Saga Laskaris de todas as pessoas do mundo, estar ali para lhe dar um encontrão.
— Evrad? Ah sim eu sabia que o conhecia de algum lugar... Amigo do Camus certo?
— Noivo. – soltou Shaka sem pensar e ainda olhando para as mãos de Saga que ainda estavam nele. Ao ouvir a correção do indiano, Saga o largou estupefato!
— Noivo! – Saga olhou em volta fingindo desinteresse, mas aquela nova informação o incomodava – Então por isso que está aqui, veio comprar as alianças!
— Bem lembrado, preciso ir agora. Foi bom vê-lo Saga.
— Já que estou aqui quem sabe posso ajudá-lo a escolher? Tenho um gosto muito bom e conheço Camus de longa data.
— Por esse motivo é capaz de ele nem querer se descobrir que você me ajudou a escolher! – Shaka não conseguiu esconder o divertimento ao imaginar o quão irritado Camus ficaria com aquilo, embora achasse que lhe faria bem saber que Saga queria que ele fosse em frente.
— Então será o nosso segredo. – Saga sorriu de lado, sua aura sedutora era natural com qualquer um.
Acabaram passando horas na loja, Saga resolveu escolher anéis de compromisso para ele e Milo. Iria levar aquilo até onde conseguisse agora com o noivado de Camus as coisas precisavam de outro foco, mas ele não desistira de Milo. Kanon havia dito que sentira uma química forte entre ele e Camus, Saga conseguiu sentir o quanto estavam íntimos naquele dia na casa do francês. Contudo Camus casaria com aquele espécime estupendo que era o professor de filosofia, Saga sentia-se tentado a ver como Shaka reagiria ao seu charme.
Shaka voltou para casa pensando naquela tarde de confraternização com o inimigo. Prometera a si não estreitar laços com Saga, mas a curiosidade de ouvir o seu lado da historia entre o grego e Camus o impelia mantê-lo por perto. Tinha uma ideia diferente do advogado, boa parte dela influenciada por Camus e agora via Saga com outros olhos. Entendia também porque o francês ficara louco por Saga! O advogado era sedutor, terrivelmente bonito com aqueles olhos enigmáticos e ambíguos. Ele e Shaka destoavam completamente, ainda mais do que o indiano e Camus. Shaka Evrad gostava de ter seu ego massageado e Saga aparentemente estava disposto a fazer isso, sentia-se quase tentado a pagar para ver.
Shaka balançou a cabeça e tentou afastar Laskaris de seus pensamentos. Curiosamente ao chegar não foi direto falar das alianças com Camus, apenas serviu vinho aos dois e disse que não encontrara nada que lhe agradasse, procuraria em outros lugares.
***
— Pensei que tinha sido sequestrado.
— Tive um imprevisto. – Saga beijou o namorado contrariado – Onde estão as crianças?
— Ali. – Milo apontou para a fila do ingresso do cinema onde Ikki estava com Hyoga e Shun com Shiryu, todos acabaram comendo besteira no shopping e decidindo pelo cinema – Eles estão gastando todo o meu extra que ganhei no seu carro.
— São adoráveis os casais adolescentes não acha? – Saga passou o braço sobre os ombros de Milo e sussurrou no ouvido dele – Que tal a gente deixar que eles se divirtam e vamos nos divertir em outro lugar?
— Sem chance. Esqueceu que eu e o Hyoga estamos fazendo as pazes? Eu nunca bati no meu filho e hoje quase meti a mão na cara dele! – Milo se sentia um infeliz, aquele fim de semana estava sendo desastroso em vários níveis, não sabia se conseguiria se perdoar.
— Para melhorar o seu humor. – Saga estendeu uma sacola para Milo que tirou de lá uma caixinha abrindo-a e isso fez com que ele soltasse um palavrão – Você e as suas recepções inusitadas para as minhas declarações de amor.
— Hum... Alguém está prestes a subir ao altar! – comentou Shun se aproximando do casal, os outros vinham mais atrás.
— São alianças de compromisso porque quero que saiba que nosso relacionamento é muito sério. Você não fica feliz pelo seu pai Hyoga? – Saga perguntou ao russo, a reprovação do rapaz estava estampada na expressão de desagrado dele. Tinha que trabalhar naquela desconfiança por que se Hyoga implicasse com ele, Saga sabia que Milo acabaria desistindo dos dois.
— Tem certeza que é isso que quer pai? – Hyoga perguntou sem sequer olhar para Saga, os olhos azuis estavam em Milo que desviou o olhar porque se sentia desconfortável. No fundo não tinha certeza de nada.
— Eu a... Amo o Saga, Hyoga. – gaguejou Milo.
“É mentira!” pensou o loirinho vendo Saga exultante trocar as alianças com Milo. “Que diabos aconteceu naquela maldita garagem!” Hyoga se questionou, mas não se manifestou apenas sua expressão deixava claro o quanto aquilo o desagradava.
***
Camus olhava os alunos correrem em volta da quadra sob o sol ameno do inicio da manhã, acompanhando o tempo em seu relógio. Havia exercícios mais divertidos, mas aquela turma em especial era péssima em comportamento então até que obedecessem teriam punições em todas as aulas. Notou os olhares sobre si quando os trinta alunos passaram, mas continuou impassível. Todas as turmas, o mesmo burburinho por causa da aliança.
Toda manhã olhava para ela e pensava em tirar, mas voltava atrás porque seria infantil de sua parte. Ainda não estava convencido da história que Shaka contou sobre como Saga fora acabar envolvido na compra, nem o fato de que só descobrira as alianças dois meses depois de Shaka comprá-las.
Foi em uma noite depois de tomarem banho na casa do indiano, Camus foi vasculhar o closet do loiro atrás de roupas. Achou as alianças na gaveta de meias e cuecas. Houve um momento de embaraço, explicações que não o convenceram por parte do filósofo e Camus irritado pelo resto da noite. Mas ele estava lá usando a aliança.
Shaka estava diferente também e apesar de passarem as noites juntos e alguns fins de semana, havia certa frieza no ar. Nenhum dos dois comentava sobre o fato, na verdade os planos para o casamento e eles... Nada era comentado.
"Se você não der certo com Evrad, está na hora de se tornar um celibatário" Camus se perdia em pensamentos olhando os alunos correrem.
— Garbena você está bem? – perguntou se aproximando da jovem que havia parado a corrida, a garota se apoiava nos joelhos e respirava ruidosamente.
— Acho que vou desmaiar. – respondeu para em seguida cair e se Camus não a amparasse ela iria ao chão, teve de carregá-la.
— Esperem aqui vou levá-la para a enfermaria.
Camus saiu com a menina nos braços para dentro do prédio da escola pedindo no caminho que o inspetor tomasse conta da turma, olhava para a garota em seus braços que já dava sinais de voltar à consciência. Garbena era aluna do primeiro ano e devia ter dezesseis anos. Fazia equitação na Fundação além das aulas regulares, os pais eram operários nas fábricas ao leste da cidade. Camus se recordou que ela namorada de Ulisses do segundo ano.
Na enfermaria deixou a garota aos cuidados da enfermeira e voltou para dar continuidade à aula. Garbena não retornou para se juntar a eles e quando a aula acabou Shina esperava por ele.
— Soube que levou Garbena à enfermaria hoje. – disse a italiana se aproximando do professor de educação física que guardava os materiais da aula – Qual era o exercício que faziam?
— Corrida em volta da quadra. Eles nunca obedecem e sempre os alunos estão muito sonolentos no começo da manhã, a corrida é para aquecer o corpo.
— Entendo.
— Garbena está bem? Deve ter sido o calor, está quente demais hoje.
— Garbena está grávida! – Shina jogou de uma vez e seu tom era de lástima
— Se não fosse por hoje, talvez nem descobríssemos! Ela não queria contar a ninguém.
— Grávida?! Mas... Ela é tão jovem e Ulisses também!
— Então o pai é Ulisses! Você é muito atento Camus, ela não quis me contar nada. Você sabe que não é bem nossa função, mas é importante ficar atento aos alunos e qualquer mudança em suas rotinas. Veja agora, ela não poderia estar fazendo educação física porque a gravidez deve ser recente, dois meses talvez.
— Ela está no centro médico?
— Está sim, você podia me acompanhar? Como ela estava na sua aula e você parece ser o novo xodó dos alunos, Garbena pode lhe contar alguma coisa.
Foram para o centro médico e acompanhar a consulta que a jovem cavaleira estava. A gravidez foi confirmada com o ultrassom e a menina em lágrimas confessou que já sabia há pouco mais de três meses, ela e o namorado planejavam recorrer ao aborto e estavam juntando dinheiro às escondidas. Eram pobres e precisariam recorrer a uma clinica para o procedimento. Nenhum dos dois queria o bebê, eram menores de idade e seriam obrigados a casar pelos pais. Garbena estava treinando duro para conseguir uma vaga para as olimpíadas com a equipe de equitação, Ulisses já conseguira sua vaga individual e com a equipe de natação. Eram jovens atletas que almejavam realizar seus sonhos e não esperavam que o destino os surpreendesse dessa maneira.
— Você não pode pensar nisso assim querida. Essa clinica é segura? Você tem certeza que é isso que quer? E se a clinica não for segura e você se machucar gravemente? – Shina acariciou os longos fios castanhos da menina – Você poderia ter me procurado.
— Essa decisão deve ser tomada com muito cuidado Garbena. Aborto é um procedimento muito delicado e caso não seja feito de forma correta pode deixar sequelas graves. – interveio a médica – Quanto mais barato o lugar, mas chance tem de não ser uma clínica legalizada e com péssimas condições de higiene. Sem falar que você já se aproxima dos quatro meses, começa a ser arriscado pensar no procedimento agora.
— Mas eu não quero o bebê! Não posso ficar com ele, e as olimpíadas... E eu?!
— Você pode dar o bebê para a adoção. – Camus opinou e as mulheres se surpreenderam ao ouvir a voz do francês, quase o esqueceram de tão calado que estava – A Fundação pode achar uma boa família para cuidar dele.
— Eu ainda teria que parar para ter o bebê! – Garbena mordeu roeu as unhas, mas a conversa da médica sobre o aborto a assustou.
—Você vai ter de parar mesmo se for fazer o aborto, porque precisará se recuperar e leva tempo também. – a médica assegurou – Na Fundação você poderia fazer o procedimento, mas é arriscado demais e eu não o aconselho. Acredito que nenhum médico daqui também aconselharia.
Conversaram mais um pouco e Shina tratou de chamar os pais de Garbena e Ulisses na Fundação Kido para conversarem, achava que seu dever como pedagoga era ajudar aquela família na situação delicada que se encontrava. Boa tarde da manhã se esvaiu nessa conversa em que os pais concordavam que ficar com o bebê era inviável, eram muito pobres e Garbena tinha outros cinco irmãos. Os pais de Ulisses não arriscariam o futuro promissor do filho por um deslize de jovens.
Camus e Shina ficaram chocados com a opinião dos pais do garoto, aos pais humildes de Garbena só restou aceitar que caso o bebê nascesse, eles teriam que arcar com tudo praticamente sozinhos. Camus voltou para casa pensando naquele bebê e isso o levou a pensar em Milo e Hyoga, o grego tinha a mesma idade daqueles jovens quando se descobriu pai. Ele saberia como conversar com Garbena e Ulisses para decidirem sobre o bebê.
Uma ideia começou a germinar na sua cabeça e quanto mais pensava nela, mais parecia tomar forma e o seu coração. À tarde quando retornou para a Fundação para o treino de Hyoga estava visivelmente inquieto, para relaxar resolveu patinar para deixar o sangue correr e a inquietação passar. Estava sozinho porque Henry Cristal e Hyoga demorariam a chegar.
Escolheu uma música aleatória apenas para deixar fluir os movimentos sobre o gelo. Já se sentia mais confiante a cada vez que colocava os patins e deslizava pelo gelo, aos poucos sentindo como se fizesse parte dali como há treze anos.
Seus movimentos ganharam força e precisão, os braços erguidos e caindo em movimentos lentos e sensuais, os olhos fechados sentindo a música. As pernas poderosas impulsionando o corpo para as manobras aéreas, para a dança sob a música que fluía pelo ginásio.
Milo e Hyoga chegavam nesse momento para o treino do rapaz, o patinador implorou ao pai sua presença porque queria que ele fosse o primeiro a ver a coreografia para as classificatórias. Então Milo saíra cedo do trabalho para ver o filho e também poder ver Camus, em quem desde o incidente na garagem não colocava os olhos. Saber que ele estava prestes a casar não mudara seus sentimentos por ele, no entanto, também não lhe dera coragem para terminar com Saga. Não depois de o advogado se declarar com aquelas alianças de compromisso.
Hyoga rapidamente correu para trocar os sapatos pelos patins e ir se juntar ao mestre no tablado de gelo. Henry e Milo se debruçaram sobre a amurada de proteção para olhar os dois.
— Hyoga idolatra Camus e é o principal responsável pela volta do francês à patinação. – explicou Henry apontando com o queixo para os dois aquarianos que se encontravam no meio da pista de gelo e se cumprimentavam – Veja a cumplicidade deles.
— Me faz ter um ciúme doido! Hyoga nunca foi tão próximo de ninguém assim além dos Amamiyas, nem dos meus irmãos.
Hyoga e Camus voltaram a patinar agora apenas se divertiam, o loirinho tentava seguir os passos do técnico que continuou a dançar. E a alegria de Hyoga contagiou o ruivo que se permitiu sorrir ante o entusiasmo do mais jovem. Sentia muito orgulho de Hyoga, como se ele fosse seu próprio filho. Como sentiria se tivesse um? Será que teria o mesmo amor?
— O que foi Camus? Ficou estranho de repente.
— Eu acho que vou adotar um bebê. – disse e então abriu um sorriso enorme que mesmo aquela distância deixou Milo maravilhado.
— Wol!
— Não sei como... Eu nem sei por onde começar, mas... Eu quero! Vem que eu explico melhor quando sentarmos. – e Camus começou a explicar tudo que ocorrera aquele dia para Hyoga, depois de sentar na amurada em que Cristal e Milo estavam. Os Savalas estavam um turbilhão ao ouvir o relato do ruivo.
Depois da conversa Milo os arrastou atrás de Aiolos para conversarem e pedirem conselhos, tudo para deixar o ruivo mais perto de realizar seu desejo. A euforia dos Savalas acabou contagiando Aiolos e Camus! À noite Camus já estava com todas as informações que precisava e já tinha a promessa de Aiolos de que cuidaria de tudo pessoalmente. Marcaram uma reunião na Fundação com os pais de Garbena e Ulisses para acertar tudo caso eles aceitassem. Camus pela primeira vez em muito tempo se sentia feliz de verdade.
Sua felicidade murchou um pouco ao ver o entusiasmo, ou a falta dele, com que Shaka recebera a notícia. E se ela desistisse da adoção quando tivesse a criança? Questionou o racional indiano. Desde quando Camus era tão impulsivo aquele ponto? E os questionamentos de Shaka iniciaram a discussão que ambos evitavam. Shaka preferia seguir os planos de casarem primeiro para daqui a três anos começarem a procurar uma barriga solidária. Era mais seguro, argumentou. Camus queria adotar o bebê de Garbena agora, poderiam manter os planos de Shaka sem problemas, mas aí teriam dois filhos. Shaka era terminantemente contra.
— O seu problema é que você gosta de se afundar em dor e sofrimento, é a sua doença! Vamos passar esses cinco meses em expectativa, cultivar esse amor e esperança por essa criança e na hora "H" ela vai recuar e decidir por não dar a criança para a adoção. Quer ficar nessa agonia Camus? Vai ficar nela sozinho!
— Não vai ser assim! Eu já conversei com ela, com os pais dela. Sei que vai dar certo, eu sinto.
— Intuição? – Shaka deu um sorriso sarcástico – Você nunca foi bom com isso Camus!
— Tem razão. – Camus perdeu a paciência e tirando q aliança jogando em Shaka – Veja o que minha intuição me trouxe! Você! Vá realizar seus sonhos indolores com Saga Laskaris já que você parece encantado por ele. Vá viver sua vida segura e perfeita!
Ao contrário do que esperava sentir quando saiu do apartamento de Shaka, Camus sentia-se estranhamente aliviado. Quando o francês chegou ao seu apartamento Hyoga e Milo esperavam por ele na porta, o grego segurava balões coloridos e charutos. Camus teve de gargalhar ante aquela visão.
— Sei que pediu segredo e ainda não tá tudo certo, mas não aguentei em pelo menos comemorar um pouquinho. Parece que eu tô vivendo de novo aquela alegria de quinze anos atrás. – Milo disse enquanto entrava no apartamento de Camus.
— Vou precisar muito dos seus conselhos! Eu estou sozinho nessa.
— Sozinho Camus? Cadê seu namorado?
— Não tenho mais namorado Hyoga.
Camus entrou na cozinha com Hyoga e Milo ficou para trás amarrando os balões na mesa do vestíbulo. O coração do grego deu um solavanco ao ouvir que Camus não estava mais namorando, chegou a se sentir eufórico com a novidade até seu olhar cair na aliança que usava e isso o fez murchar um pouco.
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