Dizem que basta um segundo para se apaixonar…

Para Sasuke, bastou um segundo para tropeçar no próprio pé – e a certeza de uma ida ao hospital para perder o coração.

Isso também conta, não conta?

O primeiro impacto foi o cabelo loiro, bagunçado como se tivesse sido moldado pelo vento. Depois, aquela covinha discreta na bochecha esquerda, capaz de desmontar qualquer defesa. Mas foi o toque – suave, cuidadoso, quase íntimo – que fez Sasuke sentir um arrepio percorrer sua pele enquanto o paramédico examinava seus arranhões.

— Posso saber seu nome, senhor? – a voz dele era firme, mas carregava uma gentileza que fez o peito de Sasuke se apertar.

— Me chame de Sasuke – murmurou, hipnotizado pela presença à sua frente.

— Tudo bem, Sasuke. Meu nome é Naruto. Quão ruim está a dor?

A dor latejava, queimava, mas parecia distante diante da intensidade daquele olhar azul. Ainda assim, Sasuke cerrou os dentes, tentando conter as lágrimas. O tornozelo inchado pulsava, mudando de cor, e o corte profundo denunciava a gravidade.

— Ruim – respondeu, a voz embargada.

Naruto inclinou o rosto, preocupado.

— Em uma escala de um a dez?

— Onze – tentou brincar, mas o sorriso não veio.

O toque de Naruto em sua perna foi como um bálsamo. Sasuke sentiu o coração acelerar, não pela dor, mas pela ternura inesperada.

— Calma, companheiro. Vamos pegar alguns analgésicos antes de qualquer coisa. Depois vou segurar sua perna firme, enquanto minha parceira, Sakura, coloca a tala. Ela parece brava, mas é incrível, você vai ver.

Só então Sasuke percebeu a presença dela. Mais baixa que Naruto, rosto delicado, cabelos rosa que refletiam a luz do sol e olhos verdes intensos. Havia algo severo em sua expressão, e Sasuke pensou que precisaria medir as palavras com ela. Mas nada disso importava. O mundo inteiro parecia se reduzir ao loiro ajoelhado diante dele.

— Você é alérgico a algum medicamento? – Naruto perguntou, e Sasuke quase se esqueceu de responder, perdido na forma como seu nome soava naquela voz.

— Não que eu saiba – murmurou, balançando a cabeça em negação. Seus olhos, porém, fugiram do loiro quando percebeu a preparação da injeção.

— E as agulhas, você está bem com elas? – Naruto perguntou, a voz suave, mas carregada de preocupação.

Sasuke deu de ombros. Queria parecer durão, mas a dor latejante no tornozelo fraturado roubava qualquer força que ainda restava.

— Sou indiferente quanto a isso – disse, tentando soar firme, mas sua voz saiu fraca.

Sakura passou um tubo de borracha para Naruto, e por um instante Sasuke pensou que fosse alguma seringa. O coração acelerou, mas logo o loiro enrolou o tubo em seu braço com uma delicadeza que fez Sasuke sentir-se derreter por dentro.

— Bem, você definitivamente vai precisar de uma agulha no braço antes que possamos movê-lo – explicou Naruto, com um tom tão gentil que quase transformava a ameaça da dor em promessa de cuidado. Sasuke apenas assentiu, desviando o olhar.

— Vai doer só por um instante.

Ele quase desejou que Naruto tivesse usado a palavra “picada”, como nos clichês da televisão, só para arrancar um sorriso e distrair sua mente. Mas sabia que rir só faria o tornozelo protestar ainda mais. Então fechou os olhos, esperando o impacto.

De repente, tudo ficou mais leve. A dor, antes insuportável, recuou como uma onda. O mundo parecia mais brilhante.

— Uau! – exclamou, surpreso, e o riso de Naruto foi como música.

— Sim, os analgésicos fazem isso. Como está seu tornozelo agora, em uma escala de um a onze?

Sasuke pensou por alguns segundos, tentando medir a sensação.

— Três.

Naruto sorriu satisfeito e acenou para Sakura.

— Muito melhor. Tudo bem, lembra o que eu disse? Eu vou segurar sua perna. Diga-nos se doer e se quiser que paremos…

— Puxe a franja dele – Sakura provocou, sorrindo descaradamente enquanto preparava o gesso inflado.

Naruto lançou-lhe um olhar exasperado, mas logo voltou a encarar Sasuke. E naquele instante, o olhar do loiro era tão cheio de ternura que Sasuke sentiu como se pudesse simplesmente se desfazer da cadeira e flutuar até o hospital, guiado apenas pela gentileza que emanava dele.

— Ou você pode gritar, berrar ou agarrar meu ombro. Tudo bem? – disse Naruto, com um sorriso tranquilizador.

Sasuke apenas assentiu, tentando se preparar para o que viria. A dor, quando chegou, foi como uma chama que rasgou a névoa dos analgésicos, fazendo manchas brancas explodirem diante de seus olhos. Sem perceber, sua mão se fechou com força sobre o ombro de Naruto, como se fosse a única âncora capaz de mantê-lo consciente.

Ele só abriu os olhos novamente quando sentiu uma mão fria pousar sobre a sua.

— Tudo bem, cara, terminamos, ok? – a voz suave de Naruto o trouxe de volta.

Sasuke respirou fundo, lembrando-se de que aquele loiro estava ali para ajudá-lo. A ideia de puxar a mão dele e socá-lo por infligir tanta dor passou pela sua mente, mas desapareceu rápido. Não havia como ser agressivo com alguém que o olhava daquela forma.

Com a ajuda de Naruto e Sakura, conseguiu se arrastar até a maca. O aperto em sua mão não diminuiu; era como se estivesse agarrado à própria calma que Naruto transmitia. Sakura levantou seu tornozelo e o amarrou com firmeza, mas Sasuke manteve os olhos fixos no loiro.

— Não quero que você ou seu tornozelo se movam enquanto te levamos ao hospital – disse Sakura, com uma gentileza inesperada.

Sasuke começou a reconsiderar sua opinião sobre ela. Talvez não fosse tão ruim assim… mas ainda não era Naruto.

A paramédica sorriu de novo, com aquele jeito tranquilizador que parecia ser parte do treinamento dos socorristas.

— Vou deixar você nas mãos competentes do Naruto. Vou na frente dirigir. Se esse loiro cabeça oca te irritar, é só gritar que trocamos de lugar.

Não é muito provável, Sasuke pensou. Os olhos azuis de Naruto pareciam capazes de curar qualquer ferida. Se fosse verdade, não estaria a caminho do hospital.

Uma lombada o arrancou de seus devaneios, a dor voltando com força ao tornozelo. Ele respirou fundo e observou Naruto pegar uma pasta que Sakura segurava antes. O loiro tirou uma caneta do bolso do uniforme e começou a anotar, fazendo-lhe perguntas simples: data de nascimento, idade, endereço…

— Isso é uma recorrência? – perguntou Naruto, e Sasuke quase se perdeu de novo no som daquela voz, mais preocupado em não se afogar nos olhos azuis do que em responder corretamente

A sensação de algodão em sua cabeça era tão forte que as palavras de Naruto chegavam até ele como se viessem debaixo d’água.

— Uh… em palavras simples? – pediu, confuso.

— Você costuma cair e se machucar? – o loiro traduziu, com um sorriso paciente.

Essas palavras, sim, fizeram sentido. Sasuke não pôde evitar um sorriso tímido e acenou com entusiasmo.

— Ah, sim. Sou mortalmente sujeito a acidentes. Normalmente não acabo no hospital, mas sou muito desastrado. Vivo batendo em coisas… geralmente paredes. Uma vez acordei e esqueci onde estava, tentei sair da cama pelo lado errado e acabei com a rótula machucada.

Ele contou tentando ignorar o desconforto do tornozelo quebrado. Qualquer vergonha por ser um desastre ambulante desapareceu ao ouvir a risada alegre de Naruto. O som era tão leve e contagiante que fez Sasuke sorrir também, encantado com as covinhas que surgiam nas bochechas do loiro.

— Então, o que você gosta de fazer no tempo livre? – Naruto perguntou, provavelmente para distraí-lo da dor.

— Música. Eu toco na banda de um amigo às vezes – respondeu, mas logo grunhiu quando outra lombada fez a dor explodir em seu tornozelo.

— Eu também! – Naruto disse, com entusiasmo genuíno.

Sasuke teve certeza: eram almas gêmeas. Um casal feito no céu.

— O que você toca?

— Guitarra. E você?

— Baixo, bateria e também piano. O que meu amigo precisar, na verdade.

— Caramba! Então é um pouco de tudo? – Naruto exclamou, impressionado.

O olhar admirado do paramédico fez Sasuke esquecer a dor por um instante.

— Praticamente – respondeu, sorrindo.

Naruto acenou com a cabeça, ainda sorrindo.

— Eeeee esta é a nossa parada.

Eles diminuíram a velocidade e pararam na entrada da ambulância do hospital. Sakura saiu do volante, abriu as portas traseiras e sorriu para Sasuke. Os dois paramédicos se moveram com rapidez e delicadeza, tentando não lhe causar mais dor – e ele agradeceu em silêncio por isso.

Colocado em um canto do corredor, longe da agitação de médicos e enfermeiras, Sasuke observou Naruto entregar a papelada para Sakura.

— Meu parceiro vai ficar com você enquanto eu consigo uma sala de trauma e alguém para te atender, certo?

Sasuke apenas assentiu. Se não fosse pela dor pulsante em seu tornozelo, juraria que estava no céu. Naruto parecia um anjo.

Mas a internação aconteceu rápido demais para seu gosto. De repente, seus cuidados foram transferidos para a equipe do hospital. Ele percebeu os dois paramédicos do lado de fora da cortina enquanto as enfermeiras o ajudavam a subir na cama.

Quando elas se afastaram, Naruto entrou no cubículo. Sakura ficou parada à entrada, observando.

— Bem, companheiro, foi muito bom conhecê-lo. Espero que você se recupere logo.

Sasuke congelou. Não queria que Naruto fosse embora. Não agora.

— Obrigado por me trazer até aqui – disse, a voz mais fina do que gostaria. Teve certeza de que Sakura bufou, mas não conseguiu confirmar.

— Não foi problema. Espero vê-lo de novo algum dia… só que sem o tornozelo quebrado, ok? — Naruto sorriu, e o coração de Sasuke disparou.

Ele vasculhou o cérebro em busca de uma forma suave de convidar o loiro para sair. Mas as drogas embaralhavam seus pensamentos, e mesmo sóbrio não tinha certeza se conseguiria ser sutil. Então, antes que pudesse se conter, as palavras escaparam:

— Eu quero sair com você.

O silêncio que se seguiu pareceu eterno. O rosto de Sasuke queimava, cada segundo era uma tortura. Era a verdade, nua e crua, dita no pior momento possível… ou talvez no melhor.

Naruto piscou, surpreso, e Sasuke sentiu o arrependimento esmagá-lo. Ele nem sabia se o paramédico era gay. Talvez estivesse namorando alguém. Talvez fosse hétero. Talvez fosse tudo ao mesmo tempo, a combinação brutal que sempre arruinava suas esperanças.

— Sinto muito, Sasquê… – começou Naruto.

Sasuke já se preparava para ouvir a rejeição, mas as palavras seguintes não vieram como um golpe.

— Não tenho permissão para sair com pacientes. Seria antiético.

O coração de Sasuke deu um salto. Não era um “não”. Não ainda.

— E se você fosse a um show onde eu toco, e eu te convidasse para sair? – arriscou, agarrando-se à brecha.

Mesmo sob a influência dos analgésicos, achava que estava indo bem. Ou talvez fosse justamente por causa deles. Tentou mexer o pé para se distrair e se arrependeu imediatamente, a dor o lembrando da realidade.

Naruto pensou por um instante, depois sorriu.

— Acho que… seríamos apenas duas pessoas se encontrando em um show.

— Então é um encontro? – Sasuke insistiu, acenando com a cabeça, como se quisesse selar o destino.

— Sim. Eu acho que é.

— Tudo bem então. Nag’s Head, próxima sexta, às 20h. Nós somos os Bolton Bulldogs. – disse, estranhamente confiante.

Naruto estendeu a mão.

— Bom nome de banda. Estarei lá.

— Bom.

Sasuke apertou a mão dele com entusiasmo, sentindo o coração disparar. Se isso não era amor à primeira vista, então ele não sabia o que era.

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