Amor a 4476 Milhas
2 Horários e Fuso-Horários
Era sempre um desafio.
O horário e fuso horário.
Quatro horas os separavam — e, às vezes, parecia uma eternidade.
Quando Ana Júlia estava almoçando depois do ensaio, João Vitor já estava fechando o ateliê.
Quando ele acordava com o cantar dos galos e o cheiro do café, ela ainda estava na penumbra dos sonhos, envolta no edredom e nas lembranças da última ligação.
Mas mesmo com os desencontros de tempo, davam um jeito.
Faziam da rotina um esforço mútuo, um compromisso silencioso.
João começou a acordar mais cedo só para ouvir o áudio de bom dia que ela mandava, ainda com voz de sono, chamando-o de “meu amor”.
Ana passou a carregar o celular com ela nos ensaios, torcendo para que, nos intervalos, desse tempo de ver uma mensagem dele, mesmo que fosse só uma foto das mãos sujas de pó de mármore ou um emoji de coração.
— Às vezes, sinto como se você estivesse mais perto que muita gente que está do meu lado — ela confessou numa chamada de vídeo, sentada no chão da sala de dança, suada, exausta e com o coque já despencando.
Ele sorriu, deitado em uma rede no fundo de casa, o entardecer dourando seus olhos claros.
— Eu penso em você quando o dia começa e quando termina. Já é rotina.
Tipo escovar os dentes... ou respirar.
Ela riu, jogando a cabeça para trás.
— Que poético, senhor escultor.
— É culpa sua. Desde que você apareceu, até pedra tem coração por aqui.
Com o tempo, os dois começaram a compartilhar sonhos.
João Vitor falava sobre abrir um pequeno negócio na cidade onde mora, com obras feitas apenas por artistas da região — um espaço de alma e história.
Ana Júlia contava sobre sua ideia de fundar uma escola de dança contemporânea inclusiva, onde corpo e emoção valessem mais que técnica.
— Um dia, quando minha escola existir, quero que uma das suas esculturas fique na entrada — disse ela, deitada de bruços na cama, mexendo nas pontas do cabelo.
— E eu vou esculpir uma bailarina com seus olhos. Escuros e vivos. Vai ser minha melhor obra.
Foi ali que ele a chamou, pela primeira vez, de “Minha pequena que brilha como o sol da tarde”. Ela estranhou.
Ele explicou.
— Você é aquela luz que chega quando o dia já estava cansado. A que esquenta tudo sem fazer alarde.
Ela respondeu chamando-o de “meu céu azul”, porque, segundo ela, ele era o alívio depois da neblina londrina, o calor depois do cinza.
E assim foram tecendo uma rotina invisível entre dois mundos.
Entre uma ligação falhada e uma risada compartilhada.
Entre emojis, poesias e fuso-horários.
O amor deles ainda não tinha nome, mas tinha rastro.
Tinha tempo marcado em alarmes, dançado em passos e esculpido em palavras.
Não se viam pessoalmente.
Mas se enxergavam como ninguém.
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