Antes de deixar as imediações da casa de Dawson, o detetive e seu parceiro investigaram os arredores e o provável lugar de onde havia sido disparada a flecha letal: uma construção localizada no outro lado da rua, defronte à janela do quarto do jovem. O assassino era alguém que ou havia seguido as vítimas até suas casas, ou possuía acesso aos seus endereços.

“Outra possibilidade é que o criminoso tenha um catálogo de onde escolhia vítimas localizadas em lugares que permitam tiros diretos.”

“Então esse é o único padrão?” John perguntou.

“Temos que ir à última casa, aí poderemos ver quais temas se repetem entre essas pessoas.”

“Até então, eles parecem ser muito diferentes.” o médico observou.

“Ou representam coisas diferentes.” Sherlock concluiu, misterioso.

oOo

“Olive Howard-Mayne, 42 anos, professora universitária e filósofa publicada,” John lê o relatório, arqueando as sombrancelhas, “Foi a primeira vítima a ser encontrada. Seu marido está sob proteção à testemunha, mas ainda não foi descartada a possibilidade de ser um suspeito.”

Olive vivia em um apartamento no quinto andar de um edifício residêncial próximo da universidade em que ensinava. Por ter sido a primeira pessoa assassinada, o departamento de ciência balística da NSY já havia havia enviado suas conclusões ao inspetor Lestrade. O tiro partira do prédio em frente ao da vítima. Esse prédio estava sendo dedetizado e passando por algumas reformas estruturais, portanto estava desocupado. Havia um boletim de arrombamento feito no dia seguinte ao que o assassinato havia ocorrido, mas o invasor não havia deixado sinais de sua presença. E ainda que deixasse, recorrer a detalhes como pegadas genéricas era inviável, considerando o tamanho da população de Londres.

John e Sherlock não tiveram grandes dificuldades em chegar ao apartamento da senhora Howard-Mayne. Encontraram um policial guardando a porta e ele parecia ter sido avisado por Lestrade sobre o detetive consultor, pois o vigia simplesmente abriu passagem e deixou que os dois homens entrassem na cena do crime sem muitas perguntas.

O interior do apartamento não possuía nada de especial. A falecida Olive e seu marido pareciam ser um casal de professores (ele ensinava linguística) sem grandes peculiaridades.

“Sadomasoquismo.” Sherlock disse, após uma breve olhada na sala de estar.

“Perdão?”

“O casal era praticante de sadomasoquismo. Nos braços dessa poltrona que você está encostando tem marcas de corda e amarrações de couro. Eles usaram um chicote de montaria, mas ela tinha pontaria ruim e acertou o estofado da poltrona algumas vezes. Eu sei que ela era a parte dominante, porque tem marcas de salto alto no carpete ao redor da poltrona e a distância entre as marcas do bico do sapato e do salto é pequena demais para pertencer a ele. Ao contrário do que você estava pensando, dado o contexto correto, pegadas são extremamente úteis.”

“Oh.”

John tentou não pensar no conhecimento extensivo de Sherlock sobre chicotes de montaria.

“Veja como as pessoas são óbvias,” ele prosseguiu, “Se você olhar aqui na escrivaninha, ela estava escrevendo um trabalho sobre Foucault, que era um crítico de totalitarismo e opressão, mas também apreciador dessa modalidade sexual, como parte masoquista.”

“Achei que você não se interessava por filosofia.” foi tudo que John conseguiu responder.

“Não me interesso.”

John suspirou e decidiu encerrar o assunto. Sherlock pegou um dos muitos livros sobre a escrivaninha da professora.

“Não me diga, mais um daquele sebo?”

Sherlock devolveu o livro ao seu lugar, então pegou outro, e mais outro. Ela possuía uma pequena biblioteca.

“Na verdade, ela parece ter sido uma cliente assídua do sebo T. & Lyndor.” Sherlock continuou examinando os livros. “E também surrupiou alguns livros da biblioteca da faculdade.”

Sherlock seguiu xeretando por todos os cantos do apartamento.

“John...!” ele chamou.

“Não me diga que achou o chicote deles.” John respondeu, seguindo a voz do detetive em direção ao que deveriam ser os quartos. “Oh, meu deus!”

Ele encontrou Sherlock no quarto de hóspedes, que parecia não ser usado com muita frequência. O detetive estava diante da cama. Sobre a mesma, havia uma coleção de bibelôs, todos eles representando o Cupido. Era esculturas de tamanhos e materiais diversos, todas na forma de um garoto com asas e carregando um pequeno arco.

“Isso parece um pouco obsessivo.” John comentou.

Sherlock começou a examinar as peças. Então disparou pela casa, retornando pouco tempo depois, com o rosto vagamente rosado pela correria e um pouco de poeira sobre os cabelos escuros. John sentiu os dedos comicharem para limpar os flocos brancos dos cachos do outro homem. Sherlock ficava parecendo tão mais novo com aquele cabelo, e ele era particularmente vaidoso com o aspecto de desleixo proposital que seu penteado causava, John seguia surpreendendo-se com tais pensamentos.

“Eles estavam espalhados pela casa, com uma olhada mais criteriosa é possível perceber uma série de falhas no padrão de distribuição da poeira em vários lugares desse apartamento. Você pode perceber também que eles estão em estados de limpeza variados. Eles foram retirados dos lugares originais antes que o crime acontecesse. Não sou de dar palpites, mas creio que o sr. Howard-Mayne não apreciava a coleção da esposa e havia pedido para que ela se livrasse deles. Ela acatou o pedido e juntou todos eles aqui, possivelmente para limpar e embalar, provavelmente almejando encontrar algum novo dono que os desse o devido valor.”

“Bom, eu disse que cupidos e dia dos namorados poderiam ter algo a ver com o caso,” John respondeu.

“Até agora não há nada que comprove...”

“Você só está sendo teimoso porque não quer admitir que eu percebi algo antes de você!” O médico acusou. Por vezes ele ficava irritado com a mania do detetive em deixá-lo no escuro durante uma investigação. John esperou que Sherlock desse alguma resposta ácida, mas o homem apenas aproximou-se do amigo, entrando em seu espaço pessoal. John não se surpreendeu quando sentiu as mãos dos detetive segurando sua face. Em algum momento, Sherlock havia despido as luvas e suas mãos estavam frias contra o rosto quente do doutor.

“John,” Sherlock disse, sua voz particularmente controlada e grave, “Você vai ter que aprender a usar os meus métodos.”

“Preste atenção,” o detetive continuou explicando, “Seria muita ambição pedir um palácio agora, mas você está na sala do 221-B...”

John fechou os olhos. Ele não retornou a abri-los, realmente. Porém era como se ele estivesse enxergando perfeitamente a sala que havia aprendido a chamar de lar. Sherlock estava sentado em sua poltrona favorita. Ele lembrava um gato muito grande em uma caixa muito pequena. John e o detetive consultor sustentaram o olhar um do outro por alguns instantes.

“Caixas, estantes, gavetas. Lugares. Em algum lugar você vai achar a associação que está procurando. Você é capaz de fazer isso.”

John olhou ao redor e revisou palavras, empilhando-as sobre a mobília como se fossem pequenos blocos: Cupido. “Já ouvi essa frase antes.” Um padrão. Claro-escuro. Caravaggio. Sherlock Holmes, quando John olhava para a figura caseira de Sherlock Holmes vestindo um roupão cor-de-rato e sentado sobre sua poltrona favorita, a cabeça inclinada para o lado e os olhos muito claros fixos em seu médico... Olhe bem para mim, Sherlock. Amor. Essa palavra se repete em ciclos, formando uma corrente ao redor do detetive, quase distraindo John de seu objetivo. A simplicidade factual da associação entre Sherlock e uma palavra ao que próprio dizia-se imune fazia as pernas de John vacilarem. Seu subconsciente sabia muito bem porque John não sentia mais tanta vontade de investir seu tempo em relacionamentos com outras pessoas, mas ele mantém um olhar analítico sobre a sala de estar em sua mente e tenta lembrar. Em uma das gavetas na mesa de onde está sua caneca de médico militar, ele encontra uma caixa onde havia guardado um semestre de aulas de latim na faculdade. John abre a caixa. Amor Vincit Omnia. Uma série de conexões invadem seu espaço mental.

“É o nome de um quadro.” John disse, abrindo os olhos e retirando cuidadosamente as mãos de Sherlock de seu rosto. Ele apertou as mãos do detetive entre as suas. Ambos estavam ofegantes e, percebendo a intimidade do que havia acabado de acontecer, John sente-se aliviado por Sherlock não poder realmente observar seus pensamentos. “Caravaggio, o pintor italiano, tem um quadro chamado O Amor Conquista Tudo. O tema do quadro é um cupido. Isso parece ser um padrão, não parece? O livro que o arquiteto comprou, a música do garoto, essa coleção horrível.”

Ele olhou para Sherlock. E viu pupilas dilatando.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.