Amor Submerso
21 Capítulo 21: Traição Descoberta
Notas iniciais
O sol já havia timidamente aparecido no horizonte quando levantei da cama. Não havia dormido, apenas tive breves cochilos para acordar com qualquer som produzido temendo ser Eric a romper aquele quarto. Suspirei e fui ao banheiro do corredor com medo de acordar Dianna, mas ao retornar para o quarto já a encontrei acordada e usando um short desfiado preto com uma blusa caída de um lado cinza. Eu usava uma bermuda escura e uma blusa de alças finas em tonalidades de lilás com algumas borboletas estampadas.
-Vem, vamos esperar lá embaixo – chamei com a voz trêmula.
Dianna nada disse, ela também estava nervosa, afinal ambas estavam erradas nessa história. Ela não tinha terminado com ele para fugir comigo, além de que Eric era meu primo-irmão, crescemos juntos e confiamos cegamente um no outro. Algo que sabia que naquele dia iria mudar drasticamente. Ninguém mais tinha acordado, afinal haviam chegado tarde de uma festa e enchido a cara a ponto de desabar na cama sem se preocupar com o amanhã. Chegamos à sala e Dianna avisou que ia fazer café, seus olhos estavam meio apagados e com olheiras fortes o que denunciava a sua falta de sono também. Encostei-me ao batente da porta da cozinha, observando como o corpo dela se mexia, o jeito como mordia o lábio inferior quando estava perdida em pensamentos. Ela estava tão absorta que não havia notado a minha presença, apenas quando saiu de perto do fogão para pegar o quente-frio.
-Porque não usa a máquina de café? – perguntei quebrando o longo silêncio desde a noite anterior.
-Sou meio tradicional com essas coisas, o gosto dessa forma fica até mais forte – Dianna explicou e sorriu fraco – Há quanto tempo estava ai?
-Quase o tempo todo – sorri e dei de ombros – Gosto de ficar olhando para você.
-Qual a graça disso? – Dianna estranhou e começou a coar o café impregnando a sala com aquele cheiro peculiar.
-Te admirar – respondi sincera – Eu já cheguei a dizer que sou apaixonada em tudo em você?
-Eu já cheguei a dizer que você é fofa? Venha cá, quero te dar um beijo de bom dia e quebrar esse clima tenso de espera.
Fui completamente obediente. Aproximei-me ao mesmo tempo em que ela fechava o recipiente onde estava o café. Mas quando ela terminou e virou para mim, não me beijou, mas sim puxou meu corpo em um abraço tão forte que denunciava toda a sua insegurança. Ou melhor, nossa insegurança. Suspirei baixo, fechei os olhos e também a abracei forte, envolvendo seu corpo com meus braços como se assim pudesse protegê-la de tudo. Foi nesse momento que Dianna ficou um pouco na ponta dos pés, aproximou os lábios de meu ouvido e sussurrou com aquela voz de deusa que ela tinha:
-Eu te amo, Fernanda. Não se esquece disso ta?
Meu corpo inteiro estremeceu. Aquela era a primeira vez que ela dizia aquelas três palavras mais poderosas desse mundo. A apertei mais em meus braços sentindo lágrimas escorrerem por meu rosto, estava emocionalmente abalada, exultante e ainda assim com medo do que o futuro estava nos reservando nas próximas horas.
-Eu te amo tanto, tanto – murmurei em um fio de voz que revelava toda a minha fragilidade – Desde o nosso primeiro encontro, você me pegou tão desprevenida que eu não consegui nem lutar direito, apenas ser atacada por esse sentimento, fui humilhantemente derrotada por ele no nosso primeiro beijo.
-Minha menina, minha sereia – Dianna me acalentava fazendo carinho por minhas costas – Fizemos uma bela confusão, mas o importante é que não importa o fim, estaremos juntas nele. Eu acredito nisso.
-Depois eu que sou a fofa?
Ela deixou um riso escapar e isso me deu as forças que eu precisava. Afastei o suficiente para limpar meu rosto e fitar a mulher de minha vida. Ela sorriu e deu-me um selinho delicado e demorado, apenas prendendo nossos lábios em um contato sutil e gostoso ao mesmo tempo.
-Bom dia – ela murmurou contra minha boca.
-Bom...
A campainha tocou. Meu corpo gelou por um segundo, tempo apenas para que Dianna me abraçasse mais uma vez e se afastasse dando-me coragem com seu olhar determinado. Respirei fundo e fui a primeira a sair da cozinha. A cada passo que eu dava me sentia indo para a beira de um precipício olhar para uma imensidão incerta abaixo de meus pés. Toquei a maçaneta da porta e paralisei um pouco. Meu coração tão disparado quase não deixava que eu escutasse meus pensamentos pessimistas. A campainha tocou novamente duas vezes denunciando a impaciência de quem estava do lado de fora. Abri a porta e recuei um passo com meus olhos âmbar abertos pela surpresa.
-Tio Saulo?! Eric! – falei sem esconder o choque de ver meu tio ali.
-O que você tem dentro dessa sua cabeça! – tio Saulo entrou no lugar quase me empurrando para o lado – Vá pegar suas coisas, vamos voltar para casa imediatamente!
Eu olhava atordoada para tio Saulo ali. Se aquilo podia piorar de alguma forma, era essa. Ele me veria quebrar o coração de seu filho, seu verdadeiro filho, veria a desgraça inteira que eu havia criado para ficar com Dianna. Não importaria se eu tivesse lutado contra, que tivesse fugido sozinha primeiro. No momento da raiva os detalhes não importavam.
-Dianna?! O que faz aqui? Estava tão preocupado meu amor! – Eric exclamava entre surpreso e aliviado, atravessando a porta e indo diretamente abraçar a minha morena – Porque não nos contou que estava aqui? Ou disse onde Fer estava?
Ela retribuiu o abraço, mas logo o afastou. Desviei meus olhos incerta se queria realmente ver aquele tipo de coisa. O ciúme vinha sem permissão nenhuma, mas não sobrepujava o meu temor pelo que iria dizer a qualquer momento. Fechei a porta rezando para Deus e os deuses do mar, não me importava se isso era incoerente em termos de religião, estava me apoiando em todas as forças que podia. Assim me aproximei de Dianna, com uma prece no coração de que aquilo tudo acabasse sem muita dor para todo mundo.
-Precisamos conversar – Dianna falou em um tom de calma – Porque não nos sentamos?
Quando fitei meu tio ele encarava-me incrédulo, seus olhos pareciam me acusar de alguma coisa. Não sabia se era por ter fugido ou por ele já ter entendido tudo o que se passava ali. Ele era esperto, ele tinha visto todas as minhas reações com a Dianna por perto. Mas o que ele pensava realmente ainda era um mistério para mim.
-Acho melhor eu começar – falei olhando para Dianna, minha voz vacilando em algumas notas.
Sentamos lado a lado, a nossa frente os homens que eu iria partir o coração. Aquilo parecia criar um bolo em minha garganta que me impedia de organizar meus pensamentos. Mas então Dianna pegou minha mão, a que estava sobre o joelho, e a apertou suavemente. Seus olhos verdes me davam coragem, finalmente suspirei e encarei aos homens da família Fontaine.
-Eu fugi para o Rio – comecei a falar sincera – Por vários motivos, mas principalmente por não aguentar ficar mais em Noronha, estava... Estava sofrendo ali, de uma forma que nunca fosse sofrer.
-O que aconteceu Nanda? Quem te deixou assim? – Eric perguntou prontamente protetor.
Ele não tinha notado. Como notaria? O que os olhos não procuram não iriam achar. Ele confiava em mim cegamente, afinal era a sua pequena irmã, alguém que nunca o tinha decepcionado na vida. Ao menos não até aquele momento.
-Eu a deixei assim, de certa forma – Dianna interviu apertando minha mão em busca de forças – Fernanda fugiu por minha causa.
-Mas... O que?! – Eric levantou do sofá quando finalmente entendeu, nos olhando com uma fúria crescente em seu olhar azulado – Isso não pode ser verdade. Dianna, vamos voltar para casa e deixar de brincadeira.
-Eu não vou voltar com você Eric – Dianna foi clara em todas as suas palavras, mas eu sentia suas mãos tremendo – Porque eu também me apaixonei por ela.
-Nós lutamos muito contra isso, magoamos uma a outra – completei com certo desespero e urgência em me explicar – Não queríamos nada disso! Eu fugi, eu me quebrei por inteiro para que vocês dois ficassem juntos!
-Mas no fim, eu fui atrás dela no avião – Dianna terminou por mim – Eu sinto muito Eric, sinto mesmo, eu o amo de certa forma, mas como um grande amigo que você sempre foi. Com a Fernanda... As coisas são um pouco diferentes.
-Mentira! Vocês são duas mentirosas filhas da puta! – Eric estourou, eu nunca o tinha visto assim – Vocês me traíram! Fernanda eu confiava em você como uma irmã e enquanto isso você comia minha namorada por trás?! Você sabia que eu a amava, caralho!
-Eric, controle-se – tio Saulo ordenou tentando amenizar a situação.
-Uma porra que eu vou me controlar! – Eric gritou e chutou a mesinha de centro em uma raiva visível e palpável – Eu odeio vocês duas!
Saulo teve de levantar para segurar Eric e jogá-lo no sofá. Eric rosnava, xingava e tentava empurrar seu pai. Meu instinto me fez levantar e puxar Dianna um pouco para longe, segurando sua mão mais firmemente. Era uma cena feia que ficaria marcada em minha memória pelo resto da vida. Eric chorava, esbravejava, apontava o dedo nos acusando.
-Você fodeu com tudo Fernanda! Você nem é minha irmã de verdade! Suma da minha vida, suma de nossa casa, você só trouxe desgraça a ela! – Ele gritava tão alto que era impossível os meninos lá encima não terem acordado – Por sua culpa minha mãe está morrendo! Você que deveria morrer!
-Como assim? O que houve com tia Rita? – perguntei em um surto de preocupação, tentando ignorar tudo o que ele dizia.
-Agora você se importa? Desliga a merda do celular pra vim comer minha namorada em paz e agora que saber?! Foda-se Fernanda! – Eric acusava apontando o dedo para mim – Você não é digna de ter o nome Fontaine, você deveria sumir!
Virei o meu rosto querendo esconder as minhas lágrimas. Aquelas palavras ditas por alguém que eu amava como a um irmão estava me matando a lentas facadas no meu coração. Dianna passou um braço por meus ombros e ficou mais próxima, dando-me forças que eu já não tinha mais. Se ela não estivesse ao meu lado, eu teria caído em profundo desespero.
-Sua tia piorou a saúde por não conseguir comer e dormir por estar preocupada com você – tio Saulo explicou em um tom frio – Vamos para casa, ela precisa de você.
-Não, ela não precisa! Ela só vai se decepcionar e morrer de vez, essa garota é uma merda em nossa vida! – Eric exclamou e ao ver como estávamos juntas ele avançou com tudo e empurrou-me contra o chão sem medir forças – Fique longe de minha mulher!
-Eric! – Dianna gritou e o empurrou para longe de si, apoiando as mãos no seu braço e o jogando com um pouco de força – Eu não sou mais sua, terminamos.
-Pare com isso! – Eric implorou chorando – Eu sou um homem, você pode construir uma família comigo, eu pensei que íamos nos casar! Você nem vai poder ter filhos com ela!
-Eu a amo – foram as palavras firmes e definitivas de Dianna, ela terminou de rasgar o coração de meu primo naquele momento – A amo como nunca amei alguém, de um jeito a não poder controlar meu corpo e nem pensamento. Eu sou dela e ela é minha. Nada do que vocês possam fazer vai mudar isso.
-Não, você está errada, eu sou o seu homem! – Eric recuou ainda em estado de choque – Vamos para casa, você não pode me abandonar, eu também te amo com todas as minhas forças. Você tem o seu trabalho, você tem a mim e...
-Você sabe que no final de fevereiro o meu contrato acaba, que foi apenas para a temporada de verão. O meu chefe está avisado do meu afastamento e assim que retornar para Noronha poderei prosseguir com o contrato – Dianna falou aproximando-se para mim me ajudar a levantar, quando me pus de pé dessa vez ela me segurou firme – Por favor Eric, é mais forte que nós duas, não temos como lutar contra...
-Mas tem como quebrar meu coração como duas cobras venenosas. Vocês duas se merecem. Vão para o inferno e morram se fodendo, eu não me importo mais!
Eric deu meia-volta e partiu para a porta em sincera derrota e fúria. Porém assim que ele abriu a porta apareceu uma figura ruiva com a mão erguida pronta para esmurrar a porta. Os olhos castanho-esverdeados por um momento ficaram surpresos, mas quando Scarlet encontrou-me entrou na casa sem delicadeza alguma, empurrando Eric com seu ombro. O que ela fazia ali? Como aquele dia poderia ficar pior ainda? Como ela sabia onde me encontrar?!
-Temos um problema, vocês tem de vim comigo agora mesmo – Scarlet disse com sincera urgência na voz.
-Scarlet?! Eu sabia! Eu sabia que Fernanda estava envolvida nessas coisas que fez meu irmão enlouquecer! – Saulo finalmente pareceu perder a linha – Você não vai levar minha filha para lugar algum!
-Vocês se conhecem? – Dianna falou e traduziu também toda a minha surpresa.
-Eu não disse que tinha um lance com seu pai? – Scarlet olhou-me e bufou – Agora pelo menos você sabe que é verdade. Mas não temos tempo a perder, vamos partir AGORA.
-Não vai levar Fernanda assim como fez com meu irmão – Saulo segurou o braço da pirata com força.
Em um rápido movimento Scarlet o derrubou no sofá e tirou de sua cintura uma arma de fogo do tipo antigo e apontou para ele. Tio Saulo arregalou bem seus olhos e encolheu-se por instinto no sofá. Antes que eu reagisse a ruiva apontou a arma para cima ainda encarando meu tio de uma forma séria.
-Não fui eu a culpada, ninguém foi. Seu irmão se apaixonou por alguém mais complicado do que eu – Scarlet disse pausadamente, com uma amargura em seu tom, seus olhos voltaram para mim impaciente – Lynn e Nathan foram pegos, precisamos ir agora, será que dá para me escutar uma vez?!
Eu estava prestes a desabar. Qualquer emoção que tinha sentido antes, raiva, medo, vergonha pelo que tinha feito a Eric... Desapareceram para dar lugar ao desespero e a preocupação. Minha mãe e meu irmão foram capturados. Meus ombros ficaram tensos e não pensei duas vezes em começar a avançar em direção a porta, passando por Scarlet esbravejando:
-O que estamos fazendo aqui ainda?!
-Fernanda! Sua tia precisa de você, também vai abandoná-la?! – Tio Saulo apelou.
Estaquei no lugar, Dianna olhou-me em dúvida assim como Scarlet e Eric. Tia Rita havia sido a minha mãe por um bom tempo, mas nada se comparava a ligação que eu tinha com Lynn. As duas estavam em perigo, mas minha mãe eu poderia salvar de uma morte eminente, não poderia abandoná-los. Respirei fundo e olhei para meu tio triste.
-Tia Rita ficará bem, diga a ela que estou bem e que pretendo voltar logo– tomei minha decisão.
-Se partir não se atreva a nos procurar – tio Saulo ameaçou seriamente – Você não será mais considerada mais da família depois de tantas traições!
Ofeguei e pensei que iria chorar ali mesmo. Mas o olhar de urgência da pirata deixava-me sem dúvidas do que tinha de fazer.
-Sinto muito tio Saulo, Eric... Eu amo todos vocês, mas eu preciso ir.
Virei meu corpo e senti Dianna ao meu lado. Ela pegou minha mão e me arrastou para fora, estávamos quase correndo quando Scarlet passou a frente e nos mostrou um carro com o vidro quebrado, obviamente roubado. Lancei um último olhar para a casa de praia de Luana, eu nem pude me despedir dela! Mas ali na porta, estavam Saulo e Eric com olhos decepcionados e cheios de um sentimento forte e que deixava claro que eu não seria bem-vinda tão cedo. Respirei fundo e entrei no carro logo depois de Dianna. Não abandonaria a minha mãe e ao meu irmão. Ao que parecia aquela era a minha família agora.
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