Amor Submerso
10 Capítulo 10: No dia seguinte
Notas iniciais
Assim que saí do hospital eles fizeram uma festa de aniversário na entrada do Hotel Estrela do Mar. Dessa vez não precisei fingir que estava bem, pois realmente me deixei levar pela vibração do pessoal que trabalha no lugar e me viu crescer. Todos haviam ficado preocupados comigo e isso me tocava e acalentava o meu espírito confuso, até mesmo Amanda e outros conhecidos estavam ali. Dianna também não havia aparecido, deu a desculpa de que tinha de trabalhar e todos acreditaram. De certa forma eu agradecia por isso, se a visse naquela manhã eu iria fraquejar em toda a minha decisão de protegê-la.
-Você nos deu um belo susto – tio Saulo comentou enquanto comia o bolo que tia Rita havia feito.
-Qual é tio, eu sou muito teimosa para morrer, por favor! – exclamei fingindo indignação.
Em resposta recebi um pequeno tapa da Amanda e depois um abraço apertado dela só pela menção de minha morte. Ficamos ali a beira da piscina, dessa vez não tinha hesitado em cair dentro da água, aquele elemento voltou a fazer efeito sobre mim e agora me fazia sentir mais viva do que nunca. Seria a minha parte de sereia falando mais alto? Eu ainda me sentia... Humana, por assim dizer, nenhuma mudança sinistra ou escamas pelo corpo, muito menos olhos azuis hipnotizantes. Depois da pequena festa estava me preparando para sair quando tia Rita apareceu a minha frente de braços cruzados.
-Aonde vai? A recomendação do médico foi de que você descansasse – ela disse com aquele ar materno no olhar.
-Estou indo passear – expliquei e troquei o peso de uma perna para outra – Tia Rita, eu estou mesmo bem, mais VIVA do que nunca. Eu quero aproveitar, não quero ficar presa. Eu prometo que vou me cuidar.
-Está com seu celular novo? – havia sido o presente de Eric, ao que ele dizia havia encontrado o meu celular antigo quebrado.
-Sim, tudo certo, volto antes do anoitecer prometo!
-Prometa que vai me ligar caso sinta qualquer coisa...
-Eu prometo tia! Eu estou bem, eu juro.
Rita suspirou e deixou-me partir. Não gostava de deixa-la preocupada, sabia que ela sofria de problemas de pressão e cardiovasculares, as lembranças que eu tinha de quando minha tia ficou realmente mal me deixavam apreensiva com qualquer atitude que tomava que pudesse preocupa-la. Acho que foi assim que deixei de ser mais impulsiva e inconsequente. Mas eu precisava desesperadamente vê-la. As perguntas fervilhavam em minha mente precisavam de respostas claras e coerentes, apesar de apostar que seriam surreais. Eu tinha medos absurdos, do tipo minha pele ficar cheias de escamas ou então algo em mim acabar em uma mutação asquerosa. Por isso assim que saí do hotel praticamente corri para a Praia do Leão onde o hipocampo havia me deixado, tinha deduzido que era a praia que ficava mais perto da caverna submersa.
Infelizmente era alta temporada e as areias estavam cheias de turistas e estrangeiros. Seria facilmente notada se entrasse no mar e não saísse. Mordi o canto do lábio enquanto pensava, meus olhos vagando por aquele mar de pessoas na praia... Até ver um pouco mais ao longe um jet-ski no novo modelo e lembrei-me de Tony. Ele era um pernambucano que fazia um verdadeiro sucesso nas altas temporadas. Charmoso, bonito, com um sorriso lindo e um jeito carinhoso até em sua fala, além de ser um bissexual que agradava bem demais a todos os públicos. Ao menos era o que eu tinha ouvido falar. Mas o mais importante era que ele tinha uma barraca moderna que alugava jet-ski e pranchas, era praticamente a única da praia. Assim segui para o sul da praia até encontrar uma barraca maior que as outras e lotada de pessoas, tanto na areia quanto na parte coberta.
-Nanda! – Tony me cumprimentou assim que me viu, ele estava perto de uma mesa cheia de meninas loiras – Diacho mulher, você quis matar todo mundo de susto?
Acabei rindo mais por aquele sotaque gostoso e engraçado que ele tinha. O abracei forte e senti o seu perfume inebriante. Se eu não gostasse apenas de mulheres não hesitaria em me deixar cair na sedução dele. Tony era alto, com um peitoral que lembrava um nadador, peito e ombros largos. O cabelo escuro estava sempre meio bagunçado, mas isso fazia apenas parte de seu charme. Os olhos castanho-esverdeados eram sempre divertidos ou maliciosos, a pele dele era bastante bronzeada pelo sol já que o homem quase não saia da praia.
-Que isso, nunca ouviu dizer que vaso ruim não quebra? – brinquei assim que o soltei – Já estou até pronta para outra.
-Nem brinque com isso, você parou praticamente a ilha inteira. Muita gente foi te visitar enquanto você tava lá na preguiça de acordar – Tony reclamou cruzando os braços.
Meu sorriso foi sincero. Havia passado boa parte de minha infância ali, criando confusões, correndo de um lado para o outro, visitando pessoas e brincando na praia. Muitos dos antigos me conheciam e fizeram parte de minha vida. Mas saber dessa forma que o carinho das pessoas da ilha me deixava abalada de certa forma.
-Tony, who’s she? – uma das loiras chamou a atenção na mesa.
Ele tratou de abrir um sorriso sedutor para elas e deu algumas explicações em inglês que eu não me importei em prestar atenção. O momento havia passado e agora a minha ansiedade de ir para alto mar estava de volta. Esperei que Tony voltasse para mim com aquele olhar de desculpas que ele sempre dava quando tinha de sair.
-Bem, não vou mais te atrapalhar – disse tranquilamente – Queria apenas alugar um jet-ski para passear um pouco.
-Você tem certeza? Acabou de sair de uma situação delicada no mar e...
-O mar é minha casa, Tony. Sempre temos problemas em casa, mas também sempre retornamos não é? Não quero perder a minha ligação e eu já conferi o clima de hoje, vai fazer sol o dia inteiro – o interrompi gentilmente e abri um sorriso acompanhado com um olhar pidão – Qualquer coisa você me salva e deixo fazer respiração boca-a-boca, ai antes que eu acorde você puxa uma dessas loiras para perto de mim e estaremos kits.
Ele riu alto e se deu por vencido. Pediu a um dos seus empregados para me levar até um jet-ski moderno, ultima geração e mais leve do que os de antigamente. A tecnologia sempre avançava deixando o homem cada vez mais perto dos filmes de ficção científica que faziam tanto sucesso. Era uma pequena que as coisas ainda chegassem atrasadas no Brasil. Assim que subi no jet-ski eu dei partida e me afastei em uma velocidade considerável. Primeiro fiquei brincando perto da pedra do leão-marinho, a formação rochosa que deu o nome a praia. Não queria que ninguém se preocupasse, então depois de uns quinze minutos me permitindo fazer manobras e até mesmo apostar uma pequena corrida com um turista segui direto para o alto-mar.
Quando me afastei o suficiente parei o automóvel aquático e respirei fundo olhando para as ondas calmas. Toquei novamente a concha em meu pescoço para ter certeza de que tudo aquilo era verdade. Fiquei em pé no jet-ski, fechei os olhos, fiz o sinal da cruz e saltei para a água. Meu corpo afundou quase um metro por causa do impulso, abri meus olhos e minha visão inicialmente embaçada começou a se tornar nítida rapidamente. Ousei tentar respirar temendo acabar bebendo litros de água salgada... Mas acabou dando certo. Foi nesse momento que eu me convenci inteiramente que aquilo tudo era verdade. Como negar esses dois fenômenos que estavam acontecendo comigo? Porém isso trazia um medo do que também poderia acontecer.
Mergulhei para o fundo, passando por lindos cardumes e até mesmo um pequeno coral. Era lindo e ainda mais gostoso estar ali embaixo, respirando e enxergando a tudo sem a ajuda de óculos de mergulho ou coisa parecida. Porém, menos de dez minutos desde que estava embaixo da água um golfinho se aproximou produzindo o som característico de sua espécie. Franzi o cenho e ele repetiu o som e eu acabei por arregalar meus olhos surpresa. De alguma forma eu estava entendendo que ele queria que eu segurasse nele! Não eram palavras ditas em minha cabeça, mas uma sensação certa do que ele queria. Nadei até perto dele e segurei em sua barbatana dorsal. O golfinho logo começou a nadar e a me levar ainda mais para o norte do mar.
Com o Flash, o hipocampo, eu não tive noção nenhuma de tempo. Pareceu que a viagem até a caverna tinha levado algo parecido há apenas dois minutos. Mas com o golfinho mesmo em alta velocidade a formação rochosa apareceu em uma viagem de dez minutos. Quando ele parou o soltei e nadei sozinha até a entrada, mas parei ao ver a barreira semitransparente. Hesitante, ergui a mão e ousei atravessar alguns dedos, semicerrando os olhos com medo do que pudesse acontecer... Porém apenas uma sensação de formigamento passou por meu braço. Então, em um único movimento entrei na caverna e novamente me deparei com aquele interior aconchegante e diferente. A sereia estava lá, digo, minha mãe estava lá flutuando no meio do nada parecendo deitada e com um livro a sua frente. Exatamente isso, um livro. Assim que entrei mais um pouco ela virou o rosto para mim e abriu um sorriso tão feliz e lindo que acabei retribuindo naturalmente.
“Atrapalho?” – perguntei sem jeito e sem saber como cumprimenta-la, lembrando que ela falava apenas por pensamentos.
“Claro que não!” – Ela se aproximou em um nado rápido e me deu um abraço esmagador a ponto de doer um pouco meus ossos – “Eu... Eu pensei que você não pudesse vir”.
“Fiquei muito confusa, quase surtei, mas... Estou respirando debaixo da água ainda, então por mais louco que seja pode ser verdade. E eu tenho muitas perguntas” – me afastei um pouco dela e a observei um pouco melhor e mais calma, a beleza dela também era singular e extremamente perfeita. Por um momento me perguntei por que não puxei mais a minha mãe, mas então vi seus olhos divertidos e curiosos, um olhar que todo mundo dizia que eu tinha – “Espero que responda a todas as minhas perguntas”.
“Prometo que vou tentar! Mas você ficou bem? Algo de muito estranho aconteceu? Como foi acordar?” – Lynn afastou-se para poder lançar para mim um olhar avaliador e preocupado, como uma verdadeira mãe faria.
“Sinto mais sede que o normal e me sinto ainda mais a vontade debaixo da água. Bem... Eu não sei explicar, mas juro que entendi o que o golfinho queria que eu fizesse, mesmo que ele não usasse uma linguagem ou qualquer coisa do tipo” – lembrei e fiz uma pequena careta – “Por favor, me diga que isso é normal pras sereias”.
“Para todo o Povo Submerso” – ela sorriu contente – “Isso é bom, quer dizer que está por enquanto pegando apenas os traços bons. De qualquer forma, os seres do mar possuem algo chamado empatia. Mesmo que os menores seres não possuam um pensamento verdadeiro eles tem um instinto ou sentimento mesmo que primitivos e sabemos identificar muito bem, nos seres mais avançados e inteligentes como os golfinhos podemos discernir suas vontades e desejos.”
“Quer dizer que eu posso meio que falar com os animais marinhos?!” – Abri meus olhos bem surpresa.
“Você pode entende-los e eles irão entender você. Como disse, não é necessário uma linguagem. Aqui, debaixo do mar, os vínculos são bem importantes” – minha mãe explicou paciente – “Mas venha, sente-se, está com fome?”
“O que o Povo Peixe come?” – perguntei brincando com a nomenclatura.
Lynn virou o rosto para mim rapidamente e sorriu um pouco triste. Fiquei com medo de tê-la ofendido de alguma forma.
“Seu pai costumava brincar da mesma forma, eu odiava, mas agora parece que eu o vejo falando novamente e gosto disso” – ela se explicou e balançou um pouco a cabeça como se quisesse afastar as lembranças – “Sente, vou pegar algo para você”.
A menção a meu pai me deixou abalada. Fiquei imaginando como teria sido o romance deles, as batalhas que tiveram de enfrentar e como minha mãe deveria se sentir muito só presa naquela caverna para me manter viva. Qualquer pensamento revoltado que eu já tive na vida por não ter meus pais verdadeiros morreu naquele instante. Aquela mulher, ou melhor, sereia, tinha sacrificado praticamente tudo por mim e por meu pai. Geralmente eu não era tão boba, não acreditava fácil nas intensões dos outros. Mas ali, em frente a ela e podendo ler aqueles olhos azuis hipnóticos, eu sabia que era verdade. Talvez fosse a empatia? Ou a minha vontade de querer acreditar em minha mãe. Ela nadou para um canto da caverna que parecia ter compartimentos na rocha e ficou um pouco de costas. Fiquei novamente encantada com sua cauda e barbatana, era lindo apesar de estranho. As cores que variavam de azul para verde, a barbatana majestosa, o cabelo loiro que flutuava ao seu redor deixando-a com uma aura ainda mais mística. Também descobri que havia tatuagens cursivas e cheias de curvas em suas costas, porém com fios mais finos dos que a da frente, começando desde o inicio de suas costas e seguindo bem pelo centro de sua coluna e se mesclando com aos traços do ombro. Tia Rita teria um infarto se eu aparecesse com uma tatuagem.
“Acho que a primeira coisa que irei te ensinar é como camuflar seus pensamentos”- Lynn comentou rindo ainda de costas para mim.
“Você ouviu tudo o que eu pensei?!” – senti que estava corando, pus as mãos em meu rosto como se pudesse me esconder – “Ah merda, fala sério! Eu viajando aqui!”
“Não, eu gosto da forma que você pensa e de como me vê” – Lynn finalmente virou o corpo para mim, nas mãos tinha uma enorme concha e dentro dela algum tipo de comida. Ela balançou sua cauda e seguiu para a mesa – “Venha, conversaremos enquanto você experimenta a culinária de meu povo, se bem que não é grande coisa, preferiria te dar um bom e suculento pedaço de odiv, mas eles só existem nas profundezas do oceano”.
“Vou querer saber o que são essas coisas?” – perguntei nadando para a mesa e me deparando com coisas enroladas que me lembrava da comida japonesa, principalmente sushis.
“Apenas experimente” – minha mãe sorriu divertida.
Sentei em uma daquelas cadeiras de corais e encarei ao “prato”. Haviam cinco peças grandes e todas enroladas com algo que me lembrava algas, mas cada uma era com cores diferentes, desde azul à rosa. O conteúdo também variava, um eu sabia que era peixe, outro eu duvidava do que era por ser preto e marrom. Suspirei e dei de ombros, peguei uma peça com alga roxa e com um conteúdo vermelho. Mordi um pequeno pedaço e... Por Deus, aquilo era muito bom! Eu não poderia explicar o sabor, parecia doce e com um gosto que nunca tinha experimentado antes.
“Tome cuidado com o amarelo, é picante” – minha mãe avisou sorrindo com minha expressão de prazer.
“Algo picante debaixo da água, que irônico” – comentei quase rindo e terminando de comer a peça de comida – “Mas então, você disse algo sobre camuflar meus pensamentos...”
“Será possível se você possuir o mínimo de magia. Poderia me dar a sua mão esquerda?” – ela pediu e eu obedeci, pegando com a direita a peça com conteúdo preto, mas só depois de uma mordida eu já o deixei de lado, era muito forte o seu sabor – “Não tenha medo de nada o que eu vou fazer, certo? Eu jamais machucaria você. Será apenas uma magia básica feita para identificar e medir o dom da magia do meu povo. Irei explicar melhor sobre isso mais tarde, mas veja, eu possuo um dos níveis mais altos.”
Ela abriu a mão esquerda enquanto segurava a minha com a outra. A palma da mão dela foi tomada por uma espécie de tatuagem tribal azulada e de traço bem fino, concentrando-se principalmente no centro. Então foi como se uma chama azul crescesse da palma dela, mas incrivelmente feita de água. Atingia um tamanho de quase trinta centímetros e tinha um brilho que ficava passeando por toda a sua extensão com alguma velocidade.
“Você é como uma bruxa?” – pensei surpresa.
“Por favor, as bruxas são de uma índole má! Não me compare a elas.” – minha mãe pareceu um pouco ofendida e suspirou – “Você tem tanto o que aprender... Mas respondendo a sua pergunta, é uma magia natural, pura e que vem do ambiente. Debaixo do mar o Povo Submerso é invencível. Fora é bastante poderoso, tanto que nos mantemos apesar de todas as guerras”.
“Espere... Então não existem apenas sereias?!” – senti um frio subindo por minha espinha.
“Alguns povos foram extintos, outros persistem e alguns correm grandes riscos por viverem muito perto do Povo da Terra, os humanos. A ignorância e o medo do desconhecido fizeram os humanos ficarem fortes e se protegerem contra o sobrenatural.”
“Ok... Uma coisa de cada vez senão meu HD chamado cérebro queima e entenderei mais nada!”
“Tudo bem. Aviso que você pode sentir alguma sensação estranha e até desconfortável, seu corpo não está acostumado com a alta circulação de energia. Prometo que entenderá melhor sobre como funciona a magia, mas primeiro teremos de saber se possui esse dom”.
Fiz que sim com a cabeça. Estava com uma expectativa esmagadora. Qual criança nunca imaginou que tinha superpoderes? Ou até mesmo os grandes escritores que fantasiavam mundos e seres, atribuindo qualidades poderosas ou diferentes dos humanos? Observei a mão esquerda de minha mãe sobrepor a minha bem próxima, mas sem deixar que as peles se roçarem. Meu olhar ficou preso às duas mãos esperando que algo acontecesse, mal entendi as palavras que ela pronunciou... Porém, assim que ela afastou a mão os músculos da minha palma se contrariam um pouco causando uma pequena dor incomoda. Fiz uma pequena careta que logo se transformou em uma expressão de surpresa quando os mesmos riscos que outrora estiveram na mão dela começaram a surgir ali, ainda que o incomodo continuasse. Eu sentia meu pulso batendo mais forte e algo sendo levado de minhas veias como um fluxo indo em direção a palma. As linhas que surgiram pareciam estarem sendo desenhadas com a pressão que faria uma caneta rabiscando a minha pele. E então a chama surgiu surpreendendo a mim e a sereia a minha frente. Era quase tão grande quanto às chamas de Lynn, tendo por volta de vinte centímetros. Meu coração disparou e meu foco estava apenas naquele fogo aquático, seria mesmo possível que eu possuísse tanta magia?!
“Você está no mesmo nível que a alta patente do meu povo!” – Lynn exclamou na mente com uma surpresa e orgulho evidente – “Se fosse uma sereia por completo estaria com um título grande de nobreza, seria admirada e invejada por outros”.
“Tudo bem, ainda me sinto uma humana atrapalhada, mas meu ego ta começando a subir” – pensei com certa ironia e brincadeira.
Lynn soltou minha mão e as chamas de água continuaram. Sumiram apenas quando eu me atrevi a mexer minha mão. As linhas tatuadas em minha palma também foram desaparecendo aos poucos. Quando ergui o olhar minha mãe me encarava curiosa e criticamente, como se eu fosse um experimento.
“Que?” – perguntei incomodada.
“Levante sua blusa, quero ver algo” – ela pediu finalmente me fitando.
“O que?!” – minha reação de surpresa foi automática.
“Apenas levante, confie em mim.”
Ainda constrangida, segurei a barra de minha blusa vermelha e a ergui um pouco... Apenas para ver sobre o meu short começando em meu quadril as linhas cursivas tatuadas no mesmo tom azul-esverdeado que o de minha mãe. Subi mais a blusa e vi que a tatuagem parava em minha cintura.
“Tia Rita vai me matar!” – foi a primeira coisa que eu pensei.
“Não se preocupe, elas sempre somem quando vamos a terra” – Lynn me tranquilizou com um sorriso, mas logo ficou séria – “Mas não está completa, o que pode significar que sua mudança vai acontecer aos poucos e não de uma vez. O que pode ser bom para que você vá se acostumando... Ruim porque não sabemos até que ponto você irá chegar por ser apenas meio-sereia.”
“Ok, já posso entrar em pânico?” – indaguei levemente assustada — “Eu vou criar escamas pelo corpo?! Vou ficar com cara de peixe?! Ah Deus!”
Lynn nadou para o meu lado. Eu já havia esquecido completamente os petiscos e estava tendo um mini-ataque. Mas para minha sorte e surpresa, ela passou os braços sobre meu corpo e me abraçou delicadamente, fazendo carinho em meu cabelo de um jeito totalmente materno que me desarmou.
“Eu vou estar aqui e do seu lado sempre que puder. Não se preocupe, eu vou cuidar de você Fernanda.”
Apenas poucos entenderiam como aquelas palavras poderiam mexer com uma filha que passou sua vida inteira sem um amor verdadeiro de mãe. Tia Rita significou muito para mim, me educou e me deu amor. Mas ali, com Lynn, uma ligação muito forte prevalecia me fazendo ter um... Vínculo. Começava a entender porque era tão importante essa conexão que ela tanto falava.
“Mãe” – chamei. Ela afastou um pouco para me olhar totalmente abalada e emocionada, era a primeira vez que a chamava assim. Sorri de forma carinhosa e até mesmo sapeca – “Sou mais forte do que aparento, já passou. Mas ainda posso te fazer algumas perguntas? Preciso voltar para casa antes do anoitecer”.
Ela se afastou pondo a mão sobre o coração e sentou a minha frente, sua cauda ficando um pouco de lado enquanto o que deveria ser seu traseiro se assentava. Foi assim que me veio uma curiosidade que eu não pude segurar.
“Espera, se vocês não tranzam... Não sentem prazer?!” – questionei com um pequeno medo de que não pudesse ser mais tão ativa por ser meio-sereia. Por mais bobo que fosse isso o temor persistia.
“Nunca disse isso, apenas que o processo de acasalamento é diferente” – Lynn soltou uma gargalhada gostosa – “Quando nos tocamos, o prazer é muito maior e intenso, um beijo quando bem investido e cheio de emoções pode levar qualquer um a loucura e beirar ao que os humanos chamam de orgasmos”.
Meus olhos se abriram enquanto minha mente se enxiam de pensamentos e possibilidades. Um beijo? Dar tanto prazer assim? Imaginei prontamente como isso poderia me ajudar a ter Dianna para mim e imediatamente lembrei que minha mãe podia ver meus pensamentos. Bati a mão em minha testa e resmunguei alto. Ela tinha visto tudo, com certeza! Sabia disso pelo seu sorriso divertido.
“Então é essa garota que faz seu coração pesar?” – ela perguntou curiosa.
“Não quero falar sobre isso. Não agora” – cortei sentindo a mágoa começar a aparecer novamente – “Não é o momento, temos pouco tempo.”
“Tudo bem, o que quer saber sobre meu povo?” – ela pareceu compreender de verdade.
“Não quero saber sobre o povo peixe” – brinquei para esconder a minha timidez súbita, era raro os momentos em que ficava desse jeito – “Eu quero saber sobre você... Todos esses anos fiquei imaginando como você seria, sobre o que gostava, se era parecida comigo, se preferia doce ou salgados, se gostaria de rock ou de pagode. Eu quero conhecer minha mãe, apesar de ter muitas dúvidas sobre esse lance todo de sereia eu preciso saber antes... Sobre você.”
O sorriso emocionado que ela me deu foi prontamente retribuído. Lynn inclinou o corpo para poder pegar minha mão e ficar assim, segurando de um jeito firme. Aquele toque acalentou todo o meu ser, mostrava um carinho tão grande escondido em um pequeno gesto. Então ela começou a falar de si.
“Para começar devo falar de meus pais. Eu sou a filha mais nova do rei e da rainha e...”
“Espera! Você é uma princesa?!” – perguntei sendo pega completamente de surpresa.
“Parece que sim” – ela sorriu divertida e deu de ombros – “Por termos um título nobre muito grande sempre se esperou muito de nós. Geralmente somos abençoados pelos deuses do mar. Poseidon protege os guerreiros e Anfitrite, esposa de Poseidon, os que possuem dom com magia. De todas as minhas irmãs eu possuo a maior energia mágica... Mas também era a que menos ligava para essas coisas. Preferia ficar brincando com os outros, explorando o mar e indo até mesmo em locais proibidos, tudo o que eu menos queria era ficar presa nessa rede de regras e exigências que meus pais pregavam para manter a ordem.”
Acabei sorrindo grande, afinal de contas eu também não tinha sido assim? Explorando Fernando de Noronha, seguindo as trilhas sozinhas mesmo as proibidas. Preferia ficar brincando com todos, desde aos nativos mais pobres aos turistas mais ricos. Descobrir que tinha puxado esse lado de minha mãe me fez sentir ainda mais próxima dela.
“Em resumo eu odiava as aulas de magia, era teimosa e orgulhosa, sempre dando problemas aos meus pais. Não que eu não os amasse ou quisesse desobedece-los, mas... Meu espírito queria ser sempre livre, o que era um problema já que como a melhor dos seus filhos cada ato meu sempre chamava a atenção. Então conheci Órion, um tritão de baixo título nobre, mas um estudioso e curioso do mundo humano. Apaixonamo-nos e tivemos um bom tempo juntos”.
Acabei franzindo o cenho. Claro que havia esperado que o único amor da vida dela tivesse sido o meu pai, mas ao que parecia não. Tudo bem, admitia que era a cultura romântica e de livros que focavam em um único amor que havia conduzido o meu pensamento. Mas a curiosidade de saber onde meu pai entrava nessa história apenas crescia.
“Como eu queria protege-lo, passei a estudar mais ainda a magia e me tornei realmente forte. Eu seria capaz de lutar contra meus pais por ele. Mas... Mas Órion era um guerreiro leal, meu pai quando descobriu o mandou para as linhas de guerra contra o Povo da Sombra. Eu tinha sugerido que fugíssemos, que fossemos viver nossas vidas longes dessas regras da nobreza. Mas como eu disse, ele é um guerreiro leal, sua honra falou mais alto. Nunca mais o vi e 20 anos depois chegou a notícia de que Órion havia morrido ao servir de escudo para proteger uma pequena legião de nosso povo. Foi uma morte tão nobre que meu pai finalmente admitiu que apesar do baixo título ele era um guerreiro espetacular. Mas já era tarde demais, Órion estava morto e uma parte de mim tinha morrido com ele”.
De alguma forma eu pude senti a tristeza que tomou conta do coração de minha mãe. Apertei as mãos dela e como resposta ela me fitou em silêncio por algum tempo. Como Dianna observou, eu sabia fazer silêncio e então permiti que minha mãe tivesse o tempo dela para superar as lembranças que provavelmente se apoderavam de sua mente enquanto eu também tentava afastar os dias felizes que tive ao lado de minha morena.
“Era evidente o quanto eu tinha ficado triste. Fiquei isolada e me consolando apenas na magia. Pensei que nunca mais iria encontrar aquela parte de mim que tinha desaparecido... Até que fiquei poderosa o suficiente para ser mandada como uma espécie de embaixadora para resolver um problema com o Povo da Terra. Foi assim que conheci seu pai. Espero que entenda que eu sempre fui criada para ter uma desconfiança muito alta com os humanos, senão para odiá-los por matar a natureza, muito dos seres morreram por causa do descuido do Povo da Terra nesse último século. Então eu estava encarregada de acabar com toda uma empresa que estava destruindo os corais secretos com o seu lixo tóxico. Eu realmente tinha planos de destruir a tudo se não tivesse uma resolução diplomática. Mas então seu pai, que era um pesquisador formado em oceanografia, apareceu e... Mudou absolutamente tudo. Mostrou-me que por muitas vezes o mal está concentrado em apenas um humano que engana os outros e faz com que eles levem a culpa. É muito fácil generalizar a massa por erros de poucos. Ele me ajudou a fazer planos que afetassem apenas aos verdadeiros culpados e a sua inteligência e fé nos princípios que a muito tempo havia esquecido me fizeram reviver a parte que tinha morrido com Órion”.
Eu podia imaginar tudo isso. Mesmo que não soubesse direito como meu pai era, além das velhas fotografias do tio Saulo. Eu podia vê-lo discutindo com minha mãe, dos dois se beijando depois de uma briga, sorrindo um para o outro. Lynn sorriu e se aproximou de mim, pousando a testa na minha. Sabia o que iria acontecer, por isso apenas fechei os olhos para ver o filme que ela iria mostrar-me de sua vida. Uma cena apareceu, ela como humana discutindo bravamente com meu pai e ele usando do mesmo tom. Até que os dois no calor da briga se aproximaram a ponto de meu pai brigar e ficar apenas admirando a ela. Então ele a interrompeu, a puxando pela cintura, segurando em sua nuca e dando um beijo que a pegou totalmente desprevenida. Vi minha mãe se debater, tentar afastá-lo, mas não demorou alguns segundos para fechar os olhos e entregar-se ao momento. A cena sumiu e eu senti a sereia se afastar, acabei rindo alto com o jeito bobo que minha mãe havia ficado.
“Meu pai tem um ótimo gosto, pelo visto” – acabei brincando e a observei corar pela primeira vez – “Mas acho que já tenho de ir. Vou ficar seriamente encrencada, meu sexto sentido está dizendo isso.”
“Prometa-me que voltará logo” – Lynn implorou, voltando a segurar minhas mãos com certa força – “Por favor, Fernanda, eu preciso... Eu preciso de você.”
“Amanhã mesmo, assim que eu consegui inventar alguma desculpa” – prometi e pela primeira vez me permiti fazer um carinho no rosto dela. Mas então meus olhos se abriram denunciando que eu havia me lembrado de algo – “Mas antes! Como tranco meus pensamentos? É muito constrangedor ter sua mãe na cabeça, sinistro até!”
Ela riu e segurou minha cabeça com ambas as mãos. Novamente pronunciou aquele dialeto diferente, mas que eu já estava me acostumando com sua pronuncia diferente e cheia de tonalidades estranhas. Senti uma leve pontada na cabeça, mas foi ligeira.
“Agora basta que tenha a intenção de conversar comigo” – minha mãe explicou e beijou-me na bochecha – “Agora vá, não quero que preocupe sua família na terra, mas tome cuidado, certo?”.
“Já está querendo impor o horário que volto para casa?” – provoquei sorrindo de lado, ainda boba pelo beijo que ela havia me dado.
“Se quiser chamar pelo Flash, basta por os dedos na boca, pensar nele e assoviar. Sempre dará certo” – Lynn comentou depois de rir do que eu disse.
Fiz que sim com a cabeça e lutando comigo mesma sai da caverna. Do lado de fora olhei para os lados. Nenhum golfinho-táxi, então teria de fazer o que ela aconselhou. Mantive o hipocampo em minha mente e levei dois dedos a boca, então assoprei um pouco forte produzindo o mesmo som que Lynn havia feito para chamar o Flash da primeira vez. Como uma verdadeira aparição, ele logo se aproximava com aquela velocidade assustadora. Dessa vez me aproximei do animal com mais segurança, eu podia sentí-lo neutro em relação a mim, como se me respeitasse por causa de minha mãe. Ousei fazer um carinho em seu pescoço e sorri ao sentir que ele havia gostado. O montei e me segurei da forma correta, não queria ser deixada para trás naquele turbilhão que aquele meio-cavalo iria criar. O incitei e logo ele estava “galopando” em direção a praia, parando exatamente onde eu havia pensado ter deixado o jet-ski.
Soube que estava realmente encrencada quando não encontrei o veículo. Provavelmente haviam encontrado e como estava vazio todo mundo deveria estar pensando que eu desapareci no mar novamente. Suspirei imaginando a bronca e ficando levemente preocupada com tia Rita, esperava que ela não tivesse se assustado muito. Flash acabou me deixando próxima o suficiente para que eu voltasse a praia nadando, como era final de tarde já havia ninguém ali. A praia era proibida perto das seis horas porque era época de desova das tartarugas. O que me restou fazer todo o caminho de volta a pé e completamente molhada da água. Ao menos foi tempo suficiente para me preparar mentalmente para o que estava por vim.
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