Amor Submerso

6 Capítulo 6: Santuário do Mar


Notas iniciais
Tcharan. As coisas começam a ficar tensas, espero que entendam que comecei a fic apresentando desde já um belo de um problema a ser resolvido c.c

Como havia vindo de avião cheguei mais cedo do que o esperado, então tive de ir sozinha até o Hotel Estrela do Mar. Dessa vez a expectativa de voltar havia diminuído drasticamente. Estava sem Lorena para me apoiar ou puxar minha orelha, além de que se não tivesse cuidado iria preocupar Saulo e Rita por causa de meus sonhos.

Ao chegar a frente do hotel respirei fundo tentando conter aquela sensação incomoda. Adentrei o lugar encontrando tia Rita conversando com a atendente da recepção, logo quando me viu ela abriu um enorme sorriso surpreso e veio rapidamente me dar um abraço apertado.

-Chegou mais cedo, minha menina! – ela exclamou contente – Porque não avisou? Teria mandado alguém ir te buscar no porto...

-Eu vim de avião – a cortei gentilmente – Quis vim o mais rápido possível.

Senti algo dentro de mim contrair. Eu odiava mentir, ainda mais para alguém tão importante como tia Rita, ela era uma verdadeira mãe para mim. Prova disso foi quando ela fez um carinho em meu rosto e beijou minha testa dando as boas vindas. Dessa vez iria ficar até o final do mês de janeiro, o que rendia duas semanas inteiras completas na ilha.

-Vai cair na piscina? – tia Rita perguntou como de costume.

-Er.. Não, eu estou cansada, acho que vou dormir um pouco primeiro, tive de correr para poder fazer tudo em tempo e chegar aqui mais cedo – enrolei um pouco.

-Então bom descanso, eu vou avisar a seu tio que você já chegou.

Fiz que sim com a cabeça e quase corri para meu quarto no hotel. Dessa vez quando tomei banho usei do chuveiro e não da banheira, estava evitando qualquer coisa que pudesse cobrir minha cabeça com água. Não era brincadeira ser amedrontada todas as noites por um pesadelo tão vívido e acordar com a sensação de que estava por um fio de vida. Eu estava simplesmente enlouquecendo! Não dormir como disse que iria fazer, tinha medo de meus sonhos. Ao invés disso fiquei deitada na rede da sacada, lendo um livro de Dan Brown para distrair a mente.

Mas quando deu uma hora da tarde a fome apertou meu estomago e me obrigou a ir almoçar no restaurante do Hotel. Lá tio Saulo me fez companhia e ficou conversando comigo enquanto eu me alimentava.

-Porque não aproveita para ir até o Santuário do Mar ver a apresentação da Dianna? – Saulo sugeriu.

-Eu não sei... – disse um pouco hesitante, estaria preparada para ver a morena?

-Ela pode não ter dito, mas parece que se apegou um pouco a você. Ela não tem muitos amigos, passa mais tempo com os golfinhos e aquela baleia, nem mesmo o Eric tem tanta atenção quanto – Saulo contou e sorriu – Faça uma surpresa para ela.

Ah teimoso coração, porque fica feliz com uma coisa tão boba? Mas o sentimento fugaz já se instalou em minha mente, eu iria para o Santuário ver a apresentação de Dianna e aproveitar para ver o oceanário, sentia falta de ver aqueles animais marinhos tão lindos e tão de perto. Depois de almoçar fui me arrumar, pondo uma calça jeans escura, allstar tradicional e uma blusa simples com a estampa de uma onda. Amarrei meu cabelo em um rabo de cavalo e usei pouca maquiagem, apenas um brilho labial e um delineador nos olhos. Satisfeita peguei emprestado um dos carros do hotel e fui até o Santuário do Olimpo.

O lugar estava lotado, era alta estação e final de semana, eu podia ver turistas de todas as partes do Brasil e até mesmo estrangeiros. Porém, desde que o parque inaugurou eu era uma assídua visitante, como amava o mar poder ver algo assim tão de perto sempre me encantou. Então eu conhecia a maior parte dos funcionários dali. Passei pelo porteiro que era um paulista simpático e segui por alguns corredores decorados com o tema do fundo do mar. Cheguei até a parte aberta e fui direto para a área de apresentação, estava atrasada, mas bastou um beicinho para Arthur, um dos funcionários mais antigos, que ele me levou até a primeira fila, bem perto do tanque onde estavam os golfinhos e a minha musa.

Sentei quase sem conseguir desviar os olhos dela e dos animais que ela comandava. Os golfinhos faziam saltos altos e giravam no ar em uma sincronia quase perfeita. Dianna usava uma roupa de borracha uniforme do Santuário. Foi uma pena que a apresentação dos golfinhos estava no fim... Mas logo a baleia orca que tinha o nome de Nina logo apareceu vinda de outro tanque. Dianna estava para saltar na água novamente quando ela deu uma olhada na plateia... E seus olhos verdes me encontraram. Por Deus, o reflexo da água os deixava tão claros que mesmo naquela distancia eu poderia dizer a tonalidade exata de sua íris esverdeada. Ela sorriu grande e acenou para mim fazendo-me sorrir de volta e acenar alto com a mão para que ela pudesse ver. Dianna saltou graciosamente para a água e começou o show. Nina era enorme e esperta, as duas pareciam se divertir tanto que por um momento tinha esquecido a minha pequena fobia recém descoberta por água. Eu quis estar lá, com Dianna brincando com a baleia. Eu simplesmente sabia que a orca estava se divertindo tanto quanto sua treinadora.

A baleia passeava, saltava e houve um momento que ela subiu no espaço fora do taque e fez pose, voltando alguns segundos depois. Dianna mergulhou junto com Nina, emergindo com os pés sobre o nariz da baleia que suspendeu o máximo o corpo, jogando sua treinadora para cima que deu um salto perfeito e lindo. A plateia ia ao delírio, aplaudiam, gritavam, apontavam animados e impressionados. Depois disso Dianna foi para o lado de fora da piscina e começou a dar alguns comandos para Nina, a baleia se exibia sem errar ou desobedecer a sua treinadora. Mas houve um momento quando ela se aproximou de mim que de repente bateu a sua cauda na água fazendo jorrar litros de água na direção da plateia. Depois de enxugar meus olhos eu via Dianna rindo de mim que por estar bem na frente havia me molhado toda. Assim como ela havia dito. Fiz que não com a cabeça sorrindo de forma sincera. O show se prolongou por mais 15 minutos e conseguiu me fazer esquecer por completo os meus pesadelos.

Como uma verdadeira veterana do lugar, esperei que a multidão saísse para poder seguir direto para o vestiário dos funcionários. Esperei do lado de fora e poucos minutos depois Dianna saiu usando um short e blusa com o slogan do parque. O cabelo estava ainda molhado e o rosto sem maquiagem nenhuma. Ao me ver ela sorriu como antes e me abraçou de forma espontânea, mas logo se afastando.

-Eu pensei que só chegaria pela noite! – ela falou ainda sorrindo – Combinei até com o Eric de ir te buscar novamente.

-Bem... Surpresa – falei fazendo graça, mas logo tratei de perguntar – Vai fazer algo agora? Queria ir aos aquários.

-Espera só um minuto? Eu tenho de falar com Richard, verificar alguns animais e ai vamos passear um pouco.

-Posso ir com você?

-Claro! Mas me conte como foi em Natal?

Aquela pergunta me fez pensar nas gêmeas e uma onda de culpa inexplicável me tomou. Forcei um sorriso e respondi um pouco apressada:

-Foi bom, deu para resolver tudo o que eu precisava. Vamos? Alias, vou precisar de uma toalha, vim correndo para dar tempo de ver um pouco de seu show.

Dianna fez que sim com a cabeça e riu ao ir buscar a toalha. Eu aproveitei cada minuto com ela. Apenas a presença daquela garota parecia ter um efeito sobre mim que me deixava em um paradoxo de emoções. Ela me fazia bem com seu riso gostoso e jeito delicado... Mas ao mesmo tempo eu sabia que aquela morena nunca seria minha, que eu nunca a beijaria ou poderia sorrir de uma forma boba e apaixonada como eu tanto almejava. Passei o resto da tarde com ela, sugando a boa energia que ela tinha de uma forma positiva. Brincamos um pouco com os animais e ficamos vendo todos os aquários até chegar o inicio da noite.

-Vamos caminhar na praia? – Dianna convidou assim que estávamos saindo do parque.

-Não tem algo para fazer? – perguntei hesitante – Meu bom senso diz que eu não devo atrapalhar os mais velhos.

-Ei, eu só tenho 25 anos, ok? – Dianna reclamou prontamente.

-Eu estou no auge dos meus 19, quase 20. Ainda continua sendo mais velha – a provoquei e logo estava segurando o braço dela com delicadeza – Vamos para praia, tia!

-Pirralha!

Rimos e seguimos para o carro que eu tinha trago. Paramos na primeira praia que tivemos acesso. Tiramos nossos calçados e começamos a caminhar lado a lado pelas areias. Nenhuma palavra era dita, mas não era necessário. Talvez a coisa mais forte que tínhamos em comum era saber apreciar os momentos, entender que a presença já bastava algumas vezes. Ficamos assim por uns dez minutos, até acharmos um tronco caído onde sentamos.

-Você sabe fazer silêncio – Dianna falou olhando o mar – As pessoas geralmente não sabem fazer silêncio, apreciar as coisas apenas sentindo elas.

-Eu amo falar... Mas sei quando as palavras não são necessárias – tentei explicar a observando de perfil.

-Eric não sabe fazer isso, brigamos às vezes por esse motivo. Quero ficar quieta, apenas curtindo a sensação e...

-E ele provavelmente pensa que você o está ignorando – completei por ela – Meu primo é agitado e ama barulho, não consegue ficar em um ambiente silencioso de forma alguma.

-Bem sei disso – ela sorriu sem jeito e finalmente me fitou – E você? Não tem namorada?

-Já namorei umas duas vezes na vida. Mas... Quando eu comecei a me aceitar eu quis me descobrir. Vamos dizer que eu já fui muito... Fácil e conquistadora – respondi sincera, dei de ombros – Gosto de ser feliz e sou fiel a isso. Mas quando tiver de ter um compromisso sério será com alguém que eu possa fazer feliz e que me faça bem, então serei leal a essa pessoa.

-Entendo... Amanda foi a sua primeira namorada?

-Ela foi a minha primeira em muita coisa. Tenho um respeito muito grande por aquela mulher, Amanda me ensinou muita coisa. Somos só amigas hoje em dia, quando ficamos é mais por brincadeira ou muita carência da parte dela. Mas é sem compromisso.

-Qual foi a maior loucura que você fez recentemente?

-Hum... Bem...

-Ficou vermelha! Foi algo sério? Conte-me, eu estou curiosa!

-Vamos dizer que eu dormir com duas garotas... Gêmeas. Ao mesmo tempo.

O olhar de surpresa sincera me fez rir. O que ela não precisava saber era que isso tinha sido há muito pouco tempo atrás. Continuamos a conversar, cada vez mais próximas, cada uma querendo saber mais sobre a outra. E então houve mais um momento de silêncio, Dianna tornou a olhar o mar e eu novamente a fitei de perfil. Não resisti ao impulso de por os fios enrolados de cabelo dela atrás da orelha quando começaram a esvoaçar na frente de seu rosto. Senti a pele quente e macia dela na ponta de meus dedos e não consegui parar o toque que desceu pela lateral do rosto dela até o pescoço. Ela virou o rosto para mim, mordia o lábio inferior como se hesitasse em seus pensamentos. Mas aquilo me fez apenas olhar para sua boca cheia e perfeitamente desenhada. Eu queria beijá-la. Engoli em seco controlando-me, lutando contra meus pensamentos de como seria bom envolver aquelas lábios com os meus, morder de forma suave e tocar a minha língua com a dela. O mundo ao nosso redor parecia ter parado, eu já não escutava mais o som das ondas quebrando na praia ou o vento tocava meu corpo. Existia apenas a presença bela de Dianna, apenas ela e sua boca tentadora.

-Fernanda... – Diana murmurou em um tom de culpa.

-Eu sei que é errado – respondi de volta, fechando os meus olhos – Se não fiz nada é porque estou em guerra comigo mesma, porque é errado.

-Então você quer? – o tom dela parecia surpreso.

-Com todas as minhas forças – admiti apertando mais os olhos, eu não conseguia contar minhas palavras, era difícil controlar a própria emoção – Dói só de pensar que não posso, que você é a namora...

Minhas palavras foram cortadas, meus olhos se abriram em choque e meu coração parecia querer causar-me um infarto. Mas sobre meus lábios estavam os delas. Dianna havia inclinado e colado nossas bocas em um selinho terno, mas ainda assim unindo nossas bocas. Deixei escapar um suspiro e me entreguei de uma forma que nunca havia feito antes. Fechei novamente meus olhos e a envolvi em um abraço começando a mover meus lábios sobre os dela. Fiz daquele toque algo carinhoso, gentil, tive paciência ao pedir passagem com a língua não para deixar o beijo intenso, mas para tornar mais íntimo e profundo, em um ritmo lento e sem pressa de experimentar cada momento daquele beijo que talvez fosse ser o único. Eu estava enlouquecendo com aquele sabor tão único e indescritível. Meu corpo, meu coração, meu ser parecia entrar em completa sincronia com as sensações que aquele único beijo estava me causando. Eu não queria deixa-lo ter fim, o prolonguei até sentir Dianna tão entregue quanto eu, apertando-me em um abraço e passando a explorar minha boca como eu fazia com a dela. Era como se tivéssemos descobrindo uma a outra de um jeito só nosso, como se o tempo houvesse sumido e o mundo fosse apenas meu e dela.

Mas então o celular dela tocou e ela saltou de meus braços assustada, ofegante e com um olhar triste e culpado. Eu estava... Em um estado sublime. Aquele beijo havia mexido comigo como nenhum outro, havia me envolvido de uma forma a me deixar ainda com o gosto dela na boca. Dianna olhou para ao visor, suspirou desanimada e atendeu a ligação.

-Oi Eric – o nome me fez sair do torpor e sentir um gelo subindo por minha espinha – Sim amor, eu estou bem. Jantar no hotel? Seria perfeito. Sim, estou com a Nanda, viemos um pouco na praia e... E... E...

Ela estava travando, literalmente. Levantei e peguei o celular da mão dela, respirei fundo e abri um sorriso falso que traduzia o humor animado que eu fingi:

-Hey primo! Estou com sua namorada, vou levar ela em total segurança!

-Estava preocupado, geralmente ela me liga ou me manda mensagem quando sai do trabalho – Eric falou em um tom aliviado – Ela está bem?

-Porque não estaria? – arqueei uma sobrancelha.

-Dih parecia distante, mais que o normal, eu tento dar espaço mas... Ela é uma mulher incrível e eu sempre a quero por perto, entende prima? Mas enfim, venham jantar.

-Já estamos indo, não deixe tio Saulo comer tudo!

Desliguei o celular e respirei fundo deixando-me sentir o peso da culpa em meu ser. Estiquei o celular para Dianna e ela pegou o aparelho sem nem ao menos olhar em meus olhos.

-Esqueça o que aconteceu.

Cada palavra que eu disse pareceu rasgar o meu ser. Eu não queria que ela esquecesse, eu não queria que ela fosse para os braços do meu primo. Mas ainda assim, essa era a coisa certa a se fazer.

-Foi um erro – Dianna admitiu, mas mordeu o lábio e me finalmente me fitou – Mas eu que beijei você, eu sou errada e...

-Esqueça, as duas teve culpa ok? – aproximei e já ia tocar o rosto dela, mas parei no ar por alguns segundos, abaixei minha mão e resmunguei irritada comigo mesma – Temos de ir, eu prometo que não farei mais nada.

Segui em direção ao carro agora em um silêncio completamente incomodo. Abri a porta do passageiro para que ela entrasse e olhei para o outro lado quando ela ficou de frente a porta.

-Você... Você gostou? – Dianna questionou tão tímida que a voz mal saia de sua garganta.

-Foi o melhor beijo de minha vida – respondi e suspirei – Vamos pra casa.

Dianna entrou no carro e disse mais nada. Aquele silêncio incomodo e culposo se mesclava a sensação deliciosa que tinha em minha boca, meu coração não sabia pelo que batia, se pela culpa de ter beijado a namorada de meu primo-irmão, ou se pelo fato de ter tido a melhor sensação de minha vida com alguém.

-Precisamos conversar, eu vou surtar, sei disso – Dianna falou quando faltava poucas quadras para o hotel – Depois de amanhã, no mirante da Baía dos Golfinhos, no final da tarde depois de minha apresentação. Por favor, Fernanda eu...

-Tudo bem – concordei sem olhá-la.

Ela suspirou e eu tive de morder o lábio para não fazer o mesmo. Eu não estava simplesmente encrencada, estava ficando seriamente apaixonada por alguém que eu não poderia ter.