Amor Submerso

23 Capítulo 23: Depois da batalha


Notas iniciais
Responderei os reviews assim que puder! Perdão pela demora de postar ><'

O melhor adjetivo para caracterizar esse momento seria: bizarro. Estávamos na cabine de Scarlet. Eu, Dianna, Lynn e Nathan. Minha mãe havia vestido uma blusona que sempre ficava caindo para o lado revelando um de seus ombros. Era a roupa que Scarlet havia dado para ela enquanto que Nathan continuava apenas de bermuda, exibindo aquele tanquinho definido e músculos bem treinados de seus braços. A pirata e a sereia estavam se matando por olhares, o silêncio reinava enquanto ninguém sabia o que dizer.

-Bem – Nathan pigarreou evidentemente incomodado – Nanda, o que aconteceu com você? Porque não entrou em contato? Aquela onda de energia envolveu você não é?

Eu e Dianna trocamos olhares, estávamos sentadas em um sofá, ambas cheias de ataduras pelo corpo já que minha mãe não tinha energia para curar a todos e já tinha enfraquecido um pouco depois da batalha. Respirei fundo e inclinei mais meu corpo em direção a eles.

-De certa forma imagino que sim. Eu andava tendo uns sonhos loucos, sempre os tive – comecei a contar.

-Como são esses sonhos? – Lynn voltou sua atenção para mim.

-Bem... O primeiro que tive foi sobre nosso encontro, eu me afogando no mar e você aparecia. Se bem que na época eu não fazia ideia de que era você – revelei e estremeci com as lembranças – Era terrível, geralmente eu ficava com medo de dormir ou voltar para o mar. Só fui me acalmar quando... Bem, quando eu encontrava a Dianna.

Fiquei sem jeito e podia apostar que havia corado. Scarlet sorriu em gozação, tive uma vontade genuína de lançar alguma coisa sobre ela apenas para apagar aquele sorriso irritante de seu rosto. Agora entendia porque minha mãe a odiava. Não ousei olhar para Dianna, apesar de saber que ela me fitava naquele momento.

-Depois eu sonhei com uma sereia que me mostrava um símbolo estranhamente conhecido. Um círculo e dentro dele um tridente e duas espadas – terminei de contar uma das partes.

-Como era essa sereia? – Nathan quase faltou pular do lugar.

-Morena, cabelos lisos, olhos castanhos – disse facilmente – Era enorme, pouco mudava o sonho, ela me mostrava o símbolo e eu acordava.

-Deuses! – Nathan exclamou estupefato.

-Você sonhou com Anfitrite, filha – Lynn explicou e sorriu de lado como se assim pudesse esconder o orgulho – E ao que parece você tem os sonhos intuitivos. Minha irmã, Katreen, também os tem. É uma das formas dos deuses revelarem suas vontades.

Franzi o cenho confusa, não bastava eu ser meio-sereia, ter poderes sobre a água e um rabo de peixe... E agora era uma espécie de vidente?!

-Conte sobre a caverna – Scarlet interviu pela primeira vez.

-Bom, alguns anos atrás, quando estudava no Rio, eu sempre vinha passar as férias com Luana em Angra dos Reis. Foi quando fomos para a Ilha Grande e em uma brincadeira vi o símbolo. Fui lembrar-me disso muito tempo depois, eu e Dianna partimos em uma busca até encontrar a caverna – continuei a explicar tentando manter a ordem dos acontecimentos.

-Entramos na caverna – Dianna prosseguiu, sua mão pousou delicadamente sobre minha coxa, apenas um toque gentil e natural – E encontramos um lugar... Diferente. Os peixes pareciam brilhar por dentro e nas paredes havia figuras que contavam uma história.

-Existiu algum reino similar ao do Povo Submerso? Que entrou em guerra? – perguntei finalmente lembrando-me dessas questões.

Lynn e Nathan trocaram olhares demorados. Tornei a me recostar no sofá, porém minhas costas doeram e me fizeram afastar novamente. Dianna acariciou mais minha coxa como se assim pudesse me dar um pouco mais de conforto. E de verdade me deu.

-É uma história antiga, uma lenda – Nathan foi o primeiro a se manifestar – De que houve um reino inimigo que quase destruiu a Cidade Submersa. Era composto por seres malignos do mar, assim também dizem que surgiram os primeiros seres das Sombras.

-A guerra teria sido perdida se Anfritite não tivesse abençoado a um guerreiro, dando assim uma magia de guerra peculiar a ele – Lynn o auxiliou e respirou fundo – O segredo do mago guerreiro é algo que muitos do meu povo ainda pesquisam e procuram, é um tesouro a muito escondido e quase esquecido.

-Esse tesouro seria a chave para virar o jogo contra o Povo das Sombras – Scarlet se manifestou, sentou sobre uma mesa e cruzou as pernas chamando a atenção de minha mãe – Estamos em muita desvantagem, se uma guerra em grande magnitude acontecer iremos perder depois de algumas poucas batalhas.

-Não é possível, vocês caçadores são fortes e...

-Muitos já morreram – Scarlet a interrompeu séria – Ficou escondida tempo demais para não saber disso. Nossos números decaíram, povos inteiros foram destruídos. 20 anos é muito tempo Lynn, tempo suficiente para que o Povo Celeste fosse dizimado em 2017.

-Eles estavam organizados demais nessa batalha, uma quantidade que denuncia um grupo de guerra previamente planejado – Nathan ponderou sério – O Povo Submerso é orgulhoso demais para envolver-se com os outros povos ou unir-se à Irmandade. Se forem atacados com tamanha força seriam derrotados pelo elemento surpresa já que não saem muito da cidade.

-O que aconteceu depois? – Lynn perguntou olhando para mim.

-Nada, não existia um tesouro realmente – falei e dei de ombros – Toquei o símbolo, algumas luzes de festa apareceram e só.

-E você se transformou em sereia – Dianna lembrou e sorriu sem disfarçar – Surtou gritando que tinha virado peixe.

-Não precisava contar essa parte – reclamei prontamente.

Scarlet e Dianna riram, cruzei os braços emburrada. Porém notei quando minha mãe olhou-me como se analisasse a um experimento.

-Apenas isso aconteceu? – ela inquiriu desconfiada.

-Bem, as luzes deixaram que as minhas tatuagens mudassem de cor, elas ficaram meio que lilases – contei buscando o olhar de Dianna, ela confirmou com um acenar de cabeça.

-“E o guerreiro possuía uma luz peculiar, diferente de todos os outros tritões e sereias. Suas veias circulavam a cor da pedra dos sonhos” – recitou Nathan com os olhos bem abertos – A pedra dos sonhos é roxa, algumas até mesmo lilás.

Houve um momento de silêncio. Foi quando eu caí na real do que ele queria insinuar. Saltei do sofá bruscamente, quase me embolando em meus próprios pés, mas completamente agitada.

-Nem vem! Isso é impossível, não tem como eu ter recebido uma coisa dessas! – exclamei perturbada com a simples ideia – Eu sou meio-humana ainda ok? Mal sei fazer certas magias!

-Mas foi capaz de criar água – Lynn mais parecia que pensava alto – Tudo começou de uma forma peculiar, foi difícil manter a gravidez sem me transformar em sereia, mas era como se uma força extra me ajudasse.

-Porém a garota é mesmo fraca para ser uma maga guerreira – passei a gostar mais de Scarlet depois dessa – Vi sua batalha, se eu lutasse seriamente com ela venceria.

-Porque a magia dela é baseada nas emoções – Nathan levantou de sua cadeira – Pensem, ela pode criar a barreira para proteger Dianna, o que vem a sugerir que a humana seja uma base para evolução de seus poderes. São vinculadas e unidas até a morte, o que deixa isso lógico. Embaixo da água, com Irina e a guarda-real, Fernanda mal conseguiu se defender onde deveria ser mais forte. Minha tia foi nocauteada por sua ignorância e elemento surpresa. Mas aqui encima, quando lutou ao lado de Dianna mal se machucou e nossos inimigos eram o Povo das Sombras.

-Isso é loucura! – quase gritei para eles – Eu ainda sou humana, não justifica, eu ainda sou um pouco normal, ok?!

Passei a mão sobre meu cabelo, iria surtar novamente. Então fiz a melhor coisa que pensei no momento: corri para fora dali. Meus passos desgovernados levaram-me até a proa do navio pirata, a parte traseira dele. Segui até o parapeito e me encostei, precisava do cheiro do mar, precisava escutar o som das ondas. Aquilo não poderia estar acontecendo comigo, eu não poderia ser o mago guerreiro que iria salvar o mundo. Eu não queria isso! Ainda queria voltar para Natal, terminar meu curso na UFRN, ser uma boa bióloga e quem sabe professora? Aquilo não poderia ser verdade, eu me recusava a acreditar nisso!

-Prefere ficar sozinha?

Escutei a voz de Dianna atrás de mim. Fechei os olhos com força, eu queria poder manda-la embora, gritar com ela e extravasar toda essa maluquice. Mas precisava dela, de alguma forma era doloroso sequer pensar em dizer para que ela se afastasse. Então virei-me com um olhar de sincera tormenta.

-Isso é loucura Dianna, diga que não acredita neles! – implorei para ela – Eu não quero isso, eu não pedi por isso!

-Sim, é loucura – Dianna concordou e ficou ao meu lado, também encostada ao parapeito – Eles disseram que eu te faço forte, é loucura, eu sou apenas uma humana.

-Mentira, você é incrível! – neguei prontamente, em minha mente ainda vinham imagens dela lutando bravamente e ainda sendo uma bela guerreira – Você foi tão boa quanto qualquer outro ontem.

-Então você também poderia ser incrível – Dianna fitou-me e respirou fundo – Ainda que seja loucura, ainda pode ser verdade. Como também pode não ser.

-Não pode ser verdade!

-Eu dizia a mesma coisa para mim mesma quando estava me descobrindo apaixonada por você e isso não mudou os fatos não é?

-Está do lado deles por acaso?

-Não meu amor – Dianna virou o corpo para mim, acariciou um pouco meu rosto e pousou a mão em meu pescoço – Qualquer decisão que tome eu também estarei ao seu lado te apoiando, só estou tentando pensar em conjunto a você.

Não resisti ao impulso de abraça-la. Deitei meu rosto em seu ombro enquanto apertava seu corpo contra o meu. Havia uma verdade que eu poderia admitir nessa história toda, que Dianna era o meu porto seguro.

-Eu estou com medo – finalmente admiti em um fio de voz – Eu não quero deixar meu mundo normal.

-E talvez não precise – Dianna aconchegou-me contra o seu corpo – Tudo é possibilidades, e se... talvez... quem sabe?

-Eu ainda quero ter meus momentos normais, de sair com você, levar para jantar, assistir algum filme até de madrugada. Sair com meus amigos para o barzinho, ficar bêbada e fazer coisas desastradas. Não quero perder isso, não quero lutar para sempre.

-E não vai precisar.

Dessa vez a voz era de Lynn. Ela estava ali, parada com um olhar preocupado nos olhando com certa culpa.

-Desculpe se assustamos você filha. Mas Dianna está certa, tudo são apenas possibilidades, só... Só preciso que pense que todas elas podem acontecer.

Ela tocou o braço e trocou o peso do pé, parecia incomodada por me ver daquele jeito. Dianna fez um gesto com a cabeça apontando em direção a minha mãe e sorriu de leve. Não precisei de mais para entender, a deixei com um sorriso de lado e corri para minha mãe, jogando-me em seus braços a pegando de surpresa.

-Talvez eu perdoe você – brinquei com ela e respirei fundo – Eu não tenho como negar essa parte de meu mundo, essas loucuras sobrenaturais. Mas também não vou perder o meu outro mundo.

-Também não quero isso, minha princesinha – Lynn murmurou com a voz embargada – Só que as coisas vão ficar complicadas agora. Eles já sabem o meu paradeiro, você com risco de ser a maga guerreira mais desastrada que já existiu.

Acabei rindo e aquilo fez minha mãe sorrir um pouco. Afastei-me e dei um beijo demorado em sua bochecha. Logo vi Scarlet aproximar-se e parar a alguns metros de distância.

-Tenho um acordo para propor – Scarlet falou sem rodeios – Lynn vai ser a procurada numero um do povo peixe. Posso proclamar Fernando de Noronha e parte da costa de Natal como meus domínios para abastecimento e refúgio. O Povo Submerso não teria autoridade de leva-la de lá.

-O que quer em troca? – Lynn perguntou obviamente desconfiada.

-Seus filhos e a morena – Scarlet sorriu soberba – Eles terão de entrar para a Irmandade dos Caçadores. Nathan, Fernanda e Dianna. Isso vai garantir que se Fernanda for mesmo uma sereia maga guerreira irá lutar pela nossa causa que nada mais é que proteger esse mundo.

-Nem em seus sonhos! – Lynn exclamou evidentemente enraivecida, posicionando-se para lutar.

-Irei oferecer também um treino para ambas as garotas, Nathan já sabe muito bem como usar a magia – Scarlet não se abalou nem um pouco com as caras e bocas que minha mãe fazia.

-E se for apenas um engano? Eu for apenas uma meio-humana? – questionei em tom vacilante.

-Seguirá sua vida, ganhará um curso intensivo de como sobreviver para poder lidar com os problemas que vão perseguir naturalmente você. Sua mãe terá um território mais livre – Scarlet explicou com calma – Como eu disse a Irmandade não é algo restrito. Porém se você for mesma uma maga guerreira, terá de fazer valer o dom que recebeu.

-O Nathan terá de responder por ele – falei tentando-me fazer de firme, lancei um olhar para Dianna e depois de alguns segundos ela balançou a cabeça em aceitação – Mas nós duas aceitamos a sua oferta.

-Fernanda! – minha mãe exclamou surpresa – Ela é uma pirata, não pode confiar nela!

-Não confio nela – explicou com certa calma – Confio no seu código de honra, de que ela quer apenas garantir um meio de vencer essas batalhas. Preciso de um treino sério se quiser ter uma vida normal também, não posso ficar contando com a sorte ou com Dianna, apesar de querer que ela esteja sempre ao meu lado.

-Eu também aceito – Nathan apareceu atrás de Scarlet, deu de ombros e respirou fundo – Eu não poderia voltar para a Cidade Submersa, eles me prenderiam e executariam. É apenas um novo propósito para minha vida, um nobre até.

Lynn ficou tensa. Scarlet aproximou e ofereceu a mão para minha mãe que a fitava com ódio evidente. A ruiva sorria divertida e debochada.

-Temos um acordo? – ela perguntou.

Minha mãe olhou para cada um de nós e suspirou em derrota, pegando na mão de Scarlet com mais força que necessário, fazendo a ruiva se curvar um pouco em dor. Estava feito, a partir daquele momento trilharia meu caminho a depender das possibilidades do destino. Mas estaria preparada para isso. Ver minha mãe tão tensa e o sorriso de escárnio da pirata me fez pensar em como elas não se mataram antes... Foi então que eu arregalei os olhos e dei dois passos a frente.

-E o que isso tem a ver com meu pai? – exigi saber, o meu coração ficando disparado por ter lembrado desse delicado detalhe – Você disse que meu pai estava envolvido com o tesouro.

-Impossível – Lynn recuou ficando levemente pálida e ainda mais irritadiça – Eu não contei essa lenda a ele, não teria como ele saber.

-Ao que parece ele sabia sim – Scarlet cruzou os braços finalmente ficando realmente séria – Pedro foi capturado, mas conseguiu entrar em contato comigo. Uma mensagem confusa que dizia algo sobre a caverna em Angra e de como isso era importante para o destino do mundo.

-Mentira! – Lynn quase gritou, mas sua voz levemente embargada denunciava o quanto estava abalada com aquele assunto – É impossível, eu senti... Eu senti quando nossa ligação foi cortada, quando eu o perdi! E só a uma forma do vínculo ser quebrado e é a morte.

-Eu não brincaria com isso, princesinha peixe – Scarlet defendeu-se ficando tensa – Não quando se trata do Pedro. Você não foi a única a amá-lo, não me acuse do que não sabe! Eu o procurei feito louca e quando a esperança se foi fiquei cinco anos rondando o litoral carioca em busca de respostas.

-Fiquem calmas! – aproximei me pondo entre elas, talvez das três eu fosse a mais estável e isso porque eu realmente não conhecia ou tive contato com meu pai – Isso também é um mistério ok? Não misturem as coisas senão vamos nos morder sem motivo nenhum. Se a Scarlet estava lá pronta para me capturar de alguma forma ela sabia muito bem onde encontrar a caverna – falei olhando para minha mãe – E você disse que era um mistério até mesmo para o seu povo, a fonte teria de ser muito confiável e provável que seja meu pai – então virei meu rosto para a pirata – Da mesma forma que não poderia ter sido ele, alguém manipulando as coisas? Se eu consigo virar sereia qualquer um que tenha magia e tenha assistido Harry Potter vai ter o mínimo de criatividade para ferrar com tudo.

Nessa parte minha mãe franziu o cenho confusa, mas Scarlet fitou-me enigmática. Provavelmente ninguém que não lesse mentes entenderia o que se passava com aquela ruiva naquele momento. Ela afastou-se a passos lentos, virou as costas e falou rapidamente.

-Só o tempo parece que vai responder essas questões – começou a andar em direção ao centro do convés – Seus perrapados, o que pensam que estão fazendo? Temos um navio para reparar e um curso! Cachorro, seu filho de um lêmure demoníaco, você está vigiando mesmo?!

E a pirata mandona e orgulhosa havia retornado e começava a dar ordens ao mesmo tempo em que esbravejava com aqueles homens e mulheres estranhas e diferentes. Respirei fundo e vi Nathan se aproximar de nossa mãe para ampará-la. Sem a Scarlet ali a princesa sereia finalmente se permitiu fragilizar. Os olhos absurdamente azuis dela ficaram marejados e o seu semblante desolado.

-É impossível – ela repetiu como se tentasse convencer a si mesmo.

-Vamos descobrir isso – Nathan falou firme e depois me fitou – Descobriremos isso juntos certo?

Comprimi meus lábios formando uma linha em minha boca. Olhei para cada um de forma demorada até suspirar e sorri fraco.

-Claro que juntos. Afinal, família é para isso não é?

Eles acenaram positivamente com a cabeça. Se as coisas tinha como ficar mais confusas ou complexas eu já começava a duvidar. Meu pai, piratas, seres estranhos e malignos. A perda de minha família humana, uma namorada linda... É, minha vida definitivamente nunca mais seria a mesma.

Notas finais
Espero que tenha esclarecido algumas dúvidas. Algumas respostas ainda estão generalizadas pois serão tratadas mais tarde =3