Amor Sobrevivente
2 Uma pessoa legal, só que não.
Notas iniciais
Estou deitada numa cama confortável em quarto não muito grande, porém organizando. Não lembro porque desmaiei, mas consigo recordar do ocorrido antes de perder a consciência. Minha coxa dói, não na mesma intensidade que doía no momento em que sofri o corte. Estou enfaixada no local.
— Thalia, correto? — o rapaz do helicóptero entra no quarto com uma bandeja, com comida de verdade — Até que enfim acordou! Acredito que esteja com fome.
Minha barriga ronca em resposta, preciso comer! Mas primeiro...será que devo confiar nele?
—Como vou saber se não está envenenado?
—Como vou saber se não vai tentar me matar? — responde, arqueando a sobrancelha.
Depois que fala isso, olho para a mesinha de cabeceira do quarto e vejo ali minha faca.
— Acho que se eu quisesse o seu mal, já teria te matado, não? -sorri e aponta para as bandagens em minha perna — E não teria feito isso.
—Ok...mas ainda assim, é um mero estranho. E não vai me prender aqui.
— Como quiser. De nada!
— O quê? — pergunto.
— Por te salvar.
— Ah...er...obrigada! — falo, sem jeito.
— As pessoas que ainda não são zumbis costumam ser educadas. Sabe, educação é a base para uma boa convivência e para sobreviver se cair nas mãos de gente errada...
—Você está, sem dúvidas, me avacalhando. É um desconhecido me dando lições de ética. -fico frustrada.
—Conversar com você deve ser um saco, é por isso que estava sozinha.
—Isso não é da sua conta! — pego o copo de suco e sinto o aroma, laranja — Olha, eu só vou comer e depois dar o fora.
— E quanto a sua perna?
— Sei me virar. — tomo um gole — Isso não vai me atrapalhar.
— Ah, claro. Por isso precisei salvá-la, não é mesmo?
Dessa vez não encontrei argumentos, ele venceu. Sei que logo vou estar boa novamente.
— Então vou ficar, mas só até isso sarar.
—Ok. Tem roupas limpas nessa cômoda ali do canto, e o banheiro fica na última porta a direita no corredor.
— Obrigada! — digo.
Ele simplesmente dá um sorriso torto, que de certa forma é charmoso, e sai.
***
Já fazem algumas horas que não o vejo. Depois que saiu do "meu" quarto, simplesmente sumiu. Pude explorar a casa em que estamos, é a casa dele, de antes da época dos mortos-vivos, concluo isso porque têm algumas fotos de sua família na sala de estar.
Percebi também que ele não está sozinho, observei que três pratos, além do meu, foram utilizados, assim como três copos. Mas onde estão essas outras pessoas?
Ouço um barulho na porta e me escondo. Será Rafael?
— Hoje fizemos um bom trabalho. -fala uma voz feminina — Trouxemos bastante coisa.
— É...cadê o preguiçoso do Rafa? Será que foi tirar onda de novo com aquele helicóptero? — diz um cara.
— Não sei... — a garota anda pela sala e depois segue para a cozinha — André...nós esperávamos alguma visita? — pergunta e mexe na louça.
Devo me apresentar? Rafael deveria ter avisado sobre essas pessoas.
Ok.
"Olá, sou Thalia, estou aqui em missão de paz." seria uma boa ideia?
—Oi... — saio do meu esconderijo e fico visível para os dois, o que eu não esperava era ser recebida com duas pistolas apontadas para o meu rosto.
—Quem é você? — pergunta a garota.
—Seu amigo me ajudou...
—Perguntei quem é, e não como veio parar aqui!
—Sabrina, se acalma... — o rapaz diz e volta o olhar para mim — Nome?
—Thalia. — respondo.
Por um momento, paira o silêncio no ar. Ninguém diz nada, até eu escutar o destravar de uma arma ao meu lado.
—É bom que você seja de confiança, minha pistola adora explodir algumas cabeças.
Chuta minha coxa, direto no ferimento, para me fazer sentar e se acomoda na poltrona em frente.
—Já matou quantos?
—Eu evito matar...só faço se necessário.
—Se eu fosse você, respondia a Sa, ela não costuma ser tão prestativa. — diz o garoto, se não me engano, se chama André.
—Chama isso de ser prestat... — não termino de falar e sou interrompida.
—Calada! Só quero as respostas para minhas perguntas e nada mais. Quantos já matou?
Suspiro, não gostei dessa garota.
—Uns trinta, quarenta talvez...
—E quantos humanos ainda não zumbis?
—Nenhum... — minto, já houve uma morte causada por mim, mas procuro evitar comentar, prefiro ser cínica e enganar com meu rosto de boa menina.
—Tem armas?
Balanço a cabeça em negativa. Tenho uma faca, mas disso ela também não precisa ficar sabendo.
Ouço um barulho na porta e Rafael entra. Percebe a reunião na sala, e que meu machucado voltou a sangrar debaixo do curativo.
—O que estão fazendo? — pergunta.
—Descobrindo se sua nova amiga é de confiança. — Sabrina responde.
—Machucando ela? E você não fez nada, André?
André simplesmente dá de ombros, guarda a arma e sai.
—Desculpa, Thalia. Meus amigos não pensam às vezes. Está tudo bem? — pergunta Rafael.
—Sim, um pouco dolorido.
—Vou te ajudar com isso...
Sabrina revira os olhos e sai nervosa. Parece que comecei uma bela amizade com o ódio em pessoa.
Fale com o autor