Amor Selvagem!
17 Capítulo 17 TETO DE VIDRO...
Notas iniciais
Máscara da Morte adentrou o escritório sem bater e, virando-se, fitou Kanon de forma que seus olhos azuis pareciam duas lâminas afiadas direcionando-se para o alvo.
— O Cabeça Cortada ainda não está aberto para receber frequentadores e eu preciso acertar os detalhes desta noite com Afrodite. Faça o favor de se retirar!
Kanon olhou surpreso para o moreno e depois para Afrodite.
— Não estou aqui como cliente, eu e Afrodite somos...
— Amigos, amantes, não me interessa! Surgiu uma emergência e eu preciso de Afrodite, agora. Sinto interromper, mas o senhor está atrapalhando o andamento dos negócios! – retrucou Máscara.
Afrodite franziu o cenho e fitou o sócio, intensamente. Os cabelos negros em desalinho, a camisa abotoada em duas casas desencontradas, a calça um tanto amassada e os pés... descalços! Mas que diabos ele está fazendo?
— Kanon, peço desculpas pela indelicadeza do meu sócio. – disse Afrodite sorrindo com frieza. – Mas em vista do estado físico em que o senhor Ângelo veio me procurar deve ser mesmo uma emergência. Chegue mais cedo, hoje à noite e podemos terminar a nossa conversa.
Passada a incredulidade por aquele momento, bruscamente, interrompido, Kanon levantou-se da poltrona e despediu-se, tomando a mão de Afrodite na sua e depositando um beijo.
— Obrigado por me receber e por me ouvir. – disse ele.
— Sabe que pode contar comigo. Estarei aqui sempre que precisar. – falou Afrodite com uma ternura que fez o estômago de Máscara se contrair ainda mais.
Quando a porta se fechou, Afrodite olhou bem dentro dos olhos de Máscara e mudou o tom de voz.
— O que você pensa estar fazendo e como ousa violar minha intimidade desse jeito?
— Sou seu amigo e seu sócio! – rugiu Máscara. – E agora não é hora de ficar jogando conversa fora!
— Conversa fora? Você perdeu todo o bom senso mesmo! Isto é, se um dia teve algum. – falou Afrodite.
— Escute... Eu... Eu preciso esclarecer tudo isso de uma vez, antes que eu enlouqueça.
Afrodite nada disse, apenas ficou olhando-o naquele estado e tentando adivinhar o que tinha acontecido.
— Onde você estava? – perguntou o loiro, por fim.
— Com June.
— Ah... E o que deu errado para que viesse me interromper e aborrecer? Andou negando fogo, por acaso? – falou com um sorriso debochado.
Máscara da Morte ergueu os ombros em um gesto cansado.
— Pode rir, porque foi isso mesmo que aconteceu!
Com aquela resposta direta e sincera, foi a vez de Afrodite arregalar os olhos e entreabrir os lábios avermelhados. A expressão de Máscara era de alguém atormentado e isso fez o coração do loiro descompassar. Podia ostentar uma aparência orgulhosa e por vezes, até fria, mas amava aquele homem e vê-lo sofrer não era algo que o agradasse. Mesmo que fosse por aquela mulher.
— Acho que está fazendo drama à toa. Sabe muito bem que um homem, por mais viril que seja, um dia falha na cama. Mas, e daí? Pode ser ansiedade, excesso de trabalho ou de álcool. Tome uma gemada com vinho do porto e relaxe que tudo isso vai pass...
— Porra, Afrodite! Estou pouco me lixando prá gemada com vinho do porto! Eu não fiquei assim por fraqueza e sim por sua causa! – gritou Máscara, interrompendo a fala do loiro e segurando-o por ambos os braços.
— Minha causa? E o quê eu tenho a ver com isso? – perguntou Afrodite sentindo a pressão das mãos do moreno.
O tormento que Afrodite vira naqueles olhos transformou-se em algo mais denso e quente.
— Tem tudo a ver... Eu não consigo tirá-lo da minha cabeça! Eu sinto vontade de matar aquele... Kanon só em imaginar que ele o toque! Eu quero você, mas ao mesmo tempo... Eu... Eu não entendo como esse sentimento despertou assim, como uma loucura da qual me tornei prisioneiro!
— Ângelo...
— Não diga nada! Por favor, olhe para mim e me escute.
Afrodite o encarou com evidente relutância.
— Ângelo... Máscara, tudo isso é, apenas, uma... Uma loucura passageira, um desejo tresloucado por algo diferente do habitual. Somente isso!
— Não ouse fingir que não se importa! Eu senti, Afrodite! Senti quando nos beijamos que não sou indiferente a você, que existe algo entre nós! Por Deus, eu sou um homem experiente e sei muito bem distinguir a luxúria do que sinto, agora.
Afrodite piscou aturdido.
— Ouça bem o que está dizendo! Até onde eu sei você só foi para a cama com mulheres. Como pode dizer-me que não é luxúria?
— Por que... Porque um corpo voluptuoso ou um ar provocante pode me dar prazer, mas, é fácil de esquecer e trocar por outro. É isso que eu sempre tive, fosse com June ou qualquer outra mulher. Se não fosse uma, era outra e ficava tudo na mesma. Não me interessava a cor, se era casada ou solteira, bonita ou feia, bastava se entregar a mim e estava tudo certo! Mas, agora eu sinto algo aqui dentro. – disse Máscara tocando no peito. – É um sentimento mais profundo de necessidade, algo que me faz desejar estar com você. Só você. Nenhuma outra pessoa serve!
A confissão de Máscara deixou Afrodite confuso, mas mesmo assim ele hesitava. Quanto tempo para aquele sentimento transformar-se em estranheza e retornar ao objeto de desejo original? E quando o desejo de continuar a sua descendência ou formar uma família tradicional acontecesse?
— E-Eu confesso que... não sei o que dizer. – disse o loiro.
— Então não diga nada... – falou Máscara puxando Afrodite de encontro a si.
O que aconteceu entre os dois, já havia acontecido e parecia mais um ato predestinado, do tipo em que nenhum dos dois podia controlar...
Máscara tomou a boca de Afrodite na sua, colocando a língua, sentindo o gosto e a umidade quente... E naquele frenesi, ambas as bocas se encaixaram com ânsia, as línguas se acariciaram íntimas, parecendo encontrar o caminho natural dos amantes por mais trágico ou estranho que pudesse parecer.
— Por Deus, Afrodite... Deixe-me ter você, em meus braços... Não fuja. – murmurou Máscara da Morte quando as bocas se afastaram.
— Tenho dificuldade de acreditar que isso seja possível... — respondeu Afrodite com o rosto quente e a respiração ofegante.
— Por quê? – insistiu Máscara.
— Eu sempre soube das minhas preferências e... Eu sempre soube dos meus sentimentos por você. Todo esse tempo eu me resignei em ter a sua amizade e, apesar do que todos esperavam, nós tivemos sucesso. Nos tornamos amigos verdadeiros e fizemos de uma simples taberna um negócio rentável e honesto. Tenho medo que tudo isso acabe. Eu não suportaria perdê-lo de todos os jeitos, entende?
Uma ponta de medo oprimiu o coração de Máscara da Morte. Sentia desejo, mas também muito mais que isso. Construíra um relacionamento com Afrodite que jamais tivera com outra pessoa. Havia amizade, respeito e, agora, um tesão inexplicável que o fazia questionar seu gosto pelas mulheres. June era bela, inteligente, prática. Com ela o sexo era intenso e descomplicado, mas fora isso, eles nada tinham em comum e nem ela mexia com o seu coração. Com as anteriores a ela, havia prazer, mas logo o tédio o fazia rondar novos corpos e camas em uma ciranda erótica e esvaziada de algo mais profundo. Entretanto, com Afrodite parecia ser diferente... Até mesmo o beijo era diferente. Despertava em si uma intimidade ardente, um sentimento desconhecido envolvendo cada toque, cada gosto e cada cheiro.
— Acima de tudo, sempre serei seu amigo, não importa o que aconteça. Mas, nesse momento, eu preciso saber... Eu preciso de você. – disse ele sem desviar os olhos do azul cristalino daquele olhar que só Afrodite possuía.
Afrodite sentiu uma súbita vertigem, como se estivesse à beira de um abismo. Aventurar-se pelo desconhecido, deixar o amor que sentia preencher espaços até então lacrados pela falsa indiferença...
Máscara deslizou um dedo pelo rosto belo fazendo com que Afrodite fechasse os olhos... Nada mais foi dito. Novamente, as bocas se buscaram, sendo desta vez, Afrodite a tocar o rosto viril e possuir-lhe os lábios com uma fome antiga e, igualmente, voraz...
Quando o beijo cessou, o loiro fitou Máscara da Morte com um misto de desejo e seriedade.
— Muito bem... Já que insiste, eu serei seu. Mas, será nos meus termos e quando eu achar que você me merece. – disse Afrodite afastando-se do corpo quente de Máscara da Morte, antes que cedesse a tentação de entregar-se ali mesmo.
Antes que Máscara pudesse rebater o que ouvia, uma batida fraca fez ambos voltarem a atenção para a porta.
— Entre! – falou Máscara de má vontade.
June surgiu e, até onde era capaz de perceber, sentiu que havia algo no ar. Máscara estava próximo de Afrodite e, embora não estivessem tendo nenhuma atitude suspeita, ainda assim pairava um clima de tensão e... desejo ao redor dos dois. Ela sorriu, numa compreensão muda e se despediu de forma elegante. No fundo, sempre soubera que Máscara da Morte jamais fora seu por inteiro e nem ela buscara nele algo mais que um bom amante. Ainda não havia se apaixonado ao ponto de entregar-se por inteiro, como descreviam os romances. Gostava de ser livre, de ser dona do seu nariz e de seu corpo. Às vezes sentia-se muito além daquela sociedade machista e hipócrita, sonhando com coisas que até mesmo seu falso amante tinha dificuldades para entender.
— Tenho muitas coisas para providenciar e agradeço por tudo, senhor... Ângelo e senhor Afrodite. Desejo-lhes sorte... esta noite. – disse ela, provocante.
— Vou mandar que a deixem em casa. – disse Máscara tentando manter a calma aparente.
— Não é necessário, obrigada. Vim com a carruagem que Saga disponibiliza para o meu uso pessoal. Até a noite.
Os dois a viram sair com a mesma elegância e graciosidade costumeira. Porém, antes que o assunto interrompido fosse retomado, as urgências do trabalho foram aterrissando junto com os empregados e tanto Afrodite, quanto Máscara tiveram de encerrar aquele idílio para retomá-lo em um momento mais propício.
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Camus passara a manhã analisando os argumentos que usaria na denúncia por maus tratos que faria, caso Standiford insistisse em desfazer o negócio com o cavalo. Enquanto isso, Milo cumpria a rotina matinal de escovar o animal e levá-lo para passear ali mesmo na propriedade que possuía alguns recantos onde isso podia ser feito.
Relendo alguns documentos que também pediam a sua atenção, Camus foi interrompido pelo barulho da aldrava da porta principal da mansão. Alguém batia com força, o que chamou a sua atenção. Quem poderia ser? Só faltava ser Standiford, novamente!
Para surpresa do duque, Jonas adentrou a biblioteca com o semblante preocupado.
— Sua Graça, está aí o senhor Spencer Havington, inspetor da Scotland Yard e ele deseja falar com o senhor.
Camus conhecia Havington do tempo em que ele e seu avô eram amigos e haviam estado juntos na guerra. Com o passar do tempo e a criação da Polícia Metropolitana, Havington havia sido promovido a inspetor e só era acionado em casos de extrema importância.
— Bom dia, Sua Graça. — disse o inspetor cumprimentando Camus.
— Bom dia, inspetor. – Por favor, vamos sentar. –falou Camus, ainda surpreso.
O inspetor andou um passo, revirando o chapéu entre as mãos, num gesto de nervosismo que não lhe era característico.
O duque notou que Havington o olhava um tanto constrangido.
— Antes de mais nada, quero dizer que estou aqui à trabalho e não pretendo tomar muito o seu tempo. No entanto, considero desagradável ter que fazer isso.
— Isso o quê? – perguntou Camus aparentando uma calma que não sentia.
— Seu pupilo foi denunciado por agredir o duque Standiford duas vezes. Uma em público e outra aqui, em sua casa. Eu vim buscar o rapaz para ser interrogado na delegacia.
Camus enrijeceu de tensão, mas mostrou-se sereno ao dizer aquelas palavras.
— O senhor Milo está sob a minha responsabilidade e eu respondo por ele. Se alguém tem de acompanhá-lo, inspetor, serei eu.
— Camus... Sua Graça, eu... conheço a sua família e fui amigo pessoal de seu avô. Acredite, só estou aqui porque Standiford apresentou-se hoje, pela manhã com alguns hematomas exigindo que eu prendesse o senhor Milo.
— Ele esteve aqui, hoje cedo e quando saiu não possuía nenhuma marca. Quanto ao desentendimento que teve em público, foi um ato isolado e existem testemunhas do estado alterado em que ele se encontrava e da crueldade dos seus atos contra um pobre animal. Standiford está mentindo, porque veio desfazer um negócio e eu recusei. Eu comprei o cavalo que ele açoitava sem piedade e paguei uma soma considerável para que ele não se sentisse prejudicado. Este homem não tem moral nenhuma para acusar-nos de agressão.
— E-Eu sei e é por isso mesmo que vim pessoalmente. Eu conheço Standiford e conheço o senhor. Não tenho dúvidas quanto a sua idoneidade moral, mas sabe que tenho que fazer cumprir a lei. Uma denúncia sempre deve ser averiguada.
— Eu entendo, inspetor e desculpe se pareci rude. Apenas, peço que reconsidere e permita que eu o acompanhe no lugar do senhor Milo.
— Creio que posso fazer isso, já que o senhor assume a responsabilidade.
Camus levantou-se da poltrona e foi ter com Jonas. O empregado ouviu, atentamente, as instruções e foi buscar o sobretudo e o chapéu do duque.
— Por favor, Jonas, conto com você para manter as coisas sob controle por aqui. – disse Camus e o empregado compreendeu o sentido real daquelas palavras. — Espero não me demorar.
— Sim, Sua Graça. — falou Jonas.
Alheio ao que estava acontecendo na mansão, Milo galopava o garanhão a que dera o nome de Survivor. Embora o animal não fosse tão jovem, ainda assim galopava com vontade e parecia reconhecer no cavaleiro a mesma energia e o gosto pelas amplitudes daquele espaço.
Uma chuva fina começava a cair, porém Milo não se importava. Havia nele uma estranha comunhão com os elementos, chuva, terra, vento e sol, tudo parecia insuflar, em sua alma, força e contentamento... Sabendo-se sozinho, ele abriu os braços e ergueu o rosto para a chuva, rindo como uma criança despreocupada.
— Sente isso, Survivor? Liberdade! É a melhor coisa do mundo! E eu e você podemos usufruir dela.
O garanhão relinchou como se respondesse afirmativamente e os dois se embrenharam por entre o arvoredo que dava para os fundos da mansão. Lá, podia-se ver a entrada principal e o caminho que dava para a rua. Foi então que Milo avistou a carruagem abrindo caminho com o selo indicando ser um veículo oficial.
Mas que diabos? Pensou Milo instigando o garanhão a cortar caminho a fim de alcançar a carruagem.
Dentro dela, Camus e o inspetor permaneciam em silêncio até ouvir o galope que se aproximava rápido. O cocheiro fez um sinal de parada e Havington espiou pela janela.
— O que está acontecendo? – perguntou o inspetor.
Milo puxou as rédeas do garanhão e encarou Havington.
— Quem é o senhor? – indagou Milo.
— Sou inspetor da Scotland Yard e vim ter com o duque. E o senhor?
— Me chamo Milo e estou hospedado aqui. Algum problema?
Camus inspirou fundo e apertou o canto interno dos olhos, fechando-os por alguns segundos. Depois os abriu e desceu da carruagem sob o olhar surpreso de Milo.
— Camus? Quer dizer, Sua Graça, o que está acontecendo aqui?
— Senhor Milo, eu estou acompanhando o inspetor para os esclarecimentos necessários sobre o que aconteceu com Standiford. Por favor, retorne à mansão e aguarde a minha volta.
Franzindo o cenho, Milo percebeu que não era algo tão simples e tornou a insistir.
— Eu vou com o senhor, afinal sou o principal envolvido neste caso e...
— Não, o senhor ficará aqui e aguardará o meu retorno. – interrompeu o duque.
— Mas... Eu... Não é justo que tenha de dar explicações em meu nome. Sei muito bem me defender!
— Senhor Milo, eu tratarei desse assunto. – disse Camus com aquele tom de voz que o jovem identificava ser autoritário e que não permitia retaliações. – Agora, se nos dá licença, eu e o inspetor temos muito que discutir.
Depois de fuzilar o duque com o olhar, Milo se virou para Havington com uma polidez ensaiada. Forçou-se a despedir-se dos dois, educadamente, quando na verdade queria insistir com Camus e esclarecer de vez aquela palhaçada.
O duque quase suspirou, mas manteve a postura fleumática, a expressão muito séria, a intensidade indefinível em seus olhos castanho-avermelhados...
— Vejo que o jovem tem um temperamento um tanto vigoroso. – comentou Havington olhando, atentamente, as reações de Camus.
— Milo foi criado em uma propriedade campestre, com muita liberdade e somente agora está tendo contato com a sociedade londrina. No entanto, é um jovem honrado e de excelente caráter. – disse o duque com serenidade.
— Não duvido disso, Sua Graça. Espero mesmo que tudo não passe de um mal-entendido.
Camus manteve-se firme, sabendo que era observado por Havington e mentalizando para que Jonas pudesse conter qualquer ato impulsivo de Milo. A atitude de Standiford não o encontrara desprevenido, no entanto, o simples fato dele ter acionado a polícia especializada o fazia pensar qual seria o próximo passo do inimigo. Sabia que Milo não havia gostado de sua atitude, mas não importava, precisava protegê-lo e mantê-lo distante de qualquer tipo de confusão ou Standiford teria todos os trunfos para prejudicá-lo.
Milo desmontou, deixando Survivor solto na grama que crescia nos fundos da mansão e foi em direção á cozinha, onde Verena já encaminhava os preparativos do almoço.
— Senhor Milo! Está com fome? Quer fazer um lanche, enquanto espera? – perguntou ela vendo-o entrar.
— Não, obrigado. A senhora viu onde está o Jonas? – perguntou Milo tentando forçar uma calma que não sentia.
— Está verificando a limpeza dos quartos e depois irá até o armazém. Aconteceu alguma coisa? – perguntou ela percebendo a inquietação de Milo, mesmo sob disfarce.
— Preciso saber de uma coisa. – respondeu Milo no exato momento em que Jonas adentrava a cozinha.
— Senhor Milo, por favor, eu poderia ter uma palavrinha com o senhor?
— Eu já ia mesmo procurá-lo, Jonas.
— Pois bem, se não se importa de me acompanhar, podemos conversar enquanto providencio algumas coisas.
Milo concordou e os dois caminharam juntos com Jonas falando baixo e atento às reações do jovem. Quando ele terminou, a expressão de Milo era tensa, quase furiosa.
— Aquele... Aquele imbecil do Standiford teve mesmo a coragem! – disse fechando os punhos com força.
— O duque cuidará disso e pede que o senhor aguarde aqui.
Num gesto de raiva, Milo socou a parede e cerrou os dentes. Camus iria ser interrogado em seu lugar e mesmo sabendo que ele possuía uma argumentação preparada, ainda assim sentia-se tratado como se fosse uma criança, um irresponsável que precisava ser defendido de um escroto como Standiford.
Embora tivesse aprendido muitas coisas com o duque e o amasse como nunca havia amado outra pessoa, aquele sentimento de inadequação o envenenava por dentro, não se acostumava à ideia de ser protegido ou deixado à margem de decisões que diziam respeito a si.
— Senhor Milo? – falou Jonas sentindo a tensão no corpo e olhar do jovem.
— Não se preocupe, Jonas. Farei o que me foi pedido. Não desejo trazer problemas para o duque. Na realidade, acho que já está na hora de tomar uma atitude quanto a isso. – respondeu Milo.
— Como assim, senhor?
— Vou deixar esta casa, ainda hoje. – disse Milo, deixando Jonas sem saber o que fazer.
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Uma hora vou ter de enfrentar isso! Repetia Kanon em pensamento, com uma angústia crescente ao aproximar-se de sua mansão. No entanto, para seu alívio, Aiolia vinha na sua direção e parecia bem animado.
— Kanon, meu caro! Está chegando ou saindo? – perguntou Aiolia.
— Chegando, mas... Saga está indisposto e acho que vou ficar mais um tempo fora. Que tal irmos beber um café?
— Ótima ideia. Vim dar-lhe a notícia que hoje irei até o Cabeça Cortada, estou com uma sensação que terei muita sorte, hoje à noite!
— Até que enfim! Vamos juntos, o que acha?
— Combinado. Mas, antes, vou ver se convenço Camus a nos acompanhar.
— Será um feito se conseguir, mas... não custa ter esperanças. Talvez devêssemos convidar o Milo e fazê-lo seduzir Camus, para então levá-lo conosco. – disse Kanon rindo.
— Creio que tem razão, meu caro amigo. O único com tamanho poder de fogo capaz de degelar o ruivo é o jovem Milo! – completou Aiolia.
Rindo e elaborando conspirações, os dois rumaram em direção à cafeteria, enquanto no alto da mansão, alguém os observava da janela...
Olhe bem... Veja como eles estão felizes! Garanto que estão combinando o que farão hoje à noite. Deve ser algo bem divertido...
Aquela voz teimava em martelar na sua cabeça mesmo com os remédios prescritos pelo médico.
É apenas uma crise nervosa! Dissera o Dr. Simon, mas assim que ele saíra e a porta se fechara, a voz voltara e agora parecia falar-lhe o tempo todo, como se ele houvesse se desdobrado em dois Sagas. Um, inteligente, sensível, educado e contido. O outro, sarcástico, perverso e totalmente liberto do senso moral.
— Deixe-me em paz! – disse Saga tocando na vidraça.
Sinceramente, Saga... Não entendo o porquê de tanta resistência. Nós dois sabemos que o único jeito de ser livre é deixar-me tomar conta de você.
— Você não existe! É apenas uma fantasia da minha cabeça! Desapareça! – gritou Saga.
Por alguns segundos, a mente de Saga serenou. Ele sentiu o corpo mais pesado sob o efeito dos remédios que o médico lhe prescrevera. Não compreendia o que estava acontecendo, porque sempre havia conseguido proteger-se da verdade cruel que era a culpa por amar o irmão.
Em sua intelectualidade e vivência de um disfarce de Bon vivant acreditara ter vencido as consequências do terrível segredo que guardava para si. Antes de morrer, sua mãe descobrira que ele e Kanon eram amantes, ainda na adolescência. Por algum tempo, ela fingira não saber ou perceber, porém, no leito de morte, enquanto delirava, ela o tinha acusado. Ele ainda podia sentir a mão descarnada apertando a sua, os olhos arregalados fitando os seus como se ele fosse um monstro!
Entretanto, ao vivenciar a insegurança, o medo da perda e a experiência com o Absinto, sua mente não conseguiu mais preservar o refúgio que havia construído para manter-se íntegra. Uma outra personalidade formara-se das neuroses e negações... E, agora, era essa fera que tentava sobrepor-se a si.
Tudo bem, Saga, eu entendo... Mas, vamos entrar em um acordo. Vamos dividir o prazer, heim? O que você acha?Deixe-me ensiná-lo a relaxar, a aproveitar mais a vida. Você não quer viver sem culpa? Não que ser livre? Heim?
Saga hesitou com aquelas palavras. Sim, desejava ser mais solto, menos certinho. Queria ser um homem mais interessante. Talvez se permitisse... Era sua chance de, finalmente, jogar tudo para o alto e viver sem culpa nenhuma.
— Se eu aceitar... Eu quero ter alguma consciência, não quero deixar de ser eu mesmo.
Por mim, tudo bem, mas vamos combinar dessa forma, eu posso tomar o nome de um daqueles personagens que você adora ler. Que tal... Ares? É um bonito nome, não? Se não me engano, ele é o deus grego da guerra, um personagem forte e sanguinário. Creio que combina com essa nossa aliança! Eu mato e você enterra! Há!Há!Há! Brincadeirinha... Assim, nós dois podemos nos divertir bastante de acordo com as situações, não concorda?
— Faça parar essa dor! Não consigo pensar direito! – disse Saga levando as mãos à cabeça.
Respire fundo... Assim... Só me deixe assumir o comando um pouco e eu faço parar a dor.
Um tanto trêmulo, Saga obedeceu e um grande alívio foi tomando conta do seu corpo. Ele sentiu uma euforia e um bem-estar legítimos que, aos poucos, foi deixando-o seguro de si. Rapidamente, ele vestiu-se e deixou o quarto, cantarolando como se estivesse ouvindo a mais alegre música. Quando descia as escadas, ouviu a voz do empregado junto de uma voz feminina e sorriu malicioso.
June olhou na direção de Saga vendo-o bem disposto e sorriu. Pelo menos poderia usufruir da companhia de um homem belo e inteligente que a fazia sentir bem, apesar de nunca terem tido intimidade física. Uma boa conversa fará com que eu esqueça do episódio desta manhã!
O empregado estranhou um pouco, porém sentiu-se mais aliviado de ver seu patrão bem disposto. Cumprimentou-o, perguntou se precisava de algo e então se retirou, deixando os dois às sós.
— Que ótimo vê-lo bem! Já estava ficando preocupada. – disse ela.
Saga olhou-a de um jeito diferente que a fez franzir o cenho.
— Você está bem mesmo? – perguntou June percebendo uma ostensiva mudança na expressão do amante.
Ele sorriu e continuou descendo até chegar bem perto dela, tomando-a nos braços e olhando-a como se a fosse devorar.
June empalideceu e moveu os lábios, como se quisesse dizer alguma coisa, mas não emitiu nenhum som e nem teve tempo de fazê-lo. Saga apertou-a contra o corpo e tomou-lhe os lábios em um beijo profundo que a fez estremecer e arregalar os olhos...
— Saga... – murmurou ela, quando ele apartou o beijo.
O duque sorriu e deslizou o polegar pelos lábios entreabertos dela...
— Sempre quis saber que gosto tinha essa sua boca... Mas não pretendo ficar, somente nisso. Venha, vamos nos divertir um pouco...— disse ele tomando-a pela mão e levando-a na direção de seus aposentos.
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