Amor Selvagem!

10 Capítulo 10 TEU PASSADO TE... LIBERTA!


Notas iniciais
Olá, galera amada!!! Mais um capítulo, espero que gostem! Tenham um excelente fim de semana.

Acordo antes do alvorecer e sinto o corpo quente de Milo junto ao meu. Estamos envolvidos em um abraço forte e custo a crer que esse simples ato, me faz constatar que, em tempos passados, isso seria inimaginável para mim.

Fui criado em uma família de militares e uma total ausência da presença feminina. Não tínhamos o costume de abraços afetuosos, apenas francos apertos de mão e um discreto tapinha nas costas. Meu pai ensinou-me o necessário para que, desde cedo, eu soubesse cuidar de mim mesmo e meu avô, apesar da serenidade e benevolência, também priorizou incentivar-me a ler e obter o maior conhecimento possível. E foi dele que lembro o pouco de afeto que recebi, colocar-me em seu colo para contar-me histórias e logo fazer-me proprietário de um privado mundo interior onde pouco externava meus sentimentos.

O início de minhas relações pessoais foi permeado pelo mesmo referencial. Conheci Aioros e iniciamos um relacionamento com base na autodescoberta de nós mesmos. O sexo nunca foi um tabu para mim, nem para ele. Tínhamos prazer, descobrimos o que nossos corpos apreciavam, mas sempre faltou algo e sei, agora, que nunca vivenciamos esse sentimento que não obedece à razão e que me faz experimentar o desejo em sua instância mais profunda.

Olho o rosto adormecido de Milo, o ressonar baixo... Ele faz caretas com o nariz e murmura coisas ininteligíveis. Sorri, mesmo dormindo, e parece continuar a agir da forma impulsiva que o caracteriza, até no mundo onírico. Eu fico a observá-lo com um sentimento terno, intenso e totalmente inédito. Toco o seu cabelo revolto que mais parece um sol desfeito em fios dourados e ele se aconchega ainda mais ao meu corpo, me fazendo ter a consciência plena da minha nudez, outra novidade que me surpreende...

Sinto as nádegas roliças dele tocando meu falo e tenho uma ereção imediata, totalmente incontrolável. Ele parece perceber e leva a mão até minha coxa, aproximando ainda mais o corpo do meu. Eu fecho os olhos sem sentir e deixo escapar um ofego baixo de puro deleite...

Sem virar o corpo, Milo leva a mão para trás e toca a minha pele, entrelaçando seus dedos aos meus num gesto que parece aprofundar a lâmina afiada da paixão em meu coração e em meu corpo. Meio dormindo, meio acordado, ele não suspeita o quanto seus atos mexem, não só com minha libido, mas despertam um homem novo, um homem que nunca acreditou existir algo assim...

Camus...

Ouço a voz enrouquecida chamar meu nome, enquanto puxa minha mão em um convite de mais contato... Meu hálito roça o seu pescoço e ele joga a cabeça para trás... Encosto os lábios no calor da sua nuca e o sinto estremecer... Posso sentir que está sorrindo, mas seus olhos ainda estão fechados e ele se esfrega em meu corpo acolhendo entre as nádegas meu falo que pulsa túrgido e dolorido.

Vem...

Não sei o que ele tem para deixar-me assim, minha razão se consome em fogo, meus instintos afloram de tal forma que anseio tocar cada centímetro daquela pele, de sentir o gosto e o cheiro de um modo intensamente primitivo e, ao mesmo tempo, com um erotismo refinado que me desafia a proporcionar-lhe prazer, como nunca ousei com outro.

Continuo silencioso, porque nenhuma palavra é capaz de representar o que eu sinto. Posso discursar sobre qualquer coisa, argumentar de forma incansável, porém nada havia me preparado para... ele. Basta o olhar dele, a fala sedutora ou o riso fácil, tudo me desarma e incendeia com a rapidez de um suspiro... Busco aqueles lábios carnudos com ânsia e sede. Bebo da saliva e sinto-o abrir-se para mim, igualmente, faminto.

Encaixo-me nele com um sentimento de posse, nossas respirações se aceleram, eu agarro seus quadris com força e, mais uma vez, penetro a cavidade estreita, quente e ainda úmida do sexo que fizemos antes... Ouço-o gemer, enquanto força o corpo para trás e me faz ir mais fundo dentro dele.

Perco o controle e movo meu corpo com desatino, meu sangue turbilhona ao sentir a carne quente em meus dedos... Um prazer insano em estar, completamente, dentro dele numa intimidade única que me descortina sensações tão cruas, quanto transcendentes. Aperto-o em meus braços e os gemidos dele incentivam as minhas mãos a passear pelos contornos tentadores do seu corpo, enquanto mergulho mais e mais na cavidade apertada.

Deus, Milo!

As palavras escapam dos meus lábios quando ele geme, grita e estremece num orgasmo tão forte e me engole com seu corpo fazendo-me ir às alturas em segundos. Um redemoinho parece absorver meu corpo e tudo explode deixando-me tão trêmulo quanto ele.

Ouço-me grunhir alto, algo que nunca foi do meu feitio e desabo sobre o corpo suado e ardente. Milo está ofegante e sorrindo, posso saber, mesmo estando com meus olhos fechados. Meu coração continua disparado e o dele também. Quando ele vira o rosto e seus olhos semicerrados encontram os meus, nossas bocas se encontram e nos beijamos lenta e profundamente. Neste instante, a intimidade se consagra entre nós dois e eu sei que não há mais volta... Não posso negar esse sentimento que me toma de assalto e que mudará tudo em minha vida, daqui para frente.

Jonas passou pela cozinha e viu Verena retirando os pães quentes do forno, enquanto o aroma encorpado do café recém-passado inundava o ambiente. A imensa gata amarela estava sentada na janela observando o primeiro voo matinal dos pássaros, enquanto seus filhotes brincavam uns com os outros. O mordomo aproximou-se da cozinheira e inspirou fundo como se tentasse obter coragem para falar. Trazia um livro com capa de couro marrom enfeitado com delicados detalhes feito em ouro e uma fita preta amarrando-o de forma que permanecesse fechado em tempo integral.

— O que foi? – perguntou Verena colocando a leiteira sobre o fogão.

— Acho que chegou aquele momento. – respondeu lacônico.

Verena passou as mãos nos lados do corpo e foi pegar uma bandeja.

— Tem certeza? – ela tornou a perguntar, arrumando as xícaras e talheres, calmamente.

— O jovem Milo não dormiu em seus aposentos e...

— O duque está com ele. É isso, não é?

— Sim. Creio até, ter colaborado para que terminasse assim.

Um sorriso largo fez-se nos lábios de Verena. Ela intuíra, desde o início, que aqueles dois tinham uma espécie de ligação misteriosa e mágica que mudaria a vida do jovem duque. Com uma expressão de “eu sabia!” ela tratou de escolher os pães e as frutas com muito cuidado e, enquanto preparava tudo, a gata continuava sua observação atenta das aves que, acostumadas a ganhar migalhas de pão, não ousavam aproximar-se da janela, pelo menos não sob o olhar predador que as fitava.

— Você parece muito feliz com isso. – disse Jonas com o cenho franzido.

— E não é para ficar? Anos de segredos e mentiras somente por causa de preconceitos tolos. O duque merece ser feliz e saber de toda a verdade. Agora ele entenderá tudo e fará diferente.


— A sociedade não perdoa, Verena. Não tenha tantas esperanças assim.

— E quem está falando em sociedade? O principal da vida, meu caro, é a pessoa estar inteira e bem consigo mesma. Desde que o jovem Milo veio para esta casa, o duque mudou, sorri com mais frequência e se parece mais com um jovem da sua idade mesmo que ainda trabalhe bastante e conserve a postura reservada de sua família. Permitir-se amar e viver o amor é um desafio do qual eu tenho certeza que ele não irá recuar.

— Bem, eu só vou cumprir minha promessa, o resto é com ele. – falou Jonas servindo-se do café fumegante e aromático.

Verena aproximou-se de Jonas, piscou e sorriu de um jeito malicioso.

— Tem gente que deveria seguir o exemplo do duque e... ousar, enquanto ainda há tempo! – disse ela dando um encontrão no mordomo com os seus quadris largos e generosos.

Jonas engasgou, mas manteve a postura empertigada que o caracterizava. Era um homem maduro, de gostos simples e rotinas que gostava de manter. À semelhança do duque, apreciava seus momentos de solidão onde se dedicava ao hobby de colecionar moedas. Já havia conseguido algumas até raras. Nunca se casara e era introspectivo. Às vezes, pensava em como teria sido se tivesse constituído sua própria família, embora estivesse satisfeito com sua independência.

Ele olhou Verena dirigindo-se até a sala de jantar e notou que ela balançava os quadris, enquanto andava. Ela também era uma mulher madura, porém exalava energia e sensualidade pelos poros. Também ela iniciara cedo a trabalhar e a única coisa que sabia era que ela enviuvara cedo e fora aceita na família do duque na mesma época em que ele também tinha sido. Nunca tinha percebido que ela o via com outros olhos... Ou seria, apenas, uma brincadeira de mau gosto que ela lançara sobre si? Com outro suspiro, Jonas tratou de afastar as indagações e foi ter com o duque para enfim, completar a sua missão.

Camus já havia se banhado e agora deixava o quarto, enquanto Milo ainda dormia. Escreveu um pequeno bilhete, depositando-o no criado mudo para que fosse visto, assim que Milo abrisse os olhos. Era natural que após tudo o que tinha passado, somado a noite intensa de sexo, o jovem estivesse em um sono profundo e Camus não tencionava acordá-lo tão cedo. Tocou, mais uma vez nos cabelos desalinhados e observou o rosto sereno que ainda tinha pequenas marcas da agressão sofrida, mas também dos beijos apaixonados que haviam trocado à exaustão.

Descanse... Sussurrou enquanto retirava os dedos dos fios dourados e olhava com ternura o rosto adormecido. Em seguida, verificou as cobertas sobre Milo e deixou o aposento.

Jonas estava esperando as instruções do dia, como sempre fazia no início de todas as manhãs. Camus adiantou-se da forma elegante e séria de sempre, porém notando uma leve mudança na expressão do mordomo.

— Bom dia, Jonas.

— Bom dia, Sua Graça.

Acostumado ao tratamento cerimonioso, Camus percebeu que, naquele momento, o distanciamento já não o agradava como antes. Afinal, haveria mudanças e, tanto Jonas quanto os outros o conheciam desde menino. Com uma inspiração profunda, ele olhou dentro dos olhos do mordomo.

— Jonas, você me conhece desde pequeno e sabe que o tenho como alguém da família e não, apenas, como um empregado da casa. Fui acostumado a manter distanciamento, mas creio haver limite, até para isso. O senhor Milo está em meus aposentos e não preciso dizer o que isso significa. Desejo saber se isso o constrange ou se muda algo em nosso relacionamento? – perguntou Camus.

— Senhor duque, sei da estima que tem por mim e por todos desta casa. Quando vim trabalhar com seu avô, encontrei não só um trabalho, mas também um lar. Ele sempre me tratou com respeito e consideração. O senhor fez o mesmo, portanto, suas decisões pessoais jamais serão motivo de desconforto para mim. Agora, preciso contar-lhe algo, tive a honra de ter sido escolhido como confidente e amigo de seu avô em um tempo difícil, onde muitos lhe viraram as costas. O duque, antes de falecer, pediu-me um favor especial e hoje, eu posso finalmente, atendê-lo. – disse Jonas apertando o livro nas mãos.

— Favor? – perguntou Camus franzindo o cenho.

— Tome. – disse Jonas estendendo o livro para o duque. – Esse é o diário de seu avô e me comprometi guardá-lo como se fosse um valioso tesouro. Ninguém teve acesso a ele e eu cuidei para que somente o senhor o tivesse, como seu avô queria. Ele pediu que eu o entregasse ao senhor quando o momento certo chegasse e eu creio que ele chegou.

Camus tomou o livro nas mãos constatando ser um diário. Lembrou-se das vezes em que vira seu avô escrevendo, porém nunca imaginou que fossem relatos da sua vida pessoal preenchendo aquelas páginas.

— Vou preparar o banho do senhor Milo, enquanto isso. Deixo-o com as últimas palavras de um homem nobre, generoso e muito sábio. Espero que ele o ajude nesse momento da sua vida, Sua Graça.— falou Jonas deixando a sala.

Um filete de sol projetava-se, através da janela aberta e Camus sentou-se na poltrona próxima a ela, onde a luz incidia como um convite caloroso. Abriu o diário, encontrando bilhetes escritos com uma letra desenhada, porém infantil e reconheceu a si mesmo nos pedacinhos de papéis que ele e o avô trocavam nas brincadeiras literárias que faziam. Sorriu lembrando-se do dia em que o desafio era pesquisar a origem de seus nomes. Meu nome vem de um rei de Atenas, Dégel, que quer dizer grego. E o seu vem de um príncipe fenício, filho do rei Agenor que se chamava Cadmo e, posteriormente, o nome foi sofrendo variações até chegar à Camus. Vê? Somos herdeiros de um rei e de um príncipe!

As lembranças foram se somando aos relatos que lia, até o momento em que uma mensagem específica lhe saltou aos olhos...

O que deixo registrado agora é só para você, meu neto. Jonas foi instruído a deixar que lesse isso, somente se, em algum momento da sua vida, você se deparasse com uma encruzilhada semelhante à minha. Sim, eu também tive dúvidas e preferências muito distantes do que a sociedade aceita como natural. Minha covardia teve um alto preço, mas espero que ela sirva de lição para você.

Quando me casei, o fiz para agradar meus pais. No fundo, eu sabia que não era a vida que eu queria, mas fui educado de forma a fazer o que era esperado de um homem. Sua avó era frágil e de saúde delicada. Quando seu pai completou cinco anos, ela morreu e vi-me só e com um filho para criar. Minha experiência como militar oportunizou que eu assumisse a responsabilidade como um general cuida de seus comandados. Nesse cenário, eu fui vivendo como aqueles pássaros que, mesmo libertos, continuam dentro de seus cativeiros até conhecer aquele que me mostraria um patamar desconhecido de sentimentos e emoções.

Não preciso dizer que custei a aceitar isso e, quando o fiz, era tarde demais. O homem que me mostrou o que era amar morreu sem ouvir de meus lábios que eu o amava profundamente. O fato despertou-me de forma terrível e passei a agir como um tresloucado. Tomei a jovem Shina como uma falsa amante e, através dela, tentei aplacar a dor em meu coração. Fingi ser um devasso e me permiti infringir regras ao ajudar aqueles que a sociedade renega ao ostracismo.

Sei que, com isso, esbanjei alguns recursos da família, mas sabia que você seria capaz de resgatá-los e que isso moldaria o seu caráter. Nunca o imaginei vivendo como um nobre inútil e tenho certeza que se tornou um homem de valor. Sempre achei que conselhos só são úteis, quando quem os dá reconhece em si, as próprias falhas.

Pois bem, falhei em refugiar-me nas convenções e no medo. Sim, no medo. Como eu disse antes, um pássaro engaiolado, quando liberto, tem duas opções: voar livre ou permanecer cativo. Na maioria das vezes, entre o conforto ilusório do cativeiro e os mistérios do desconhecido, preferimos a segurança e nos encarceramos na infelicidade.

Não faça isso, Camus. Ouse amar, ouse ser feliz. Sei que nesta sociedade hipócrita e preconceituosa, dificilmente poderá externar sua vontade, mas se criar para si um ninho, ali poderá vivenciar a vida em sua plenitude, porque nada mais importa a não ser o amor. Aprendi isso, tardiamente, e rezo para que exista uma vida além desta que se esvai de mim.

O nome daquele que amei tornou-se a minha oração diária. Kardia era o nome dele e eu espero que ele tenha me perdoado e que me receba em seus braços com a coragem que sempre teve e com o amor que me ensinou...

Camus percebeu que havia uma lágrima solitária e quente escorrendo por seu rosto. Nada o havia preparado para aquela revelação. Lembrou-se de Shina e da força de caráter que ela apresentara. Ela sabia e, mesmo assim, permaneceu fiel mesmo quando foi taxada de interesseira e até, meretriz. Uma jovem íntegra que se manteve leal ao meu avô, mesmo depois de sua morte.

Enxugando o rosto com as costas da mão, o duque levantou-se e foi até a cozinha. Verena elevou os olhos percebendo que ele estava emocionado, mas que mantinha a postura ereta e característica da família.

— Posso ajudá-lo, senhor duque? – perguntou ela em um tom suave.

— Por favor, peça que levem o desjejum até o solarium.

— Sim, senhor. Mais alguma coisa?

— Aqueles pães açucarados que Milo gosta... Você os fez hoje?

— Sim, senhor duque. – respondeu ela sorrindo.

— Verena...

— Sim?

— Não me chame mais de senhor ou Sua Graça. Pode chamar-me, apenas pelo meu nome.

A cozinheira franziu o cenho, depois abriu um sorriso mostrando os dentes grandes e brancos.

— Tanto eu quanto Jonas, sabemos do carinho e consideração que tem por nós, meu jovem. Chamá-lo pelo título é a forma de mostrarmos orgulho, porque aquele menino sério, inteligente e avesso a abraços, transformou-se em um homem de valor. – disse ela.

Camus olhou-a com carinho e riu ao lembrar-se que não se sentia à vontade com manifestações de afeto. Então, aproximou-se da cozinheira e abraçou-a forte.

0000****0000****0000

Passava das sete quando Milo acordou um tanto confuso e dolorido. Estava no quarto de Camus e, por alguns instantes, sua mente ficou em branco. Então, os portões da memória se abriram e os detalhes da noite passada voltaram com toda a força.

Com o coração acelerado, virou a cabeça e descobriu-se sozinho na imensa cama. Entretanto, o travesseiro e os lençóis revoltos, ao seu lado, deixavam claro que Camus estivera ali e os dois haviam feito amor até a exaustão. Não pode deixar de sorrir ao lembrar a sensação de ter Camus em seu corpo, da forma intensa e apaixonada com que ele gemera e gozara todas as vezes, assim como ele próprio desejara mais e mais até desfalecer exausto por sentir tamanho prazer...

Mesmo sendo experiente, nada vivido anteriormente se comparava ao que tivera com Camus. Não era apenas um sexo ardente e prazeroso, era uma emoção nova e, no entanto, tão profunda e íntima que anulava tudo o que vivenciara antes.

Notou o bilhete sobre o criado mudo e tomou-o nas mãos, abrindo-o e encontrando a letra elegante de Camus.

“Pedirei a Jonas para que deixe seu banho preparado. Espero-o para tomarmos o desjejum juntos.”

Camus.

Milo suspirou e levou a mão aos cabelos. Pulando da cama, procurou o camisolão que se encontrava dobrado sobre a poltrona. Ao chegar ao toalete encontrou a banheira cheia e a água fumegante. Uma toalha grande e limpa encontrava-se sobre uma banqueta, assim como sabonete, uma espuma para barba, uma navalha, um espelho e roupas.

Entrou na banheira fechando os olhos ao sentir o prazer relaxante da água quente e resistiu ao desejo de ficar ali durante mais tempo. Vestindo-se o mais rápido possível, deixou o toalete e foi até a cozinha onde encontrou Verena cantarolando, enquanto bebericava uma xícara de café.

— Bom dia, senhora Verena!

— Ah, bom dia, senhor Milo!

Esticada na frente do fogão à lenha, a gata mantinha suas patas amarelas dobradas, levemente para dentro, e estava piscando preguiçosamente quando Milo entrou. Erguendo a cabeça para identificar quem chegara, ela se levantou rápido quando viu que era Milo, ronronando contente quando ele se abaixou para acariciá-la.

— Bom dia, senhora gata.

Logo que Milo aproximou-se da cozinheira para beijá-la no rosto, a gata roçou-se em suas pernas e miou de forma possessiva.

— Oh, como é ciumenta! – disse Verena sorrindo. – Deixe-me aproveitar um pouco do seu preferido também.

Com um olhar superior, a gata se afastou e pulou para o parapeito de uma das janelas da cozinha, onde ficou sentada com as costas viradas para eles.

Com um sorriso, Verena observou:

— Olha só! Fazendo desfeita para nós dois!

Milo foi até a janela e acariciou a cabeça da gata e ela miou olhando para Verena e lambendo a mão do seu preferido. Ele é meu, viu? Você pode fazer essas comidas gostosas, mas saiba o seu lugar!

O jovem sorriu e cochichou algo no ouvido do animal. Depois tornou a olhar para a cozinheira que foi logo dizendo o que ele desejava saber mesmo antes que perguntasse.

— O duque já está no solarium, esperando-o para tomar o desjejum.

— Obrigado. – disse Milo, deixando a cozinha.

Ansioso, Milo passou pelo caminho de pedras, até chegar a um recanto ensolarado onde havia um caramanchão. Ensaiava o que iria dizer, mas nada soava bem ou natural. Pela primeira vez na vida, sentia-se inseguro e isso o incomodava de sobremaneira. Merda! Pareço uma virgem após a noite de núpcias! Fica frio, Milo! Aja como um homem! Repetia para si mesmo até ver Camus em pé, parecendo olhar o horizonte ou os jardins que cercavam o lugar.

No momento em que colocou os pés no lugar, o duque se virou e seu rosto estava recém- barbeado, com os olhos rubros brilhando e os cabelos avermelhados soltos. Ele parecia sereno, mas perigosamente viril. Estava vestido com uma elegância displicente, usando calças escuras de montaria e camisa de algodão branca, aberta no pescoço. As mangas haviam sido arregaçadas até os cotovelos, expondo os braços alvos, porém fortes.

— Bom dia. – ele disse naturalmente. – Sente-se bem?

— Eu.. eu...claro! Estou bem e você? – respondeu Milo sem jeito.

— Também. Venha, sente-se aqui e vamos tomar café. Verena fez aqueles pães doces que você gosta.

Milo sentou-se notando que, tanto a atitude, quanto a voz de Camus estavam relaxadas, como se nada fora do comum tivesse acontecido, como se fosse algo normal ter acordado na cama dele e agora estarem tomando café da manhã juntos. Podia seguir com aquele jogo, mas queria saber como ficariam as coisas entre eles e sentia um nó no estômago. Para o inferno se eu parecer uma garota, mas eu tenho que saber!

— Camus, eu... Bem, você me conhece e depois de ontem, mais ainda. Então, eu vou direto ao assunto, como ficam as coisas entre nós?

Mesmo mantendo o verniz civilizado que o caracterizava, Camus deixou transparecer uma satisfação quase primitiva em ver que Milo o queria. Ele encarou os olhos azuis do jovem e levantou-se da cadeira para tocar o rosto dele com a mão fria. Erguendo uma sobrancelha de modo provocador, ele sussurrou junto dos lábios de Milo:

— Como eu disse ontem, antes de fazermos amor, eu não sou covarde...

0000****0000****0000

O clube Golden Dawn parecia uma colmeia em plena atividade. Embora ainda fosse cedo, os homens fumavam e discutiam negócios, enquanto as senhoras bebericavam e contavam as novidades umas para as outras. O fogo havia sido aceso na grande lareira de pedra e logo o delicioso calor espalhou-se pelo ambiente.

Valery conversava com June, que fingia estar interessada nas fofocas, porém apenas esperava que Saga e Kanon terminassem a rodada de carteado e que o final da manhã chegasse logo. Por sua vez, a viscondessa disfarçava e observava a entrada dos cavalheiros. Sabia, por informações fidedignas que o jovem barão frequentava o clube e queria ter uma conversinha com ele.

— Então, minha querida... quando irá fisgar seu amante para um belo casamento?- perguntou ela à June.

Quando as galinhas criarem dentes, vadia! Pensou June, porém sorriu e respondeu:

— Ah, minha cara... Está tão bom assim! Você deve saber como é... Afinal, casou-se bem tarde e aproveitou bastante antes de tornar-se uma senhora.

Rindo, Valery bebeu mais uma taça de champanhe e logo avistou quem desejava.

— Tem razão, minha querida amiga... Agora, se me dá licença, vou cumprimentar um velho amigo. – disse a viscondessa levantando-se da mesa.

— À vontade, minha querida. – respondeu June agradecendo a Deus por livrá-la daquela mulher chata, pedante e enfadonha.

Radamanthys adentrou o salão e Valery posicionou-se de forma que ele a visse e o fitou com um olhar penetrante, indicando de forma discreta uma pequena saleta. O barão aquiesceu e foi até o local indicado. A viscondessa entrou e fechou a porta.

— É um prazer vê-lo aqui, barão. – disse ela estendendo a mão.

O jovem barão pareceu muito à vontade e um brilho de divertimento iluminou seus olhos dourados.

— Creio que prazer é a palavra certa para defini-la, minha senhora.

— É muito perspicaz para alguém tão jovem... – respondeu ela de forma insinuante.

Radamanthys cruzou os braços na altura do peito e a encarou. O olhar penetrante fazendo com que Valery questionasse se podia usá-lo sem consequências para si mesma.

— Diga-me, o que deseja. – disse ele.

— Vi que se interessou por uma jovem que frequenta a minha casa e acho que posso ajudá-lo.

O barão elevou uma sobrancelha, depois sorriu malevolamente.

— E... por que faria essa gentileza?

— Vou ser bem direta, meu caro barão. Desejo esta jovem bem longe de meu marido e do conde Hades. Sou uma mulher experiente e sei que a deseja. O que estou propondo nada mais é que um acordo que beneficiará a nós dois. O que me diz?

Notas finais
****Obrigada a todos que leem, ativa ou passivamente. Adoro quando recebo comentários entusiasmados, adoro saber que, quem não tem tempo de comentar lê, mesmo assim. Fico honrada com as recomendações e quando favoritam. Enfim, só tenho a agradecer o carinho e a atenção manifestada da forma que cada um pode e sabe. Bjs no coração!!!! XD